{"id":12264,"date":"2017-04-13T00:16:53","date_gmt":"2017-04-13T03:16:53","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12264"},"modified":"2017-04-12T21:44:18","modified_gmt":"2017-04-13T00:44:18","slug":"a-alma-do-texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/04\/13\/a-alma-do-texto\/","title":{"rendered":"A alma do texto."},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 mais f\u00e1cil saber por que odiamos do que por que amamos. \u00c9 mais f\u00e1cil entender a \u2018luta de classes\u2019 do que a solidariedade ou o patriotismo<\/p>\n<p>No primeiro trabalho que escrevi em Harvard para um curso intitulado \u201cHist\u00f3rias da Antropologia\u201d ministrado pelo Prof. Richard Moneygrand, recebi uma cr\u00edtica estonteante: seu trabalho \u2014 disse-me o mestre \u2014 \u00e9 razo\u00e1vel, mas n\u00e3o tem alma!<\/p>\n<p>Na caminhada para o meu pequeno apartamento de Shaler Lane, eu remo\u00ed a observa\u00e7\u00e3o do meu tutor. Qual o sentido do \u201csem alma\u201d? Era o meu ingl\u00eas ou a minha gigantesca ignor\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Corria um outubro escuro, impressionante pela velocidade com que os dias viravam noite. Tal atmosfera, estranha e desconhecida para um niteroiense que vivia na plenitude de intermin\u00e1veis ver\u00f5es, juntava-se o enigma contido na tal aus\u00eancia de alma do meu primeiro texto escolar harvardiano.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria n\u00e3o reteve o que escrevi, mas lembro-me bem desse primeiro semestre nos Estados Unidos porque, no seu gelado novembro de 1963, testemunhei o assassinato do presidente J. F. Kennedy. Um evento que me escancarou a quota de ressentimento e viol\u00eancia engavetada nas contidas rotinas americanas. Foi somente depois do meu primeiro \u201cNatal branco\u201d em Cambridge que compreendi a admoesta\u00e7\u00e3o do meu mestre.<\/p>\n<p>Um texto sem alma era uma escrita sem carne ou sangue. Havia precis\u00e3o e fatos mas n\u00e3o havia seiva, emo\u00e7\u00e3o, esp\u00edrito. Moneygrand era \u2014 e ainda \u00e9 \u2014 obcecado por essas aprecia\u00e7\u00f5es. Gostava de citar Hemingway, Thomas Mann, Machado de Assis, Malinowski, Evans-Pritchard e Meyer Fortes como autores de textos com alma.<\/p>\n<p>_____________<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel falar de governos sem alma? Ou em pol\u00edticos desalmados? Sim, n\u00f3s temos, em paralelo \u00e0s bananas, muitos administradores, magistrados e parlamentares corruptos, mas seriam eles desalmados quando sempre \u201carrumam\u201d suas fam\u00edlias e tudo \u00e9 feito com os amigos?<\/p>\n<p>Dick Moneygrand afirma numa mensagem recente que sim. A aus\u00eancia da alma \u00e9 a inconsci\u00eancia da consci\u00eancia. Tal falta est\u00e1 ligada a aus\u00eancia de reflex\u00e3o sobre os limites dos cargos, fun\u00e7\u00f5es ou pap\u00e9is. O equil\u00edbrio entre o indiv\u00edduo e o grupo, o papel e o enredo \u00e9 algo essencial, teoriza Moneygrand.<\/p>\n<p>O Brasil, arremata no seu estilo ianque-calvinista, sempre exagera na indecis\u00e3o. Hoje, voc\u00eas precisam de tribunais para tudo. Eis um sintoma de que os limites entre pap\u00e9is t\u00eam sido espatifados. O vosso inimigo \u00e9 interno, o nosso tem sido externo.<\/p>\n<p>Perdemos nossas almas? Pergunto aflito. Talvez&#8230; E o pior \u00e9 que nem o diabo as anseia, pois o lado brasileiro do inferno \u00e9, como reza a piada, uma bagun\u00e7a. N\u00e3o tem nem o fogo que castiga&#8230;<\/p>\n<p>______________<\/p>\n<p>Retruquei com um golpe baixo: e o Trump? Teria ele, al\u00e9m do carnavalesco topete, alguma coisa semelhante a uma alma?<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 tentando descobrir sua alma bombardeando a S\u00edria, responde prontamente Moneygrand.<\/p>\n<p>Um inimigo externo assegura a uni\u00e3o interna. Voc\u00ea se lembra das nossas aulas de organiza\u00e7\u00e3o social? Entre os Nuer de um velho Sud\u00e3o, a l\u00f3gica \u00e9 a mesma. Irm\u00e3o mais velho contra o mais novo (como nos contos de fada), mas ambos contra os primos. Agora, se a fam\u00edlia extensa \u00e9 amea\u00e7ada por outra unidade da mesma magnitude social, irm\u00e3os e primos se unem contra a outra casa. Contudo, se um membro de uma outra linhagem ataca um dos nossos primos distantes, nossa linhagem se une contra as outras.<\/p>\n<p>As escaladas, os conflitos e os pecados s\u00e3o segmentados. A guerra externa engendra uma poderosa alma interior. Conflito e solidariedade s\u00e3o as faces de uma mesma moeda. Por isso se tem escrito muito mais sobre o conflito do que sobre a paz. Exceto Durkheim e Mauss, nenhum soci\u00f3logo falou de solidariedade ou da d\u00e1diva como o centro da sociabilidade. \u00c9 muito mais f\u00e1cil saber por que odiamos do que descobrir por que amamos. \u00c9 mais claro entender a \u201cluta de classes\u201d do que a solidariedade ou o patriotismo. Falar do todo ou de Deus \u00e9 muito mais complicado do que discorrer sobre o diabo.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o bem e o mal s\u00e3o relativos, tal como o masculino e o feminino, a juventude e velhice, o humano e o natural. Com uma mulher voc\u00ea pode se sentir mais homem do que com outra. Seria essa a raiz do amor? H\u00e1 pessoas que fazem com que a gente se sinta burro ou errado; outras, por\u00e9m nos colocam nas nuvens.<\/p>\n<p>Incomoda muito descobrir \u2014 como bem sabia um mestre do olhar exilado como Machado de Assis \u2014 que um mundo dominado pelo pecado mais cedo ou mais tarde iria praticar a virtude; tal como um universo no qual a virtude \u00e9 o ideal tem como franja o pecado.<\/p>\n<p>Moneygrand termina notando que Trump tem sido acusado de incompet\u00eancia porque ainda n\u00e3o preencheu todos os 553 cargos-chaves \u2014 aqueles que requerem confirma\u00e7\u00e3o do Senado. Vamos comparar com o Brasil? Provoca meu antigo professor e amigo querido.<\/p>\n<p><em><strong>Artigo publicado no Jornal O GLOBO \u2013 dispon\u00edvel na internet 1<\/strong><\/em><em><strong>3<\/strong><\/em><em><strong>\/04\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 mais f\u00e1cil saber por que odiamos do que por que amamos. \u00c9 mais f\u00e1cil entender a \u2018luta de classes\u2019 do que a solidariedade ou o patriotismo No primeiro trabalho que escrevi em Harvard para um curso intitulado \u201cHist\u00f3rias da Antropologia\u201d ministrado pelo Prof. Richard Moneygrand, recebi uma cr\u00edtica estonteante: seu trabalho \u2014 disse-me o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5193,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12264","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/carinha_colunista_roberto_damatta.jpg?fit=220%2C220&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12264\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5193"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}