{"id":13789,"date":"2017-06-12T04:19:59","date_gmt":"2017-06-12T07:19:59","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=13789"},"modified":"2017-06-12T04:19:59","modified_gmt":"2017-06-12T07:19:59","slug":"crime-no-rio-de-janeiro-quando-e-o-traficante-quem-entrega-os-policiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/06\/12\/crime-no-rio-de-janeiro-quando-e-o-traficante-quem-entrega-os-policiais\/","title":{"rendered":"Crime no Rio de Janeiro: quando \u00e9 o traficante quem entrega os policiais."},"content":{"rendered":"<p>Megaopera\u00e7\u00e3o policial, vendida como um sucesso, acaba revelando esquema de propinas entre PMs e criminosos<\/p>\n<p>O desabafo de um narcotraficante ap\u00f3s sua pris\u00e3o tem ajudado a esclarecer alguns detalhes de\u00a0um esquema de propinas entre policiais militares do Rio e a maior fac\u00e7\u00e3o criminosa do Estado. Furioso por se sentir tra\u00eddo, Carlos Alberto de Assis Farias, vulgo Cachoeira, denunciou que um grupo de agentes do 16\u00ba Batalh\u00e3o recebeu dinheiro para favorecer suas empreitadas criminosas. A revela\u00e7\u00e3o levou o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio a conseguir, nesta quinta-feira, a pris\u00e3o e a quebra do sigilo banc\u00e1rio e fiscal de nove sargentos do Grupo de A\u00e7\u00f5es T\u00e1ticas Especiais, uma esp\u00e9cie de tropa de elite do batalh\u00e3o.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo fundamental deste enredo aconteceu na madrugada de 2 de maio, quando um grupo de 100 homens do\u00a0Comando Vermelho\u00a0(CV) armados com fuzis entrou na favela da Cidade Alta, na zona norte do Rio, disposto a retomar a comunidade das m\u00e3os de uma fac\u00e7\u00e3o rival, o Terceiro Comando Puro. A troca de tiros entre criminoso se sucedeu durante a madrugada at\u00e9 que, com o raiar do sol, um enorme contingente policial entrou na favela. A opera\u00e7\u00e3o foi considerada um sucesso pela c\u00fapula da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica pois houve apenas dois mortos, 45 presos e 32 fuzis apreendidos. Todos, coincidentemente, do CV, que respondeu semeando o caos\u00a0com a queima orquestrada de nove \u00f4nibus e dois caminh\u00f5es\u00a0em importantes vias da cidade. \u201cEu n\u00e3o me lembro, em 34 anos de pol\u00edcia, uma opera\u00e7\u00e3o pontual com tantas apreens\u00f5es de armas de fogo desse porte\u201d, disse\u00a0o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Roberto S\u00e1, na \u00e9poca.<\/p>\n<p>O que esse narcotraficante revelou foi que parte do sucesso dessa opera\u00e7\u00e3o policial se deveu a que 26 desses criminosos armados, incluindo ele, se entregaram pensando que tratavam com policiais amigos, aos quais pagaram em troca de facilitar sua tentativa de retomar o territ\u00f3rio, perdido a finais do ano passado. A Cidade Alta, uma comunidade formada por casas de tijolo e conjuntos habitacionais, \u00e9 estrat\u00e9gica para os traficantes pela sua localiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de vias expressas.<\/p>\n<p>Escondidos em uma casa de uma fam\u00edlia da comunidade, esses 26 traficantes foram surpreendidos e cercados pela PM. Entre os agentes estava o subcomandante do 16\u00ba batalh\u00e3o, o Major Alan de Luna Freire, que junto a outros policiais militares prestou depoimento no Minist\u00e9rio P\u00fablico. O major ouviu de Cachoeira que estava insatisfeito com a presen\u00e7a de tantos policiais pois tinham frustrado seus planos de reconquista ap\u00f3s investir tantas armas e homens na empreitada. Cachoeira, que reclamou de \u201cter tomado uma volta\u201d dos agentes, disse que ele e seu grupo teriam pago uma quantia de dinheiro n\u00e3o revelada para o batalh\u00e3o para facilitar a retomada da comunidade.<\/p>\n<p>O Major quis saber mais. Pressionado, o traficante esclareceu que o acerto foi feito com \u201ca equipe do dia seguinte\u201d ou o \u201cGATE do angolano\u201d. Com a informa\u00e7\u00e3o, o subcomandante foi verificar depois as escalas nas duas datas nas quais o Comando Vermelho tinha tentado invadir anteriormente a favela e descobriu uma enorme coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cA an\u00e1lise das escalas de servi\u00e7o conferiu credibilidade ao discurso do traficante, uma vez que h\u00e1 perfeita coincid\u00eancia entre as datas das invas\u00f5es e a escala de servi\u00e7o do batalh\u00e3o [&#8230;] Os policiais militares ora investigados estavam sempre entrando de servi\u00e7o nas manh\u00e3s seguintes aos ataques. Al\u00e9m disso, restou demonstrado que at\u00e9 mesmo a rendi\u00e7\u00e3o de 26 dos presos em flagrante foi facilitada, justamente porque os traficantes acreditavam estar se entregando aos policiais com eles mancomunados\u201d, relata o pedido de pris\u00e3o dos promotores.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de comprar a \u201cequipe do dia seguinte\u201d tamb\u00e9m foi explicada por Cachoeira. Segundo ele, a parte mais f\u00e1cil da invas\u00e3o seria \u00e0 noite, quando uma ofensiva policial teria poucas chances de sucesso, mas as dificuldades para manter o cerco viriam ao amanhecer. Boa parte do\u00a0<em>ex\u00e9rcito<\/em>\u00a0de traficantes foi recrutado em outras comunidades e n\u00e3o conhecia a Cidade Alta, o que os deixava em desvantagem com a chegada de policiais conhecedores da regi\u00e3o. \u201cCachoeira esclareceu que esse era o motivo pelo qual o GATE a ser corrompido era justamente aquele que entraria de servi\u00e7o da manh\u00e3 seguinte \u00e0 invas\u00e3o\u201d, explicou ao MP o Capit\u00e3o Andr\u00e9 Cabral. Os nove policiais presos na quinta-feira j\u00e1 haviam sido transferidos de batalh\u00e3o ap\u00f3s surgirem as suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o, quatro dias depois da opera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o haviam sido nem afastados da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O acordo contemplava que os policiais chegariam com o blindado s\u00f3 para marcar a localiza\u00e7\u00e3o com o GPS, apreenderiam apenas um fuzil, e iriam embora em seguida para registrar a ocorr\u00eancia. O aporte entregue aos policiais n\u00e3o foi revelado pelo traficante, pois teria sido negociado por um advogado da fac\u00e7\u00e3o com os policiais.<\/p>\n<p>N\u00fameros do Gaeco, bra\u00e7o do Minist\u00e9rio P\u00fablico dedicado \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e combate ao crime organizado e controle externo da atividade policial, revelam que depois dos traficantes, PMs e ex-PMs s\u00e3o os mais denunciados no Rio. Dos 4.082 investigados pelo \u00f3rg\u00e3o, de 2010 a mar\u00e7o de 2017, 1.886 s\u00e3o traficantes e 563 s\u00e3o policiais ou j\u00e1 exerceram a fun\u00e7\u00e3o. Na sequ\u00eancia, policiais civis, com 150 agentes denunciados.<\/p>\n<p>Um \u00e1udio comprometedor e um assassinato<\/p>\n<p>A dela\u00e7\u00e3o do traficante, que continuou reclamando da trai\u00e7\u00e3o at\u00e9 quando estava sendo atendido no hospital,\u00a0<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/05\/22\/politica\/1495465689_479916.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica revela\u00e7\u00e3o que aponta pr\u00e1ticas criminosas desses policiais.<\/a>\u00a0Dias depois da megaopera\u00e7\u00e3o, um \u00e1udio comprometedor come\u00e7ou a pipocar em grupos de WhatsApp. A grava\u00e7\u00e3o, feita em fevereiro, revelava o que parece uma conversa entre policiais e traficantes dentro de um blindado da corpora\u00e7\u00e3o. A den\u00fancia an\u00f4nima que acompanhava o \u00e1udio aponta que os agentes estariam dando carona a integrantes de uma das fac\u00e7\u00f5es que disputavam o territ\u00f3rio na Cidade Alta, sem que tenha sido esclarecido at\u00e9 agora a qual delas.<\/p>\n<p>A possibilidade de que os policiais estariam se vendendo \u00e0s duas fac\u00e7\u00f5es foi refor\u00e7ada com o recente esclarecimento do assassinato da l\u00edder comunit\u00e1ria Gl\u00f3ria Maria dos Santos Mica. Gl\u00f3ria foi morta em dezembro horas ap\u00f3s se rebelar em uma reuni\u00e3o do conselho comunit\u00e1rio, onde al\u00e9m de comerciantes e demais representantes da Cidade Alta, havia policiais do 16\u00ba batalh\u00e3o. Segundo a investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, ela, que estaria associada ao Comando Vermelho, se negava a pagar propinas a policiais que davam apoio ao TCP e criticava a ina\u00e7\u00e3o dos policiais para prenderem os novos donos da comunidade.<\/p>\n<p>O assassinato de Gl\u00f3ria se deu, segundo os investigadores, gra\u00e7as a uma cilada de um policial, o cabo Carlos Jos\u00e9 Costa J\u00fanior, hoje preso e lotado na \u00e9poca no 16\u00ba batalh\u00e3o. Depois da reuni\u00e3o, ela recebeu uma mensagem do policial para encontr\u00e1-lo, mas quando chegou ao local o PM estava num carro acompanhado de mais tr\u00eas homens, traficantes da comunidade. Dois deles atiraram contra ela at\u00e9 mat\u00e1-la. Os traficantes iam fardados como policiais militares.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Maria Martin\/El Pais Brasil \u2013 dispon\u00edvel na internet 12\/06\/2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Megaopera\u00e7\u00e3o policial, vendida como um sucesso, acaba revelando esquema de propinas entre PMs e criminosos O desabafo de um narcotraficante ap\u00f3s sua pris\u00e3o tem ajudado a esclarecer alguns detalhes de\u00a0um esquema de propinas entre policiais militares do Rio e a maior fac\u00e7\u00e3o criminosa do Estado. 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