{"id":104479,"date":"2025-10-06T04:15:46","date_gmt":"2025-10-06T07:15:46","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=104479"},"modified":"2025-10-05T10:50:49","modified_gmt":"2025-10-05T13:50:49","slug":"as-desigualdades-no-brasil-atuar-para-reduzir-e-superar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2025\/10\/06\/as-desigualdades-no-brasil-atuar-para-reduzir-e-superar\/","title":{"rendered":"As desigualdades no Brasil: atuar para reduzir e superar"},"content":{"rendered":"<p>As desigualdades no Brasil n\u00e3o s\u00e3o fruto de circunst\u00e2ncias ocasionais ou conjunturais, mas sim de uma heran\u00e7a estrutural e hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Desde a coloniza\u00e7\u00e3o, marcada pela escravid\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e exclus\u00e3o social, consolidou-se um padr\u00e3o de desenvolvimento que distribui renda, riqueza e oportunidades de forma profundamente desigual.<\/p>\n<p>Reduzir e super\u00e1-las requer pol\u00edticas p\u00fablicas ativas e vontade dos governantes e agentes econ\u00f4micos em transformar essa realidade.<\/p>\n<p>Essa matriz hist\u00f3rica econ\u00f4mica e pol\u00edtica explica por que, mesmo em momentos de crescimento econ\u00f4mico, as disparidades persistem entre regi\u00f5es, g\u00eaneros, ra\u00e7as e classes sociais. O mais recente Relat\u00f3rio do Observat\u00f3rio Brasileiro das Desigualdades 2025<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> refor\u00e7a esse car\u00e1ter estrutural ao demonstrar que as desigualdades atravessam todas as dimens\u00f5es da vida social: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, renda, seguran\u00e7a alimentar, seguran\u00e7a p\u00fablica, representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos e condi\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio aponta que 25 dos 43 indicadores monitorados registraram avan\u00e7os no per\u00edodo, sobretudo no mercado de trabalho e no meio ambiente. Houve tamb\u00e9m redu\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o de pobres em 23,4% em 2024, segundo o crit\u00e9rio do Programa Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o positiva na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades<\/strong><\/p>\n<p>Apesar dessa heran\u00e7a, o Brasil tem apresentado avan\u00e7os recentes. Os indicadores de renda, emprego e redu\u00e7\u00e3o da pobreza mostram sinais consistentes de melhora. Em 2024, o rendimento m\u00e9dio real de todas as fontes atingiu R$ 3.066, um crescimento de 2,9% frente a 2023. Houve ainda redu\u00e7\u00e3o da taxa de desocupa\u00e7\u00e3o para 6,6%, queda de 1,2 ponto percentual em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, com destaque para as mulheres (de 9,5% para 8,1%) e para a popula\u00e7\u00e3o negra (de 9,1% para 7,6%). O mercado de trabalho foi um dos setores de maior destaque no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O melhor desempenho ocorreu entre mulheres negras, que registraram aumento de 5,2% nos rendimentos, superando a m\u00e9dia nacional e at\u00e9 mesmo os homens n\u00e3o negros (+3%). Esse avan\u00e7o, contudo, n\u00e3o eliminou as diferen\u00e7as: o rendimento m\u00e9dio das mulheres negras foi de R$ 2.008, apenas 43% do rendimento dos homens n\u00e3o negros (R$ 4.636).<\/p>\n<p>Ou seja, os indicadores apontam uma melhora generalizada, mas com desigualdades estruturais persistindo entre g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u00canfase no recorte de g\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que as mulheres ainda recebem, em m\u00e9dia, apenas 73% do rendimento masculino. Embora tenham avan\u00e7ado em escolaridade e participa\u00e7\u00e3o no ensino superior, as desigualdades de g\u00eanero continuam presentes em todas as esferas.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m revelam contradi\u00e7\u00f5es preocupantes como, por exemplo, enquanto a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o caiu para as mulheres, as viol\u00eancias contra elas cresceram. Em 2024, foram registrados 1.492 feminic\u00eddios, contra 1.350 em 2020.<br \/>\nJ\u00e1 a maternidade precoce afeta mais as jovens negras: em 2023, 13,8% dos nascidos vivos eram de m\u00e3es adolescentes negras, contra 7,9% das n\u00e3o negras.<\/p>\n<p>Esse quadro confirma que pol\u00edticas espec\u00edficas de equidade de g\u00eanero s\u00e3o essenciais, tanto no campo do trabalho e da renda, quanto no enfrentamento da viol\u00eancia e da exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>O Brasil saiu do Mapa da Fome<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que houve melhora nos indicadores de seguran\u00e7a alimentar. Embora persistam desigualdades regionais, como no Norte, onde 17,4% da popula\u00e7\u00e3o ainda vive em inseguran\u00e7a alimentar grave, os avan\u00e7os recentes permitiram ao pa\u00eds sair novamente do Mapa da Fome da ONU.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da desnutri\u00e7\u00e3o infantil, a amplia\u00e7\u00e3o da renda das fam\u00edlias e a reativa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar, como o Bolsa Fam\u00edlia, foram fatores decisivos. Esse resultado confirma que a fome \u00e9 um fen\u00f4meno pol\u00edtico e econ\u00f4mico \u2014 n\u00e3o inevit\u00e1vel \u2014 e pode ser superado por meio de escolhas p\u00fablicas adequadas.<\/p>\n<p><strong>O papel essencial das pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/p>\n<p>Os avan\u00e7os registrados pelo relat\u00f3rio n\u00e3o ocorreram por acaso. Eles foram resultado direto de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturadas, tais como, a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, com impacto na base da pir\u00e2mide salarial; o Programas de transfer\u00eancia de renda (Bolsa Fam\u00edlia), respons\u00e1veis pela redu\u00e7\u00e3o da pobreza; a expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e superior, com destaque para a Lei de Cotas e pol\u00edticas de perman\u00eancia; pol\u00edticas ambientais, que reduziram o desmatamento em 41,3% entre 2022 e 2024, entre tantas outras. Sem pol\u00edticas de Estado consistentes, a desigualdade tende a se perpetuar.<\/p>\n<p><strong>O papel essencial do crescimento econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p>O crescimento econ\u00f4mico recente foi decisivo para viabilizar esses resultados. A retomada da atividade, somada ao investimento p\u00fablico e privado, criou condi\u00e7\u00f5es para a gera\u00e7\u00e3o de empregos e aumento de renda. A combina\u00e7\u00e3o entre crescimento e pol\u00edticas redistributivas mostra-se fundamental: crescimento sem distribui\u00e7\u00e3o amplia desigualdades, enquanto pol\u00edticas sociais sem dinamismo econ\u00f4mico tornam-se insustent\u00e1veis. O equil\u00edbrio entre essas dimens\u00f5es \u00e9 a chave para avan\u00e7ar no combate \u00e0s desigualdades.<\/p>\n<p><strong>Inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, emerg\u00eancia clim\u00e1tica e redu\u00e7\u00e3o das desigualdades<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio traz informa\u00e7\u00f5es que destacam o papel das transforma\u00e7\u00f5es globais, como a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, na medida em que a digitaliza\u00e7\u00e3o e a automa\u00e7\u00e3o podem gerar novos empregos e ganhos de produtividade, mas tamb\u00e9m riscos de desemprego e de exclus\u00e3o. O desafio, neste caso, \u00e9 assegurar pol\u00edticas de qualifica\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o digital para combater a amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p>Outro destaque \u00e9 a emerg\u00eancia clim\u00e1tica: embora o Brasil tenha reduzido o desmatamento e as emiss\u00f5es de CO\u2082, as popula\u00e7\u00f5es mais pobres e vulner\u00e1veis continuam sendo as mais afetadas por enchentes, secas e desastres ambientais.<\/p>\n<p>Se enfrentados com vis\u00e3o estrat\u00e9gica, esses dois fatores podem se converter em motores de desenvolvimento inclusivo: a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e digital pode ser aliada de uma nova trajet\u00f3ria de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e regionais.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_82684\" aria-describedby=\"caption-attachment-82684\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-82684 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=300%2C188\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=300%2C188&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=1024%2C640&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=768%2C480&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=1536%2C960&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=696%2C435&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=1392%2C870&amp;ssl=1 1392w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=1068%2C668&amp;ssl=1 1068w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=672%2C420&amp;ssl=1 672w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?resize=1344%2C840&amp;ssl=1 1344w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Clemente-Ganz-Lucio.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82684\" class=\"wp-caption-text\">Clemente Ganz L\u00facio &#8211; Soci\u00f3logo, coordenador do F\u00f3rum das Centrais Sindicais, membro do CDESS \u2013 Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, consultor e ex-diretor t\u00e9cnico do DIEESE (2004\/2020).<\/figcaption><\/figure>\n<p>O Brasil segue marcado por desigualdades estruturais, hist\u00f3ricas e persistentes. Contudo, o Relat\u00f3rio do Observat\u00f3rio Brasileiro das Desigualdades 2025 demonstra que \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar: a redu\u00e7\u00e3o da desocupa\u00e7\u00e3o, o aumento da renda, a melhora para mulheres negras no mercado de trabalho, a sa\u00edda do Mapa da Fome e a redu\u00e7\u00e3o da pobreza comprovam que pol\u00edticas p\u00fablicas combinadas com crescimento econ\u00f4mico podem alterar o quadro de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O futuro, no entanto, depender\u00e1 da capacidade do pa\u00eds de manter pol\u00edticas de Estado consistentes, a sustenta\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio e longo prazo do crescimento com inclus\u00e3o e da transforma\u00e7\u00e3o dos desafios tecnol\u00f3gicos e clim\u00e1ticos em oportunidades de desenvolvimento socioambiental.<\/p>\n<p>O combate \u00e0s desigualdades \u00e9, portanto, n\u00e3o apenas uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social, mas o eixo estruturante para a constru\u00e7\u00e3o de um Brasil pr\u00f3spero, democr\u00e1tico e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rio na \u00edntegra :<span style=\"color: #0000ff;\"><strong><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"http:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/RELATORIO_2025_AF-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">RELATORIO_2025_AF (1)<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Clemente Ganz L\u00facio 6\/10\/2025<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As desigualdades no Brasil n\u00e3o s\u00e3o fruto de circunst\u00e2ncias ocasionais ou conjunturais, mas sim de uma heran\u00e7a estrutural e hist\u00f3rica. 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