{"id":100754,"date":"2025-04-09T04:22:09","date_gmt":"2025-04-09T07:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=100754"},"modified":"2025-04-08T19:41:44","modified_gmt":"2025-04-08T22:41:44","slug":"por-que-somos-contra-o-conceito-carreiras-tipicas-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2025\/04\/09\/por-que-somos-contra-o-conceito-carreiras-tipicas-de-estado\/","title":{"rendered":"Por que somos contra o conceito &#8220;Carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p>Uma publica\u00e7\u00e3o recente da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Rep\u00fablica.org, autoproclamada como &#8220;organiza\u00e7\u00e3o social e apartid\u00e1ria que apoia a valoriza\u00e7\u00e3o dos profissionais p\u00fablicos no Brasil&#8221;, buscou retomar a discuss\u00e3o sobre a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221;. Parte do texto advoga que a exist\u00eancia dessas carreiras d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao papel do Estado em \u00e1reas essenciais, de forma a &#8220;propor solu\u00e7\u00f5es para problemas sociais e promover o interesse p\u00fablico&#8221;. Embora reconhe\u00e7a que o conceito promove a concentra\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio e a distor\u00e7\u00e3o remunerat\u00f3ria no servi\u00e7o p\u00fablico, a publica\u00e7\u00e3o se prop\u00f5e a ampliar o debate em torno de sua defini\u00e7\u00e3o legal.&nbsp;<\/p>\n<p>Considerando a influ\u00eancia que essa organiza\u00e7\u00e3o exerce sobre o Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e da Inova\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7os P\u00fablicos, que tem adotado uma s\u00e9rie de pol\u00edticas refrat\u00e1rias \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o sindical classista ao mesmo tempo em que incentiva processos de fragmenta\u00e7\u00e3o, apresentar o posicionamento do movimento sindical sobre o tema \u00e9 essencial, sobretudo para alertar aos atuais e futuros servidores que ingressam no servi\u00e7o p\u00fablico dos enormes riscos que essa defini\u00e7\u00e3o traz \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da categoria e \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade e universais para atender ao conjunto da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora brasileira.&nbsp;<\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221; circula h\u00e1 anos no vocabul\u00e1rio da tecnocracia brasileira como uma esp\u00e9cie de selo dourado reservado a determinadas categorias do servi\u00e7o p\u00fablico. Supostamente, trata-se de carreiras cujas fun\u00e7\u00f5es seriam \u201cexclusivas\u201d do Estado, como auditorias, fiscaliza\u00e7\u00f5es, formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e atividades de regula\u00e7\u00e3o. Mas basta um olhar minimamente cr\u00edtico para perceber que esse conceito \u00e9 um grande embuste pol\u00edtico, jur\u00eddico e funcional.<\/p>\n<p>Primeiro, porque ele naturaliza uma hierarquia artificial entre servidores, criando uma cis\u00e3o entre aqueles que \u201cs\u00e3o o Estado\u201d e os demais, relegados a um papel de coadjuvantes ou auxiliares. Isso aprofunda divis\u00f5es internas, mina a solidariedade de classe no funcionalismo e enfraquece a constru\u00e7\u00e3o de lutas coletivas. A hist\u00f3ria mostra que toda vez que um setor do funcionalismo se deixou seduzir pela promessa de &#8220;distintividade profissional&#8221;, perdeu for\u00e7a para enfrentar os ataques aos direitos mais b\u00e1sicos e, ao final, foi tragado junto pelos mesmos projetos de desmonte.<\/p>\n<p>Segundo, o conceito de &#8220;carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221; n\u00e3o tem defini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica s\u00f3lida e objetiva, e serve mais como instrumento de manobra pol\u00edtica do que como ferramenta de valoriza\u00e7\u00e3o real. \u00c9 um r\u00f3tulo el\u00e1stico, mold\u00e1vel conforme os interesses dos governos de turno e das c\u00fapulas corporativas que se prestam ao jogo. N\u00e3o h\u00e1 coer\u00eancia nem universalidade: o que \u00e9 &#8220;t\u00edpico&#8221; hoje pode deixar de s\u00ea-lo amanh\u00e3, ao sabor da conveni\u00eancia ou da l\u00f3gica do ajuste fiscal.<\/p>\n<p>Terceiro, e mais grave: esse discurso serve de cortina de fuma\u00e7a para projetos de privatiza\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Ao separar &#8220;o n\u00facleo do Estado&#8221; do conjunto do funcionalismo, o conceito abre espa\u00e7o para que tudo o que n\u00e3o for &#8220;t\u00edpico&#8221; seja terceirizado, precarizado ou entregue \u00e0 iniciativa privada. \u00c9 a l\u00f3gica do mercado em a\u00e7\u00e3o: manter uma pequena casta de burocratas bem remunerados, enquanto o grosso do trabalho &#8211; em particular aquele que atende diretamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais pobre; \u00e9 executado por contratos tempor\u00e1rios, OSs, terceiriza\u00e7\u00f5es ou &#8220;parcerias&#8221; com o mercado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_100755\" aria-describedby=\"caption-attachment-100755\" style=\"width: 191px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-100755 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Monica-Machado-Carneiro.jpg?resize=191%2C216\" alt=\"\" width=\"191\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Monica-Machado-Carneiro.jpg?w=191&amp;ssl=1 191w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Monica-Machado-Carneiro.jpg?resize=150%2C170&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 191px) 100vw, 191px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-100755\" class=\"wp-caption-text\">M\u00f4nica Carneiro \u00e9 servidora da Funai e diretora da Secretaria de Imprensa e Comunica\u00e7\u00e3o da Condsef\/Fenadsef<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na pr\u00e1tica, portanto, o fetiche das &#8220;carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221; contribui para a fragmenta\u00e7\u00e3o da luta dos servidores, promove uma ideologia meritocr\u00e1tica e individualista, e serve aos interesses de quem quer desmontar o Estado como espa\u00e7o de pol\u00edticas p\u00fablicas universais. Em vez de fortalecer o servi\u00e7o p\u00fablico, esse discurso o transforma em um castelo de feudos e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>O que precisamos \u00e9 exatamente o oposto: construir unidade na luta pela valoriza\u00e7\u00e3o de todas as carreiras, garantir condi\u00e7\u00f5es de trabalho, reconhecimento funcional e dignidade salarial para quem est\u00e1 na linha de frente das pol\u00edticas p\u00fablicas &#8211; &nbsp;da sa\u00fade \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, da assist\u00eancia social \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas. Todas essas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais. \u00c9 o trabalho coletivo que faz o Estado existir.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe carreira &#8220;t\u00edpica&#8221; em um Estado que se diz democr\u00e1tico. O que existe \u00e9 trabalho p\u00fablico que deve ser reconhecido como tal &#8211; e defendido em bloco, por toda a classe trabalhadora.<\/p>\n<p><b>Cr\u00e9dito: <strong>M\u00f4nica Machado Carneiro \/ <\/strong>Condsef\/Fenadsef &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 9\/4\/2025<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma publica\u00e7\u00e3o recente da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Rep\u00fablica.org, autoproclamada como &#8220;organiza\u00e7\u00e3o social e apartid\u00e1ria que apoia a valoriza\u00e7\u00e3o dos profissionais p\u00fablicos no Brasil&#8221;, buscou retomar a discuss\u00e3o sobre a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;carreiras t\u00edpicas de Estado&#8221;. 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