{"id":13954,"date":"2017-06-19T00:02:29","date_gmt":"2017-06-19T03:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=13954"},"modified":"2017-06-18T20:53:04","modified_gmt":"2017-06-18T23:53:04","slug":"nao-somos-pessimistas-sobre-o-brasil-o-investimento-da-telefonica-e-de-longuissimo-prazo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/06\/19\/nao-somos-pessimistas-sobre-o-brasil-o-investimento-da-telefonica-e-de-longuissimo-prazo\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o somos pessimistas sobre o Brasil. O investimento da Telef\u00f3nica \u00e9 de longu\u00edssimo prazo\u201d."},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Mar\u00eda \u00c1lvarez-Pallete\u00a0(Madri, 1963) passou os \u00faltimos dias dando os retoques na sua tese de doutorado, que fala sobre\u00a0Big Data\u00a0aplicado aos fluxos da balan\u00e7a de pagamentos. A ruptura digital tornou-se a paix\u00e3o e a obsess\u00e3o do presidente da Telef\u00f3nica. Tuiteiro insaci\u00e1vel, maratonista convicto, guardi\u00e3o de sua privacidade, \u00c1lvarez-Pallete est\u00e1 acostumado a enfrentar os grandes desafios. Esteve muito pr\u00f3ximo do processo de integra\u00e7\u00e3o da Espanha \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, porque seu pai, inspetor de alf\u00e2ndega, fez parte da equipe que interveio nas negocia\u00e7\u00f5es, o que provocou sua mudan\u00e7a para Bruxelas durante um tempo, quando completou sua forma\u00e7\u00e3o e onde trabalhou sua percep\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es internacionais e o papel que a\u00a0Espanha\u00a0deve exercer nelas. De volta para casa, entrou em contato com o mundo financeiro, at\u00e9 que, em meados da d\u00e9cada de noventa, incorporou-se ao grupo Cemex, no qual teve que lidar, na sua filial espanhola Valenciana de Cementos, com uma deprecia\u00e7\u00e3o cambial. Outra desvaloriza\u00e7\u00e3o o levou, tamb\u00e9m pela Cemex, \u00e0 convulsionada Indon\u00e9sia de Suharto. E foi em Jacarta, e como consequ\u00eancia de outra tormenta cambial, onde ele entrou em contato com a Telef\u00f3nica, empresa onde trabalha desde 1999. A partir de ent\u00e3o, foi encarregado de diversas \u00e1reas do grupo &#8211;\u00a0especialmente na Am\u00e9rica Latina, territ\u00f3rio que conhece com perfei\u00e7\u00e3o\u00a0-, at\u00e9 que, em 2012, foi nomeado diretor-executivo e, quatro anos depois, em 8 de abril de 2016, presidente-executivo. Agora, pouco mais de um ano depois, \u00c1lvarez-Pallete concede ao EL PA\u00cdS a sua primeira entrevista.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0A\u00a0Telef\u00f3nica\u00a0\u00e9 uma empresa muito moderna, grande, ambiciosa, mas em transforma\u00e7\u00e3o. Como v\u00ea o seu futuro em meio a esta constante ruptura?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0A ruptura tecnol\u00f3gica que se est\u00e1 vivendo agora n\u00e3o tem precedentes.\u00a0\u00c9 quatro vezes maior do que foi a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial\u00a0em potencial de impacto no PIB per capita, e est\u00e1 mudando tudo, desde a ordem econ\u00f4mica e empresarial \u00e0 social, cultural, pol\u00edtica e esportiva. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 um antecedente ao qual seja poss\u00edvel se agarrar, um manual de instru\u00e7\u00f5es para saber quais mudan\u00e7as s\u00e3o necess\u00e1rias. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio sentir e ver qual lugar voc\u00ea ocupa nisso que est\u00e1 acontecendo e qual lugar acredita que possa ocupar no que vem a seguir. Uma empresa como a nossa est\u00e1 no centro desta revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como a revolu\u00e7\u00e3o transformou a empresa?<\/p>\n<p>O que estamos vivendo \u00e9 uma explos\u00e3o de tecnologia em torno do mundo dos dados. Ou seja, esta n\u00e3o \u00e9 mais simplesmente a revolu\u00e7\u00e3o da Internet, nem mesmo a revolu\u00e7\u00e3o do smartphone, mas da intelig\u00eancia artificial e dos sistemas cognitivos. Com todo mundo conectado, a Internet de todos \u00e9 tamb\u00e9m a Internet em que voc\u00ea toca em algo aqui e imediatamente, no mesmo segundo, acontece algo na Austr\u00e1lia. Qualquer empresa que se dedica \u00e0 infraestrutura de telecomunica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 agora, viveu da voz. Mas agora vimos que a voz desaparece como produto, porque as pessoas acreditam que a voz deve ser ilimitada e estar inclu\u00edda no pacote de conectividade. Por sorte, apareceu o mundo dos dados, para que possamos construir redes distintas. Adaptar-se a este cen\u00e1rio exige uma reflex\u00e3o como empresa. Primeiro, de produto: da voz aos dados, como fazer essa transi\u00e7\u00e3o. No ano passado, pela primeira vez, faturamos mais em dados do que em voz e em acesso. Por tr\u00e1s disso h\u00e1 uma mudan\u00e7a de filosofia. E isso exige que a empresa entenda at\u00e9 onde vai, porque tamb\u00e9m \u00e9 uma mudan\u00e7a cultural dentro da companhia. E logo devemos estar cientes de que esse \u00e9 um passo at\u00e9 algo que \u00e9 maior, que \u00e9 o mundo da intelig\u00eancia artificial e dos sistemas cognitivos, no qual o potencial de informa\u00e7\u00e3o que gera uma rede de telecomunica\u00e7\u00f5es \u00e9 brutal, porque a rede n\u00e3o dorme, a rede est\u00e1 acordada 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, e est\u00e1 gerando informa\u00e7\u00e3o. Qual atitude adotar diante disso tamb\u00e9m \u00e9 importante. \u00c9 um mundo novo que exige novos valores.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Dentro deste mundo da ruptura digital h\u00e1 uma s\u00e9rie de atores muito importantes, como o Facebook, o Google etc.. Como projeta a rela\u00e7\u00e3o entre a Telef\u00f3nica e as gigantes digitais?<\/p>\n<p>\u201cTelef\u00f4nica est\u00e1 no centro da revolu\u00e7\u00e3o digital\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. S\u00e3o empresas que nasceram diretamente no ambiente digital. J\u00e1 n\u00f3s somos uma empresa que veio do mundo anal\u00f3gico, portanto nosso n\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o para poder competir \u00e9 muito superior. N\u00f3s somos uma empresa de plataformas. A primeira plataforma s\u00e3o nossos ativos f\u00edsicos, nossa fibra, nossas esta\u00e7\u00f5es de base, nossos call centers, nossos data centers, nossas lojas, tudo aquilo que nos torna tremendamente relevantes em uma sociedade que \u00e9, afinal, onde se digitaliza a vida das pessoas. A segunda \u00e9 a dos sistemas ponta a ponta. Que toda a informa\u00e7\u00e3o que geremos esteja \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o em tempo real. E a terceira plataforma \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o de produtos e servi\u00e7os: nuvem, Internet das coisas, seguran\u00e7a, servi\u00e7os financeiros. Se fizermos bem a primeira e a segunda plataformas seremos o maior distribuidor de tecnologia de cada um dos pa\u00edses onde estamos presentes. A telefonia fixa levou 75 anos para atingir 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, e o PokemonGo levou 23 dias. Por qu\u00ea? Porque se as redes est\u00e3o digitalizadas, a capacidade de distribuir um produto digital \u00e9 imensa.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. O senhor mencionou tr\u00eas plataformas, mas j\u00e1 est\u00e1 trabalhando na quarta. No que ela consiste?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. N\u00f3s acreditamos que se uma rede de telecomunica\u00e7\u00f5es est\u00e1 suficientemente digitalizada, ela gera um monte de informa\u00e7\u00f5es sobre os clientes: como s\u00e3o, como pagam, quais s\u00e3o seus tipos de contratos, que aplicativos baixam, por onde se deslocam etc.. S\u00e3o informa\u00e7\u00f5es relevantes, mas muito fragmentadas. N\u00f3s propomos centralizar a informa\u00e7\u00e3o que a rede gera e torno do cliente em uma \u00fanica plataforma e criar o que chamamos de o banco pessoal de cada cliente.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Ou seja, o cliente tem uma base de dados na plataforma e a administra&#8230;<\/p>\n<p>\u201c<strong>\u00a0<\/strong>A vida anal\u00f3gica, a vida como a conhecemos, e a vida digital est\u00e3o se fundindo\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Sim, essa base \u00e9 do cliente. N\u00e3o s\u00f3 queremos que ele administre essa plataforma como tamb\u00e9m que administre a rede, que esses dados sirvam para ele tomar decis\u00f5es \u2013 desde otimizar a tarifa a se quer compartilhar as informa\u00e7\u00f5es com um banco para conseguir um cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio em melhores condi\u00e7\u00f5es. E vou al\u00e9m: o que queremos \u00e9 que o cliente possa falar com a rede, ou seja, que possa acessar essas informa\u00e7\u00f5es e os servi\u00e7os da rede atrav\u00e9s do Skype, do Facebook, do Twitter, do Amazon Echo, do Alexa, do Google Home ou de um call center. Que seja poss\u00edvel dirigir a rede telef\u00f4nica para solucionar uma d\u00favida sobre a fatura ou sobre a que horas passa um certo programa no aplicativo Movistar Plus.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Opera fisicamente sobre a pr\u00f3pria rede, mas entendo que isso n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o comercial da Telef\u00f3nica. A empresa n\u00e3o obt\u00e9m nenhum rendimento?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. A minha principal vantagem competitiva nisso tudo \u00e9 que o cliente tenha uma ferramente simples e inteligente. Se for assim, ele n\u00e3o deixar\u00e1 a Telef\u00f3nica. Com isso, vai cair a taxa de rotatividade de clientes, que \u00e9 um dos maiores perigos para a rentabilidade de um neg\u00f3cio. Essa \u00e9 a primeira vantagem. Mas h\u00e1 uma segunda. Do ponto de vista do acionista, a percep\u00e7\u00e3o de que a rede \u00e9 trementamente inteligente, tamb\u00e9m d\u00e1 pontos para a empresa. Por qu\u00ea? Para qualquer das empresas das quais falamos antes \u2013 Netflix, Facebook ou Twitter \u2013 \u00e9 vital saber que a rede \u00e9 inteligente e que elas podem integrar produtos e servi\u00e7os. Dessa maneira, a Telef\u00f3nica se valoriza.<\/p>\n<p>UM CONTRATO SOCIAL PARA CANALIZAR A RIQUEZA DIGITAL<\/p>\n<p>Como convive no mundo digital que descreveu com esse outro mundo que est\u00e1 ficando assustado, que est\u00e1 desenvolvendo medo ao estrangeiro, medo ao diferente, medo de quem pensa de outra maneira e que se refugia em fen\u00f4menos populistas?<\/p>\n<p>R.Tudo \u00e9 um sintoma da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, e por que? Vamos nos fixar em quais eram as cinco ou seis maiores empresas do mundo h\u00e1 10 anos e as que s\u00e3o agora. Antes existia somente uma de tecnologia, a Microsoft, e agora n\u00e3o h\u00e1 nenhuma que n\u00e3o seja de tecnologia. O que est\u00e1 ocorrendo \u00e9 uma mudan\u00e7a de modelos de neg\u00f3cio, que est\u00e1 levando a uma gera\u00e7\u00e3o de riqueza diferente. O ponto principal \u00e9 como essa nova gera\u00e7\u00e3o de riqueza ser\u00e1 dividida e principalmente como se divide de uma maneira acelerada, levando em considera\u00e7\u00e3o que esta nova onda que vem por a\u00ed est\u00e1 afetando a riqueza anterior. A pergunta \u00e9 qual \u00e9 o novo contrato social que queremos desenvolver com essa nova sociedade? Porque todo o resto s\u00e3o consequ\u00eancias disso. Se a renda m\u00e9dia de uma pessoa n\u00e3o aumentou, n\u00e3o mudou nos \u00faltimos 10, 15 anos, e se suas perspectivas econ\u00f4micas n\u00e3o s\u00e3o boas, sua vontade pol\u00edtica \u00e9 uma. Por isso a relev\u00e2ncia dos valores que queremos ter nessa nova ambiente. Como vamos distribuir essa riqueza e como vamos canalizar o progresso que vem da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica \u00e9 o principal cap\u00edtulo que precisamos escrever. As pessoas, no fim das contas, querem pertencer a algo, seja uma ideia pol\u00edtica, seja um movimento, seja uma rede social. E se voc\u00ea tem a percep\u00e7\u00e3o de que o que est\u00e1 acontecendo n\u00e3o te beneficia, essa revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que eu acredito que ser\u00e1 boa, voc\u00ea n\u00e3o entende como tal. O debate \u00e9 o que vamos fazer com essa riqueza, como iremos dividi-la, como lidaremos com essa transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Que efeitos ter\u00e1 a ruptura tecnol\u00f3gica na vida das pessoas, em seu comportamento, em seus valores?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. O que est\u00e1 ocorrendo, basicamente, \u00e9 que a vida anal\u00f3gica, a vida como a conhecemos e a vida digital est\u00e3o se fundindo. O que isso quer dizer? Que tudo vai ser diferente. O estilo de comprar ou dirigir seu carro, os medidores de g\u00e1s, \u00e1gua e eletricidade, o microondas, a geladeira, a lava-lou\u00e7as&#8230; Tudo vai estar contectado \u00e0 internet e emitindo informa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a capacidade de processar essa brutal quantidade de informa\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o geradas vai aumentar exponencialmente. Hoje praticamente j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es na capacidade de armazenamento e processamento. Isso quer dizer que problemas que agora requerem etapas de simula\u00e7\u00e3o enormes \u2013 como o tr\u00e2nsito nas cidades ou as doen\u00e7as mais complexas \u2013 v\u00e3o provavelmente come\u00e7ar a ter um tratamento ou uma solu\u00e7\u00e3o. Vamos poder saber o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor (IPC) em tempo real e n\u00e3o por amostragem, mas sim com a totalidade das transa\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds. Vamos ter a pulsa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica de um pa\u00eds em tempo real e n\u00e3o vai ser com pesquisas, mas sim com dados reais e em tempo real, porque vai haver capacidade para processar isso.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Como se ordena toda essa grande mudan\u00e7a social?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. \u00c9 preciso definir as constitui\u00e7\u00f5es, os marcos legais regulat\u00f3rios, claro, mas tamb\u00e9m os temas mais setoriais. No setor da imprensa h\u00e1 hoje o debate sobre a p\u00f3s-verdade. H\u00e1 uma \u00e9tica no jornalismo, h\u00e1 um c\u00f3digo deontol\u00f3gico, uma checagem de fontes. Mas no mundo digital como se aplica isso ao Facebook? Como se aplica isso ao Twitter? Como se aplica \u00e0 medicina? Qual \u00e9 o c\u00f3digo de tr\u00e2nsito que vai ser aplicado aos carros aut\u00f4nomos? Que \u00e9tica ser\u00e1 preciso colocar nos rob\u00f4s? Tudo isso exige um novo marco regulat\u00f3rio. Por isso muitas vezes falo da Constitui\u00e7\u00e3o digital. Temos uma Constitui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 pensada para uma vida, para um entorno, mas os entornos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos. Como adaptar isso, setor por setor? Porque n\u00e3o s\u00f3 faltam f\u00edsicos, matem\u00e1ticos, engenheiros ou t\u00e9cnicos. Faltam advogados digitais, m\u00e9dicos digitais, economistas digitais. Falta \u00e9tica digital, filosofia digital. Falta qualquer profiss\u00e3o que se possa imaginar pensando no digital, e isso exige uma mudan\u00e7a de mentalidade.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. E como se deve enfrentar isso?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. A primeira coisa \u00e9 que confundimos o processo de globaliza\u00e7\u00e3o com o processo de transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. N\u00e3o sei se \u00e9 poss\u00edvel parar a globaliza\u00e7\u00e3o, e creio que \u00e9 muito dif\u00edcil parar a tecnologia. Por isso, creio que \u00e9 necess\u00e1rio um marco conceitual principalmente de valores. No Renascimento houve uma redefini\u00e7\u00e3o dos valores do humanismo. Na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial houve uma redefini\u00e7\u00e3o dos valores em geral. O mesmo ocorreu com a chegada da eletricidade, da televis\u00e3o e at\u00e9 mesmo da pr\u00f3pria Internet. Porque isso n\u00e3o \u00e9 Internet, isso \u00e9 muito mais. E at\u00e9 agora estamos vendo a revolu\u00e7\u00e3o das redes e do smartphone, mas revolu\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial dar\u00e1 lugar a novos debates sobre qual \u00e9 o c\u00f3digo de limites que queremos colocar na robotiza\u00e7\u00e3o. Porque a robotiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais apenas o rob\u00f4 t\u00edpico. Rob\u00f4s tamb\u00e9m s\u00e3o programas na Internet ou no mundo do software. A revolu\u00e7\u00e3o digital precisa de um novo marco de valores e regulamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cO telefone fixo levou 75 anos para chegar aos 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios.\u00a0 O Pokemon Go levou 23 dias\u201d<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Que h\u00e1 de ser universal.<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Tem que ser universal por defini\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea olhar a hist\u00f3ria, vai ver que ela diz que as revolu\u00e7\u00f5es sempre costumam se generalizar. O que mudam s\u00e3o os ritmos. No caso da impress\u00e3o, desde a primeira prensa de Gutenberg at\u00e9 chegarmos \u00e0 exist\u00eancia de 50 prensas passaram-se 50 anos. No entanto, todas as revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas seguintes tiveram, a cada vez, ciclos de difus\u00e3o mais curtos. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje a difus\u00e3o de tecnologia \u00e9 praticamente vertical. Por tanto, a parte boa disso \u00e9 que a difus\u00e3o dessa tecnologia entre pa\u00edses desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento \u00e9 cada vez mais curta. Sempre que houve alguma ruptura desse tipo, nasceram, em algum lugar, os valores que em seguida v\u00e3o sendo compartilhados. A Europa tem uma oportunidade porque sempre foi um ber\u00e7o de valores.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Como deve ser canalizado esse debate?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Para que esse debate surja, ele tem que estar com os cidad\u00e3os. Acredito que ele j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a surgir, de uma maneira ou outra. Ali\u00e1s, Stephen Hawking e Bill Gates se manifestaram sobre isso recentemente.<\/p>\n<p>&#8220;APRENDO NO TWITTER O QUE N\u00c3O EST\u00c1 NOS TEXTOS&#8221;<\/p>\n<p>Os acionistas n\u00e3o lhe pediram para que saia do Twitter, que isso \u00e9 muito arriscado?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Aprendo no Twitter o que n\u00e3o est\u00e1 nos textos. Primeiro porque me for\u00e7a. De manh\u00e3, gosto de madrugar, leio entre 15 e 20 contas de Tecnologia. Normalmente s\u00e3o posts curtos e aprendo muito. Depois tento repassar, sem opini\u00e3o pr\u00f3pria, coisas que me pareceram interessantes. Sobre os riscos, \u00e9 verdade que de vez em quando entra algum troll, que te insulta. Mas isso faz parte das regras do jogo. O que te ofende gravemente, isso depois passa, entende? N\u00e3o responda porque \u00e9 dar-lhes gasolina.<\/p>\n<p>Por que a aposta da Telef\u00f3nica pelos e-sports? \u00c9 uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica? \u00c9 pagar para ver qual ser\u00e1 o resultado desse fen\u00f4meno?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. Faz parte do que fal\u00e1vamos antes sobre a disrup\u00e7\u00e3o, do que se v\u00ea, do que n\u00e3o se v\u00ea, e tamb\u00e9m tem muito a ver com os perfis e os segmentos da popula\u00e7\u00e3o e seu comportamento. \u00c9 muito dif\u00edcil conceituar os e-sports se voc\u00ea n\u00e3o os v\u00ea, ou seja, a quantidade de milhares de pessoas que assistem ao vivo um evento de e-sports. J\u00e1 n\u00e3o falo dos jovens que est\u00e3o jogando ao mesmo temo, mas que os melhores desses jovens se organizam e organizam competi\u00e7\u00f5es dentro das diferentes plataformas que j\u00e1 existem. N\u00e3o \u00e9 uma moda, n\u00e3o \u00e9 algo de car\u00e1ter passageiro, mas algo sobre o que \u00e9 preciso estar muito atento.<\/p>\n<p>Uma pergunta de \u00e2mbito muito pessoal. Est\u00e1 na Telef\u00f3nica h\u00e1 18 anos em cargos de diversas responsabilidades, mas agora \u00e9 uma estrela midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Midi\u00e1tica n\u00e3o, porque n\u00e3o tenho nada a ver com isso.<\/p>\n<p>Os jornalistas lhe procuram. \u00c9 uma pessoa muito discreta, mas pertence a um grupo de empres\u00e1rios aos que as pessoas pelo menos prestam aten\u00e7\u00e3o, perguntam por eles, os questionam. Como vivencia isso?<\/p>\n<p>Isso \u00e9 relativamente simples. Eu vou aos lugares que me cabem ir, ao que acredito que \u00e9 bom para a Telef\u00f3nica. Se acho que \u00e9 bom para a Telef\u00f3nica estar no evento de desenvolvedores de Facebook vou, se acho que \u00e9 bom para a Telef\u00f3nica ir ao C\u00edrculo de Economia e dar uma palestra sobre nossa vis\u00e3o, vou. Mas n\u00e3o vou a mais nada. Eu valorizo muito minha vida familiar. Se voc\u00ea quer notoriedade a\u00ed est\u00e1, essa \u00e9 uma boa plataforma para a notoriedade. Eu continuo saindo com meus amigos do Col\u00e9gio Maior, n\u00e3o vou a muitos jantares fora do estritamente necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem contato social, digamos assim, com outros grandes empres\u00e1rios, outras figuras\u2026<\/p>\n<p>Eu os conhe\u00e7o e me convidam para almo\u00e7ar ou eu os convido a almo\u00e7ar. Muito bem. Mas eu continuo saindo de f\u00e9rias no mesmo lugar, continuo com os mesmos amigos.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o pode dedicar muito tempo \u00e0 fam\u00edlia\u2026<\/p>\n<p>Sim, mas era pior quando estava na Am\u00e9rica Latina. Ia embora nos domingos \u00e0 noite e voltava \u00e0s sextas. Mas sempre tentava voltar nos finais de semana. Eu valorizo muito estar em minha casa e com minha fam\u00edlia durante os finais de semana.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. O que parece \u00e9 que se n\u00e3o for elaborado um c\u00f3digo de valores, podemos cair em uma desordem perigosa.<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Eu n\u00e3o acredito na teoria do caos. Eu acredito que diante dessas coisas, a sociedade acaba reagindo e colocando limites. Acredito muito no poder da sociedade para se organizar. E acredito que isso vai ser bom. Mas tamb\u00e9m acredito que h\u00e1 um momento de transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se dar conta disso. Minha tese \u00e9 que sim, estamos vendo essas manifesta\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o as correlacionamos. Vemos coisas acontecendo em diferentes pontos, em diferentes lugares, mas n\u00e3o tendemos a ver um denominador comum, que \u00e9 a tecnologia. Muidas das coisas que est\u00e3o ocorrendo no mundo n\u00e3o podem ser explicadas sem a tecnologia.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. A empresas que o senhor preside est\u00e1 preparada para esse desafio?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. A resposta \u00e9 sim, sem sombra de d\u00favidas. Por escala, somos uma das 10 maiores empresas do mundo no nosso setor. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia geogr\u00e1fica, \u00e9 dif\u00edcil falar desses assuntos na Europa ou na Am\u00e9rica Latina sem que a Telef\u00f3nica tenha algo a dizer. A empresa tem escala suficiente para ser uma plataforma privilegiada de onde se v\u00ea o que est\u00e1 acontecendo no mundo. Temos 350 milh\u00f5es de clientes que praticamente nos contactam diariamente, e sabemos o que os preocupa, do que gostam e do que n\u00e3o gostam.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Um dos objetivos priorit\u00e1rios durante seus primeiros 14 meses \u00e0 frente da companhia foi a redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. Isso continua sendo uma prioridade?<\/p>\n<p>\u201cAssumimos o controle do nosso pr\u00f3prio destino\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Sim. Primeiro, porque nos sentimos capazes de fazer isso. O que ocorre \u00e9 que o primeiro ano foi um ano de decis\u00f5es dif\u00edceis. Fui nomeado em 8 de abril de 2016. Em 11 de abril, meu primeiro dia neste escrit\u00f3rio, soubemos que estavam bloqueando para n\u00f3s a venda da O2 no Reino Unido. Em seguida, naquela mesma semana, tivemos um terremoto brutal no Equador e eu fui para l\u00e1. E nos dois primeiros meses, algo que me disseram que nunca iria acontecer aconteceu: o Brexit. Tivemos que suspender o lan\u00e7amento na Bolsa de Telxius para n\u00e3o vender mal. E cortamos o dividendo. O que quer\u00edamos com isso? Seguir com o objetivo de redu\u00e7\u00e3o de d\u00edvida mas n\u00e3o ter que fazer isso vendendo mal nossos ativos. O que temos tentado nestes \u00faltimos meses \u00e9 ganhar o controle do nosso destino. Claro que continuaremos reduzindo a d\u00edvida, mas creio que \u00e9 importante manter um bom perfil ou at\u00e9 mesmo um perfil melhor. Agora todos os vencimentos de d\u00edvidas est\u00e3o refinanciados para os pr\u00f3ximos dois anos. Mas creio que a empresa est\u00e1 melhor protegida a n\u00edveis de d\u00edvidas muito mais baixos. Al\u00e9m disso, estamos em um caminho de gera\u00e7\u00e3o de caixa crescente, com n\u00edveis de investimento historicamente altos na vida da companhia. Nunca na hist\u00f3ria recente da empresa tinham sido investidos durante quatro anos seguidos \u2013 e vamos para o quinto \u2013 n\u00edveis de 16%-17% da receita. Assumimos o controle de nosso pr\u00f3prio destino, e se pudermos fazer transa\u00e7\u00f5es que criem valor para o grupo que me ajudem a acelerar o pagamento das d\u00edvidas, como pode ser o lan\u00e7amento na Bolsa do Reino Unido ou outras coisas que tenham sentido, o faremos.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre as opera\u00e7\u00f5es no Brasil, pa\u00eds sobre o qual h\u00e1 grande pessimismo?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>.N\u00f3s n\u00e3o somos pessimistas. Para n\u00f3s, o Brasil \u00e9 essencial. Temos quase 100 milh\u00f5es de clientes no Brasil e somos a primeira empresa do setor. Investimos quase 65 bilh\u00f5es de euros, o que nos coloca como o maior investidor do pa\u00eds. Em plena crise brasileira, quando o PIB ca\u00eda 3%, nossa empresa aumentou sua receita e comprou a GVT, investindo 7,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O que vemos \u00e9 que h\u00e1 incertezas pol\u00edticas e situa\u00e7\u00f5es como em muitas partes do mundo. Mas, como economia, o que o Brasil fez nos \u00faltimos 20 anos \u00e9 muito importante, e a natureza de nosso investimento \u00e9 de longu\u00edssimo prazo.<\/p>\n<p>\u201cBrasil \u00e9 essencial para n\u00f3s e um investimento de longu\u00edssimo prazo\u201d<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Um lugar onde houve problemas \u00e9 a Argentina.<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Sobre a Argentina, eu digo o mesmo. Acreditamos que, a longo prazo, a economia argentina crescer\u00e1. Ali\u00e1s, estive ali na segunda-feira passada e o pa\u00eds j\u00e1 est\u00e1 dando sinais de melhora em crescimento. Sempre se pode ter discuss\u00f5es com o regulador por um assunto ou outro, mas isso tem seus canais de solu\u00e7\u00e3o. Estamos crescendo fortemente na Argentina este ano. Para n\u00f3s, a Argentina, o Brasil, a Am\u00e9rica Latina em geral, nos d\u00e3o crescimento, que \u00e9 o que nos interessa estrategicamente para a capacidade de nossa grande plataforma. A Telef\u00f3nica n\u00e3o seria o que \u00e9 hoje se n\u00e3o tivesse feito os investimentos que fez no momento certo na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 um caso \u00e0 parte: a Venezuela.<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Na Venezuela temos aguentado. Do meu ponto de vista, temos a melhor empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Na moeda local, para al\u00e9m dos efeitos inflacion\u00e1rios, crescemos fortemente. Gostar\u00edamos que as restri\u00e7\u00f5es que temos para incorporar equipamentos e terminais fossem menores, mas a opera\u00e7\u00e3o em si na Venezuela, do ponto de vista de gest\u00e3o, \u00e9 espetacular.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Como abordam o mercado mexicano?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. No M\u00e9xico, o que temos \u00e9 um mercado ampl\u00edssimo onde tamb\u00e9m h\u00e1 oportunidades de crescimento. No M\u00e9xico, precisamos nos conscientizar de que n\u00e3o somos o incumbente. Somos um emergente. Por isso a estrat\u00e9gia que temos que seguir n\u00e3o \u00e9 a mesma que no Brasil, na Argentina, no Chile ou no Peru. O ambiente regulat\u00f3rio no M\u00e9xico mudou, ocorreram assimetrias que eu creio que eram importantes para poder crescer. \u00c9ramos uma companhia basicamente de pr\u00e9-pago, e temos que evoluir para sermos uma empresa mais de p\u00f3s-pago, ou seja, mais de contratos.<\/p>\n<p>\u201cTelef\u00f4nica n\u00e3o seria o que \u00e9 hoje sem os investimentos na Am\u00e9rica Latina\u201d<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Competem em igualdade de condi\u00e7\u00f5es com Carlos Slim?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Sim. Acho que n\u00e3o podemos reclamar. Temos que melhorar antes de reclamarmos de qualquer outra coisa.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. O senhor est\u00e1 satisfeito com o desempenho do neg\u00f3cio na Espanha?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Sim, porque, al\u00e9m de tudo, conseguimos, como companhia e como setor, algo que creio que deveria ser estudado como caso pr\u00e1tico. Em 2007-2008, a Espanha era o 13<sup>o<\/sup>pa\u00eds europeu por penetra\u00e7\u00e3o de banda ultralarga. Hoje \u00e9 l\u00edder. H\u00e1 mais fibras na Espanha do que no Reino Unido, na Alemanha, na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a juntas. E n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 fibras da Telef\u00f3nica, s\u00e3o fibras do setor. A Orange tem mais fibras na Espanha do que na Fran\u00e7a. A Vodafone tem mais banda ultralarga na Espanha do que no Reino Unido ou na Alemanha. Ou seja, a Espanha deu um salto \u00e0 frente em qualidade de infraestruturas para tornar poss\u00edvel este mundo digital do qual falamos, e que faz com que hoje a Espanha seja o terceiro pa\u00eds da OCDE em penetra\u00e7\u00e3o de fibra, atr\u00e1s apenas do Jap\u00e3o e da Coreia do Sul. Estamos falando de mais de 60% de penetra\u00e7\u00e3o de fibra na Espanha, e isso nos abre um mundo de possibilidades. Se compararmos a oferta que se tem hoje n\u00e3o s\u00f3 em Madri, mas em qualquer parte da Espanha, com o que se poderia ter em qualquer uma das principais cidades europeias, percebemos que a da Espanha \u00e9 superior e a um pre\u00e7o mais acess\u00edvel. Se os demais fizeram o que fizeram foi porque a Telef\u00f3nica come\u00e7ou a investir. E o fizemos em plena crise, o que tem muito m\u00e9rito.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. A Telef\u00f3nica \u00e9 acionista da PRISA, que edita o EL PA\u00cdS. Como o senhor avalia essa participa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. N\u00f3s n\u00e3o temos representa\u00e7\u00e3o no conselho, e o que queremos \u00e9 a estabilidade da companhia. N\u00e3o temos ambi\u00e7\u00e3o de crescer mais nessa participa\u00e7\u00e3o. Encaramos como uma participa\u00e7\u00e3o financeira e estamos a\u00ed para dar estabilidade na medida que se necessite. Mas n\u00e3o h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o nem de aumentar nem de fazer evoluir essa participa\u00e7\u00e3o no sentido de ampli\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. A m\u00e9dio prazo, qual deve ser a evolu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica do dividendo da Telef\u00f4nica?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. O que propusemos e foi aprovado na \u00faltima reuni\u00e3o de acionistas \u00e9 um n\u00edvel de dividendo de 0,40 centavos de euro por a\u00e7\u00e3o para 2017. Queremos um dividendo sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Como se sente uma pessoa \u00e0 frente de uma empresa que tem tanto impacto na vida da popula\u00e7\u00e3o, na atividade econ\u00f4mica de um pa\u00eds?<\/p>\n<p>\u201cA Europa tem uma oportunidade porque sempre foi um ber\u00e7o de valores\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Estou h\u00e1 18 anos aqui. Sou o primeiro presidente da Telef\u00f3nica que vem de dentro. Estive em muitos locais da empresa. Tive a sorte de trabalhar em finan\u00e7as, de trabalhar na opera\u00e7\u00e3o fixa e celular, de ter estado na Am\u00e9rica Latina, de ter estado na Europa, de ter sido CEO. Isso te d\u00e1 um conhecimento do dia-a-dia que te ajuda muito na hora de ter perspectiva. Al\u00e9m disso, h\u00e1 dois anos lan\u00e7amos um programa chamado Elige Todo, que est\u00e1 muito focado na vis\u00e3o que comentei, das quatro plataformas. Isso foi lan\u00e7ado quando eu era CEO. Por isso, no que se refere \u00e0 vis\u00e3o estrat\u00e9gica da empresa, me sinto muito seguro. Agora, depois de ter visto muita gente, tanto dentro como fora da Espanha, em todos os n\u00edveis, todo tipo de empresas, se h\u00e1 algo que posso dizer com tranquilidade \u00e9 que estamos na dire\u00e7\u00e3o certa. Me sinto muito confort\u00e1vel, muito determinado, muito esperan\u00e7oso do papel que podemos ter em tudo isso e da in\u00e9rcia que levamos. A \u00fanica coisa que me deixa inquieto \u00e9 que eu gostaria de ir ainda mais rapidamente.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Sua atual equipe de diretores \u00e9 a mais adequada para encarar esses novos objetivos?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. A din\u00e2mica da casa \u00e9 que sempre h\u00e1 mudan\u00e7as. Mas se voc\u00ea me perguntar se creio ser necess\u00e1ria uma transforma\u00e7\u00e3o profunda, respondo que n\u00e3o. E se analisarmos dois ou tr\u00eas n\u00edveis abaixo de n\u00f3s que hoje estamos no primeiro, encontramos um pessoal incr\u00edvel. Voc\u00ea pode, ent\u00e3o, se perguntar: acredita que seria necess\u00e1ria uma inje\u00e7\u00e3o massiva de talento para mudar a empresa? N\u00e3o, mas sempre haver\u00e1 mudan\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. E CEO?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. O tempo dir\u00e1.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Como foi a transi\u00e7\u00e3o com C\u00e9sar Alierta?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Ele me apoiou em tudo. Quem me convidou foi ele.Ele tomou a decis\u00e3o de ir embora e n\u00e3o \u00e9 que pud\u00e9ssemos dizer que era poss\u00edvel prever isso. N\u00e3o. Ele tomou a decis\u00e3o e a executou. E neste ano, que foi duro, no qual esteve no conselho at\u00e9 o m\u00eas passado, ele me apoiou sempre.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Por que ele saiu do conselho?<\/p>\n<p>\u201cO debate sobre os novos valores tem de estar nos cidad\u00e3os\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Isso voc\u00ea tem que perguntar a ele. Ele me disse que tinha tomado a decis\u00e3o de sair e a respeitei. Acredito que ele est\u00e1 profundamente concentrado na Funda\u00e7\u00e3o Telef\u00f3nica, n\u00e3o s\u00f3 na Profuturo. H\u00e1 um projeto apaixonante na Funda\u00e7\u00e3o Telef\u00f3nica, e eu trabalho muito com ele ali. A educa\u00e7\u00e3o digital precisa ocupar um espa\u00e7o e, atrav\u00e9s da Funda\u00e7\u00e3o Telef\u00f3nica, nos sentimos capazes de fazer isso.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. O senhor se surpreendeu com os \u00faltimos acontecimentos pol\u00edticos ocorridos na Espanha?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. N\u00e3o creio que nosso papel seja em nenhum caso opinar sobre a atualidade pol\u00edtica. N\u00f3s estamos aqui, como em todos os pa\u00edses onde estamos, com investimentos que s\u00e3o de longu\u00edssimo prazo. Ou seja, quando algu\u00e9m constr\u00f3i uma rede fibras n\u00e3o est\u00e1 pensando no pr\u00f3ximo trimestre de resulados nem na \u00faltima not\u00edcia pol\u00edtica que se ouviu. Est\u00e1 pensando em um prazo muito mais longo. O que nos preocupa \u00e9 a estabilidade jur\u00eddica e o crescimento, e o respeito \u00e0s regras do jogo, \u00e0 institucionalidade. Minha miss\u00e3o \u00e9 que a companhia seja perdebida como um ator de crescimento de aporte ao PIB e n\u00e3o de outra coisa.<\/p>\n<p><strong>P<\/strong>. Mas o entorno pol\u00edtico cria determinadas condi\u00e7\u00f5es para o investidor. Como o senhor avalia o entorno pol\u00edtico na Espanha a partir desse ponto de vista, do ponto de vista de se \u00e9 facilitador ou, ao contr\u00e1rio, freia a atividade econ\u00f4mica?<\/p>\n<p>\u201cQue \u00e9tica ser\u00e1 preciso colocar nos rob\u00f4s?<strong>\u00a0<\/strong>Tudo isso exige um novo marco regulat\u00f3rio\u201d<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Se voc\u00ea est\u00e1 me perguntando que atitude estamos tomando agora mesmo, seguimos investindo, investindo a n\u00edveis historicamente altos na Espanha. A regula\u00e7\u00e3o nos condiciona no sentido de que em fun\u00e7\u00e3o de dependendo de como evoluir a regulamenta\u00e7\u00e3o sobre as fibras, aceleremos ainda mais ou reduziremos. Mas se a pergunta \u00e9 se \u00e9 atraente para a Telef\u00f3nica como grupo investir na Espanha, estamos demonstrando isso, estamos mantendo n\u00edveis de investimento historicamente altos.<\/p>\n<p>Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da Telef\u00f3nica e a sua pessoal como presidente da Telef\u00f3nica com os atuais partidos pol\u00edticos? Pouca, muita, nula?<\/p>\n<p>\u00c9 a necess\u00e1ria para explicar o projeto da Telef\u00f3nica. E com o respeito de que somos o que somos: um ator econ\u00f4mico e o que queremos \u00e9 que se ou\u00e7a o que \u00e9 nosso projeto.<\/p>\n<p>E o quest\u00e3o da Catalunha: \u00e9 uma regi\u00e3o importante da Espanha, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais uma regi\u00e3o, e o desafio que existe \u00e9 de outra natureza. H\u00e1 uma inquietude evidente dos atores econ\u00f4micos e empresariais, que em algumas ocasi\u00f5es se manifestaram publicamente. Como v\u00ea isso?<\/p>\n<p>\u00c9 como eu dizia, o que n\u00f3s valorizamos \u00e9 a estabilidade para poder realizar investimentos a longo prazo. Respeitamos as opini\u00f5es, temos muitos clientes na Catalunha, temos muitos funcion\u00e1rios na Catalunha e n\u00f3s continuamos investindo. Observamos o caso com aten\u00e7\u00e3o, mas o que n\u00f3s valorizamos em especial \u00e9 a estabilida<\/p>\n<p>de futura.<\/p>\n<p>Perd\u00e3o pela insist\u00eancia. Sei que como empres\u00e1rio precisa medir suas palavras&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o vou me posicionar. A Telef\u00f3nica precisa estar \u00e0 margem disso. N\u00f3s n\u00e3o podemos nos envolver. Nosso papel \u00e9 participar para que isso seja o mais est\u00e1vel poss\u00edvel. Porque qualquer outro papel \u00e9 mal interpretado, \u00e9 mal interpretado pela sociedade, \u00e9 mal interpretado por nossos clientes, mal interpretado por nossos acionistas. N\u00f3s precisamos estar preparados para transmitir claramente essas mensagens: n\u00f3s investimos, n\u00f3s estamos aqui para dar estabilidade, n\u00e3o para opinar.<\/p>\n<p>\u201cSeguiremos reduzindo d\u00edvida porque \u00e9 bom ter um perfil melhor\u201d<\/p>\n<p>Mas outros opinam.<\/p>\n<p>Por mim n\u00e3o, podem opinar por eles.<\/p>\n<p>No debate da mon\u00e7\u00e3o de censura, Pablo Iglesias no Congresso, na sede parlamentar, citou a empresa em uma ou duas ocasi\u00f5es. \u00c9 evidente que existem pessoas tentando utiliz\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>Meu papel \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. Meu papel \u00e9 justamente fazer com que a Telef\u00f3nica esteja \u00e0 margem, no sentido de que nossa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 dar estabilidade e damos estabilidade contribuindo com o crescimento, fazendo o que se sup\u00f5e que precisamos fazer. Para mim, ficar \u00e0 margem da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o significa que voc\u00ea n\u00e3o explique o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, o que acredita que vir\u00e1, o que falamos sobre revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, do que acreditamos que \u00e9 bom, das oportunidades que existem. Explic\u00e1-lo a todo o espectro pol\u00edtico, para que compreendam qual \u00e9 a miss\u00e3o da Telef\u00f3nica. Acreditamos que fazendo isso estamos dando estabilidade, que o que fazemos do ponto de vista do emprego, do ponto de vista do servi\u00e7o, seja totalmente transparente. Por que digo isso? Porque neste mundo, a transpar\u00eancia ser\u00e1 um dos valores mais apreciados, n\u00e3o somente pelos clientes e pelos acionistas, mas pela sociedade em seu conjunto. Eu sou respons\u00e1vel pelo que digo e pelo que a Telef\u00f3nica diz e \u00e9 essa a miss\u00e3o. Estou h\u00e1 um ano tentando fazer isso, tentando fazer com que a Telef\u00f3nica seja vista como uma empresa que est\u00e1 a\u00ed para apoiar, para ajudar, para investir, para fazer coisas que mobilizem a economia e n\u00e3o para outras coisas. Porque \u00e9 o que a sociedade pede de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 dif\u00edcil de fazer.<\/p>\n<p>Claro que \u00e9 dif\u00edcil. Eu n\u00e3o sou ing\u00eanuo, posso ser muitas coisas, mas n\u00e3o ing\u00eanuo, e al\u00e9m disso conhe\u00e7o esta casa. O que eu quero dizer \u00e9 que manter a posi\u00e7\u00e3o que estou transmitindo n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 nada confort\u00e1vel, exige que voc\u00ea tome decis\u00f5es, e exige que voc\u00ea tome decis\u00f5es pelas quais, al\u00e9m de tudo, voc\u00ea \u00e9 o respons\u00e1vel. Acredito muito nisso, porque acredito neste mundo do qual falava, a transpar\u00eancia, a coer\u00eancia com o que voc\u00ea diz.<\/p>\n<p>Sente que \u00e9 um homem com poder?<\/p>\n<p>Acredito que por sorte a empresa tem os contrapesos suficientes para que se eu acreditar nisso ela possa me parar. Eu acho que \u00e9 bom que existam equil\u00edbrios, acho que \u00e9 bom que a empresa tenha para onde olhar, que exista uma dire\u00e7\u00e3o, mas acho que \u00e9 preciso haver limites.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Jorge Rivera de Madri para o El Pais Brasil \u2013 dispon\u00edvel na internet 19\/06\/2017 <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Mar\u00eda \u00c1lvarez-Pallete\u00a0(Madri, 1963) passou os \u00faltimos dias dando os retoques na sua tese de doutorado, que fala sobre\u00a0Big Data\u00a0aplicado aos fluxos da balan\u00e7a de pagamentos. A ruptura digital tornou-se a paix\u00e3o e a obsess\u00e3o do presidente da Telef\u00f3nica. Tuiteiro insaci\u00e1vel, maratonista convicto, guardi\u00e3o de sua privacidade, \u00c1lvarez-Pallete est\u00e1 acostumado a enfrentar os grandes desafios. 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