{"id":12928,"date":"2017-05-10T03:15:12","date_gmt":"2017-05-10T06:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=12928"},"modified":"2017-05-10T03:15:12","modified_gmt":"2017-05-10T06:15:12","slug":"tres-trabalhos-cientificos-que-podem-mudar-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/05\/10\/tres-trabalhos-cientificos-que-podem-mudar-o-mundo\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas trabalhos cient\u00edficos que podem mudar o mundo."},"content":{"rendered":"<p>Todos os anos as revistas cient\u00edficas publicam centenas de artigos. O valor deles varia entre os que tempos depois ser\u00e3o desmascarados como completas falsidades at\u00e9 aqueles que mudar\u00e3o o mundo, como os quatro artigos com os quais\u00a0Albert Einstein\u00a0revolucionou a f\u00edsica em 1905, ou as duas p\u00e1ginas na\u00a0<em>Nature<\/em>em que James Watson e Francis Crick fizeram o mesmo com a biologia. Para ajudar a escolher melhor o que ler entre tanto material, a editora\u00a0<em>Springer Nature<\/em>, gigante das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, quer propor uma sele\u00e7\u00e3o dos trabalhos publicados em suas revistas de modo a destacar os que t\u00eam maior potencial de transformar nosso mundo. A multinacional, que tem quase 13.000 funcion\u00e1rios e um faturamento equivalente a 5,2 bilh\u00f5es de reais por ano, criou uma iniciativa chamada\u00a0Change the World, One Article at a Time\u00a0(&#8220;Mude o mundo, um artigo por vez&#8221;), com a qual seleciona os 180 trabalhos de todas as disciplinas cient\u00edficas que, consideram, ter\u00e3o mais impacto social. Aqui fazemos refer\u00eancia apenas a tr\u00eas deles, mas na sele\u00e7\u00e3o, que ter\u00e1 livre acesso at\u00e9 agosto deste ano, podem ser encontrados alguns dos \u00faltimos achados em tecnologia energ\u00e9tica, ci\u00eancias sociais e investiga\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica, entre outros campos.<\/p>\n<ol>\n<li>Como nossos h\u00e1bitos afetam nossos filhos e netos<\/li>\n<\/ol>\n<p>Recentemente, esta ideia seria considerada uma heresia cient\u00edfica. O\u00a0genoma\u00a0se transmitia aos filhos sem refletir a vida que o pai havia levado. A fus\u00e3o entre o espermatozoide e o \u00f3vulo era como um reset no qual se criava um novo indiv\u00edduo, com uma informa\u00e7\u00e3o que refletia o acervo do pai e da m\u00e3e, mas n\u00e3o as mudan\u00e7as acumuladas ao longo de suas vidas.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado na\u00a0<em>Nature Reviews Endocrinology<\/em>, Romain Barr\u00e8s e Juleen R. Zierath, pesquisadores da Universidade de Copenhague (Dinamarca), oferecem uma vis\u00e3o do que se sabe sobre a influ\u00eancia dos h\u00e1bitos paternos na sa\u00fade das gera\u00e7\u00f5es posteriores, em especial no que se refere \u00e0 diabetes tipo 2. Essa doen\u00e7a, que se caracteriza por altos n\u00edveis de a\u00e7\u00facar no sangue e resist\u00eancia \u00e0 insulina, est\u00e1 crescendo na esteira da\u00a0epidemia global de obesidade.<\/p>\n<p><strong>A desnutri\u00e7\u00e3o nas primeiras fases da vida pode predispor posteriormente \u00e0 obesidade<\/strong><\/p>\n<p>Segundo os autores, foram identificadas 100 variantes gen\u00e9ticas que explicam 10% da predisposi\u00e7\u00e3o a essa doen\u00e7a. O resto do car\u00e1ter heredit\u00e1rio da diabetes poderia ser explicado pela epigen\u00e9tica, ou seja, as modifica\u00e7\u00f5es produzidas pelo ambiente na atividade dos genes. Observou-se, por exemplo, que uma m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o infantil (ou mesmo no est\u00e1gio intrauterino) est\u00e1 associada a doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o e do metabolismo muitos anos depois. Imagina-se que, quando um feto ou uma crian\u00e7a se v\u00ea privado de alimento nas etapas iniciais do seu desenvolvimento, o organismo se reprograma para enfrentar uma vida de fome. Se mais adiante essa pessoa tiver um acesso abundante \u00e0 comida, estar\u00e1 mais propensa \u00e0 obesidade e a doen\u00e7as como a diabetes.<\/p>\n<p>Estudos epidemiol\u00f3gicos realizados com pessoas que passam fome durante guerras permitiram observar que essas mudan\u00e7as no metabolismo podem ser transmitidas aos filhos e inclusive aos netos. Em experimentos com animais, viu-se que pais que consumiam muita gordura podiam desenvolver resist\u00eancia \u00e0 insulina em v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p>O artigo tamb\u00e9m fala dos benef\u00edcios que o exerc\u00edcio pode propiciar \u00e0 prole. Em estudos com ratos, observou-se que se os pais fizerem exerc\u00edcio os filhotes machos pesam menos e t\u00eam menos gordura, enquanto as f\u00eameas desenvolvem mais m\u00fasculos e toleram melhor a glicose.<\/p>\n<p>Os autores apontam que, apesar de terem sido observados efeitos como os mencionados, sabe-se pouco sobre os mecanismos que os produzem, e por isso eles ressaltam a import\u00e2ncia de compreend\u00ea-los melhor para poder desenhar tratamentos e pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade. Para recordar a complexidade desses mecanismos, eles lembram um artigo no qual se mostra que o exerc\u00edcio dos pais pode ser prejudicial para os filhos. O trabalho, realizado com ratos e assinado por pesquisadores da Universidade do Leste da Carolina (EUA), mostrava que quando os pais se exercitavam de forma regular durante muito tempo as crias ficavam programadas para uma vida de pouco gasto energ\u00e9tico. Isso fazia com que os ratos fossem mais propensos \u00e0 obesidade.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>O problema do excesso de higiene<\/li>\n<\/ol>\n<p>As melhoras na higiene produziram muitos benef\u00edcios para a sa\u00fade, mas \u00e9 poss\u00edvel que tamb\u00e9m tenham tido alguns efeitos secund\u00e1rios. Isto \u00e9 o que tenta explicar outro dos artigos selecionados pela\u00a0<em>Springer Nature<\/em>. Em um trabalho liderado por Christopher Lowry, da Universidade do Colorado em Boulder, conta-se como a falta de exposi\u00e7\u00e3o a alguns micr\u00f3bios com os quais convivemos h\u00e1 mil\u00eanios pode ter nos deixado com um sistema imunol\u00f3gico &#8220;destreinado&#8221;.<\/p>\n<p>No sistema de defesa do organismo contra os agentes patog\u00eanicos, a inflama\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. Entretanto, esse mecanismo tamb\u00e9m pode produzir doen\u00e7as. Sabe-se que a inflama\u00e7\u00e3o pode causar problemas psiqui\u00e1tricos, como a depress\u00e3o, algo observado por exemplo em pessoas que receberam inje\u00e7\u00f5es de interferon-alfa, um tratamento para doen\u00e7as como a hepatite B e alguns tipos de c\u00e2ncer. As prote\u00ednas que comp\u00f5em esse medicamento produzem um efeito inflamat\u00f3rio, e isto por sua vez faz com que alguns pacientes se deprimam.<\/p>\n<p><strong>O excesso de higiene pode eliminar micr\u00f3bios que \u2018treinam\u2019 nosso sistema imunol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>A preval\u00eancia de doen\u00e7as causadas pela inflama\u00e7\u00e3o indesejada, como \u00e9 o caso das alergias e da asma, cresceu nos \u00faltimos anos. Entretanto, ainda n\u00e3o se conhecem bem os mecanismos que provocam esses efeitos. Uma das hip\u00f3teses propostas para explicar esse fen\u00f4meno \u00e9 a dos velhos amigos. Esta epidemia se deveria, em parte, a uma menor exposi\u00e7\u00e3o a micro-organismos com os quais convivemos e que treinam os circuitos que regulam o sistema imunol\u00f3gico e suprimem a inflama\u00e7\u00e3o inapropriada. A falta de contato com nossos velhos amigos tornaria os habitantes do mundo moderno mais vulner\u00e1veis a problemas do desenvolvimento neurol\u00f3gico, como o autismo e a esquizofrenia, ou a quest\u00f5es relacionadas com o estresse e a ansiedade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de propor um estudo mais aprofundado da rela\u00e7\u00e3o entre os micro-organismos com os quais convivemos e as falhas no sistema imunol\u00f3gico, os pesquisadores sugerem a possibilidade de tratar estas enfermidades com\u00a0probi\u00f3ticos. Neste sentido, recordam que j\u00e1 s\u00e3o usados sapr\u00f3fitos (um tipo de micr\u00f3bio que se alimenta de material em decomposi\u00e7\u00e3o) como imunoterapia em um teste cl\u00ednico com doentes de c\u00e2ncer. Embora n\u00e3o sirva para prolongar a vida dos pacientes, a exposi\u00e7\u00e3o a esses organismos melhorou sua capacidade cognitiva e sua sa\u00fade emocional.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>Mais drogas, menos crimes<\/li>\n<\/ol>\n<p>Nova York\u00a0\u00e9 um exemplo da redu\u00e7\u00e3o mundial da criminalidade das \u00faltimas d\u00e9cadas. Entretanto, como dizem tr\u00eas pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York em outro dos artigos selecionados, n\u00e3o existe uma explica\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria. O trabalho publicado na revista\u00a0<em>Dialectical Anthropology<\/em>\u00a0aponta que uma maior oferta de drogas ilegais e uma menor demanda pode estar por tr\u00e1s do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Nos EUA, 17% dos detentos est\u00e3o cumprindo pena por crimes cometidos para conseguir dinheiro para drogas. O aumento da oferta e a redu\u00e7\u00e3o da demanda estariam por tr\u00e1s de uma queda no pre\u00e7o dos entorpecentes e isso, por sua vez, reduziria a necessidade de cometer crimes para ter acesso a eles.<\/p>\n<p><strong>Nos EUA, 17% dos detentos est\u00e3o presos por crimes cometidos para conseguir dinheiro para drogas<\/strong><\/p>\n<p>Entre os poss\u00edveis motivos para a diminui\u00e7\u00e3o da criminalidade em Nova York (e no resto do mundo, embora de uma forma menos evidente) encontra-se a a\u00e7\u00e3o policial, a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto e at\u00e9 uma menor exposi\u00e7\u00e3o ao chumbo. No entanto, foi dif\u00edcil demonstrar uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade. No artigo, os autores apontam que, apesar da queda do pre\u00e7o da coca\u00edna e da hero\u00edna entre 1981 e 2007, n\u00e3o se estudou em detalhe a rela\u00e7\u00e3o entre isso e a diminui\u00e7\u00e3o dos crimes violentos e contra a propriedade que se observou no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Utilizando an\u00e1lises etnogr\u00e1ficas e econ\u00f4micas, consideram que sua hip\u00f3tese \u00e9 poss\u00edvel e que poderia ter efeitos sobre as pol\u00edticas antidrogas. Segundo eles, apesar de o aumento das pris\u00f5es e do n\u00famero de policiais ser normalmente associado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da delinqu\u00eancia, tamb\u00e9m existem an\u00e1lises que mostram que essas pol\u00edticas podem produzir efeitos contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dos pesquisadores, ao provocar uma queda na oferta e o consequente incremento nos pre\u00e7os dos entorpecentes, o combate \u00e0s drogas poderia ser contraproducente porque voltaria a fazer crescer o n\u00famero de crimes. Estudos posteriores para confirmar essa hip\u00f3tese poderiam ajudar a elaborar pol\u00edticas mais apropriadas para reduzir a criminalidade.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Daniel Medialla\/El Pa\u00eds Brasil \u2013 dispon\u00edvel na internet\u00a0 10\/05\/2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os anos as revistas cient\u00edficas publicam centenas de artigos. 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