{"id":12341,"date":"2017-04-18T05:00:46","date_gmt":"2017-04-18T08:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12341"},"modified":"2017-04-18T05:08:47","modified_gmt":"2017-04-18T08:08:47","slug":"a-ciencia-sob-ataque-nos-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/04\/18\/a-ciencia-sob-ataque-nos-estados-unidos\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia sob ataque nos Estados Unidos."},"content":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia dos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos nos Estados Unidos \u2013 para fins pac\u00edficos e militares \u2013 tem sempre sido reconhecida por todos os governos desse pa\u00eds e pela sociedade americana em geral, h\u00e1 mais de cem anos. \u00c9 gra\u00e7as ao apoio dado a eles que se desenvolveram as grandes universidades e laborat\u00f3rios de pesquisa que atra\u00edram os melhores cientistas do mundo e foram a base do enorme progresso industrial do pa\u00eds. A lideran\u00e7a cient\u00edfica da Europa, que foi evidente no s\u00e9culo 19 e na primeira metade do s\u00e9culo 20, passou para os EUA.<\/p>\n<p>Parecia ser aceito por todos, at\u00e9 recentemente, que investimentos em pesquisa resultam em inova\u00e7\u00f5es e crescimento econ\u00f4mico. Isso vale tanto para as inven\u00e7\u00f5es de Edison, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, na gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica e ilumina\u00e7\u00e3o quanto para a descoberta dos transistores nos meados do s\u00e9culo passado para a \u00e1rea de inform\u00e1tica e telecomunica\u00e7\u00f5es modernas. Os EUA, em 2016, aplicaram em pesquisa e desenvolvimento 2,7% do seu produto nacional bruto, ou seja, US$ 473 bilh\u00f5es. China e Uni\u00e3o Europeia aplicaram somas semelhantes.<\/p>\n<p>O novo governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, contudo, parece disposto a mudar essa situa\u00e7\u00e3o. Como candidato, ele captou o sentimento de parte da popula\u00e7\u00e3o americana que n\u00e3o se sente beneficiada, na sua qualidade de vida, pelos progressos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos do s\u00e9culo 20. Parte dela, na ind\u00fastria de carv\u00e3o, foi de fato atingida, porque muitas minas se tornaram obsoletas, perderam competitividade, e seu abandono se tornou inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 acontecera antes na Inglaterra na d\u00e9cada dos 80 do s\u00e9culo 20, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher enfrentou uma greve selvagem dos mineiros e efetivamente fechou as minas. Para pol\u00edticos como Trump, que apelam para a demagogia, a solu\u00e7\u00e3o foi criar falsas expectativas de que a ind\u00fastria do carv\u00e3o renascer\u00e1, o que lhe rendeu dividendos pol\u00edticos de curto alcance, mesmo negando as evid\u00eancias do aquecimento global.<\/p>\n<p>A atitude negativa do novo presidente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia n\u00e3o ficou apenas nisso, teve outras consequ\u00eancias. O or\u00e7amento proposto pelo novo governo ao Congresso americano reduz as verbas da Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental em 30% e elimina v\u00e1rios programas cient\u00edficos da maior import\u00e2ncia na sa\u00fade e em pesquisas de vanguarda, o que provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 aceito pelo pr\u00f3prio Congresso, onde Trump tem maioria. Os programas de apoio \u00e0 pesquisa na \u00e1rea de ci\u00eancias humanas correm o risco de ser inteiramente abandonados.<\/p>\n<p>Entre os cortes propostos por Donald Trump est\u00e1 a completa elimina\u00e7\u00e3o de um programa da National Oceanic and Atmospheric Administration (Administra\u00e7\u00e3o Nacional para os Oceanos e a Atmosfera), que inclui a prepara\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es de \u00e1reas costeiras dos EUA para os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 que, ali\u00e1s, em oposi\u00e7\u00e3o aos cientistas, ele afirma n\u00e3o estar acontecendo.<\/p>\n<p>Mesmo \u00e1reas de grande sensibilidade para a maioria dos americanos, como a de pesquisa para preven\u00e7\u00e3o e cura de enfermidades, ser\u00e3o afetadas se o or\u00e7amento de Trump passar. Os recursos dos National Institutes of Health (Institutos Nacionais de Sa\u00fade) perder\u00e3o 18% de sua verba atual, conforme a proposta do Executivo.<\/p>\n<p>Os cientistas americanos, de modo geral indiferentes \u00e0 pol\u00edtica e com frequ\u00eancia at\u00e9 alienados, parecem ter acordado para os perigos dessa pol\u00edtica e est\u00e3o preparando uma grande marcha no Dia da Terra, 22 de abril, em Washington, a fim de pressionar o Congresso a n\u00e3o aceitar as propostas obscurantistas do governo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o setor industrial \u2013 no qual se investe cerca de 80% de tudo o que se investe em pesquisas nos Estados Unidos \u2013 entende bem a import\u00e2ncia da pesquisa e n\u00e3o seguir\u00e1 a pol\u00edtica proposta por Trump, considerada uma amea\u00e7a \u00e0 competitividade americana no mundo e um risco para a produtividade do setor.<\/p>\n<p>No Brasil, em contraste, mesmo diante da pior crise econ\u00f4mica da Hist\u00f3ria, tem sido feito um esfor\u00e7o enorme para preservar o apoio \u00e0s atividades cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas no Estado de S\u00e3o Paulo, que responde por cerca de 40% dessa atividade no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Brasil gasta cerca de US$ 10 bilh\u00f5es por ano em pesquisa e desenvolvimento, isto \u00e9, cerca de 2% do que gastam os Estados Unidos. Essa soma, que parece pequena, tem, contudo, enorme import\u00e2ncia para o Pa\u00eds, pelas seguintes raz\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>A primeira delas \u00e9 que mesmo para importa\u00e7\u00e3o de tecnologias \u00e9 preciso ter pessoas com suficiente capacita\u00e7\u00e3o para escolherem a melhor op\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 adotada pelo Pa\u00eds.<\/li>\n<li>A segunda raz\u00e3o \u00e9 que pa\u00edses em desenvolvimento t\u00eam algumas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que permitem implementar tecnologias que efetivamente n\u00e3o foram exploradas adequadamente pelos pa\u00edses centrais. Um dos melhores exemplos nesse sentido, no caso do Brasil, \u00e9 o do Programa Nacional do \u00c1lcool (Pro\u00e1lcool), iniciado em 1975, que incentivou a pesquisa sobre o uso de \u00e1lcool produzido a partir de cana-de-a\u00e7\u00facar como combust\u00edvel para ve\u00edculos automotores e o desenvolvimento de novas tecnologias para o setor automotivo, o que possibilitou a produ\u00e7\u00e3o do biocombust\u00edvel em larga escala no Pa\u00eds.<\/li>\n<li>A terceira raz\u00e3o pela qual ci\u00eancia e tecnologia s\u00e3o importantes para o Brasil \u00e9 que h\u00e1 pessoas talentosas em todo os lugares do mundo e avan\u00e7os nessas \u00e1reas ocorrem tamb\u00e9m em pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o centrais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00c9 a compreens\u00e3o dessa import\u00e2ncia que levou o governo paulista a preservar os recursos da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), a principal fonte de apoio \u00e0 pesquisa das universidades estaduais, nos n\u00edveis fixados na Constitui\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo e lan\u00e7ar um programa de moderniza\u00e7\u00e3o dos institutos de pesquisa do Estado.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Artigo publicado dia 17\/04\/2017 na p\u00e1gina do Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 dispon\u00edvel na internet 18\/04\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia dos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos nos Estados Unidos \u2013 para fins pac\u00edficos e militares \u2013 tem sempre sido reconhecida por todos os governos desse pa\u00eds e pela sociedade americana em geral, h\u00e1 mais de cem anos. \u00c9 gra\u00e7as ao apoio dado a eles que se desenvolveram as grandes universidades e laborat\u00f3rios de pesquisa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":12346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12341","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Jos%C3%A9-Goldemberg.jpg?fit=270%2C187&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12341"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12341\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}