{"id":12667,"date":"2017-05-01T00:07:57","date_gmt":"2017-05-01T03:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12667"},"modified":"2017-04-30T09:48:06","modified_gmt":"2017-04-30T12:48:06","slug":"o-impacto-da-greve-nao-e-imediato-mas-alinhou-setores-da-populacao-que-estavam-dispersos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/05\/01\/o-impacto-da-greve-nao-e-imediato-mas-alinhou-setores-da-populacao-que-estavam-dispersos\/","title":{"rendered":"\u201cO impacto da greve n\u00e3o \u00e9 imediato, mas alinhou setores da popula\u00e7\u00e3o que estavam dispersos\u201d"},"content":{"rendered":"<p>A despeito da popularidade em baixa, e de cr\u00edticas \u00e0s\u00a0reformas trabalhista\u00a0e\u00a0previdenci\u00e1ria\u00a0por parte de setores da sociedade, o\u00a0Governo Temer\u00a0mant\u00e9m seu cronograma de pautas no Congresso com sucesso. Sexta-feira, 28, a greve geral chamada por centrais sindicais em diversos estados brasileiros representou um teste de for\u00e7a para o avan\u00e7o das reformas encabe\u00e7adas pelo Governo. Adrian Lavalle, cientista pol\u00edtico da Universidade S\u00e3o Paulo (USP) e pesquisador do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap), conversou com o EL PA\u00cdS para comentar as movimenta\u00e7\u00f5es sociais e o impacto que elas podem causar no andamento pol\u00edtico de Bras\u00edlia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><strong> Pergunta.<\/strong>\u00a0Segundo pesquisa divulgada nesta semana pelo Instituto Ipsos, o\u00a0apoio ao Governo Temer caiu para cerca de 4%, enquanto 92% dos brasileiros acham que o pa\u00eds est\u00e1 no rumo errado. Qual \u00e9 o impacto real que esses \u00edndices t\u00eam sobre Bras\u00edlia?<\/p>\n<p><strong> Resposta.<\/strong>\u00a0N\u00e3o existe nenhuma regra autom\u00e1tica de convers\u00e3o dos clamores populares na atua\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos. Enquanto o mundo da pol\u00edtica tem suas pr\u00f3prias regras, l\u00f3gicas e interesses, os atores sociais com capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Esses universos s\u00f3 se encontram quando as ruas v\u00e3o de encontro aos interesses pol\u00edticos, como aconteceu no caso do\u00a0impeachment de Dilma Rousseff. Naquele caso, os pol\u00edticos se arvoraram no papel de int\u00e9rpretes dos anseios populares. Agora, o discurso mais comum \u00e9 que as mobiliza\u00e7\u00f5es, como as que ocorreram nesta sexta-feira, sejam tachadas de baderna.<\/p>\n<ol>\n<li>Tendo isso em vista, qual voc\u00ea acredita que ser\u00e1 o reflexo imediato da chamada Greve Geral desta sexta-feira no mundo pol\u00edtico? No final do dia, Temer j\u00e1 publicava nota em que minimizou os atos e disse que as reformas continuariam a ser discutidas no \u00e2mbito do Congresso&#8230;<\/li>\n<li>O eleitorado \u00e9 uma esp\u00e9cie de espantalho sazonal para os pol\u00edticos: conforme as elei\u00e7\u00f5es v\u00e3o se aproximando, eles v\u00e3o entrando no prumo. Assim ,faltando um ano e meio para as elei\u00e7\u00f5es de 2018, acredito que a mobiliza\u00e7\u00e3o levante preocupa\u00e7\u00f5es nos parlamentares em rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 sendo votado em Bras\u00edlia. A mobiliza\u00e7\u00e3o mostrou que as reformas afetam interesses de setores com capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a vota\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista mostrou que o Governo pode n\u00e3o conseguir votos suficientes para aprovar uma reforma constitucional, que \u00e9 o caso da reforma da Previd\u00eancia. H\u00e1 parlamentares na base de apoio do Governo, e dentro do pr\u00f3prio PMDB, fazendo c\u00e1lculos pol\u00edticos para a aprova\u00e7\u00e3o das reformas. Agora, \u00e9 ineg\u00e1vel que essa foi a maior mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra o Governo desde o impeachment de Dilma. A estrat\u00e9gia de Temer, claro, ser\u00e1 minimizar o impacto da greve para avan\u00e7ar com as pautas. \u00c9 uma disputa de discurso.<\/li>\n<li>Mas em sua opini\u00e3o, no que a mobiliza\u00e7\u00e3o desta sexta-feira se diferencia de outras manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias a medidas do Governo Temer?<\/li>\n<li>Em compara\u00e7\u00e3o com a outra paralisa\u00e7\u00e3o, do dia 15 de mar\u00e7o, em que quase duas dezenas de Estados teve categorias promovendo atos, esta greve geral teve uma capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o bem maior. Isso ficou claro do ponto de vista de cobertura nacional e tamb\u00e9m da quantidade de setores mobilizados. O que mais chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que diferentes setores que n\u00e3o vinham se mobilizado, aderiram \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es desta sexta-feira. Por exemplo, n\u00e3o \u00e9 uma surpresa que a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) se mobilize, mas \u00e9 interessante notar que a For\u00e7a Sindical, que apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, acusou o golpe das reformas e participou da greve. Al\u00e9m disso, h\u00e1 setores, como o dos professores particulares, que aderiram aos atos. Isso \u00e9 uma surpresa. O impacto dessa greve geral n\u00e3o \u00e9 imediato, mas d\u00e1 ind\u00edcios de certo alinhamento de setores organizados da popula\u00e7\u00e3o que estavam dispersos.<\/li>\n<li>Voc\u00ea fala em setores organizados. Acredita que a mobiliza\u00e7\u00e3o contra pautas que tem efeito concreto na vida das pessoas, como a reforma da Previd\u00eancia, pode, de algum modo, fazer com que grupos de espectros pol\u00edticos diferentes saiam \u00e0s ruas juntos, mais ou menos como ocorreu em 2013?<\/li>\n<li>\u00c9 dif\u00edcil. O Brasil est\u00e1 muito clivado. H\u00e1 a novidade hist\u00f3ria recente do pa\u00eds que \u00e9 a clivagem ideol\u00f3gica. A direita, os conservadores, est\u00e3o organizados e vocalizando suas posi\u00e7\u00f5es claramente. Essa clivagem n\u00e3o tem a ver com classe social, ela \u00e9 transversal e alinha grupos sociais com posi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas diversas. Esse fator dividiu as ruas brasileiras nos \u00faltimos anos. Por outro lado, as reformas podem fazer com que o lado da chamada \u201cesquerda social\u201d, que ficou com pouca capacidade de atra\u00e7\u00e3o de segmentos populacionais mais amplos \u2013 basicamente por causa dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o recentes \u2013, ganhe for\u00e7a novamente. Nesta sexta-feira, a novidade foi que setores tradicionais do campo da esquerda, como a<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cut_central_unica_trabalhadores\/a\">CUT<\/a>, conseguiram fazer com que outros setores, que estavam dispersos, aderissem \u00e0 greve.<\/li>\n<li>A despeito de manifesta\u00e7\u00f5es e cr\u00edtica, a quantidade e profundidade de pautas com que o Congresso tem trabalhado \u00e9 muito alta. Ao que se deve isso?<\/li>\n<li>O Governo tem mostrado, desde o come\u00e7o, que representa um realinhamento do que foi o teor das pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o s\u00f3 dos Governos petistas, mas tamb\u00e9m do PSDB. O processo de amplia\u00e7\u00e3o de direitos vem desde a Constituinte e sempre foi mais ou menos cont\u00ednuo. O que acontece agora \u00e9 que a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma est\u00e1 sendo usada pelo Governo como se ele tivesse recebido um mandato. E isso \u00e9 espantoso. Voc\u00ea pode discordar do m\u00e9rito da destitui\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma discuss\u00e3o, mas o que de fato \u00e9 dif\u00edcil de discordar \u00e9 que a destitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa novo mandato. O que se tem visto \u00e9 uma virul\u00eancia muito grande no ataque de conquistas sociais que o pa\u00eds veio obtendo progressivamente\u00a0nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/li>\n<li>Mas por que isso n\u00e3o tem se revertido em dificuldades para o Governo aprovar suas pautas?<\/li>\n<li>Em primeiro lugar, porque ele tem uma base aliada ainda muito grande. Em segundo, porque Temer, mesmo pelo acordo que fez especificamente com o PSDB, de n\u00e3o procurar a reelei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem compromisso com sua popularidade. Ele poderia at\u00e9 ter repensando suas a\u00e7\u00f5es, caso, em algum momento, tivesse obtido algum tipo de aprova\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Contudo, com o andamento dos acontecimentos \u2013 esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, falta de credibilidade geral de pol\u00edticos, crise econ\u00f4mica \u2013, ele acabou ganhando certa liberdade para empurrar decis\u00f5es sem que precise se preocupar com o retorno pol\u00edtico eleitoral. Resta saber se isso vai continuar valendo para o Congresso.<\/li>\n<li>Como voc\u00ea avalia o papel dos sindicatos nas mobiliza\u00e7\u00f5es desta sexta?<\/li>\n<li>Os sindicatos t\u00eam uma face positiva e outra negativa. Obviamente, eles procuram um conjunto de benef\u00edcios que, por vezes, n\u00e3o s\u00e3o os melhores para as atividades fins com quais eles est\u00e3o envolvidos. Por outro lado, apesar dos poss\u00edveis excessos, a face importante \u00e9 que os sindicatos surgiram justamente para negociar por aqueles que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de conversar em p\u00e9 de igualdade. Quando voc\u00ea tem dois polos de negocia\u00e7\u00e3o e um deles \u00e9 muito mais fraco, n\u00e3o h\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Foi isso que, historicamente o movimento sindical conseguiu mostrar. Os sindicatos, assim, entram como intermedi\u00e1rios, para organizar a capacidade coletiva dos trabalhadores de negociar. Boa parte do que conhecemos hoje como direitos trabalhistas fundamentais, n\u00e3o teriam surgido n\u00e3o fossem por eles. A queda de bra\u00e7o entre os movimentos sindicais e a reforma trabalhista do Governo continuar\u00e1 forte.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Andr\u00e9 de Oliveira \/El Pa\u00eds Brasil \u2013 dispon\u00edvel na internet 01\/05\/2017<br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A despeito da popularidade em baixa, e de cr\u00edticas \u00e0s\u00a0reformas trabalhista\u00a0e\u00a0previdenci\u00e1ria\u00a0por parte de setores da sociedade, o\u00a0Governo Temer\u00a0mant\u00e9m seu cronograma de pautas no Congresso com sucesso. Sexta-feira, 28, a greve geral chamada por centrais sindicais em diversos estados brasileiros representou um teste de for\u00e7a para o avan\u00e7o das reformas encabe\u00e7adas pelo Governo. 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