{"id":12675,"date":"2017-05-01T00:10:53","date_gmt":"2017-05-01T03:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12675"},"modified":"2017-04-30T10:23:48","modified_gmt":"2017-04-30T13:23:48","slug":"sobre-a-baleia-azul-e-as-tecnologias-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/05\/01\/sobre-a-baleia-azul-e-as-tecnologias-da-morte\/","title":{"rendered":"Sobre a \u201cBaleia azul\u201d e as tecnologias da morte."},"content":{"rendered":"<p>O fen\u00f4meno macabro<a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/artigo\/por-que-os-adolescentes-se-expoem-aos-riscos-do-baleia-azul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0&#8220;Baleia Azul&#8221;\u00a0<\/a>ganha destaque, com justificada raz\u00e3o, entre os assuntos que v\u00eam preocupando o mundo (guerra na S\u00edria, elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, guerra nuclear da Coreia do Norte, as j\u00e1 conhecidas investidas de Donald Trump). O fen\u00f4meno \u00e9 dinamizado pela execu\u00e7\u00e3o gradativa de 50 desafios que v\u00e3o desde a automutila\u00e7\u00e3o at\u00e9 o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Quem estabelece as regras e prop\u00f5e os reptos \u00e9 um mentor, uma esp\u00e9cie de l\u00edder, geralmente adulto, que ordena a realiza\u00e7\u00e3o da tarefa do dia com a garantia de provas (os participantes s\u00e3o obrigados a enviarem fotos do trabalho feito).<\/p>\n<p>Segundo consta, \u201cBaleia Azul\u201d prov\u00e9m de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/a-pos-verdade-e-a-miseria-do-jornalismo-contemporaneo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fake news<\/a>\u00a0(not\u00edcias falsas), gestadas na R\u00fassia em 2015.<\/p>\n<p>O boato inspirou grupos a torn\u00e1-lo exequ\u00edvel: uma jovem de 15 anos pulou do alto de um edif\u00edcio, a sua tarefa de n\u00famero 50. Dias depois, uma adolescente de 14 anos se atirou na frente de um trem. Ficamos alerta com a associa\u00e7\u00e3o de 130 suic\u00eddios a grupos da morte virtuais. Outras trag\u00e9dias supostamente motivadas pelo jogo foram observadas em pa\u00edses como a Inglaterra, Fran\u00e7a e Rom\u00eania.<\/p>\n<figure id=\"attachment_12677\" aria-describedby=\"caption-attachment-12677\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12677 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg?resize=300%2C200\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg?resize=696%2C464&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg?resize=630%2C420&amp;ssl=1 630w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/baleia.jpeg?w=768&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12677\" class=\"wp-caption-text\">Jovens precisam desenhar utopicamente o horizonte dos seus desejos. Quando as m\u00e1quinas exercem essa tarefa por n\u00f3s, nos esvaziamos de fantasias<\/figcaption><\/figure>\n<p>No Brasil, algumas ocorr\u00eancias assustam: uma menina de 16 anos morreu no Mato Grosso ap\u00f3s se afogar em uma lagoa com cortes nos bra\u00e7os, ind\u00edcio de que participava do jogo da \u201cBaleia Azul\u201d.Em Jo\u00e3o Pessoa estudantes participam de grupos de automutila\u00e7\u00e3o e morte. Em 2015, um garoto de 13 anos se enforcou na casa do pai, no litoral sul da capital paulista, em condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s v\u00edtimas do jogo.<\/p>\n<p><strong>Um sintoma do mundo como ele \u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Inescapavelmente, esses acontecimentos nos fazem pensar sobre um fen\u00f4meno que certamente n\u00e3o \u00e9 novo (suic\u00eddio entre a popula\u00e7\u00e3o jovem), mas que ganha impulso renovado com um jogo que se desdobra nas malhas da tecnologia.<\/p>\n<p>S\u00e3o m\u00faltiplos os port\u00f5es de acesso que nos levam a alguns endere\u00e7os de reposta (como diria Kafka, as portas s\u00e3o inumer\u00e1veis, a sa\u00edda \u00e9 uma s\u00f3, mas as possibilidades de sa\u00edda s\u00e3o t\u00e3o numerosas quanto as portas).<\/p>\n<p>Entre os vereditos, afirmamos e reafirmamos que esse tipo de jogo, dinamizado por um l\u00edder, vem ganhando \u00eaxito porque se dirige fundamentalmente a adolescentes e jovens, fase em que estamos mais expostos a influ\u00eancias terceiras.<\/p>\n<p>Engorda o escopo das justificativas o argumento segundo o qual s\u00e3o eles (adolescentes e jovens) que passam mais tempo expostos \u00e0 internet e \u00e0s redes sociais, o que os torna alvos f\u00e1ceis dos serial killers virtuais, denomina\u00e7\u00e3o atribu\u00edda aos desafiantes.<\/p>\n<p>Mas, pera! O que dizer dos desafios que n\u00f3s adultos aceitamos, sem resist\u00eancia, no tecnocosmos, ainda que a servi\u00e7o do bem comum?<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, em novembro de 2015 escrevi artigo cujo fragmento se aplica a essa quest\u00e3o: N\u00e3o \u00e9 mais novidade que a Internet, com as redes sociais na dianteira, tornou-se quase um habitat natural de campanhas e desafios que convocam temporariamente o engajamento das pessoas.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o se lembra do desafio do \u201cbalde de gelo\u201d, que consistia em solicitar a participa\u00e7\u00e3o de celebridades para que se autoinfligissem um banho de \u00e1gua gelada e, ato cont\u00ednuo, doassem dinheiro para o desenvolvimento de pesquisas sobre a esclerose lateral amiotr\u00f3fica?<\/p>\n<p>Espelhando-se em gente famosa, pessoas comuns mimetizaram o ato, o que garantiu visibilidade planet\u00e1ria ao combate \u00e0 doen\u00e7a, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida para muitos.<\/p>\n<p>Como contestar pesquisas e dados que demonstram que a figura do l\u00edder n\u00e3o \u00e9 uma\u00a0 necessidade exclusiva de jovens e adolescentes?<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Psicologia de grupo e an\u00e1lise de ego<\/em>\u00a0(1921),\u00a0Freud\u00a0analisou a morfologia de grupos, atento aos comportamentos de indiv\u00edduos. A figura do l\u00edder cria la\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o, segundo ele, que nos mant\u00e9m atados aos outros e a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Adicionalmente, podemos dizer que n\u00e3o existem dist\u00e2ncias telesc\u00f3picas entre o tempo dispensado por jovens e adultos na internet. Uma vez que a gest\u00e3o da vida passa pelos espa\u00e7os digitais, mergulhamos profunda e demoradamente no oceano da cibercultura.<\/p>\n<p>Sem desconsiderar completamente esses dois fatores, a saber, que os adolescentes e jovens s\u00e3o influenciados mais facilmente\u00a0 e hoje passam mais tempo frente \u00e0s telas, suponho ser necess\u00e1rio dar mais algumas voltas no parafuso para se chegar a um ponto em que podemos avistar algo de \u201cnovo\u201d ou \u201cespec\u00edfico\u201d neste tipo de jogo.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chull Han, atualmente professor da Universidade de Berlim, \u00e9 um desses port\u00f5es de acesso capaz de nos levar a outras camadas de reflex\u00e3o sobre o \u201cBaleia Azul\u201d.<\/p>\n<p>Para ele, a sociedade de desempenho (que substitui a sociedade disciplinar) prima pelo excesso de positividade. Somos teleguiados pela l\u00f3gica do excesso (super-comunica\u00e7\u00e3o, super-rendimento, super-produ\u00e7\u00e3o), que nos quer sempre ocupados, respondendo aos est\u00edmulos que n\u00e3o param de nos cortejar frente \u00e0s telas, agora ub\u00edquas.<\/p>\n<p>Nesta sociedade de desempenho, devemos ser designs de nosso pr\u00f3prio destino, gestores e gerentes de nossa vida e realidade, estar em perp\u00e9tua atividade, a tal ponto de sermos designados como seres multitarefa.<\/p>\n<p>Hipervisibilizamos tudo ou quase tudo que fazemos e experimentamos, sempre a\u00e7ulados pelos comandos de uma m\u00e1quina (olha a que pode nos levar as perguntas \u201cinocentes\u201d do facebook: o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo\/pensando?).<\/p>\n<p><strong>Subvers\u00e3o da l\u00f3gica dos desejos<\/strong><\/p>\n<p>Nessa atmosfera de excesso de positividade, as m\u00e1quinas \u2013 normalmente um smartphone \u2013 devem oferecer tudo que queremos e desejamos.<\/p>\n<p>Comentei em outro artigo, por ocasi\u00e3o da febre do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/outras-palavras\/pokemon-e-o-sequestro-do-desejo\">Pokemon Go<\/a>\u00a0(curiosamente outro jogo), que os aparelhos nunca desligam porque precisam oferecer n\u00e3o somente o que desejamos, mas tamb\u00e9m precisam dizer o que desejamos, demonstrando possuir um saber sobre o nosso desejo.<\/p>\n<p>Talvez resida a\u00ed, nesse esquadrinhamento dos desejos, umas das chaves explicativas para a ades\u00e3o ao jogo da morte. Jovens precisam desenhar utopicamente o horizonte dos seus desejos (n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que uma das palavras de ordem do movimento estudantil de maio de 1968 foi \u201cSejamos realistas, pe\u00e7amos o imposs\u00edvel\u201d).<\/p>\n<p>Quando as m\u00e1quinas exercem essa tarefa por n\u00f3s, nos esvaziamos de fantasias, recurso que sustenta o desejo, e um sujeito esvaziado de fantasia, ensina a psican\u00e1lise, \u00e9 um sujeito d\u00e9bil para a produ\u00e7\u00e3o de la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Do excesso de onde parece n\u00e3o caber mais nada, que n\u00e3o oferece brechas (brechas s\u00e3o o que define a arte, diria Walter Benjamim), instala-se o vazio que se v\u00ea preenchido por um ac\u00famulo de distopias, as antiutopias que nos instalam em lugar ou estado imagin\u00e1rio em condi\u00e7\u00f5es de extrema opress\u00e3o, desespero ou priva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe-se que as tecnologias n\u00e3o inauguram esses estados de distopia, mas elas os reconfiguram ensaiando alguns tra\u00e7os in\u00e9ditos. E, ao que parece, s\u00e3o esses tra\u00e7os que vem alimentando uma plataforma de vida assaz pesada que limita, ou at\u00e9 mesmo interdita, os voos das\u00a0 asas da nossa imagina\u00e7\u00e3o para outros lugares n\u00e3o pontuados pelas regras do super-rendimento e da hiperprodutividade.<\/p>\n<p>Jovens, mais do que ningu\u00e9m, precisam voar (antes saiam de casa mais cedo, hoje ficam adultos sob o teto familiar).<\/p>\n<p>Se tal situa\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente para algu\u00e9m desistir de jogar o jogo da vida, \u00e9 dif\u00edcil de vaticinar.<\/p>\n<p>Mas, convenhamos, participar de um mundo marcado pelos excessos \u00e9 atentar contra a vida na sua trajet\u00f3ria errante, por vezes dolorosa, mas compensadora quando criamos condi\u00e7\u00f5es para a concep\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o dos nossos desejos, que se constituem fundamentalmente pela falta e n\u00e3o pelo excesso. Somos desejantes, porque faltantes.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso desejar para al\u00e9m do que as m\u00e1quinas nos oferecem (Netflix, Ifood, OpenRice, JustEat, Uber; Tinder ou ao Grindr). Na impossibilidade de querermos algo para al\u00e9m do que as m\u00e1quinas acreditam que queremos, s\u00f3 nos resta aceitar, ceder e executar, achando que temos o controle e somos empreendedores de nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u201cSabe nada inocente\u201d, j\u00e1 diria o \u201cfil\u00f3sofo\u201d compadre Washington!<\/p>\n<p>Provavelmente, esses jovens est\u00e3o se dando conta dessas limita\u00e7\u00f5es e ousam responder a pergunta que habita as p\u00e1ginas do famoso livro A insustent\u00e1vel leveza do ser: \u201cEnt\u00e3o, o que escolher? O peso ou a leveza?\u201d.<\/p>\n<p>Infelizmente, a resposta que est\u00e1 sendo dada pelos jogadores do\u201cBaleia Azul\u201d sucumbe \u00e0 voracidade da m\u00e1quina, a grande sequestradora dos desejos nestes tempos bicudos.<\/p>\n<p><strong>Artigo p<em>ublicado <\/em><em>dia 27\/04\/2017 <\/em><em>na pagina d<\/em><em>a revista Carta Capital<\/em><em> \u2013 dispon\u00edvel na internet<\/em><em> 01\/05<\/em><em>\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fen\u00f4meno macabro\u00a0&#8220;Baleia Azul&#8221;\u00a0ganha destaque, com justificada raz\u00e3o, entre os assuntos que v\u00eam preocupando o mundo (guerra na S\u00edria, elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, guerra nuclear da Coreia do Norte, as j\u00e1 conhecidas investidas de Donald Trump). O fen\u00f4meno \u00e9 dinamizado pela execu\u00e7\u00e3o gradativa de 50 desafios que v\u00e3o desde a automutila\u00e7\u00e3o at\u00e9 o suic\u00eddio. 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