{"id":12637,"date":"2017-04-29T08:01:28","date_gmt":"2017-04-29T11:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12637"},"modified":"2017-04-29T08:40:17","modified_gmt":"2017-04-29T11:40:17","slug":"a-greve-geral-do-pais-ha-100-anos-foi-iniciada-por-mulheres-e-durou-30-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/04\/29\/a-greve-geral-do-pais-ha-100-anos-foi-iniciada-por-mulheres-e-durou-30-dias\/","title":{"rendered":"1\u00aa greve geral do pa\u00eds, h\u00e1 100 anos, foi iniciada por mulheres e durou 30 dias."},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">Em junho de 1917, d\u00e9cadas antes da consolida\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 oper\u00e1rios &#8211; em sua maioria mulheres &#8211; da f\u00e1brica t\u00eaxtil Cotonif\u00edcio Crespi na Mooca, em S\u00e3o Paulo, paralisaram suas atividades.<\/p>\n<p>Eles pediam, entre outras coisas, aumento de sal\u00e1rios e redu\u00e7\u00e3o das jornadas de trabalho, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o eram garantidos por lei. Em algumas semanas, a greve se espalharia por diversos setores da economia, por todo o Estado de S\u00e3o Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira &#8220;greve geral&#8221; no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas uma das principais diferen\u00e7as entre aquela e a greve geral convocada para esta sexta-feira, em protesto contra as reformas trabalhista e da Previd\u00eancia, \u00e9 que, em 1917, ela n\u00e3o foi anunciada como tal, disse \u00e0 BBC Brasil o historiador Claudio Batalha, da Unicamp.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma greve que j\u00e1 tivesse bandeiras gerais. Ela come\u00e7a com quest\u00f5es espec\u00edficas dos setores que v\u00e3o aderindo ao movimento grevista, alguns por solidariedade. Depois \u00e9 que a pauta passou a incluir desde reivindica\u00e7\u00f5es relacionadas ao trabalho at\u00e9 reivindica\u00e7\u00f5es de cunho pol\u00edtico &#8211; liberta\u00e7\u00e3o dos presos do movimento, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<p>Uma destas quest\u00f5es espec\u00edficas, menos comentada nos livros de hist\u00f3ria, era o ass\u00e9dio sexual. Segundo Batalha, parte da revolta das funcion\u00e1rias do Cotonif\u00edcio Crespi era o ass\u00e9dio que sofriam dos chamados contramestres, funcion\u00e1rios que supervisionavam o ch\u00e3o de f\u00e1brica.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o era incomum na \u00e9poca. Greves anteriores j\u00e1 haviam come\u00e7ado contra determinado funcion\u00e1rio que tivesse um cargo de chefia e tirasse proveito desse poder&#8221;, explica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Crescimento<\/h2>\n<p>Mas se a convoca\u00e7\u00e3o de 2017 reflete a inseguran\u00e7a causada pelo desemprego e pela recess\u00e3o, em 1917, a ind\u00fastria brasileira ia de vento em popa.<\/p>\n<p>Na verdade, os lucros das empresas chegavam a duplicar a cada ano.<\/p>\n<p>&#8220;Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, se passou de uma recess\u00e3o econ\u00f4mica a um superemprego, porque os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados&#8221;, explica o historiador italiano radicado no Brasil Luigi Biondi, da Unifesp.<\/p>\n<p>&#8220;Em 1914, o Cotonif\u00edcio Crespi lucrou 196 contos de r\u00e9is. No ano seguinte, o lucro foi de 350 contos de r\u00e9is. E foi aumentando. Enquanto isso, aumentavam as horas de trabalho.&#8221;<\/p>\n<p>Com o aumento da produ\u00e7\u00e3o, as f\u00e1bricas brasileiras, que tinham poucas m\u00e1quinas, vindas do exterior, tiveram que us\u00e1-las por mais tempo. Isso significava que os oper\u00e1rios passaram a trabalhar at\u00e9 16 horas por dia, sem aumento de sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>De acordo com Biondi, a insatisfa\u00e7\u00e3o das mulheres se explica tamb\u00e9m pelo fato de que elas acompanhavam mais de perto a perda de poder aquisitivo dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m de tamb\u00e9m serem oper\u00e1rias, porque naquele momento havia muito emprego para elas na ind\u00fastria t\u00eaxtil, elas tamb\u00e9m controlavam os gastos das fam\u00edlias. Ent\u00e3o viam o aumento acelerado da infla\u00e7\u00e3o dos produtos.&#8221;<\/p>\n<p>No final de junho, a paralisa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios do Crespi contagiou os 1.500 oper\u00e1rios da f\u00e1brica t\u00eaxtil Ipiranga. Em seguida, se espalhou pela ind\u00fastria de m\u00f3veis, concentrada no Br\u00e1s, e chegou at\u00e9 a f\u00e1brica de bebidas da Antarctica.<\/p>\n<p>&#8220;Em julho, a greve parou a cidade (S\u00e3o Paulo). Havia embates de rua e tentativa de saques aos moinhos que produziam farinha por causa da crise de abastecimento. Muitos foram mortos e feridos nos confrontos com a pol\u00edcia&#8221;, diz Biondi.<\/p>\n<p>O movimento ganhou mais f\u00f4lego no dia 11 de julho, quando milhares acompanharam o enterro do sapateiro espanhol Jos\u00e9 Martinez, de 21 anos.<\/p>\n<p>Ele morreu com um tiro no est\u00f4mago depois que uma unidade de cavalaria da pol\u00edcia dispersou manifestantes que quebraram barris de cerveja diante da f\u00e1brica da Antartica, segundo o jornal <i>O Estado de S. Paulo<\/i>, que noticiou o confronto.<\/p>\n<p>&#8220;A partir da\u00ed, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de S\u00e3o Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeir\u00e3o Preto. At\u00e9 Po\u00e7os de Caldas, no sul de Minas, que n\u00e3o era uma cidade industrial, teve movimentos de greve&#8221;, afirma o historiador.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E1CA\/production\/_95820875_hi4082p.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Cortejo f\u00fanebre do sapateiro Martinez, morto em confrontos com a pol\u00edcia\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO EDGAR LEUENROTH | UNICAMP<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Repress\u00e3o a grevistas aumentou a ades\u00e3o de trabalhadores \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o, diz historiador<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Negocia\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Em 16 de julho &#8211; mais de um m\u00eas ap\u00f3s o in\u00edcio da paralisa\u00e7\u00e3o no Cotonif\u00edcio Crespi &#8211; um acordo entre autoridades, organiza\u00e7\u00f5es trabalhistas e industriais, mediado por jornalistas, p\u00f4s fim \u00e0 greve em S\u00e3o Paulo. Mais ainda n\u00e3o era o fim da greve geral.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 em S\u00e3o Paulo a greve de fato terminou com uma negocia\u00e7\u00e3o \u00fanica. No Rio e em Porto Alegre, os movimentos tiveram dimens\u00f5es gerais, mas s\u00f3 terminaram na medida em que cada setor chegava a um acordo com seu patronato. O ritmo de sa\u00edda da greve foi aos poucos, assim como a ades\u00e3o&#8221;, explica Batalha.<\/p>\n<p>Segundo Biondi, at\u00e9 mesmo na cidade de S\u00e3o Paulo ainda havia categorias entrando em greve no dia 18 de julho, como os pedreiros. Parte dos empres\u00e1rios se recusava a assinar os acordos e queria negociar condi\u00e7\u00f5es diretamente com os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mesmo com a assinatura dos acordos, a consolida\u00e7\u00e3o dos direitos s\u00f3 viria em 1943, durante o regime de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>&#8220;O que acontecia muitas vezes na \u00e9poca \u00e9 que algo era obtido com uma greve, passava-se algum tempo e essa reivindica\u00e7\u00e3o voltava para nada&#8221;, diz Claudio Batalha.<\/p>\n<p>&#8220;Em 1907, tamb\u00e9m houve uma s\u00e9rie de greves pedindo a jornada de trabalho de oito horas. E elas chegaram a diminuir, mas, depois de algum tempo, o patronato voltou a estabelecer as jornadas anteriores. O mesmo ocorreu ap\u00f3s 1917.&#8221;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da primeira greve geral tamb\u00e9m fez com que os empres\u00e1rios se preparassem para enfrentar futuras paralisa\u00e7\u00f5es &#8211; o que tornou novas negocia\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis para os trabalhadores.<\/p>\n<p>&#8220;Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917 \u00e9 que as f\u00e1bricas n\u00e3o tinham estoques. Quando os oper\u00e1rios paravam, n\u00e3o havia produtos nas lojas. A partir da\u00ed, eles passaram a ter grandes estoques, e podiam permanecer sem funcionar um certo per\u00edodo porque tinham produ\u00e7\u00e3o para vender.&#8221;<\/p>\n<p>Batalha lembra, no entanto, que o acordo s\u00f3 surgiu depois que &#8220;a greve atingiu dimens\u00f5es tais que n\u00e3o tinha mais como controlar o movimento&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira tentativa de lidar com a greve foi de repress\u00e3o. Essa era a t\u00f4nica do per\u00edodo, tanto que houve mortes. Parte do processo de amplia\u00e7\u00e3o da greve, inclusive, se deveu a essas mortes.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje a solu\u00e7\u00e3o repressiva pode ser um desservi\u00e7o \u00e0s autoridades. Se a gente pensar nos protestos de 2013, a virada no n\u00famero de pessoas em S\u00e3o Paulo foi quando houve uma repress\u00e3o desproporcional \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13D5B\/production\/_95834218_greve4.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Jornal A Gazeta de 11 de julho de 1917\" width=\"696\" height=\"392\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">REPRODU\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Depois de tomar capital paulista, movimento de paralisa\u00e7\u00e3o se espalhou pelo interior do Estado e chegou a Rio e Porto Alegre<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ideologia<\/h2>\n<p>Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na ind\u00fastria t\u00eaxtil deram in\u00edcio a protestos e a uma paralisa\u00e7\u00e3o que teria consequ\u00eancias ainda maiores do outro lado do mundo: a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>Os protestos come\u00e7aram contra a escassez de alimentos no pa\u00eds e rapidamente ganharam a ades\u00e3o de outros trabalhadores e a simpatia das for\u00e7as de seguran\u00e7a. Ao fim de uma semana, a mornaquia russa chegava ao fim, abrindo caminho para a revolu\u00e7\u00e3o comunista, no fim daquele ano.<\/p>\n<p>&#8220;Essa greve tamb\u00e9m \u00e9 importante porque mostra a conex\u00e3o do Brasil com o resto do mundo. Naquele ano, greves como aquela ocorreram em diversos pa\u00edses&#8221;, diz Luigi Biondi.<\/p>\n<p>Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a S\u00e3o Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organiza\u00e7\u00e3o do movimento.<\/p>\n<p>&#8220;Por causa da R\u00fassia, eles tinham a ideia de que aquilo poderia levar a uma insurrei\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Isso n\u00e3o ocorreu, mas a cidade foi tomada. Pela primeira vez isso espantou as elites do pa\u00eds, que come\u00e7aram a se dar conta de que a quest\u00e3o social urbana era grave e tinha que ser considerada.&#8221;<\/p>\n<p>Batalha acha que as correntes socialistas &#8220;tinham certa lideran\u00e7a&#8221;, mas que sua influ\u00eancia era maior sobre trabalhadores qualificados.<\/p>\n<p>&#8220;O que faz com que uma greve funcione \u00e9 que as pessoas sintam que aquele estado de coisas chegou ao limite. Uma das caracter\u00edsticas importantes de 1917 \u00e9 que, pela primeira vez, setores que n\u00e3o participavam desse tipo de movimento come\u00e7aram a participar.&#8221;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Camilla Costa d<\/strong><strong>a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo<\/strong><strong>\u2013 dispon\u00edvel na internet 29\/04\/2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em junho de 1917, d\u00e9cadas antes da consolida\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 oper\u00e1rios &#8211; em sua maioria mulheres &#8211; da f\u00e1brica t\u00eaxtil Cotonif\u00edcio Crespi na Mooca, em S\u00e3o Paulo, paralisaram suas atividades. 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