{"id":12394,"date":"2017-04-19T08:04:20","date_gmt":"2017-04-19T11:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12394"},"modified":"2017-04-19T08:04:20","modified_gmt":"2017-04-19T11:04:20","slug":"um-brasil-comprado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/04\/19\/um-brasil-comprado\/","title":{"rendered":"Um Brasil comprado."},"content":{"rendered":"<p>O que est\u00e1 acontecendo com o Brasil? Ser\u00e1 que essa nova onda de pornopol\u00edtica tem uma origem? \u00c9 nova ou sempre aconteceu?<\/p>\n<p>Saber a origem \u00e9 importante porque toda g\u00eanese pressup\u00f5e um apocalipse. Afinal, tudo que come\u00e7a, acaba.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que hoje vivemos o apocalipse que finalmente sinaliza um limite? Ser\u00e1 estamos testemunhando o esgotamento de um estilo de lidar com as coisas p\u00fablicas e com a falada e amada Rep\u00fablica?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o Brasil continua sendo nosso mesmo depois de saber que ele foi vendido pelo governo Lula-Dilma a uma grande empresa que n\u00e3o \u00e9 ianque, brit\u00e2nica, inglesa ou francesa, mas t\u00e3o baiana quanto a Baixa do Sapateiro?<\/p>\n<p>Quero me convencer que sim.<\/p>\n<p>Acho que essa crise na qual os Srs. Em\u00edlio e Marcelo (pai e filho) e seus associados abrem o bico e falam com a serena superioridade dos doadores, obriga a um denso exame de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um capitalismo de compadres. \u00c9 tamb\u00e9m um capitalismo ajudado por uma democracia de compadres. O que salta aos olhos \u00e9 como a rep\u00fablica \u2014 centrada em leis impessoais teoricamente v\u00e1lidas para todos \u2014 funciona seguindo uma renovada e imaginativa cartilha imperial. Nela, a etiqueta das simpatias dos baronatos mistura-se ao mercado e suspende a competi\u00e7\u00e3o para os amigos. A m\u00e3o invis\u00edvel de Mr. Smith vira um escancarado abra\u00e7o do lulo-dilmismo com a ambi\u00e7\u00e3o germano-baiana da Odebrecht. A luta de classes foi desmoralizada pela simpatia pessoal. Nossa revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a da malandragem. Nada contra. Mas ela \u2014 eis crise que nos envergonha \u2014 tamb\u00e9m tem limites.<\/p>\n<p>Como acreditar em esquerda e direita se ambas bebem o mesmo u\u00edsque comprado com o meu, o seu, o nosso dinheiro como diz o meu colunista favorito, o Ancelmo Gois?<\/p>\n<p>Educados exclusivamente na linguagem da pol\u00edtica, da fofoca e da economia, n\u00e3o sabemos o que fazer com esses favores e presentes t\u00e3o bem analisados nas suas implica\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas por Marcel Mauss. Toda democracia que se preza vigia a l\u00f3gica do favor ou do dar-para-receber. Em todo lugar, quem \u00e9 parlamentar, ministro e, principalmente presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o pensa s\u00f3 na sua biografia, mas sabe que \u00e9 um servidor do cargo que lhe foi concedido.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso muita vontade de querer desconhecer-se a si mesmo para imaginar que narcisistas (esse tra\u00e7o marcante dos chamados pol\u00edticos) possam resistir aos poderes inerentes a certos pap\u00e9is sem um rigoroso c\u00f3digo de \u00e9tica. Sem politizar n\u00e3o apenas decis\u00f5es e projetos, mas os cargos que constituem a estrutura de uma na\u00e7\u00e3o ordenada debaixo da liberdade e da igualdade, mas vergonhosamente desigual.<\/p>\n<p>Nosso problema n\u00e3o \u00e9 apenas de legisla\u00e7\u00e3o, mas de uma revolu\u00e7\u00e3o nas pr\u00e1ticas sociais marcadas por toda sorte de privil\u00e9gio. Nosso ber\u00e7o \u00e9 a aristocracia branca patriarcal misturada com a orfandade da escravid\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Sem esfor\u00e7o, vamos continuar recaindo \u2014 tal como fazem os hermanos latino-americanos \u2014 na velha estadolatria, estadopatia e estadofilia. Na cren\u00e7a inocente de que podemos mudar nossas rotinas de poder sem transformar radicalmente nossa sociedade com os recursos da sociedade que deve englobar o Estado e o governo.<\/p>\n<p>O enriquecimento escandaloso n\u00e3o \u00e9 o do mercado. \u00c9 o que usa a \u00e9tica maussiana do \u201cdar-receber-retribuir\u201d (base, ali\u00e1s, da sociabilidade humana) sem controle e como um instrumento consciente de embolsar a riqueza nacional. \u00c9 esse enlace incestuoso entre o pessoal e o impessoal, entre a igualdade legal e as hierarquias tradicionais que legitima as brutais ultrapassagens naquilo que Livia Barbosa estudou magistralmente como o \u201cjeitinho\u201d e este vosso cronista denunciou na desmontagem sociol\u00f3gica do \u201cVoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d, em 1979.<\/p>\n<p>Um desmonte que s\u00f3 veio a ter resultados pr\u00e1ticos para seus usu\u00e1rios na Lava-Jato. Na opera\u00e7\u00e3o que tem denunciado como crime a alian\u00e7a entre ocupantes de cargos privilegiados e as doces amizades que fazem parte do nosso estilo de exercer e matar cordialmente quem discorda de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Aqui, o \u201ccapital social\u201d do Bourdieu casou-se com o \u201ccapital espoliador\u201d do Marx. O padre conscientizado foi o petismo, os padrinhos e madrinhas, a velha elite que sempre aprisionou a sociedade negra e ex-escravocrata, com normas controladoras.<\/p>\n<p>Nosso erro \u00e9 pensar que sociedade n\u00e3o tem normas, estilo ou cultura. Esquecendo que entre o estado e a sociedade existe um \u201cgoverno\u201d e que nele est\u00e3o nossos parentes, partid\u00e1rios e amigos, supomos que leis podem suprimir velhos h\u00e1bitos. E quanto mais fabricamos leis, mais sofremos rea\u00e7\u00f5es corporativas vindos de nossa pr\u00f3pria rede de rela\u00e7\u00f5es pessoais. A\u00ed, amigos, est\u00e1 a chave da mudan\u00e7a ou da perman\u00eancia. Do uso ou do abuso.<\/p>\n<p>Agora que descobrimos como um presidente do povo e eleito pelo povo virou, como afirma tranquilamente o patriarca Em\u00edlio, um empregado de luxo da Odebrecht, talvez se comece a enxergar que o assunto \u00e9 muito mais s\u00e9rio e o po\u00e7o muito mais fundo.<\/p>\n<p>O centro da coisa jaz em deixar que normas impessoais e v\u00e1lidas para tudo e todos sejam englobadas pela \u00e9tica particularista, intimista e pessoal cujo axioma garante que cada caso \u00e9 um caso.<\/p>\n<p>Nada al\u00e9m do trivial que Weber e Tocqueville, com ajuda de Marcel Mauss descobriram.<\/p>\n<p><em><strong>17\/04\/2017 na p\u00e1gina do Jornal O <\/strong><\/em><em><strong>Globo<\/strong><\/em><em><strong> \u2013 dispon\u00edvel na internet 1<\/strong><\/em><em><strong>9<\/strong><\/em><em><strong>\/04\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que est\u00e1 acontecendo com o Brasil? Ser\u00e1 que essa nova onda de pornopol\u00edtica tem uma origem? \u00c9 nova ou sempre aconteceu? Saber a origem \u00e9 importante porque toda g\u00eanese pressup\u00f5e um apocalipse. Afinal, tudo que come\u00e7a, acaba. Ser\u00e1 que hoje vivemos o apocalipse que finalmente sinaliza um limite? 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