À luta contra as fake news.

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O termo mais comumente utilizado, fake news, popularizou-se após a eleição de Donald Trump, que hoje costuma rotular assim notícias que lhe contrariam, mesmo que sejam verdadeiras.

Acadêmicos divergem sobre a definição de fake news. Alguns acham que uma notícia precisa ser completamente inventada para ter a denominação. Outros consideram que misturar fatos concretos e conteúdo ficcional já basta. Sou partidário do segundo time. Uma notícia falsa produz um estrago menor do que uma que se ancora em fatos conhecidos. Mais do que a certeza, a dúvida é mais nociva a uma candidatura, pois, quando bem posicionada, corrói o eleitor e joga sobre o candidato uma sombra.

Quando olhamos para a esfera eleitoral, devemos separar os elementos envolvidos na prática da disseminação de boatos. Durante a eleição americana, não foram só os russos a influenciar o debate nas redes sociais, mas também jovens empreendedores da Macedônia. O que os separa? O objetivo final. Os russos provavelmente queriam a eleição de Trump, enquanto os macedônios, apenas lucrar com a publicidade on-line gerada pelo acesso a seus sites.

O que enfrentaremos no Brasil neste ano não é novo. Nas campanhas que fiz, enfrentei ataques diários aos candidatos e partidos. E, em diversas delas, a mentira ocupou espaço na mídia tradicional, com o objetivo claro de asfixiar o debate ideológico, encurralando candidatos, que se veem na obrigação de parar de fazer campanha para se explicarem aos eleitores.

Mas só agora todos concordam que a disseminação de fake news é um problema a ser enfrentado, incluindo a Justiça Eleitoral, a mídia, o meio político e a população. Até então, enxugávamos gelo. O monitoramento identificava o boato, eu alertava o jurídico da campanha para que entrasse com uma ação na Justiça Eleitoral. Se a sorte estivesse do nosso lado, a ação era julgada antes de a eleição acabar. Em boa parte dos casos, as ações sequer eram avaliadas.

Como o nosso Marco Civil da Internet diz que nada pode ser suprimido sem que haja uma decisão judicial, o boato fica na rede, se multiplicando enquanto as horas passam. O ideal é que a Justiça julgue com agilidade crimes em ambiente virtual, dado o seu grande poder de disseminação.

Além da remoção do conteúdo, costumamos pedir às plataformas os dados dos autores do boato. Infelizmente, em pouquíssimos casos conseguimos essas informações. Quando conseguimos a remoção de um endereço, o conteúdo já se espalhou para outros.

O que fazer, então? Os partidos precisam estruturar equipes focadas no combate à guerrilha, com profissionais aptos a treinar militantes partidários e a promover campanhas de rápida resposta aos boatos. Fake news fazem parte de estratégia de guerra midiática e, como tal, vence aquele que se prepara e não menospreza o inimigo.

Artigo publicado na página do jornal O Globo  – disponível na internet 25/05/2018

Nota: O presente artigo não traduz a opinião do ASMETRO-SN. Sua publicação tem o propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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