{"id":13037,"date":"2017-05-13T07:20:31","date_gmt":"2017-05-13T10:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=13037"},"modified":"2017-05-13T07:20:31","modified_gmt":"2017-05-13T10:20:31","slug":"estrategia-de-confronto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/05\/13\/estrategia-de-confronto\/","title":{"rendered":"Estrat\u00e9gia de confronto."},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Os funcion\u00e1rios do Teatro Municipal acabam de nos mostrar que h\u00e1 outras formas de protesto, dando valor a seu trabalho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da greve, viralizou na internet a foto de um tapume. Nele, grande e leg\u00edvel, uma frase de minha autoria: \u201cA Biblioteca Nacional deve ser motivo de orgulho de todo brasileiro. Um sistema de boas bibliotecas p\u00fablicas \u00e9 essencial para a democracia: ao facilitar o acesso do cidad\u00e3o ao livro, ajuda a pensar por conta pr\u00f3pria, estimula a imagina\u00e7\u00e3o e alimenta as defesas contra o autoritarismo e a opress\u00e3o.\u201d Ao lado da cita\u00e7\u00e3o, um bando de policiais protegidos por escudos e capacetes, armados de cassetetes, rev\u00f3lveres \u00e0 cintura. N\u00e3o se sabe se prestes a atacar ou a se defender encolhidos. Mas dispostos ao embate f\u00edsico.<\/p>\n<p>O confronto que os tirava dos quarteis n\u00e3o seria por meio de livros ou debate de ideias tendo em vista o desenvolvimento da democracia. Outras imagens nos mostraram o lado de fora da foto. Havia manifestantes com faixas contra projetos em discuss\u00e3o no Congresso (que, ali\u00e1s, vem sofrendo invas\u00f5es estarrecedoras como a recente investida de agentes penitenci\u00e1rios a derrubar tudo o que encontravam pelo caminho, em dire\u00e7\u00e3o ao plen\u00e1rio). Protesto leg\u00edtimo. Mas em volta da Biblioteca naquela tarde, havia tamb\u00e9m mascarados, black blocs, provocadores a distribuir pancadaria e apedrejar passantes, lojas e escrit\u00f3rios. Gente que saiu de casa com o objetivo de transformar a manifesta\u00e7\u00e3o em campo de batalha.<\/p>\n<p>A esta altura da vida nacional, ainda n\u00e3o sabemos qual vai ser a sa\u00edda. Mas continuo batendo na mesma tecla: temos que superar essa estrat\u00e9gia de confronto. As coisas n\u00e3o podem ser ganhas no grito ou na marra. Essa exacerba\u00e7\u00e3o que vem h\u00e1 tempos nos jogando uns contra os outros n\u00e3o pode acabar bem. N\u00e3o deve ser admitida como caminho para resolver problemas. Os funcion\u00e1rios do Teatro Municipal acabam de nos mostrar que h\u00e1 outras formas de den\u00fancia e protesto, dando valor a seu trabalho quando trazem m\u00fasica e dan\u00e7a para uma apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, na pra\u00e7a, ganhando o apoio do p\u00fablico. Falta agora receber os sal\u00e1rios atrasados.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que est\u00e1 muito doente uma sociedade em que parlamentares querem anistiar uma pol\u00edcia que deixou a popula\u00e7\u00e3o ref\u00e9m da bandidagem, com um saldo de 199 assassinatos em poucos dias, como ocorreu no Esp\u00edrito Santo. Como achar normal que se multipliquem motins em pres\u00eddios, chacinas de lavradores, massacres de \u00edndios, fac\u00e7\u00f5es criminosas a trocar tiros e incendiar ve\u00edculos? E balas perdidas. E policiais mortos dia sim dia n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de buscar entendimento, sem dispensar a a\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. A \u00faltima coisa que se precisa agora \u00e9 mais incita\u00e7\u00e3o ao confronto. Como a bravata de Lula, diante das acusa\u00e7\u00f5es, com a amea\u00e7a de futuramente, \u201cmandar prender eles por mentir.\u201d Ignor\u00e2ncia? Irresponsabilidade? Presidente n\u00e3o tem poder de mandar prender. Quem pode fazer isso \u00e9 juiz ou delegado. O \u00faltimo presidente a sacar essa arma de vergonhosa mem\u00f3ria foi o General Figueiredo, com seu \u201cprendo e arrebento\u201d. Lula n\u00e3o pode entrar para a Hist\u00f3ria igualado a ele.<\/p>\n<p>Mas os confrontos est\u00e3o no cotidiano. \u00c9 priorit\u00e1rio acabar com isso. Nada consome tanto o direito dos cidad\u00e3os como eles. Suas maiores v\u00edtimas s\u00e3o os moradores desprotegidos de \u00e1reas carentes de tudo.<\/p>\n<p>Claudius Ceccon, do Centro de Cria\u00e7\u00e3o de Imagem Popular (Cecip), relata epis\u00f3dio recente na Favela de Manguinhos:<\/p>\n<p>\u201cA pracinha, cercada por lojas e casas de moradores, foi recuperada pela parceria entre a ONG Cecip e as associa\u00e7\u00f5es de moradores, a Comlurb, a Fiocruz, a Agenda Ser Crian\u00e7a e, principalmente, as crian\u00e7as, que participaram da defini\u00e7\u00e3o do projeto. Pintaram muros em cores vivas, neles escreveram \u201cPaz na favela\u201d, plantaram \u00e1rvores, instalaram brinquedos e chuveiros, restauraram minipalco, anfiteatro e quiosque. O espa\u00e7o comunit\u00e1rio renovado por moradores e poder p\u00fablico era motivo de orgulho, mostrando que \u00e9 poss\u00edvel mudar para melhor. A UPP foi informada do evento com crian\u00e7as, que brincavam esperando a festa.<\/p>\n<p>De repente, ouvi \u201cAi, meu Deus, l\u00e1 v\u00eam eles! V\u00e3o estragar a festa!\u201d Eram policiais, toucas ninja, portando fuzis. Absurdo, num ambiente com crian\u00e7as. Sem saber como reagir, ouvimos a primeira rajada. Instintivamente, buscamos prote\u00e7\u00e3o atr\u00e1s de um trailer, com as crian\u00e7as, inteiramente vulner\u00e1veis. Mais tiros, muitos tiros. Uma mulher passou correndo, beb\u00ea no colo. Uma moradora nos chamou, abrindo a porta de casa. Entramos todos, as crian\u00e7as deitaram imediatamente no ch\u00e3o. Pela janela semiaberta dava para entrever o que se passava: tiros, rajadas e estrondos de arma de grosso calibre. Cada vez mais pr\u00f3ximos, agora, na porta da casa! Todos nos deitamos, aterrorizados.<\/p>\n<p>O tiroteio ensurdecedor durou mais de duas horas, n\u00e3o acabava nunca. De repente, sil\u00eancio, pesado, tenso. Pouco a pouco, vozes ao longe, pessoas saindo de suas casas.\u201d<\/p>\n<p>Acabara. At\u00e9 a pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p>O que fazer? Que a resposta n\u00e3o seja a escalada de confrontos. Precisamos superar isso e deixar a Justi\u00e7a resolver. Mas que ela aja igual para todos. Ou n\u00e3o ser\u00e1 Justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Artigo p<em>ublicado na pagina d<\/em><em>o Jornal O Globo<\/em><em> \u2013 dispon\u00edvel na internet 11\/05\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os funcion\u00e1rios do Teatro Municipal acabam de nos mostrar que h\u00e1 outras formas de protesto, dando valor a seu trabalho Por ocasi\u00e3o da greve, viralizou na internet a foto de um tapume. Nele, grande e leg\u00edvel, uma frase de minha autoria: \u201cA Biblioteca Nacional deve ser motivo de orgulho de todo brasileiro. 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