{"id":106978,"date":"2026-01-10T04:20:39","date_gmt":"2026-01-10T07:20:39","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=106978"},"modified":"2026-01-10T05:55:51","modified_gmt":"2026-01-10T08:55:51","slug":"os-negacionistas-da-divida-publica-brasileira-desconhecem-sua-engrenagem-oculta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2026\/01\/10\/os-negacionistas-da-divida-publica-brasileira-desconhecem-sua-engrenagem-oculta\/","title":{"rendered":"Os negacionistas da d\u00edvida p\u00fablica brasileira desconhecem sua engrenagem oculta"},"content":{"rendered":"<p>Estudo a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira desde minha tese defendida em 2005. J\u00e1 ouvi de algumas pessoas que se consideram de esquerda que \u201cn\u00e3o h\u00e1 necessidade de se auditar a d\u00edvida p\u00fablica interna porque todos os dados sobre ela s\u00e3o sempre publicados com transpar\u00eancia pelo Banco Central do Brasil.\u201d Por\u00e9m, o Banco Central n\u00e3o tem publicado todos os dados e com a devida transpar\u00eancia. Estamos sob a hegemonia do poder econ\u00f4mico-financeiro, em um Estado capturado por um processo de financeiriza\u00e7\u00e3o usur\u00e1ria e subordinada \u00e0s finan\u00e7as internacionais e, ainda, sob hegemonia do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Esse Estado burgu\u00eas-capitalista n\u00e3o tem atuado com a necess\u00e1ria transpar\u00eancia possibilitando informa\u00e7\u00f5es completas a todos os seus cidad\u00e3os interessados.<\/p>\n<p>Por exemplo, onde est\u00e3o os nomes dos grandes rentistas? Por que, no Brasil, o controle da infla\u00e7\u00e3o exige taxas de juros reais an\u00f4malas, pois muito acima dos padr\u00f5es internacionais, se pa\u00edses com menor grau de desenvolvimento econ\u00f4mico e financeiro possuem taxas menores de infla\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da auditoria reside tamb\u00e9m no impacto conscientizador da popula\u00e7\u00e3o leiga no tema que lhe afeta o cotidiano e sua vida econ\u00f4mica, mas que desconhece os processos institucionais internos e os verdadeiros objetivos da gest\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria no Brasil.<\/p>\n<p>O argumento de que a auditoria da d\u00edvida provocaria aumento das taxas de juros n\u00e3o se sustenta, pois h\u00e1 sempre a possibilidade de o Banco Central agir, seja emitindo moeda, seja desfazendo de grande parte das chamadas \u201copera\u00e7\u00f5es compromissadas\u201d, e at\u00e9 reativando controles de capitais para evitar a sa\u00edda de d\u00f3lares do pa\u00eds. Para isso que tamb\u00e9m serve uma pol\u00edtica monet\u00e1ria expansionista, que tenderia a reduzir as taxas usur\u00e1rias de juros praticadas pelos grandes bancos.<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 emitida apenas para controle de liquidez atrav\u00e9s do mercado aberto, como propagam alguns cr\u00edticos da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida (ACD). Ela est\u00e1 por tr\u00e1s da plataforma de revaloriza\u00e7\u00e3o rentista-financeira em que o sistema banc\u00e1rio-financeiro privado se converteu a partir da estabiliza\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o com o Plano Real.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do impacto pol\u00edtico positivo e conscientizador possibilitado pela auditoria da d\u00edvida, essa importante ferramenta seria capaz de mostrar como a emiss\u00e3o de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica interna brasileira se tornou um eficiente mecanismo de captura do Estado nacional, em conformidade com a l\u00f3gica da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>A posse de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica permite \u00e0s elites rentistas e propriet\u00e1rias de bancos controlar a pol\u00edtica fiscal e monet\u00e1ria, o que reduz drasticamente a autonomia do Estado para implementar pol\u00edticas econ\u00f4micas contrac\u00edclicas e de desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Por outro lado, se toda d\u00edvida \u00e9 pass\u00edvel de auditoria, por que raz\u00e3o a d\u00edvida p\u00fablica brasileira n\u00e3o o seria? Ser contra a auditoria \u00e9, por si s\u00f3, assumir uma postura tendenciosa. E do meu ponto de vista como economista e estudioso da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira h\u00e1 mais de 20 anos, considero lament\u00e1veis as posturas daqueles que negam a pertin\u00eancia dos trabalhos da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida (ACD), pois estes trabalhos seriam capazes de expor ao povo brasileiro o significado do endividamento p\u00fablico interno capitalizado e reproduzido com base na maior taxa real de juros do mundo.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o os argumentos que se op\u00f5em aos trabalhos da ACD, e nenhum deles at\u00e9 agora me convence. Em geral, os argumentos contr\u00e1rios \u00e0 auditoria s\u00e3o fr\u00e1geis e repetitivos. Para n\u00e3o dizer at\u00e9 enfadonhos e errados. N\u00e3o reconhecem que a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia de uma auditoria da d\u00edvida p\u00fablica \u00e9, em si mesma, uma posi\u00e7\u00e3o j\u00e1 tendenciosa. As elites rentistas e propriet\u00e1rias de bancos agradecem a esses negacionistas que terminam convertendo a auditoria da d\u00edvida p\u00fablica num tabu, numa esp\u00e9cie de sacril\u00e9gio contra um Banco Central considerado neutro e aut\u00f4nomo, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o ao governo eleito, mas sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos grandes bancos privados e investidores financeiros cuja influ\u00eancia sobre essa institui\u00e7\u00e3o governamental est\u00e1 longe de ser pequena.<\/p>\n<p>Alguns cr\u00edticos da ACD dizem que \u201ca auditoria j\u00e1 \u00e9 feita com frequ\u00eancia\u201d. Essa \u00e9 outra forma de expressar ignor\u00e2ncia. A auditoria realizada pelo TCU n\u00e3o \u00e9 completa, ela n\u00e3o atinge todos os aspectos do processo de produ\u00e7\u00e3o de d\u00edvida p\u00fablica como principal eixo da acumula\u00e7\u00e3o rentista-financeira no Brasil. De um modo geral, os economistas precisariam estudar mais contabilidade p\u00fablica e financeira, que n\u00e3o dominam. E os n\u00e3o economistas estudarem mais a fundo as raz\u00f5es para as exorbitantes taxas de juros reais em nosso pa\u00eds, al\u00e9m do significado da financeiriza\u00e7\u00e3o usur\u00e1ria da economia brasileira.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de que o governo n\u00e3o precisa arrecadar para gastar (argumento correto que encontra fundamento te\u00f3rico numa abordagem keynesiana e de&nbsp;<em>Modern Monetary Theory \u2013 MMT<\/em>&nbsp;das finan\u00e7as p\u00fablicas)<a href=\"https:\/\/www.extraclasse.org.br\/opiniao\/2025\/12\/os-negacionistas-da-divida-publica-brasileira-desconhecem-sua-engrenagem-oculta\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;e, por isso, n\u00e3o haveria necessidade de se auditar a d\u00edvida p\u00fablica interna, seria pertinente somente caso a d\u00edvida p\u00fablica interna brasileira cumprisse, de fato, suas duas fun\u00e7\u00f5es primordiais: (1) a gest\u00e3o da liquidez da economia, e (2) o financiamento do investimento do governo.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, o&nbsp;TCU&nbsp;j\u00e1 comprovou que a d\u00edvida interna federal n\u00e3o tem nenhuma contrapartida em investimentos no pa\u00eds. &nbsp;Como se n\u00e3o bastasse, o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o igualmente sacralizado por economistas ortodoxos e neoliberais \u00e9 ineficiente no combate ao tipo de infla\u00e7\u00e3o de custos que caracteriza um pa\u00eds ainda em desenvolvimento. Juros constituem custo financeiro para empresas de todos os setores da economia e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o te\u00f3rica nem emp\u00edrica para supor que pre\u00e7os deixariam de aumentar quando os custos financeiros de produ\u00e7\u00e3o subissem por aumentos da taxa Selic. A economia brasileira \u00e9 muito internacionalizada e oligopolizada inclusive em seu setor banc\u00e1rio-financeiro. Este \u00faltimo responde por mais de 80% de toda oferta de cr\u00e9dito. Isso significa que aumentos da Selic provocam o que os economistas chamam de&nbsp;<em>externalidades negativas<\/em>, ou seja, efeitos colaterais delet\u00e9rios sobre os demais setores de atividade econ\u00f4mica, especialmente os setores produtivos que precisam vender para continuarem operando com lucro. Basta observar a situa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o civil, praticamente estagnadas, pois quase sempre crescendo a taxas muito pequenas devido a um ambiente macroecon\u00f4mico muito mais favor\u00e1vel \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es financeiras e ao setor exportador de commodities, cuja demanda \u00e9 externa. S\u00e3o esses os dois setores que mais ganham com o atual modelo econ\u00f4mico brasileiro que, por qualquer \u00e2ngulo que se observe, n\u00e3o pode ser considerado um modelo aut\u00eantico de desenvolvimento social e econ\u00f4mico para o Brasil.<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica interna tornou-se essencialmente um instrumento de acumula\u00e7\u00e3o rentista com taxas de juros an\u00f4malas para transferir recursos do or\u00e7amento p\u00fablico para as elites rentistas e propriet\u00e1rias dos grandes bancos.&nbsp; Com esse objetivo rentista, o endividamento p\u00fablico interno brasileiro tem mantido a liquidez da economia muito baixa, o que encarece o cr\u00e9dito para consumo e para investimento produtivo (forma\u00e7\u00e3o bruta de capital fixo, isto \u00e9, m\u00e1quinas, equipamentos, instala\u00e7\u00f5es e infraestruturas). Trata-se, portanto, de uma d\u00edvida estritamente financeira com objetivos de reproduzir a acumula\u00e7\u00e3o rentista obstaculizando o desenvolvimento brasileiro. A popula\u00e7\u00e3o precisa ter consci\u00eancia disso e a auditoria da d\u00edvida certamente contribuiria para revelar e denunciar esse processo.<\/p>\n<p>Mas outro argumento a considerar sobre a resist\u00eancia e as cr\u00edticas a\u00e7odadas aos trabalhos da ACD refere-se ao status dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica brasileira como riqueza financeira das elites rentistas e propriet\u00e1rias de bancos e demais empresas financeiras. H\u00e1 economistas que temem a auditoria porque alegam que isso iria provocar uma venda maci\u00e7a de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica interna resultando em sua desvaloriza\u00e7\u00e3o. E reduzindo o valor desses ativos de propriedade dos ricos, levaria a uma perda de capital e \u00e0 sa\u00edda de d\u00f3lares do pa\u00eds com impactos inflacion\u00e1rias. Ao ser aprovada a auditoria, esses investidores (rentistas) incluindo os fundos de investimentos, os investidores institucionais, se apressariam para vender seus t\u00edtulos, comprar d\u00f3lares e sair do pa\u00eds, antes mesmo que ela fosse conclu\u00edda.<\/p>\n<p>O que dizer dessa quest\u00e3o? Isso pode acontecer, porque o grau de liberaliza\u00e7\u00e3o financeira da economia brasileira \u00e9 inusitado, pois profundo e inadequado \u00e0s necessidades do setor produtivo. Desde os anos 1990, especialmente ap\u00f3s o Plano Real, esse grau profundo de abertura financeira aos capitais especulativos transformou o Brasil numa cobi\u00e7ada plataforma de revaloriza\u00e7\u00e3o rentista-financeira. E isso tem provocado o crescimento da d\u00edvida p\u00fablica interna pela pol\u00edtica de esteriliza\u00e7\u00e1o de divisas que se acumulam pela forte entrada de d\u00f3lares atra\u00eddos pela Selic mantida em n\u00edveis reais exorbitantes. Mas tamb\u00e9m porque a racionalidade econ\u00f4mica do regime de metas de infla\u00e7\u00e3o utitiza os aumentos da Selic para manter a taxa de c\u00e2mbio em n\u00edveis que estabilizem a infla\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m porque os grandes d\u00e9ficits no Balan\u00e7o de Pagamentos em Transa\u00e7\u00f5es Correntes s\u00e3o frequentes numa economia que se desindustrializa e se reprimariza aceleradamente.<\/p>\n<p>No entanto, um governo verdadeiramente comprometido com o desenvolvimento socioecon\u00f4mico brasileiro e disposto a enfrentar o poder da alta finan\u00e7a usur\u00e1ria nacional e estrangeira, pode rever esse grau de abertura financeira que reduz a autonomia da pol\u00edtica fiscal e monet\u00e1ria, impedindo-as de serem mobilizadas para um projeto nacional de desenvolvimento. Al\u00e9m disso, a\u00e7\u00f5es emergenciais de curto prazo, para evitar a fuga de capitais, podem recorrer a cinco medidas para contornar essa situa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o elas:<\/p>\n<ol>\n<li>Emiss\u00e3o de novos t\u00edtulos id\u00f4neos, ou seja, n\u00e3o representativos, direta ou indiretamente, de d\u00edvidas j\u00e1 vencidas ou inexistentes;<\/li>\n<li>Adotar controles de capital para evitar ou reduzir a sa\u00edda de recursos do pa\u00eds, como aumentar impostos sobre remessas de lucro, juros e dividendos ao exterior e premiando com menor tributa\u00e7\u00e3o os capitais que se destinem a investimentos diretos produtivos;<\/li>\n<\/ol>\n<ul>\n<li>Tributar a sa\u00edda de capitais especulativos de curto prazo, como investimentos em carteira, que entram no Brasil somente para receber os enormes fluxos de juros reais pagos em dia e sem teto pelo governo e que n\u00e3o encontram essa sinecura em nenhuma outra parte do mundo. Afinal, foi para isso que tanto a Lei de Responsabilidade Fiscal quanto o Arcabou\u00e7o Fiscal do atual governo Lula3 deixaram, deliberadamente de fora de qualquer teto, os gastos com juros da d\u00edvida p\u00fablica interna brasileira.<\/li>\n<\/ul>\n<ol>\n<li>Buscar o apoio do setor produtivo prejudicado por operar num ambiente econ\u00f4mico de taxas de juros reais an\u00f4malas, pois usur\u00e1rias que, continuamente, amea\u00e7am suas empresas. Estas possuem menor liquidez de seus ativos, j\u00e1 que precisam imobilizar capital em m\u00e1quinas, equipamentos e demais infraestruturas produtivas para o desenvolvimento de suas atividades-fim e receitas operacionais. Muito diferente do que ocorre com bancos e empresas financeiras que operam com pap\u00e9is, com ativos intang\u00edveis e digitais. A deten\u00e7\u00e3o desse tipo de ativo tem custo praticamente insignificante, quando comparado aos ativos fixos de uma empresa do setor produtivo. Representam na pr\u00e1tica apenas direitos de propriedade sobre a riqueza concreta da sociedade em bens e servi\u00e7os fundamentais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia etc., mas n\u00e3o a riqueza em si. Trata-se segundo Harribey (2000)[2]&nbsp;de um&nbsp;<em>valor captado<\/em>, antes que um valor novo agregado. Nesse sentido, as receitas do setor banc\u00e1rio-financeiro correspondem \u00e0 drenagem do valor adicionado total produzido pelas atividades diretamente produtivas.[3]&nbsp;E \u00e9 por esta raz\u00e3o que quando pesam significativamente sobre as receitas operacionais do setor produtivo, acabam bloqueando o crescimento econ\u00f4mico, a maior gera\u00e7\u00e3o de emprego e em seguida a pr\u00f3pria receita fiscal de um governo que busca, numa perspectiva te\u00f3rica equivocada, pois pr\u00e9-keynesiana, super\u00e1vits fiscais prim\u00e1rios permanentes ou d\u00e9ficits zero.<\/li>\n<li>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, mobilizar o apoio da popula\u00e7\u00e3o leiga no tema e que desconhece esse ardil do endividamento p\u00fabico interno improdutivo, pois sua exist\u00eancia n\u00e3o reflete o padr\u00e3o normal de controle de liquidez da economia e muito menos um endividamento produtivo voltado para o financiamento do investimento p\u00fablico e das demais despesas prim\u00e1rias do governo. Se tal fosse o caso, a base de arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria aumentaria pela expans\u00e3o dos investimentos produtivos, gerando mais crescimento econ\u00f4mico e emprego, e fazendo diminuir a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida p\u00fablica interna\/PIB sem os efeitos concentradores de renda e riqueza provocados por pol\u00edticas monet\u00e1ria restritivas e de austeridade fiscal.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Como a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira \u00e9 predominantemente baseada na renda de juros reais extremamente elevados, pois o estoque da d\u00edvida interna l\u00edquida do setor p\u00fablico representa mais de 60% do estoque total de ativos financeiros n\u00e3o-monet\u00e1rios, talvez essa seja a origem da maior resist\u00eancia \u00e0 ACD. Observe-se que tanto o mercado financeiro quanto os economistas de bancos assumem uma postura amb\u00edgua com rela\u00e7\u00e3o ao crescimento da d\u00edvida p\u00fablica interna brasileira. Ao mesmo tempo em que demonizam um ativo que lhes proporciona ganhos f\u00e1ceis e enormes pela transfer\u00eancia incessante de recursos p\u00fablicos atrav\u00e9s da mera deten\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos que a representam, falam em risco fiscal e em explos\u00e3o da d\u00edvida. E a vulgata midi\u00e1tica repercute rotineiramente essa fal\u00e1cia para for\u00e7ar o governo a manter a austeridade, os juros estratosf\u00e9ricos e facilitar as reformas institucionais que somente interessam ao mercado e ao setor privado. Mas o endividamento p\u00fablico interno processa-se na pr\u00f3pria moeda que o Estado brasileiro emite e cujo risco de&nbsp;<em>defaut<\/em>&nbsp;\u00e9, na pr\u00e1tica, zero.<a href=\"https:\/\/www.extraclasse.org.br\/opiniao\/2025\/12\/os-negacionistas-da-divida-publica-brasileira-desconhecem-sua-engrenagem-oculta\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a>&nbsp;Consequentemente, a d\u00edvida p\u00fablica mant\u00e9m-se, preponderantemente, como estoque de riqueza financeira<\/p>\n<p>Por fim, soa como muito estranho que haja um verdadeiro cerco de alguns marxistas, heterodoxos, keynesianos e vertentes que se autodenominam de esquerda se posicionando contra os trabalhos da ACD. Essa resist\u00eancia e oposi\u00e7\u00e3o deveriam ser esperadas por parte da direita que se beneficia de uma d\u00edvida cujo car\u00e1ter \u00e9 essencialmente financeiro e sem nenhuma contrapartida com o capital produtivo de nosso pa\u00eds, a n\u00e3o ser para mant\u00ea-lo em n\u00edveis reduzidos e muito aqu\u00e9m das necessidades do desenvolvimento brasileiro.<\/p>\n<p>A auditoria pode e deve ser realizada em prol n\u00e3o apenas do setor produtivo, mas do Brasil e de seu explorado povo. A despeito de temores quanto a ataques especulativos, fuga de capitais ou alta da infla\u00e7\u00e3o, suas consequ\u00eancias positivas ser\u00e3o enormes, sobretudo porque se trata de um passo fundamental para desfinanceirizar nossa economia e reposicion\u00e1-la, de fato, nos trilhos do desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p>[1]Para a MMT, como os Estados nacionais t\u00eam o monop\u00f3lio da emiss\u00e3o da moeda e da tributa\u00e7\u00e3o, as finan\u00e7as p\u00fablicas n\u00e3o possuem as mesmas restri\u00e7\u00f5es que as finan\u00e7as privadas de fam\u00edlias e de empresas. Baseada no&nbsp;<em>princ\u00edpio da demanda efetiva<\/em>&nbsp;enunciado tanto por Keynes quanto por Kalecki, para a MMT s\u00e3o os gastos que determinam a renda e o produto total (PIB) de uma economia. Afinal, toda despesa necessariamente gera uma receita de igual montante. Deveria ser uma obviedade o fato de que governos n\u00e3o possam arrecadar antes de ter emitido moeda e promovido n\u00e3o apenas seus pr\u00f3prios gastos, mas os gastos privados de fam\u00edlias e de empresas. Afinal, o Estado \u00e9 o \u00fanico agente econ\u00f4mico cujos gastos geram receitas para si mesmo, atrav\u00e9s tanto de impostos indiretos quanto diretos sobre a renda. Entretanto, trata-se dos gastos prim\u00e1rios e n\u00e3o dos gastos com juros o mais importante para dinamizar as atividades econ\u00f4micas e gerar crescimento econ\u00f4mico e emprego. Isso porque os primeiros geram maior demanda por bens e servi\u00e7os enquanto os segundos s\u00e3o receitas das classes ricas que acabam acumulando a renda de juros que recebem, mantendo-a no circuito da revaloriza\u00e7\u00e3o rentista, e em grande parte desconectada tanto do investimento produtivo quanto do consumo agregado.<\/p>\n<p><em>[2]&nbsp;HARRIBEY, J-M. (2000). La financiarisation de l\u2019\u00e9conomie et la cr\u00e9ation de valeur. Document de travail. n. 45. Centre d\u2019\u00e9conomie du d\u00e9veloppement, Universit\u00e9 Montesquieu-Bordeaux IV \u2013 France.<\/em><\/p>\n<p><em>[3]&nbsp;No c\u00e1lculo do valor \u201ccriado\u201d pelo setor banc\u00e1rio-financeiro utiliza-se a metodologia do System of &nbsp;National Accounts da ONU, manual que padroniza a elabora\u00e7\u00e3o das contas nacionais para o c\u00e1lculo do PIB em todos os pa\u00edses do mundo. O IBGE \u00e9 obrigado a seguir essa metodologia denominada de servi\u00e7os de intermedia\u00e7\u00e3o financeira indiretamente medidos \u2013 SIFIM que resulta da diferen\u00e7a entre os fluxos de juros recebidos e pagos pelo setor banc\u00e1rio-financeiro. Em seguida, basta acrescentar-se as receitas mercantis provenientes da cobran\u00e7a de tarifas banc\u00e1rias, para se chegar ao valor adicionado, na realidade, captado por este setor. N\u00e3o \u00e0 toa, autores marxistas denominam esse tipo de finan\u00e7a de finan\u00e7as parasit\u00e1rias, pois sem efetivamente criar valor novo, vivem da capta\u00e7\u00e3o de valor gerado pelas atividades diretamente produtivas.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.extraclasse.org.br\/opiniao\/2025\/12\/os-negacionistas-da-divida-publica-brasileira-desconhecem-sua-engrenagem-oculta\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a>&nbsp;Segundo o economista Olivier Blanchard, em seu cap\u00edtulo 4 sobre mercados financeiros, de seu livro Macroeconomia, edi\u00e7\u00e3o brasileira de 2017, os bancos nos EUA preferem emprestar para o governo e n\u00e3o para fam\u00edlias e empresas. Isso porque o risco de cr\u00e9dito \u00e9 significativamente menor e isso num pa\u00eds de taxas de juros muito menores que as vigentes no Brasil. Consequentemente, na economia brasileira, essa prefer\u00eancia atinge o seu paroxismo, impedindo o pa\u00eds de ter um verdadeiro modelo econ\u00f4mico para o seu desenvolvimento.<\/em><\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito<\/strong>: <em><strong>Miguel Bruno<\/strong> <strong>\/ Extra Classe na p\u00e1gina da Condsef &#8211; @ dispon\u00edvel na internet 10\/1\/2-25<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-106979 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/miquel-bruno.jpg?resize=284%2C177\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"177\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/miquel-bruno.jpg?w=284&amp;ssl=1 284w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/miquel-bruno.jpg?resize=150%2C93&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><strong>Miguel Bruno<\/strong>\u00e9 Dr. em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela EHESS-Paris e pelo IE-UFRJ, ENCE-IBGE e FCE-UERJ e escreve como interino de&nbsp;Maria Lucia Fattorelli&nbsp;, que \u00e9 coordenadora Nacional da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida, membro da Comiss\u00e3o Brasileira Justi\u00e7a e Paz da CNBB (CBJP). Escreve mensalmente para o&nbsp;Extra Classe.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira desde minha tese defendida em 2005. J\u00e1 ouvi de algumas pessoas que se consideram de esquerda que \u201cn\u00e3o h\u00e1 necessidade de se auditar a d\u00edvida p\u00fablica interna porque todos os dados sobre ela s\u00e3o sempre publicados com transpar\u00eancia pelo Banco Central do Brasil.\u201d Por\u00e9m, o Banco Central n\u00e3o tem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":92783,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":{"0":"post-106978","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/divida-publica-2.gif?fit=792%2C780&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=106978"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":106980,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106978\/revisions\/106980"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=106978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=106978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=106978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}