{"id":108038,"date":"2026-02-26T04:25:47","date_gmt":"2026-02-26T07:25:47","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=108038"},"modified":"2026-02-25T18:41:01","modified_gmt":"2026-02-25T21:41:01","slug":"por-que-santa-catarina-se-tornou-um-ima-para-migrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2026\/02\/26\/por-que-santa-catarina-se-tornou-um-ima-para-migrantes\/","title":{"rendered":"Por que Santa Catarina se tornou um \u00edm\u00e3 para migrantes?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Oportunidades de emprego e expectativa de ascens\u00e3o social s\u00e3o algumas raz\u00f5es para o estado ter registrado o maior saldo migrat\u00f3rio do pa\u00eds, superando S\u00e3o Paulo .<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas dias e meio de viagem desde o Maranh\u00e3o, Lu\u00eds Carlos Gomes Pereira, a esposa, o filho e a cachorrinha chegaram \u00e0 rodovi\u00e1ria de&nbsp;Florian\u00f3polis (SC)&nbsp;na madrugada de 9 de fevereiro.<\/p>\n<p>Desembarcaram mochilas, vasilhas, televis\u00e3o e m\u00e1quina de lavar. A fam\u00edlia ainda viajaria mais algumas horas at\u00e9 Crici\u00fama. &#8220;A gente veio atr\u00e1s de um sal\u00e1rio melhor. Vamos experimentar uma nova vida&#8221;, disse Pereira.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a da fam\u00edlia maranhense para Santa Catarina reflete um movimento captado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). O Censo Demogr\u00e1fico 2022 mostrou que o estado registrou o maior&nbsp;saldo migrat\u00f3rio&nbsp;entre as unidades da federa\u00e7\u00e3o entre 2017 e 2022: 354,3 mil pessoas. Nesse per\u00edodo, 503,5 mil chegaram ao territ\u00f3rio catarinense, enquanto 149,2 mil partiram.<label><\/label><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo&nbsp;recebeu o maior n\u00famero de migrantes: 736,3 mil. No entanto, tamb\u00e9m foi o estado que mais perdeu moradores: 825,9, resultando em um saldo migrat\u00f3rio negativo de 89,5 mil pessoas. O fen\u00f4meno representa uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica, segundo o IBGE, porque o territ\u00f3rio paulista liderava o quesito desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica, em 1991.<\/p>\n<p>O processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ajuda a explicar o saldo negativo paulista, analisou Elson Manoel Pereira, professor e pesquisador de Planejamento Urbano da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). &#8220;Passou da ordem de 20 e tantos por cento de industrializa\u00e7\u00e3o para quase 10%. Isso diminui a atra\u00e7\u00e3o desses grandes centros, que antigamente eram mais industrializados.&#8221;<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 fatores de atra\u00e7\u00e3o em Santa Catarina, conforme Lauro Mattei, professor e pesquisador de Economia da UFSC. &#8220;O primeiro ponto, sem d\u00favida nenhuma, \u00e9 o mercado de trabalho, que h\u00e1 anos tem a menor taxa de desemprego do Brasil. O segundo \u00e9 que, em fun\u00e7\u00e3o disso, o estado tem a maior formalidade do mercado de trabalho. Ou, em outras palavras, a menor taxa de informalidade. Em terceiro lugar, \u00e9 o estado com o maior sal\u00e1rio m\u00e9dio.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container po8t7s9\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Lu\u00eds Carlos Gomes Pereira na rodovi\u00e1ria de Florian\u00f3polis\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/76118037_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Lu\u00eds Carlos Gomes Pereira na rodovi\u00e1ria de Florian\u00f3polis\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Lu\u00eds Carlos Gomes Pereira veio com a fam\u00edlia do Maranh\u00e3oFoto: Maur\u00edcio Cancilieri\/DW<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h5><strong>Churrasco e carimb\u00f3<\/strong><\/h5>\n<p>Sidnei Fioravante deixou Get\u00falio Vargas (RS) h\u00e1 13 anos em busca de mais oportunidades e melhor qualidade de vida. &#8220;E aconteceu&#8221;, disse. Hoje ele vive na praia dos Ingleses, em Florian\u00f3polis, onde \u00e9 dono de uma churrascaria, um boliche e uma petiscaria \u00e0 beira mar \u2013 al\u00e9m de ter ajudado a fundar um Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas (CTG).<\/p>\n<p>A maioria dos migrantes que escolheram Santa Catarina no per\u00edodo analisado pelo IBGE \u00e9 formada por ga\u00fachos (134,8 mil) como Fioravante, seguidos por paranaenses (96,1 mil) e paulistas (62,4 mil). A proximidade geogr\u00e1fica e cultural s\u00e3o algumas das raz\u00f5es para explicar esse movimento.<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container po8t7s9\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Balne\u00e1rio Cambori\u00fa\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/76124928_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Balne\u00e1rio Cambori\u00fa\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Balne\u00e1rio Cambori\u00fa tamb\u00e9m \u00e9 uma das cidades do estado que atraem migrantesFoto: Anderson Coelho\/DW<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Mas o estado que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o ficou na quarta coloca\u00e7\u00e3o da lista: o Par\u00e1, que fica a mais de 3 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Entre 2017 e 2022, 44,9 mil paraenses passaram a morar em Santa Catarina. Atualmente, duas empresas de \u00f4nibus operam rotas regulares entre Florian\u00f3polis e Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Carlos Andr\u00e9 \u00e9 propriet\u00e1rio do Parazinho, espa\u00e7o cultural e gastron\u00f4mico dedicado \u00e0 culin\u00e1ria paraense, e escolheu Santa Catarina em busca de oportunidades. &#8220;Oportunidade que, infelizmente, no nosso estado n\u00e3o tem. Ele \u00e9 rico em produtos, culin\u00e1ria e gastronomia. Mas oportunidade&#8230; Ent\u00e3o a gente vem buscando seguran\u00e7a, uma educa\u00e7\u00e3o digna, um trabalho digno tamb\u00e9m, que possa dar qualidade de vida para cada fam\u00edlia que vem para c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>A cultura daquele estado tamb\u00e9m pode ser vista em outros pontos de Santa Catarina. A uma semana do Carnaval, um grupo de mulheres dan\u00e7ava no centro de Florian\u00f3polis, rodando as saias ao som do carimb\u00f3. &#8220;Nunca passou pela minha cabe\u00e7a, quando sa\u00ed de Bel\u00e9m, em 2018, que eu estaria dan\u00e7ando carimb\u00f3 no centro de Florian\u00f3polis com a minha filha&#8221;, disse Leny Rebelo, do grupo Amaz\u00f4nia em Cena.<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container po8t7s9\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"Carlos Andr\u00e9, origin\u00e1rio do Par\u00e1, que abriu o restaurante &quot;Parazinho&quot; em Florian\u00f3polis\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/76125077_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"Carlos Andr\u00e9, origin\u00e1rio do Par\u00e1, que abriu o restaurante &quot;Parazinho&quot; em Florian\u00f3polis\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">Carlos Andr\u00e9, origin\u00e1rio do Par\u00e1, que abriu o restaurante &#8220;Parazinho&#8221; em Florian\u00f3polisFoto: Anderson Coelho\/DW<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h5><strong>Experi\u00eancias distintas<\/strong><\/h5>\n<p>Santa Catarina tamb\u00e9m teve um crescimento expressivo na propor\u00e7\u00e3o de estrangeiros, de acordo com os dados do IBGE. Atualmente s\u00e3o 72,7 mil pessoas de outros pa\u00edses vivendo no estado, mais que o triplo do registrado em 2010.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea, tanto do ponto de vista das cidades escolhidas quanto das situa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos migrantes, avaliaram os especialistas. Embora a capital Florian\u00f3polis seja o principal destino, devido \u00e0 for\u00e7a de setores como servi\u00e7os, turismo e tecnologia, outras regi\u00f5es t\u00eam atrativos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>O Oeste do estado, por exemplo, atrai muitos migrantes por conta das agroind\u00fastrias. Chapec\u00f3, o grande polo daquela regi\u00e3o, tamb\u00e9m tem empregado muitos estrangeiros, como&nbsp;venezuelanos&nbsp;e haitianos.<\/p>\n<p>Outro movimento ocorre, segundo os especialistas, com a migra\u00e7\u00e3o de aposentados ao&nbsp;litoral catarinense. &#8220;Da minha cama eu vejo a roda gigante. \u00c9 muito simp\u00e1tico. Eu gosto desse visual&#8221;, disse Henrique Rosenthal, olhando pela janela de seu apartamento, na orla de Balne\u00e1rio Cambori\u00fa. Hoje com 84 anos, ele se mudou de Curitiba em busca de um clima melhor, com sol, claridade e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Rosenthal, no entanto, sabe que sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma regra. &#8220;Mas isso aqui exige, como se costuma dizer, ter onde cair morto. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que pode escolher vir morar em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa.&#8221;<\/p>\n<p>O baiano Gleidson Bispo Sousa trabalha na constru\u00e7\u00e3o civil nos Ingleses, em Florian\u00f3polis. Assim como outros entrevistados, ele contou que n\u00e3o consegue aproveitar as belezas da cidade. Citou a Cachoeira da Costa da Lagoa, um lugar tur\u00edstico da cidade acess\u00edvel apenas por barco ou trilha. &#8220;Eu nunca fui&#8221;, disse, salientando que est\u00e1 na capital h\u00e1 cinco anos. &#8220;O cara aqui vem pra trabalhar tem que trabalhar.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"placeholder-image master_landscape big\">\n<div class=\"render-container po8t7s9\">\n<div class=\"srnoiv7 s1a75hd4 lazy-load-container\">\n<figure style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"hq-img loaded\" title=\"O carioca Henrique Rosenthal contempla a vista de Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, seu lar h\u00e1 cinco anos\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.dw.com\/image\/76125166_906.jpg?resize=696%2C391&#038;ssl=1\" alt=\"O carioca Henrique Rosenthal contempla a vista de Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, seu lar h\u00e1 cinco anos\" width=\"696\" height=\"391\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">O carioca Henrique Rosenthal contempla a vista de Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, seu lar h\u00e1 cinco anosFoto: Anderson Coelho\/DW<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h5><strong>As consequ\u00eancias e planejamento<\/strong><\/h5>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o acaba gerando consequ\u00eancias, como discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito, sobretudo com imigrantes estrangeiros e do Norte e Nordeste do pa\u00eds. Segundo Vanessa Bianchi, assistente social da C\u00e1ritas, organiza\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 igreja cat\u00f3lica que atua na acolhida, integra\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o de migrantes e refugiados, muitos estrangeiros com n\u00edvel superior e at\u00e9 mestrado e doutorado conseguem apenas empregos com exig\u00eancia de ensino fundamental ou m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Outras consequ\u00eancias ocorrem em \u00e1reas como habita\u00e7\u00e3o, saneamento b\u00e1sico e sa\u00fade. &#8220;Os dados sobre as favelas de Santa Catarina revelaram uma caracter\u00edstica muito expressiva, dada a sua pouca temporalidade. O que eu quero dizer: h\u00e1 100 anos o Rio de Janeiro tinha favela. Mas voc\u00ea n\u00e3o tinha a express\u00e3o de favelas em Santa Catarina como voc\u00ea teve nesses \u00faltimos 20 anos&#8221;, analisou o professor Mattei.<\/p>\n<p>Segundo os dados do IBGE, em 2010, havia 75,7 mil pessoas vivendo em favelas em Santa Catarina. Em 2022, o n\u00famero passou para 109,2 mil, um aumento de 44,2%. O crescimento foi levemente superior \u00e0 m\u00e9dia nacional no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Para Elson Pereira, da UFSC, \u00e9 fundamental pensar em planejamento para este cen\u00e1rio. &#8220;Se n\u00e3o houver uma interven\u00e7\u00e3o de planejamento forte, esse processo tende a perdurar um pouco mais at\u00e9 chegar num ponto de equil\u00edbrio ou satura\u00e7\u00e3o dessas condi\u00e7\u00f5es boas.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: <span class=\"m1ho1h07 l1evdo4u blt0baw s16w0xvi sngcpkw w128axg5 b1fzgn0z\">Maur\u00edcio Frighetto<\/span><span class=\"separator lxmvniw m4xla6a s16w0xvi rcjjkz7 w128axg5 b1fzgn0z\"> e&nbsp;<\/span><\/strong><span class=\"m1ho1h07 l1evdo4u blt0baw s16w0xvi sngcpkw w128axg5 b1fzgn0z\"><strong>Maur\u00edcio Cancilieri \/<\/strong>&nbsp;<\/span><strong>Deutsche Welle&nbsp;<\/strong><strong><span class=\"m1ho1h07 l1evdo4u blt0baw s16w0xvi sngcpkw w128axg5 b1fzgn0z\">@ dispon\u00edvel na internet 26\/2\/2026<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oportunidades de emprego e expectativa de ascens\u00e3o social s\u00e3o algumas raz\u00f5es para o estado ter registrado o maior saldo migrat\u00f3rio do pa\u00eds, superando S\u00e3o Paulo . 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