{"id":14697,"date":"2017-07-14T00:03:03","date_gmt":"2017-07-14T03:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=14697"},"modified":"2022-08-16T03:00:03","modified_gmt":"2022-08-16T06:00:03","slug":"de-adriana-caringi-ao-pm-marcos-marques-da-silva-ou-como-o-politicamente-correto-ensinou-a-criminalidade-a-usar-a-sociedade-como-escudo-humano-e-inviabilizou-na-pratica-a-atividade-policial-no-brasi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/07\/14\/de-adriana-caringi-ao-pm-marcos-marques-da-silva-ou-como-o-politicamente-correto-ensinou-a-criminalidade-a-usar-a-sociedade-como-escudo-humano-e-inviabilizou-na-pratica-a-atividade-policial-no-brasi\/","title":{"rendered":"De Adriana Caringi ao PM Marcos Marques da Silva ou como o politicamente correto ensinou \u00e0 criminalidade a usar a sociedade como escudo humano e inviabilizou, na pr\u00e1tica, a atividade policial no Brasil."},"content":{"rendered":"<p>Houve um tempo, num passado n\u00e3o muito distante, onde a pol\u00edcia podia tudo \u2013 para o bem ou para o mal \u2013 no combate urbano \u00e0 criminalidade. Um exemplo f\u00e1tico disso foi o epis\u00f3dio conhecido como \u201cquatrocentos contra um\u201d ocorrido em 3 de abril de 1981. Quatrocentos policiais civis e militares fizeram um gigantesco cerco a meia d\u00fazia de traficantes\/assaltantes de banco num conjunto residencial no Rio de Janeiro. Mais de 2000 tiros foram disparados, o pr\u00e9dio residencial foi parcialmente destru\u00eddo por explosivos. Resultado: tr\u00eas policiais mortos, quatro feridos, um pr\u00e9dio destru\u00eddo e o criminoso conhecido como Z\u00e9 Bigode neutralizado.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca havia muita vontade de enfrentar bandidos e pouca t\u00e9cnica policial. Havia um estado amparando as a\u00e7\u00f5es policiais, que, com eventuais excessos ou n\u00e3o, conseguiam, custasse o que custasse, fazer a conten\u00e7\u00e3o da criminalidade violenta.<\/p>\n<p>Os policiais do passado n\u00e3o usavam coletes mas eram temidos pelos bandidos. N\u00e3o havia armamento de ponta al\u00e9m dos velhos rev\u00f3lveres 38, mas havia muita disposi\u00e7\u00e3o para o enfrentamento. As viaturas faziam os marginais tremerem as pernas quando passavam. O cidad\u00e3o comum, cumpridor da lei, andava tranquilo com seus filhos na rua e dificilmente tinha problemas com as autoridades constitu\u00eddas.<\/p>\n<p>Mas algo mudou no meio do caminho. E h\u00e1 outra ocorr\u00eancia famosa que parece ser o ponto de ruptura de um passado de liberdade total de a\u00e7\u00e3o para a atual situa\u00e7\u00e3o de grave fragilidade em que a pol\u00edcia se encontra hoje: o caso do cerco aos assaltantes\/sequestradores da professora Adriana Caringi no dia 20 de mar\u00e7o de 1990. Neste epis\u00f3dio, um assalto que evoluiu pra uma situa\u00e7\u00e3o com ref\u00e9ns numa resid\u00eancia, um cabo do GATE(*), considerado um dos melhores atiradores da tropa paulista, avaliou a situa\u00e7\u00e3o e pensou que havia uma boa janela de oportunidade para encerrar a ocorr\u00eancia. Na janela a cabe\u00e7a do sequestrador estava na sua al\u00e7a de mira, ent\u00e3o ele apontou seu fuzil e atirou. Acertou o alvo, mas n\u00e3o contava que a professora sequestrada tamb\u00e9m teria sua cabe\u00e7a transpassada pelo proj\u00e9til. Resultado: um bandido e uma inocente mortos. O caso, como n\u00e3o haveria de ser, causou grande repercuss\u00e3o na imprensa e nas pol\u00edcias de forma geral. E provocou, a partir dali, um efeito colateral extremamente mortal: a pol\u00edcia, que antes tudo podia, passou para o outro extremo: o de quase nada mais poder. Isso foi visto claramente no caso Elo\u00e1 e no caso do \u00d4nibus 147. A ina\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia neste dois casos s\u00e3o reflexos diretos da interfer\u00eancia pol\u00edtica e de parcela da m\u00eddia, sempre t\u00e3o \u00e1vida por sensacionalismo. O receio da condena\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria por qualquer erro operacional agravaram essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Protocolos de a\u00e7\u00e3o policial em ocorr\u00eancias complexas envolvendo ref\u00e9ns s\u00e3o algo relativamente recente n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas tamb\u00e9m em pa\u00edses de primeiro mundo. Quem assistiu o filme \u201cUm dia de c\u00e3o\u201d, produ\u00e7\u00e3o hollywoodiana de 1975, p\u00f4de observar como a pol\u00edcia americana agiu de forma instintiva e improvisada no roubo a banco ocorrido em Nova York no dia 22 de agosto de 1972, retratado fielmente nesta obra cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>O resultado direto de uma pol\u00edcia hesitante e fragilizada \u00e9 a pilha de 70.000 cad\u00e1veres anuais v\u00edtimas de uma criminalidade desenfreada que n\u00e3o encontra rea\u00e7\u00e3o efetiva e proporcional do estado. Leis d\u00e9beis, interpreta\u00e7\u00f5es judiciais lenientes e cultura pr\u00f3-banditismo e antipolicial tamb\u00e9m tem grande parcela de responsabilidade nesta trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se advoga aqui a licen\u00e7a irrestrita para agir. As ocorr\u00eancias onde morrem ref\u00e9ns s\u00e3o um desastre lament\u00e1vel e o estado tem a obriga\u00e7\u00e3o de indenizar as v\u00edtimas. Mas uma verdade inconveniente precisa ser dita com todas as letras: a cobran\u00e7a politicamente correta da perfei\u00e7\u00e3o operacional em todas as ocorr\u00eancias desconsidera a falibilidade da natureza humana. O policial n\u00e3o \u00e9 super-her\u00f3i e, sob imenso stress e correndo risco de vida, em algum momento vai errar e, infelizmente, inocentes eventualmente ser\u00e3o feridos ou morrer\u00e3o como efeitos colaterais de um combate urbano. Isso \u00e9 indesej\u00e1vel e lament\u00e1vel, sem d\u00favida, mas n\u00e3o existe cen\u00e1rio absolutamente controlado em \u00e1reas urbanas, sobretudo as densamente povoadas.<\/p>\n<p>Mas ou aceitamos que pol\u00edcia deve agir em nome do bem comum, mesmo com erros eventuais e justific\u00e1veis, ou renunciamos nossa liberdade entregando nosso destino ao caos do banditismo( e \u00e9 exatamente isso que est\u00e1 acontecendo hoje no Brasil).<\/p>\n<p>Quando a elite da pol\u00edcia brit\u00e2nica matou, por engano, Jean Charles, o estado viu que tinha o dever de indenizar. Mas se aqueles policiais sentissem que sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o era amparada pelo estado, naquele momento t\u00e3o sens\u00edvel, e fossem punidos por agir em tais circunst\u00e2ncias( no caso bombas e terrorismo), a sociedade seria fragilizada porque ningu\u00e9m mais se arriscaria por ela.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que os atuais protocolos de a\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias estrangeiras miram no melhor resultado poss\u00edvel e n\u00e3o a muitas vezes inating\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o operacional. Foi por isso que, em 14 de dezembro de 2014 a elite da pol\u00edcia australiana, para colocar fim a 17 horas de sequestro num caf\u00e9 em Sidney, decidiu invadir a cafeteria e matar o sequestrador. Dos 19 ref\u00e9ns, dois morreram. Foi o melhor poss\u00edvel naquelas circunst\u00e2ncias. A sociedade de l\u00e1 entendeu o \u00f3bvio: \u00e9 melhor salvar 17 do que nenhum ou menos que isso. Ou a pol\u00edcia age, ou ser\u00e1 pior, mesmo que isso signifique alguma lament\u00e1vel perda em decorr\u00eancia desta a\u00e7\u00e3o.&nbsp;<strong>No Brasil parece ser prefer\u00edvel a morte de 70.000 pessoas nas m\u00e3os da criminalidade do que um eventual erro policial vitimar um inocente.<\/strong><\/p>\n<p>Os bandidos brasileiros est\u00e3o cada vez mais agressivos porque sabem que poder\u00e3o usar, impunemente, a sociedade como ref\u00e9m. E ter\u00e3o ONGs, jornalistas e pol\u00edticos para condenar, sumariamente, qualquer mil\u00edmetro de margem de erro da pol\u00edcia. E foi isso que tornou a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds inteiro ref\u00e9m da criminalidade no \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><strong>O policial, abandonado por tudo e por todos, \u00e9 um kamicaze involunt\u00e1rio nesta trag\u00e9dia. \u00c9 um her\u00f3i incompreendido e rejeitado. \u00c9 espremido entre sua natural vontade de agir, pelo seu instinto de c\u00e3o pastor, e por uma realidade que a todo momento lhe diz: n\u00e3o vale a pena.<\/strong><\/p>\n<p>Hoje um grande her\u00f3i tombou no cumprimento do dever. Estava sozinho contra marginais em superioridade num\u00e9rica e de armamento. Foi pra cima dos bandidos perigosos contra tudo e contra todos. Mas deixou de agir porque havia um ref\u00e9m no caminho. Mas tanta coisa deve ter passado na cabe\u00e7a dele nos segundos finais\u2026tanta coisa que o impediu de fazer o que deveria ser feito: puxar o gatilho e preservar a pr\u00f3pria vida, voltar pra sua casa e sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada que condene mais a sociedade \u00e0 barb\u00e1rie do que ideologias e doutrinas que matem o esp\u00edrito de combatente de um policial e coloquem em seu lugar o receio e a hesita\u00e7\u00e3o em agir, motivados pelo mais absoluto desamparo e incompreens\u00e3o da verdadeira natureza desta atividade.<\/p>\n<p>Ou mudamos essa mentalidade imediatamente, ou estaremos irremediavelmente perdidos.<\/p>\n<p><strong>Artigo p<em>ublicado &nbsp;n<\/em><em>a p\u00e1gina da \u00d3tica Policial<\/em><em> &#8211; dispon\u00edvel na internet <\/em><em>14<\/em><em>\/07\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo, num passado n\u00e3o muito distante, onde a pol\u00edcia podia tudo \u2013 para o bem ou para o mal \u2013 no combate urbano \u00e0 criminalidade. Um exemplo f\u00e1tico disso foi o epis\u00f3dio conhecido como \u201cquatrocentos contra um\u201d ocorrido em 3 de abril de 1981. 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