{"id":13329,"date":"2017-05-23T05:21:50","date_gmt":"2017-05-23T08:21:50","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=13329"},"modified":"2017-05-23T05:21:50","modified_gmt":"2017-05-23T08:21:50","slug":"o-enigma-do-sistema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/05\/23\/o-enigma-do-sistema\/","title":{"rendered":"O enigma do sistema."},"content":{"rendered":"<p>Os dois \u00faltimos esc\u00e2ndalos que abalaram o pa\u00eds n\u00e3o ter\u00e3o evidenciado que estamos diante de uma crise de car\u00e1ter sist\u00eamico?<\/p>\n<p>\u00c9 um nunca acabar de emo\u00e7\u00f5es\u2026 Financiamentos por baixo do pano, achaques, subornos, propinas, compras de leis e de decis\u00f5es judiciais tornaram-se corriqueiros, banais. O mais expressivo \u00e9 que o vendaval de den\u00fancias n\u00e3o parece afetar os envolvidos \u2014 eles continuam procedendo da mesma forma, como impulsionados por um movimento dotado de din\u00e2mica pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 grande de acompanhar as dela\u00e7\u00f5es \u2014 sempre delet\u00e9rias \u2014 como epis\u00f3dios singulares, individuais, sorvendo sadomasoquistamente os epis\u00f3dios obscuros, as inconfid\u00eancias, as negativas pat\u00e9ticas, o cinismo. Muitos at\u00e9 esquecem, indignados, que eles pr\u00f3prios \u00e9 que elegeram \u2014 ou reelegeram \u2014 os implicados nas den\u00fancias.<\/p>\n<p>Seria, talvez, necess\u00e1rio que se come\u00e7asse a pensar e a refletir por que tantas grandes lideran\u00e7as, por que todos os principais partidos pol\u00edticos entraram neste jogo e foram tragados por ele. Os dois \u00faltimos esc\u00e2ndalos que abalaram \u2014 e ainda abalam \u2014 o pa\u00eds n\u00e3o ter\u00e3o evidenciado, e mais uma vez, que estamos diante de uma crise de car\u00e1ter sist\u00eamico? A verdade \u00e9 que h\u00e1 um jogo sendo jogado. Uma engrenagem, um sistema, que precisa ser analisado, compreendido e superado.<\/p>\n<p>Este sistema tem suas ra\u00edzes na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>Ulysses Guimar\u00e3es, numa licen\u00e7a po\u00e9tica, a celebrou como \u201ccidad\u00e3\u201d. O texto, de fato, tem virtudes, at\u00e9 inesperadas, considerando-se a maioria conservadora que o aprovou. Uma delas foi a consagra\u00e7\u00e3o das cl\u00e1ssicas liberdades democr\u00e1ticas. N\u00e3o era pouco, para um pa\u00eds que emergia de uma longa ditadura. Uma outra inova\u00e7\u00e3o positiva mereceria destaque: um conjunto de direitos sociais, mesmo que se saiba que h\u00e1 sempre uma dist\u00e2ncia entre direitos constitucionais e pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, por\u00e9m, bem \u201c\u00e0 brasileira\u201d, conciliando opostos, a Carta Magna abrigou uma s\u00e9rie de dispositivos autorit\u00e1rios. O mais perigoso foi a reitera\u00e7\u00e3o da tutela das For\u00e7as Armadas e o seu direito de intervir na vida pol\u00edtica nacional, sempre e quando requisitadas para garantir \u201ca lei e a ordem\u201d. Previu-se tamb\u00e9m o impeachment, este atentado \u00e0 soberania democr\u00e1tica popular, pois reserva a uma elite de representantes o direito de usurpar o voto de grandes maiorias. O triste foi ver as esquerdas dele se servirem antes de experimentar o seu amargo sabor.<\/p>\n<p>Tais dispositivos n\u00e3o foram casuais. Expressaram a reafirma\u00e7\u00e3o das bases do modelo econ\u00f4mico constru\u00eddo pela ditadura: hegemonia do grande capital financeiro, desenvolvimento econ\u00f4mico predador, agroneg\u00f3cio no campo, obras fara\u00f4nicas de infraestrutura, com est\u00edmulo para as grandes empreiteiras, urbaniza\u00e7\u00e3o descontrolada. Foi nestas bases que a ditadura propulsou o capitalismo brasileiro para novos patamares. Elas est\u00e3o l\u00e1, intactas, garantidas pelo texto constitucional.<\/p>\n<p>Em movimento paralelo e articulado, consagrou-se um sistema pol\u00edtico elitista. Sob o pretexto de se defenderem contra o arb\u00edtrio, os constituintes blindaram os representantes eleitos contra qualquer tipo de controle, popular ou jur\u00eddico, aprovando o infame e aristocr\u00e1tico \u201cforo privilegiado\u201d. Na sequ\u00eancia, vieram mordomias de toda a ordem, dotando deputados e senadores de privil\u00e9gios excepcionais, aut\u00eanticas jabuticabas, pois s\u00f3 encontradi\u00e7as no Brasil.<\/p>\n<p>Fecharam-se \u00e0 sociedade, mas se abriram, sem limites, ao mercado, permitindo o financiamento sem freios de grandes empresas, essencial para campanhas, marqueteiros e programas de televis\u00e3o cada vez mais caros. E ainda favoreceram-se com dinheiro p\u00fablico, o chamado \u201cFundo Partid\u00e1rio\u201d, tomado sem consulta \u00e0s pessoas, transformando os partidos em institui\u00e7\u00f5es independentes dos cidad\u00e3os. Foi este sistema deformado que, isolado em Bras\u00edlia, uma ilha da fantasia, proporcionou as condi\u00e7\u00f5es ideais para a corrup\u00e7\u00e3o em larga escala das lideran\u00e7as e das institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Engoliu at\u00e9 o PSDB, o PT e o PDT que, nos debates da Constituinte, apresentavam-se como reformistas e inovadores.<\/p>\n<p>O Supremo Tribunal Federal deu um primeiro golpe na engrenagem, ao proibir o financiamento empresarial das campanhas eleitorais. Mas n\u00e3o \u00e9 seguro que a proibi\u00e7\u00e3o permane\u00e7a no tempo. Por outro lado, ainda na presid\u00eancia Dilma, para compensar a perda do financiamento empresarial, triplicou-se o Fundo Partid\u00e1rio. E, agora, na reforma pol\u00edtica em debate, j\u00e1 se explicitou a perspectiva de duplicar ou triplicar os dinheiros p\u00fablicos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos partidos.<\/p>\n<p>Trata-se de um sistema aristocr\u00e1tico. Uma engrenagem antipopular e antidemocr\u00e1tica. Enquanto existir, fabricar\u00e1 Temers, A\u00e9cios, Cunhas, Lulas. Triturar\u00e1 todos os que dele se aproximarem e nele se integrarem, salvando-se apenas as exce\u00e7\u00f5es de praxe.<\/p>\n<p>A crise brasileira n\u00e3o \u00e9 obra de meia d\u00fazia de gatunos. \u00c9 produto de um sistema, consagrado pela chamada Lei Maior. Ou a sociedade encara esta esfinge, a decifra e a supera, ou pode se preparar para ser devorada por uma infind\u00e1vel cr\u00f4nica policial.<\/p>\n<p><strong>Artigo p<em>ublicado na pagina da internet do jornal O Globo \/Opini\u00e3o &#8211; dispon\u00edvel na internet 2<\/em><em>3<\/em><em>\/05\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois \u00faltimos esc\u00e2ndalos que abalaram o pa\u00eds n\u00e3o ter\u00e3o evidenciado que estamos diante de uma crise de car\u00e1ter sist\u00eamico? \u00c9 um nunca acabar de emo\u00e7\u00f5es\u2026 Financiamentos por baixo do pano, achaques, subornos, propinas, compras de leis e de decis\u00f5es judiciais tornaram-se corriqueiros, banais. 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