{"id":12204,"date":"2017-04-11T04:35:41","date_gmt":"2017-04-11T07:35:41","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12204"},"modified":"2017-04-11T04:35:41","modified_gmt":"2017-04-11T07:35:41","slug":"conhecimento-sem-cortes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/04\/11\/conhecimento-sem-cortes\/","title":{"rendered":"Conhecimento sem cortes."},"content":{"rendered":"<p>No fim de mar\u00e7o, o or\u00e7amento para ci\u00eancia e tecnologia foi reduzido pela metade. Mais um ato governamental justificado pela necessidade de cobrir o rombo do d\u00e9ficit p\u00fablico e, na sequ\u00eancia, retomar a confian\u00e7a dos investidores. Contudo, confian\u00e7a tem interpreta\u00e7\u00f5es diversas. A persist\u00eancia da recess\u00e3o, desemprego, aumento da viol\u00eancia e redu\u00e7\u00e3o da renda, bem expressos na estagna\u00e7\u00e3o do \u00cdndice de Desenvolvimento Humano do Brasil, lan\u00e7am suspeitas sobre a credibilidade das pol\u00edticas p\u00fablicas. E as desconfian\u00e7as n\u00e3o param por a\u00ed. O maltrato da ci\u00eancia nacional dissemina imagens muito negativas do pa\u00eds. Uma das principais revistas cient\u00edficas do mundo, a \u201cNature\u201d, advertiu sobre as consequ\u00eancias das restri\u00e7\u00f5es de recursos para ci\u00eancia e tecnologia: abandono de programas de interc\u00e2mbio, diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de trabalhos publicados e perigos de descontinuidade de um grande projeto como o Sirius S\u00edncroton, acelerador de part\u00edculas, que viabiliza a participa\u00e7\u00e3o brasileira em diversos esfor\u00e7os para inova\u00e7\u00e3o, inclusive na sa\u00fade.<\/p>\n<p>Procedimentos para granjear confian\u00e7a de uns motivam descren\u00e7a para outros. Essa polariza\u00e7\u00e3o deveria ser debatida. No entanto, as diverg\u00eancias v\u00eam sendo canceladas, substitu\u00eddas por uma explica\u00e7\u00e3o que serve para quase tudo. O mundo seria habitado por indiv\u00edduos movidos somente pela raz\u00e3o instrumental, portanto os poupadores e empres\u00e1rios buscam retornos financeiros no curto prazo, e os cientistas se agarram com unhas e dentes a seus privilegiados empregos p\u00fablicos. Sob uma vers\u00e3o mais favor\u00e1vel, os mesmos personagens podem ser retratados como seres conscientes dos perigos de um calote, defensores da ordem e esp\u00e9cimes ing\u00eanuos, incapazes de competir e enxergar a realidade. Sem levar em conta os valores morais e \u00e9ticos, a autonomia de decis\u00e3o de agentes sociais e a necessidade de processos democr\u00e1ticos de negocia\u00e7\u00e3o, o problema fica restrito a uma briga entre quem manda e quem obedece, ou entre realistas e sonhadores.<\/p>\n<p>Como as escolhas sociais n\u00e3o s\u00e3o direcionadas apenas pela l\u00f3gica economicista, em governos anteriores as pol\u00edticas de ci\u00eancia e tecnologia foram, com mais ou menos empenho, preservadas. A mar\u00e9 favor\u00e1vel dos anos 2010 e a exist\u00eancia de universidades e institutos de pesquisa que produzem conhecimentos projetaram a ci\u00eancia brasileira a postos de destaque, tanto em termos quantitativos como qualitativos. Apesar de o n\u00famero de pesquisadores brasileiros e os gastos com ci\u00eancia e tecnologia serem muito inferiores aos de pa\u00edses desenvolvidos (710 por milh\u00e3o e 1,2% do PIB, contrastando com 7.600 por milh\u00e3o e 2,4% em m\u00e9dia dos integrantes da OCDE), houve grande expans\u00e3o do n\u00famero de mestres e doutores e de artigos publicados. A outorga da medalha Fields \u2014 uma esp\u00e9cie de Nobel da matem\u00e1tica para Artur \u00c1vila, do Instituto Nacional de Matem\u00e1tica Pura e Aplicada, e do Pr\u00eamio Gairdner, um dos mais respeitados na \u00e1rea na sa\u00fade, para Cesar Victora, da Universidade Federal de Pelotas, demonstram a excel\u00eancia de pesquisas desenvolvidas em institui\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>Opor ci\u00eancia \u00e0 racionalidade fiscal n\u00e3o \u00e9 novidade. Materiais bibliogr\u00e1ficos sobre Sir William Gladstone, chanceler do tesouro na primeira metade do s\u00e9culo XIX, registram a recep\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel aos esfor\u00e7os de Michael Faraday para explicar a gera\u00e7\u00e3o de corrente el\u00e9trica. O dialogo entre os dois teria sido breve. \u201cAfinal, para que serve?\u201d \u201cH\u00e1 toda a probabilidade de que em breve voc\u00ea poder\u00e1 tributar.\u201d Ao longo do tempo, os cientistas se posicionaram politicamente: fazer ci\u00eancia para \u201caliviar a fadiga humana&#8221;, estimular a [e?] promover a justi\u00e7a social, distribuir as conquistas da ci\u00eancia, estimular a incorpora\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o nas escolas e na forma\u00e7\u00e3o de professores, ou contribuir para acumular riquezas e concentrar poder e conhecimento? As amea\u00e7as objetivas ao desenvolvimento econ\u00f4mico e social nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas suscitam estranheza. Ser\u00e1 que as autoridades respons\u00e1veis por passar a tesoura nos recursos para ci\u00eancia e tecnologia compreendem a relev\u00e2ncia da \u00e1rea para o futuro do Brasil? Est\u00e3o convictas de que a privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a alternativa para toda e qualquer atividade de coletividades humanas?<\/p>\n<p>\u00c9 comum que economistas ao lamentar, mas impor, os cortes de recursos para as pol\u00edticas sociais recorram a analogias relativas a doen\u00e7as para n\u00e3o deixar d\u00favidas sobre a gravidade do d\u00e9ficit. A economia est\u00e1 no CTI, o paciente est\u00e1 em coma s\u00e3o express\u00f5es usuais. Sem d\u00favida, situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade cr\u00edticas requerem monitora\u00e7\u00e3o e medidas terap\u00eauticas de suporte para os riscos de fal\u00eancia de fun\u00e7\u00f5es vitais. O exemplo atemoriza. Quem deixar\u00e1 de concordar com a necessidade de fazer todo o poss\u00edvel para salvar o doente (na realidade o equil\u00edbrio fiscal)? Mas quem dar\u00e1 consentimento para prejudicar deliberadamente \u00f3rg\u00e3os saud\u00e1veis do paciente? Met\u00e1foras cortadas ao meio n\u00e3o contribuem para expor com a devida clareza escolhas pol\u00edticas. Discord\u00e2ncias n\u00e3o devem ser abafadas com argumentos falsos, o reconhecimento da alteridade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para a sociabilidade. A ci\u00eancia, cientistas e formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas baseadas em evid\u00eancias est\u00e3o sob ataque. Os cortes nos or\u00e7amentos e o desaparecimento ou sucateamento de ag\u00eancias governamentais especializadas em ci\u00eancia e tecnologia prejudicam a sa\u00fade, a alimenta\u00e7\u00e3o, o ar, a \u00e1gua, o clima e a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Abril \u00e9 o m\u00eas da marcha mundial pela ci\u00eancia, direitos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e garantias de apoio a pesquisas e tecnologias inovadoras e acess\u00edveis.<br \/>\n<em><strong>Cr\u00e9dito: Artigo publicado no dia 10\/04\/2017 no Jornal O GLOBO \u2013 dispon\u00edvel na internet 11\/04\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fim de mar\u00e7o, o or\u00e7amento para ci\u00eancia e tecnologia foi reduzido pela metade. Mais um ato governamental justificado pela necessidade de cobrir o rombo do d\u00e9ficit p\u00fablico e, na sequ\u00eancia, retomar a confian\u00e7a dos investidores. 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