{"id":10298,"date":"2017-02-06T00:16:35","date_gmt":"2017-02-06T03:16:35","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=10298"},"modified":"2017-02-05T19:05:01","modified_gmt":"2017-02-05T22:05:01","slug":"o-futuro-do-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/02\/06\/o-futuro-do-futuro\/","title":{"rendered":"O futuro do futuro."},"content":{"rendered":"<p>Pelo menos para os que t\u00eam o poder de influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica, o Brasil n\u00e3o presta para nada e n\u00e3o tem futuro algum. Somos um pa\u00eds definitivamente fracassado<\/p>\n<p>Desde adolescente, sempre ouvi dizer que o Brasil era o pa\u00eds do futuro, uma express\u00e3o criada pelo austr\u00edaco Stefan Zweig, um escritor judeu que, fugindo da persegui\u00e7\u00e3o nazista, veio viver por aqui. Ele se suicidou em fevereiro de 1942, \u00e0s v\u00e9speras do carnaval, em Petr\u00f3polis. Pela mesma \u00e9poca, o poeta Paul Claudel, ent\u00e3o diplomata franc\u00eas no Brasil, glosando a ideia de Zweig, afirmou que \u00e9ramos o pa\u00eds do futuro e o ser\u00edamos para sempre. O que Claudel queria dizer \u00e9 que o brasileiro gostava mesmo era da expectativa do futuro, mesmo que ele n\u00e3o lhe chegasse nunca. A esperan\u00e7a era suficiente.<\/p>\n<p>Hoje, vivemos uma atmosfera m\u00edtica oposta. Pelo menos para os que t\u00eam o poder de influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica, o Brasil n\u00e3o presta para nada e n\u00e3o tem futuro algum. Somos um pa\u00eds definitivamente fracassado, condenado \u00e0 rabeira da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, incapazes de tudo. Nossos jornais e redes sociais s\u00e3o feitos desse pessimismo, onde o pa\u00eds \u00e9 quase sempre identificado com o que h\u00e1 de pior nele, seja na economia, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nos costumes, nos espet\u00e1culos, no futebol, onde for. S\u00f3 \u00e9 profundamente brasileiro aquilo que for profundamente ruim.<\/p>\n<p>Chega. N\u00e3o quero mais viver esse flagelo da autoestima, essa satisfa\u00e7\u00e3o com a autocomisera\u00e7\u00e3o, esse sossego da morte em vida. N\u00e3o quero mais rir de mim mesmo, como quem ri de um monstro grotesco imobilizado pela incompet\u00eancia, piada do resto do mundo. N\u00e3o \u00e9 justo que seja assim, n\u00e3o o merecemos. \u00c9 preciso voltar a crer que o futuro tem futuro, mesmo que ainda esteja longe de agora. E quem o constr\u00f3i somos n\u00f3s mesmos. N\u00e3o podemos fazer do mito de nossa insuper\u00e1vel impot\u00eancia a confort\u00e1vel explica\u00e7\u00e3o para nosso fracasso pessoal.<\/p>\n<p>N\u00e3o confundamos esse projeto com a ideia da harmonia universal dos infernos. O senador Renan Calheiros, em seu discurso de despedida da presid\u00eancia do Senado, declarou que \u201cdepois das turbul\u00eancias, \u00e9 hora de um pouso suave para o Brasil\u201d. Assim como o deputado Rodrigo Maia, ao assumir a presid\u00eancia da C\u00e2mara, declarou que \u201ca harmonia \u00e9 a palavra-chave que sintetiza um dos pilares da democracia brasileira\u201d. Nem uma coisa, nem outra. O \u201cpouso suave\u201d do senador e a \u201charmonia\u201d a que se refere o deputado s\u00e3o justamente duas fantasias que convidam \u00e0 ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida, como a pol\u00edtica, \u00e9 o contr\u00e1rio disso \u2014 \u00e9 da crise que o progresso humano se alimenta, \u00e9 da contradi\u00e7\u00e3o que se organiza a s\u00edntese que construir\u00e1 o bem-estar do futuro. O que nos falta n\u00e3o \u00e9 \u201cpouso suave\u201d ou \u201charmonia\u201d, mas o respeito \u00e0 opini\u00e3o do outro que n\u00e3o pensa como n\u00f3s, o direito que o outro tem de existir. \u00c9 esse o verdadeiro pilar de qualquer democracia.<\/p>\n<p>No quadro famoso intitulado \u201cReden\u00e7\u00e3o de Caim\u201d, pintado por Modesto Brocos no s\u00e9culo XIX, uma negra idosa eleva as m\u00e3os aos c\u00e9us, agradecendo a Deus o neto claro que sua filha mesti\u00e7a acaba de ter com um branco pobre, todos presentes na tela. Segundo o cineasta e escritor Jo\u00e3o Carlos Rodrigues, \u201ctrata-se de uma ilustra\u00e7\u00e3o muito bem-sucedida de uma teoria ent\u00e3o vigente, segundo a qual os negros brasileiros desapareceriam em algumas d\u00e9cadas, esmaecidos pela miscigena\u00e7\u00e3o\u201d. Essa teoria do embranquecimento, defendida at\u00e9 por pol\u00edticos e pensadores progressistas de ent\u00e3o, recusava a origem da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, inventando um destino que n\u00e3o tinha nada a ver conosco, nem com a realidade \u00e0 nossa volta.<\/p>\n<p>Somos sempre v\u00edtimas desses \u201csalvacionismos\u201d inventados que nos desviam de n\u00f3s mesmos e que nos fazem, al\u00e9m de observadores injustos de nossa pr\u00f3pria vida, perder tempo e confian\u00e7a na tentativa de constru\u00e7\u00e3o de um futuro imposs\u00edvel. J\u00e1 invejamos a civiliza\u00e7\u00e3o europeia ocidental e, depois, a contemporaneidade anglo-sax\u00e3 da Am\u00e9rica do Norte. Esses projetos acabam por nos produzir um \u201cfatalismo narcisista\u201d, como o nomeou Contardo Calligaris. O que \u00e9 t\u00e3o desejado e ao mesmo tempo t\u00e3o invi\u00e1vel acaba por n\u00e3o merecer que fa\u00e7amos qualquer esfor\u00e7o em outra dire\u00e7\u00e3o alternativa. Merece apenas a autopreda\u00e7\u00e3o moral e material que nossa frustra\u00e7\u00e3o est\u00e1 acostumada a praticar.<\/p>\n<p>Em busca ansiosa por amigos atrav\u00e9s das poucas palavras permitidas pelo smartphone, vivemos hoje a nostalgia de uma modernidade cheia de esperan\u00e7a, substitu\u00edda pelo cinismo da p\u00f3s-modernidade que se ri desse passado. Nossas distopias s\u00e3o hoje formadas pelas ru\u00ednas dessa modernidade perdida. Nosso futuro estar\u00e1 comprometido se n\u00e3o nos conhecermos e n\u00e3o nos aceitarmos como somos e, a partir disso, construirmos uma civiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e original, mais fraterna e mais generosa, em que temos o direito de acreditar.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o carnaval se aproxima inevit\u00e1vel&#8230; Viva a mulata!<\/p>\n<p><em>Cac\u00e1 Diegues \u00e9 cineasta<\/em><\/p>\n<p><strong> <em>Cr\u00e9dito: Artigo <\/em><em>publicado dia 05\/02\/2017 <\/em><em>no caderno Opini\u00e3o do jornal <\/em>O Globo<em> \u00a0\u2013 dispon\u00edvel na web 0<\/em><em>6<\/em><em>\/02\/2017 \u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo menos para os que t\u00eam o poder de influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica, o Brasil n\u00e3o presta para nada e n\u00e3o tem futuro algum. 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