{"id":13757,"date":"2017-06-10T09:44:17","date_gmt":"2017-06-10T12:44:17","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=13757"},"modified":"2017-06-10T09:57:11","modified_gmt":"2017-06-10T12:57:11","slug":"tudo-ja-ou-nada-indica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/06\/10\/tudo-ja-ou-nada-indica\/","title":{"rendered":"Tudo j\u00e1 ou nada indica."},"content":{"rendered":"<p>O Eclesiastes ensina que para tudo h\u00e1 um tempo: o de nascer e o de morrer, o de chorar e o de rir, o de construir e o de destruir&#8230;<\/p>\n<p>Muito bonito e respeit\u00e1vel. Mas a situa\u00e7\u00e3o brasileira atesta que tempos distintos podem coincidir e se atropelar. O tempo de plantar e o de colher podem ser simult\u00e2neos. A hora de arrancar ervas daninhas pode acompanhar a de semear novas mudas. Estamos num momento desses.<\/p>\n<p>Por mais aflitivo que pare\u00e7a quando somos instados a vivenciar uma realidade complexa, n\u00e3o podemos esquecer que o tempo jur\u00eddico difere do tempo pol\u00edtico. Sabemos que os rituais do primeiro se arrastam e exigem variadas etapas, os do segundo precisam ter agilidade e efic\u00e1cia para impedir a paralisia do pa\u00eds. Tamb\u00e9m os tempos da pol\u00edtica e da economia s\u00e3o distintos \u2014 como o PSDB tem mostrado, em sua percep\u00e7\u00e3o de que deve desembarcar de um governo que nem se consegue mais adjetivar e, paralelamente, em seu entendimento de que a necessidade de adiantar ao m\u00e1ximo as reformas \u00e9 uma prem\u00eancia da na\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 d\u00e9cadas posterga as modifica\u00e7\u00f5es estruturais indispens\u00e1veis a seu futuro. A gama de adiamento de urg\u00eancias vai do custo Brasil onde nos atolamos desde quando a mem\u00f3ria alcan\u00e7a, at\u00e9 a reforma da Previd\u00eancia, que sempre derrapa em algum obst\u00e1culo novo, capota e perde o rumo. Adia-se o essencial, num misto de defesa de interesses individuais com teimosia cega, ignor\u00e2ncia convencida de estar certa e a mais absoluta falta de fraternidade.<\/p>\n<p>Ah, porque a\u00ed entra outro tempo, com outra urg\u00eancia, a lembrar prioridades prementes sempre negadas, em imbat\u00edvel mecanismo de procrastina\u00e7\u00e3o, a privar a popula\u00e7\u00e3o do b\u00e1sico a que tem direito para uma qualidade de vida digna. Quem tem fome tem pressa, ensinou Herbert Jos\u00e9 de Souza, o Betinho. Quem vive na sujeira ou sem teto, tamb\u00e9m \u2014 e n\u00e3o d\u00e1 mais para ficar adiando saneamento e habita\u00e7\u00e3o popular. Igualmente tem urg\u00eancia quem n\u00e3o tem seguran\u00e7a p\u00fablica e n\u00e3o pode andar tranquilo na cidade onde vive. E quem n\u00e3o tem hospital nem posto de sa\u00fade. Ou escola p\u00fablica boa, capaz de criar igualdade de oportunidades para todos.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o, saneamento, seguran\u00e7a, previd\u00eancia. Tudo custa dinheiro. Recursos para isso exigem que se pare de deixar as reformas estruturais para depois. Em algum ponto h\u00e1 que interromper esse eterno processo de procrastinar as medidas indispens\u00e1veis para garantir o crescimento econ\u00f4mico e a diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades. \u00c9 claro que temos de come\u00e7ar a resolver as crises que se somam agora, sem data para acabar, a partir da constata\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o e da intensidade com que nos mentiram e nos enganaram. Mas enquanto fazemos isso, n\u00e3o podemos sufocar a consci\u00eancia de que \u00e9 inadi\u00e1vel consagrar tempo e dedica\u00e7\u00e3o para consertar as estruturas que paralisam este pa\u00eds t\u00e3o rico e o impedem de crescer e ser igualit\u00e1rio. N\u00e3o d\u00e1 para aceitar que esses mecanismos continuem prejudicando jovens e crian\u00e7as, corroendo a velhice de quem trabalhou a vida toda, condenando ao desemprego milh\u00f5es de brasileiros, em n\u00fameros assustadores e crescentes.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando vamos continuar caindo em conversas ocas e nos deixando enganar por belas palavras e promessas mentirosas? At\u00e9 quando vamos recusar a busca de consensos e insistir em confrontos que n\u00e3o deixam avan\u00e7ar? Por mais que seja lindo lembrar que o voto popular \u00e9 a fonte leg\u00edtima da representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, fechar-se a qualquer alternativa que n\u00e3o seja a de elei\u00e7\u00f5es diretas para j\u00e1, tendo que antes mudar a Constitui\u00e7\u00e3o em um rito demorado (a ser seguido por longo processo eleitoral e logo iniciar mais outro), acaba sendo apenas um modo de adiar a sa\u00edda, prolongar a crise com uma meia-sola, nos engambelar. Mais que isso, \u00e9 uma forma eficiente para que interesses escusos possam impedir o que quiserem \u2014 seja a Lava-Jato ou a pris\u00e3o de algu\u00e9m que querem manter fora do alcance da lei, ou as reformas que poderiam cortar privil\u00e9gios aos quais se acostumaram. A sociedade perde tempo, para que espertalh\u00f5es ganhem tempo. Insistir no \u201ctudo j\u00e1\u201d pode significar \u201cnada nunca\u201d. A quem interessa?<\/p>\n<p>Escrevo antes da decis\u00e3o sobre a chapa Dilma-Temer no TSE. No ar, a pergunta : ser\u00e1 que v\u00e3o dar atestado de que \u201ctodas as doa\u00e7\u00f5es foram feitas na forma legal e aprovadas pela Justi\u00e7a Eleitoral\u201d? Abuso de poder econ\u00f4mico passa a ter prazo de validade e reserva de mercado para fatos velhos? Ser\u00e1 que fora do \u201ctudo j\u00e1\u201d da cassa\u00e7\u00e3o (e por que s\u00f3 agora?) existe apenas o \u201cnada nunca\u201d da impunidade? Qual o efeito desse salvo-conduto em nosso futuro?<\/p>\n<p>Temos de dar um basta a tanta engana\u00e7\u00e3o e mentira. Sepultar o tal \u201cpersonal enganator\u201d de estima\u00e7\u00e3o, que cada um escolhe como quer neste tempo de partidos e de na\u00e7\u00e3o partida, mas que sempre serve para congelar tudo nesta sociedade Tabajara \u2014 como classificou Fernando Gabeira h\u00e1 poucos dias.<\/p>\n<p>\u00c9 prefer\u00edvel trazer \u00e0 roda o poeta pessoal de cada um. O meu \u00e9 Carlos Drummond de Andrade: \u201cChega um tempo em que a vida \u00e9 uma ordem. A vida apenas, sem mistifica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Artigo<\/strong> p<em><strong>ublicado na p\u00e1gina do<\/strong><\/em><em><strong> Jornal O Globo<\/strong><\/em> <em><strong>&#8211; dispon\u00edvel na internet <\/strong><\/em><em><strong>10<\/strong><\/em><em><strong>\/06\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Eclesiastes ensina que para tudo h\u00e1 um tempo: o de nascer e o de morrer, o de chorar e o de rir, o de construir e o de destruir&#8230; Muito bonito e respeit\u00e1vel. Mas a situa\u00e7\u00e3o brasileira atesta que tempos distintos podem coincidir e se atropelar. 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