{"id":15117,"date":"2017-07-28T04:00:27","date_gmt":"2017-07-28T07:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=15117"},"modified":"2017-07-28T05:30:15","modified_gmt":"2017-07-28T08:30:15","slug":"o-advogado-da-odebrecht-que-escapou-da-lava-jato-fala-pela-primeira-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/07\/28\/o-advogado-da-odebrecht-que-escapou-da-lava-jato-fala-pela-primeira-vez\/","title":{"rendered":"O advogado da Odebrecht que escapou da Lava Jato fala pela primeira vez"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-datos\">Rodrigo Tacla se transformou em uma bomba-rel\u00f3gio. Em um dos homens mais temidos pelos presidentes e altos funcion\u00e1rios da\u00a0Am\u00e9rica Latina. Aos 44 anos, este advogado conhece bem os segredos da Odebrecht, a gigante brasileira da constru\u00e7\u00e3o\u00a0que abalou as estruturas pol\u00edticas do continente depois de confirmar o pagamento de subornos milion\u00e1rios a Governos de 12 pa\u00edses. At\u00e9 2016, Tacla trabalhou como advogado do Departamento de Opera\u00e7\u00f5es Estruturadas da empresa, a herm\u00e9tica unidade de neg\u00f3cios especializada em comprar vontades. Campanhas eleitorais, presentes, festas, prostitutas&#8230; Tudo valia para afagar os pol\u00edticos. Como contrapartida, presidentes e chefes de Estado correspondiam com contratos de obras p\u00fablicas, principal fonte de receita da maior construtora da Am\u00e9rica Latina. Um colosso com 168.000 empregados e tent\u00e1culos em 28 pa\u00edses.<\/div>\n<\/header>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"videonoticia\" class=\"centro\">\n<figure class=\"foto  centro\">\n<div id=\"multimediaPlayer_856784069\">\n<div><a class=\"posicionador\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep02.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/07\/27\/internacional\/1501182665_801375_1501197754_noticia_fotograma.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>O EL PA\u00cdS localizou em Madri esse advogado de nacionalidade hispano-brasileiraque foi preso em novembro por ordem do juiz de Curitiba, estrela da\u00a0Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, S\u00e9rgio Moro. Depois de passar 72 dias na pris\u00e3o de Soto del Real \u2013acusado de suborno e lavagem de dinheiro\u2013, encontra-se em liberdade provis\u00f3ria.\u00a0<span lang=\"ES\" xml:lang=\"ES\">Tacla ser\u00e1 julgado na Espanha depois que um tribunal superior do pa\u00eds rejeitou o pedido de extradi\u00e7\u00e3o feito para que voltasse a seu pa\u00eds natal, Brasil. O\u00a0advogado s\u00f3 tem nacionalidade espanhola desde 1994, porque seu pai e av\u00f4 eram galegos.<\/span><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">A CONEX\u00c3O ESPANHOLA<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div><b>Pergunta.<\/b>\u00a0A Promotoria Anticorrup\u00e7\u00e3o investiga obras na Am\u00e9rica Latina de construtoras espanholas que integraram cons\u00f3rcios com a Odebrecht. Empresas como Acciona, que participou no metr\u00f4 de Quito (5,1 bilh\u00f5es de reais), ou FCC, que construiu o metr\u00f4 do Panam\u00e1 (6,11 bilh\u00f5es), est\u00e3o sob suspeita. Qual foi o papel dessas empresas?<b><\/b><\/div>\n<div><b>Resposta.\u00a0<\/b>N\u00e3o posso dar detalhes porque estou colaborando com a Promotoria Anticorrup\u00e7\u00e3o espanhola. O que posso dizer \u00e9 que Promotoria perguntou se estava interessado em fornecer informa\u00e7\u00f5es ao Panam\u00e1. Respondi que n\u00e3o tinha nenhum problema, desde que a colabora\u00e7\u00e3o seguisse pela via judicial. N\u00e3o posso aceitar que a Promotoria do Panam\u00e1 ligue para as autoridades espanholas de um modo informal [extrajudicial]. Quando pedi que a colabora\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds fosse oficial, n\u00e3o me ligaram novamente.<\/div>\n<div>\n<div><b>Pergunta.<\/b>\u00a0A Promotoria Anticorrup\u00e7\u00e3o investiga obras na Am\u00e9rica Latina de construtoras espanholas que integraram cons\u00f3rcios com a Odebrecht. Empresas como Acciona, que participou no metr\u00f4 de Quito (5,1 bilh\u00f5es de reais), ou FCC, que construiu o metr\u00f4 do Panam\u00e1 (6,11 bilh\u00f5es), est\u00e3o sob suspeita. Qual foi o papel dessas empresas?<\/div>\n<div><b>Resposta.\u00a0<\/b>N\u00e3o posso dar detalhes porque estou colaborando com a Promotoria Anticorrup\u00e7\u00e3o espanhola. O que posso dizer \u00e9 que Promotoria perguntou se estava interessado em fornecer informa\u00e7\u00f5es ao Panam\u00e1. Respondi que n\u00e3o tinha nenhum problema, desde que a colabora\u00e7\u00e3o seguisse pela via judicial. N\u00e3o posso aceitar que a Promotoria do Panam\u00e1 ligue para as autoridades espanholas de um modo informal [extrajudicial]. Quando pedi que a colabora\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds fosse oficial, n\u00e3o me ligaram novamente.<\/div>\n<p><b>P.<\/b>\u00a0Por que o Panam\u00e1 n\u00e3o quer continuar a via convencional da colabora\u00e7\u00e3o judicial?<\/p>\n<p><b>R.<\/b>A chave est\u00e1 na amizade do respons\u00e1vel da filial da Odebrecht no Panam\u00e1, Andr\u00e9 Rabello, com o presidente do pa\u00eds, Juan Carlos Varela. Querem saber o que digo na Espanha.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A Justi\u00e7a brasileira pede sua extradi\u00e7\u00e3o por supostamente lavar mais de 50 milh\u00f5es de reais a pedido\u00a0 da empresa. E a Odebrecht afirma que o contratou para lavar as comiss\u00f5es ilegais. Tacla nega. Argumenta que s\u00f3 prestou servi\u00e7os. E que conheceu os esgotos da empresa porque \u201cavaliou riscos\u201d como advogado naqueles pa\u00edses onde a construtora comprou dezenas de pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O advogado, que est\u00e1 colaborando com o Departamento de Justi\u00e7a dos EUA e a Procuradoria anticorrup\u00e7\u00e3o espanhola, revela em sua primeira entrevista os pontos-chave do maior esc\u00e2ndalo da Am\u00e9rica. Uma bomba pol\u00edtica carregada de metralha que j\u00e1 afeta os presidentes\u00a0Michel Temer (Brasil), Juan Manuel Santos (Col\u00f4mbia) e Danilo Medina (Rep\u00fablica Dominicana), e os ex-mandat\u00e1rios Ollanta Humala (Peru) e\u00a0Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (Brasil).<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea foi preso em um hotel em Madri em 18 de novembro de 2016, dois dias ap\u00f3s desembarcar na Espanha. Foi detido por ordem do juiz S\u00e9rgio Moro que o acusa de suposto delito de suborno, lavagem de dinheiro e de integrar uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa, por que veio para Madri?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0N\u00e3o fugi do Brasil. Cheguei a Madri para participar da inspe\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Fazenda nas minhas duas empresas espanholas. Depois da explos\u00e3o do caso Odebrecht, as autoridades brasileiras e a construtora tentaram me pressionar para ser parte do acordo,\u00a0um documento que assinaram 78 diretores da empresa\u00a0e que significou reconhecer crimes em troca de uma redu\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a e uma multa. No meu caso: seis meses de pris\u00e3o domiciliar com tornozeleira, servi\u00e7os comunit\u00e1rios e uma multa de at\u00e9 44 milh\u00f5es de reais. Odebrecht se ofereceu para me pagar 15 anos de folha de pagamento, se eu aceitasse o acordo. Neguei por uma quest\u00e3o de princ\u00edpios. Enquanto falava com o Departamento de Justi\u00e7a em Washington, o Brasil exigiu minha pris\u00e3o em julho e setembro de 2016. Os EUA, no entanto, n\u00e3o me prenderam. N\u00e3o quero trair ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A Audi\u00eancia Nacional (tribunal espanhol para crimes especiais) decidiu n\u00e3o extradit\u00e1-lo ao Brasil, por que quer ficar na Espanha?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Os promotores do Brasil querem que eu reconhe\u00e7a crimes que n\u00e3o cometi. N\u00e3o respeitaram meus direitos como advogado. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m querem atribuir crimes por informa\u00e7\u00f5es que obtive na minha condi\u00e7\u00e3o de advogado. Est\u00e3o me atribuindo delitos sem provas, com base em declara\u00e7\u00f5es. N\u00e3o houve nenhuma investiga\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Como a Odebrecht atuava?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A construtora arranjava tudo pagando. Distribu\u00eda comiss\u00f5es ao funcion\u00e1rio mais baixo da Administra\u00e7\u00e3o e ao chefe de Estado. O primeiro contato era estabelecido na campanha eleitoral. A Odebrecht arcava com os gastos do marketing pol\u00edtico dos candidatos. Tinha um acordo com o publicit\u00e1rio Jo\u00e3o Santana\u00a0[respons\u00e1vel pelas bem-sucedidas campanhas dos ex-presidentes Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff]. A construtora sugeria depois as obras que seriam inclu\u00eddas nos planos do Governo.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;A Odebrecht tamb\u00e9m organizava festas. E mandava mulheres do Brasil para festas com pol\u00edticos. Mas isso tamb\u00e9m se tornou uma chantagem&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O pol\u00edtico devolvia o favor quando chegava ao poder&#8230;<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. O dirigente inclu\u00eda em seu plano de Governo as obras que interessavam \u00e0 Odebrecht. A construtora, em alguns casos, assessorava os pa\u00edses sobre como conseguir financiamento por meio de \u00f3rg\u00e3os como o Banco Mundial ou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quantos funcion\u00e1rios, candidatos e presidentes a Odebrecht subornou?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Mais de 1.000. Atrav\u00e9s da empresa, receberam desde gerentes de empresas p\u00fablicas a chefes de Estado. Somente no Brasil h\u00e1 500 pessoas afetadas. E existem pol\u00edticos e altos funcion\u00e1rios brasileiros cujos nomes ainda n\u00e3o apareceram.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A Odebrecht pagou em 2016 a maior multa da hist\u00f3ria \u2013-8,25 bilh\u00f5es de reais\u2013 aos Governos do Brasil, Su\u00ed\u00e7a e EUA para poder voltar a se candidatar a licita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. A construtora reconheceu com este acordo que desde 2001\u00a0distribuiu subornos em 12 pa\u00edses.\u00a0Consta a exist\u00eancia de mais Estados implicados?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. Por exemplo, a empresa desembolsou 11 milh\u00f5es de reais em janeiro de 2016 ao primeiro-ministro de Ant\u00edgua e Barbuda, Gaston Browne.\u00a0<span lang=\"ES\" xml:lang=\"ES\">[O EL PA\u00cdS tentou sem \u00eaxito contactar Browne. O primeiro-ministro de Antigua e Barbuda negou a meios locais ter recebido propina da Odebrecht].<\/span>\u00a0O pagamento foi feito por interm\u00e9dio do diplomata desse pa\u00eds Casroy James. E contou com o aval do vice-presidente jur\u00eddico da Odebrecht, Maur\u00edcio Ferro. O dinheiro tinha por objetivo evitar que Ant\u00edgua e Barbuda comunicasse \u00e0s autoridades judiciais do Brasil as movimenta\u00e7\u00f5es no Meinl Bank, uma institui\u00e7\u00e3o local adquirida pela Odebrecht e que foi utilizada para a lavagem de recursos dos subornos.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;A empresa apostava. Por exemplo, na disputa entre Lula e Dilma, a Odebrecht preferiu Lula.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Embora Browne tenha recebido 11 milh\u00f5es, a opera\u00e7\u00e3o custou \u00e0 Odebrecht 39 milh\u00f5es. A maior parte desse dinheiro acabou no bolso de v\u00e1rios diretores da construtora e do Meinl Bank. A decis\u00e3o [do suborno de Browne] foi adotada em setembro de 2015 durante uma reuni\u00e3o no Hotel InterContinental de Madri da qual eu mesmo participei.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Pode explicar qual era a miss\u00e3o desse pequeno banco de Ant\u00edgua e Barbuda comprado pela construtora?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O\u00a0Meinl Bank era uma fachada nesse para\u00edso fiscal do Caribe, tinha s\u00f3 tr\u00eas empregados em um pequeno escrit\u00f3rio. Sua sede em S\u00e3o Paulo estava no Consulado. Era o centro nevr\u00e1lgico de onde se faziam os pagamentos irregulares. Da\u00ed se transferia dinheiro a outros bancos, como a Banca Privada de Andorra (BPA), uma institui\u00e7\u00e3o fechada em 2015 por corrup\u00e7\u00e3o. Mediante pagamentos internos se evitava deixar rastro e escapar das digitais dos fundos quando se inclui o Swift (c\u00f3digo de transfer\u00eancia internacional).<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Que papel desempenharam na estrutura de lavagem a Banca Privada de Andorra (BPA) e sua filial na Espanha, o Banco Madrid?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A BPA era o banco encarregado dos pagamentos finais. A Odebrecht abria contas nessa institui\u00e7\u00e3o em nome de Pessoas Politicamente Expostas (PEPs), que \u00e9 como se denominam os cargos p\u00fablicos suscet\u00edveis de lavar dinheiro. A construtora ordenava transfer\u00eancias ao BPA de seu banco em Ant\u00edgua e Barbuda. Depois, o dinheiro no BPA era transferido atrav\u00e9s de movimenta\u00e7\u00f5es internas \u2013alheias aos registros\u2013 at\u00e9 as contas dos benefici\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quanto a empresa gastava por ano em propina?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Cerca de 960 milh\u00f5es de reais. Era movimentado em dinheiro por meio de contas em para\u00edsos fiscais e transfer\u00eancias internacionais. A construtora, por seguran\u00e7a, nunca pagava nos pa\u00edses de origem do benefici\u00e1rio. E usava o Meinl Bank para enviar fundos a Pessoas Politicamente Expostas (PEP). Assim se fez chegar dinheiro a Michelle Lasso, uma pessoa pr\u00f3xima ao presidente do Panam\u00e1, Juan Carlos Varela.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quem idealizou o esquema de lavagem de dinheiro? Quem era o c\u00e9rebro?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 um c\u00e9rebro. H\u00e1 um banco como c\u00e9rebro: o Meinl Bank de Ant\u00edgua e Barbuda. O funcion\u00e1rio\u00a0do Departamento de Opera\u00e7\u00f5es Estruturadas (o escrit\u00f3rio que distribu\u00eda os subornos), Luiz Eduardo da Rocha Soares, idealizou o sistema. Ele foi tamb\u00e9m o respons\u00e1vel pela compra do Meinl Bank. Havia dois diretores da construtora que eram acionistas dessa entidade em Ant\u00edgua e Barbuda sem que a empresa soubesse, o pr\u00f3prio Rocha Soares e\u00a0Fernando Migliaccio.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quantas empresas a Odebrecht manejava em para\u00edsos fiscais?<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Os n\u00fameros da Col\u00f4mbia reconhecidos pela empresa s\u00e3o muito baixos. N\u00e3o acredito<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Mais de uma centena. Eu cheguei \u00e0 construtora em 2011. Mas a estrutura j\u00e1 existia desde 2006.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O presidente da empresa,\u00a0Marcelo Odebrecht, foi condenado a 19 anos de pris\u00e3o. Junto com ele, 77 executivos da empresa colaboraram com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Brasil em troca da redu\u00e7\u00e3o de suas penas. A Odebrecht admitiu o pagamento de 2,5 bilh\u00f5es de reais em subornos. Esse n\u00famero est\u00e1 correto?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o. Um ex-diretor do Meinl Bank declarou que essa institui\u00e7\u00e3o movimentou 8,15 bilh\u00f5es de reais. E esse banco trabalhava exclusivamente para a Odebrecht. N\u00e3o tinha clientes normais.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Por que a Odebrecht aceitou um acordo que implicava a admiss\u00e3o de culpa?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Porque havia muita press\u00e3o por parte dos funcion\u00e1rios. Se os diretores n\u00e3o tivessem feito o acordo, os trabalhadores o teriam feito individualmente. E a empresa n\u00e3o teria controlado o processo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Foram pagos subornos em esp\u00e9cie?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. Em 2014 a Odebrecht tentou dar um avi\u00e3o\u00a0ao ex-presidente Panam\u00e1, Ricardo Martinelli.\u00a0O pol\u00edtico recusou. A empreiteira queria agradar Martinelli e o candidato do seu partido (o governista Mudan\u00e7a Democr\u00e1tica), que disputava as elei\u00e7\u00f5es gerais de 2014, Jos\u00e9 Domingo Arias, o\u00a0<em>Mimito<\/em>.<\/p>\n<p>A Odebrecht tamb\u00e9m organizava festas. E mandava mulheres do Brasil para festas com pol\u00edticos no Panam\u00e1 e na Rep\u00fablica Dominicana. Era a maneira de a empreiteira manifestar sua gratid\u00e3o. Mas isso tamb\u00e9m se tornou uma chantagem&#8230;<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Eram feitas fotos nessas festas?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. E eram guardadas. O executivo da Odebrecht no Panam\u00e1, Andr\u00e9 Rabello, sabia como usar essas fotos. Rabello tamb\u00e9m lidava com informa\u00e7\u00f5es sobre as esposas e as rela\u00e7\u00f5es extraconjugais dos pol\u00edticos panamenhos. A empreiteira dava presentes \u00e0s esposas destes. Participei de uma reuni\u00e3o na qual Rabello disse que tinha a confirma\u00e7\u00e3o do presidente do Panam\u00e1, Juan Carlos Varela, de que o pa\u00eds n\u00e3o iria responder \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es da Justi\u00e7a do Brasil [sobre o caso Odebrecht].<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A Odebrecht sabia que as esposas e as amantes dos pol\u00edticos recebiam subornos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim. A empreiteira resolvia a vida financeira das esposas dos pol\u00edticos. Especialmente a das ex-mulheres.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0No Brasil, a Odebrecht admitiu o pagamento de 1,12 bilh\u00f5es de reais em subornos para obter contratos de obras no valor de 1,6 bilh\u00f5es durante as presid\u00eancias de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e\u00a0Dilma Rousseff&#8230;<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O montante foi muito maior. A empresa gastava 481 milh\u00f5es de reais por ano em propina. O pagamento era feito em esp\u00e9cie ou por meio de transfer\u00eancias. At\u00e9 o porteiro recebia. Os subornos respingaram em todos os partidos. De direita, de esquerda&#8230; Do Governo, da oposi\u00e7\u00e3o&#8230; E n\u00e3o h\u00e1 somente pol\u00edticos entre os benefici\u00e1rios&#8230; A empresa apostava.\u00a0Por exemplo, na disputa entre Lula e Dilma, a Odebrecht preferiu Lula.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A empresa confirmou que na Col\u00f4mbia pagou 37 milh\u00f5es de reais em subornos para conseguir contratos no valor de 159 milh\u00f5es entre 2009 e 2014. O montante est\u00e1 correto?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o conhe\u00e7o em profundidade o caso da Col\u00f4mbia, como tampouco tenho detalhes da situa\u00e7\u00e3o na\u00a0Argentina, Peru, Venezuela ou Guatemala. Mas os n\u00fameros da Col\u00f4mbia reconhecidos pela empresa s\u00e3o muito baixos. N\u00e3o acredito que a Odebrecht tivesse uma estrutura no pa\u00eds por causa de apenas 159 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0E no Equador, a empreiteira admitiu ter destinado 107 milh\u00f5es de reais para propina ilegais para obter contratos no valor de 370 milh\u00f5es\u00a0durante o mandato do presidente Rafael Correa (2007-2017). Quais pol\u00edticos equatorianos est\u00e3o envolvidos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Acabo de responder na Espanha a uma comiss\u00e3o rogat\u00f3ria \u2013pedido de aux\u00edlio judicial entre Estados\u2013 do Equador. Informei que o ex-ministro de Eletricidade do Governo de Rafael Correa, Alecksey Mosquera, que foi preso pelo caso Odebrecht, recebeu uma comiss\u00e3o de 3,22 milh\u00f5es de reais por meio da Banca Privada de Andorra (BPA), onde teve uma conta. Desconhe\u00e7o porque Mosquera recebeu essa comiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O que nos pode dizer sobre o M\u00e9xico?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Que a Odebrecht acreditava que o presidente do M\u00e9xico seria o ex-diretor geral\u00a0da companhia petrol\u00edfera estatal Petr\u00f3leos Mexicanos (Pemex), Emilio Lozoya Austin. E gostava da ideia. A empreiteira tinha muito interesse em Lozoya.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A Odebrecht admitiu que pagou 189 milh\u00f5es de reais em subornos a funcion\u00e1rios do Governo no Panam\u00e1 entre 2010 e 2014, o n\u00famero est\u00e1 correto?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A quantia \u00e9 maior. A empresa arcou com as despesas dos principais candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es gerais panamenhas de 2014: o situacionista Jos\u00e9 Domingo Arias e seu advers\u00e1rio, o atual presidente Juan Carlos Varela. Apostou nos dois. A empreiteira tamb\u00e9m pagou 3,7 milh\u00f5es de reais a dois fornecedores de uma empresa de rum de propriedade de Varela. O pagamento foi feito atrav\u00e9s de uma conta no HSBC em Hong Kong. Quando Varela era vice-presidente (2009-2014), foi enviado dinheiro a Michelle Lasso, uma pessoa ligada ao pol\u00edtico que tinha uma conta no banco da Odebrecht em Ant\u00edgua e Barbuda. A empreiteira ficou assustada porque Lasso teve um problema de neg\u00f3cios nos EUA e temia que fosse investigada.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0A empreiteira reconheceu o pagamento de 296 milh\u00f5es de reais em comiss\u00f5es ilegais na Rep\u00fablica Dominicana, onde conseguiu contratos no valor de 526 milh\u00f5es. Quem se beneficiou desses subornos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A Odebrecht tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com o presidente da Rep\u00fablica Dominicana, Danilo Medina. E recomendou a Medina o publicit\u00e1rio Jo\u00e3o Santana. Al\u00e9m disso, Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira, decidiu mudar o departamento de Opera\u00e7\u00f5es Estruturadas (o escrit\u00f3rio que pagava os subornos) de S\u00e3o Paulo para Santo Domingo em 2015. O objetivo era ter maior controle contra poss\u00edveis opera\u00e7\u00f5es policiais e investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O senhor j\u00e1 recebeu amea\u00e7as nos EUA ou na Espanha?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim, por telefone e pelas redes sociais. Exigiam que me calasse. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m foi amea\u00e7ada. Denunciei essa situa\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades da Espanha e dos EUA. [Tacla mostra uma mensagem de\u00a0WhatsApp\u00a0da m\u00e3e com o seguinte: texto: \u201cFilho, estou sendo amea\u00e7ada por telefone. Eles dizem que te amarraram. Que \u00e9 um assalto. Que querem joias, dinheiro para te libertar&#8230; S\u00e3o tr\u00eas horas da manh\u00e3&#8230;&#8221;].<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O senhor acredita que altos funcion\u00e1rios e governantes da Am\u00e9rica Latina temem sua confiss\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sem d\u00favida. Meu depoimento pode afetar muita gente poderosa no mundo.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">&#8220;NUNCA PAGUEI POL\u00cdTICOS&#8221;<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>Rodrigo Tacla enfrenta a acusa\u00e7\u00e3o de ter lavado mais de 44 milh\u00f5es de reais em cinco anos para a Odebrecht. De acordo com dois diretores da empresa brasileira UTC, envolvida no chamado caso Petrobras, o advogado criou uma constela\u00e7\u00e3o de empresas para lavar os fundos da construtora que acabavam em subornos.<\/p>\n<p>Tacla diz que pode esclarecer at\u00e9 o \u00faltimo centavo de seu patrim\u00f4nio. E, como exemplo, indica que est\u00e1 colaborando com as autoridades su\u00ed\u00e7as para justificar suas contas naquele pa\u00eds. Acrescenta que seu principal dep\u00f3sito, 48 milh\u00f5es de reais em uma empresa de Cingapura, \u00e9 produto da venda de uma empresa de telefonia. E diz que recebeu da Odebrecht, em seis anos, 28 milh\u00f5es de reais pelos seus servi\u00e7os como advogado.<\/p>\n<div>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Qual o papel que desempenharam suas nove empresas no pagamento de comiss\u00f5es?<\/p>\n<\/div>\n<p><b>R.<\/b>\u00a0Nenhum. Nunca paguei a pol\u00edticos. Jamais<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Uma de suas empresas na Espanha, Vivosant, recebeu em 2010 um total de 37 milh\u00f5es de reais de uma empresa ligada \u00e0 Odebrecht atrav\u00e9s do banco Pictet de Cingapura. O que tem a dizer sobre isso?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 falso. Essa quantia corresponde \u00e0 venda de uma empresa de telefonia. J\u00e1 apresentei os detalhes do pagamento para a Promotoria Anticorrup\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n<p><strong>P.\u00a0<\/strong>A empresa assegura que voc\u00ea foi contratado para uma miss\u00e3o: evadir capitais.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A Odebrecht diz que eu me dedicava a transformar fundos em dinheiro. Nunca retirei dinheiro em esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Jos\u00e9 Maria Irujo e Joaquim Gil\/El Pais Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 28\/07\/2017<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Tacla se transformou em uma bomba-rel\u00f3gio. Em um dos homens mais temidos pelos presidentes e altos funcion\u00e1rios da\u00a0Am\u00e9rica Latina. Aos 44 anos, este advogado conhece bem os segredos da Odebrecht, a gigante brasileira da constru\u00e7\u00e3o\u00a0que abalou as estruturas pol\u00edticas do continente depois de confirmar o pagamento de subornos milion\u00e1rios a Governos de 12 pa\u00edses. 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