{"id":15206,"date":"2017-07-31T06:29:30","date_gmt":"2017-07-31T09:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=15206"},"modified":"2017-07-31T06:29:30","modified_gmt":"2017-07-31T09:29:30","slug":"inacessivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/07\/31\/inacessivel\/","title":{"rendered":"Inacess\u00edvel."},"content":{"rendered":"<p>Os planos baratos com muralhas para o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade foram cunhados de acess\u00edveis<\/p>\n<p>Empres\u00e1rios e o ministro da Sa\u00fade continuam trabalhando com afinco para mudar as regras de comercializa\u00e7\u00e3o dos planos. Querem vender contratos com coberturas ainda mais reduzidas e pre\u00e7os menores. O valor m\u00e9dio da mensalidade dos planos em 2016, ap\u00f3s sucessivos reajustes, era R$ 280. Com essa quantia, que inclui cerca de 30% de subs\u00eddios p\u00fablicos, n\u00e3o d\u00e1 para atender tudo. Ficam de fora, entre outros, casos cr\u00f4nicos de sa\u00fade mental, medicamentos de uso cont\u00ednuo e o pagamento ocasional de consultas, terapias, exames e complementa\u00e7\u00e3o de cuidados hospitalares.<\/p>\n<p>Diminuir pre\u00e7os e n\u00e3o permitir aos clientes nenhuma previs\u00e3o sobre gastos com sa\u00fade \u00e9 plano de arrecada\u00e7\u00e3o de dinheiro e engodo assistencial. Essa proposi\u00e7\u00e3o seria mais uma perip\u00e9cia especulativa, n\u00e3o fosse a irrup\u00e7\u00e3o de tantas exce\u00e7\u00f5es que se tornam regras.<\/p>\n<p>A for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica de interesses privados na sa\u00fade cresceu exponencialmente. Uma prova dessa pot\u00eancia \u00e9 a do poder de mal denominar. Os planos baratos com muralhas para o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade foram cunhados de acess\u00edveis. Usamos o mesmo verbo quando nos referimos a coisas, objetos e experi\u00eancias. Diz-se eu tenho sapato e tenho dor, mas ningu\u00e9m sup\u00f5e que a dor de um ser humano possa ser trocada, vendida ou emprestada. Os problemas de sa\u00fade s\u00e3o determinados pelas disfun\u00e7\u00f5es, decl\u00ednio do corpo, por for\u00e7as externas destruidoras, como as viol\u00eancias, polui\u00e7\u00e3o, aquecimento global e rela\u00e7\u00f5es com outros seres humanos. Qualquer programa que n\u00e3o intervenha sobre as causas da situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e tente conferir ao sofrimento, sentimento, sensa\u00e7\u00e3o e necessidade de cuidado o mesmo status de utens\u00edlio est\u00e1 fadado ao fracasso.<\/p>\n<p>Na retomada do debate sobre o Obamacare nos EUA torna-se claro que nenhuma solu\u00e7\u00e3o diminui a interven\u00e7\u00e3o governamental sem engrossar as fileiras dos sem-seguro ou dos atendidos em regime do por favor, da caridade. A rejei\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade defendido por Trump, baseado na capacidade individual de pagar seguro privado, se efetivou com voto de senadores republicanos. Sinceros adeptos do\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0sabem que o funcionamento de ambul\u00e2ncias em via p\u00fablica e bancos de sangue exigem financiamento de fontes p\u00fablicas e que os custos totais com sa\u00fade aumentam quando se exclui segmentos populacionais das estrat\u00e9gias de prote\u00e7\u00e3o aos riscos e das chances de obter diagn\u00f3sticos e tratamentos precoces. No entanto, o processo de debate e proposta nacional de plano barato est\u00e3o completamente desconectados da racionalidade te\u00f3rica e das evid\u00eancias cientificas.<\/p>\n<p>A vontade de mega-vendedores de produtos para a sa\u00fade, n\u00e3o mediada ou filtrada pelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, requer que a sociedade permane\u00e7a capaz de discriminar enunciados e a\u00e7\u00f5es inevit\u00e1veis e necess\u00e1rias daqueles que s\u00e3o in\u00fateis e inaceit\u00e1veis. Segundo as promessas empresariais, o pa\u00eds, em fun\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica mundial, reduziu e ir\u00e1 cortar gastos p\u00fablicos com sa\u00fade, logo a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 comercializar mais planos privados. Por\u00e9m, a associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da austeridade com redu\u00e7\u00e3o das despesas com sa\u00fade \u00e9 incorreta. Em plena recess\u00e3o, alguns pa\u00edses ampliaram despesas com a \u00e1rea \u2014 por exemplo, Fran\u00e7a, Alemanha e Holanda \u2014 e houve redu\u00e7\u00e3o no Reino Unido, na Espanha e, \u00e9 claro, na Gr\u00e9cia e na Irlanda. Assim, menosprezar os efeitos das pol\u00edticas de austeridade sobre a sa\u00fade \u00e9 um erro t\u00e3o importante quanto afirmar a inevitabilidade da privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afirmar que os sistemas universais s\u00e3o mais custo-efetivos pode ser contraintuitivo. Dependendo de como se fa\u00e7a as contas atender a todos, por defini\u00e7\u00e3o, custa muito mais. Mas as demonstra\u00e7\u00f5es existentes s\u00e3o robustas, as pol\u00edticas de sa\u00fade que abrangem a popula\u00e7\u00e3o inteira conseguem conter pre\u00e7os e melhorar as condi\u00e7\u00f5es e a qualidade de vida. Lobbies empresariais da sa\u00fade se valem de desejos e desafios no curto prazo. Exibem pesquisas, pagas por eles mesmos, que confirmam o senso comum: os brasileiros querem ter planos de sa\u00fade e concordam em pagar menos pela mensalidade e aceitam, em condi\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, tirar mais do bolso quando tiverem que usar servi\u00e7os. Por\u00e9m, ignoram aquelas que retratam a imensa insatisfa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade, at\u00e9 maior dos que a dos que t\u00eam plano. Na pesquisa CNI-Ibope, a sa\u00fade \u00e9 \u201cdesaprovada\u201d por 85% do total e por 93% e 90% dos entrevistados com maior escolaridade e renda.<\/p>\n<p>Como os brasileiros que querem plano privado nunca foram interrogados a respeito das mazelas para utiliz\u00e1-los, talvez considerem que a pol\u00edtica conduzida pelo ministro da Sa\u00fade, cujo carro-chefe \u00e9 o estimulo ao setor privado, n\u00e3o presta. \u00c9 percept\u00edvel que se os atuais planos, hipoteticamente caros em rela\u00e7\u00e3o aos que vir\u00e3o, imp\u00f5em barreiras ao acesso e \u00e0 qualidade, a tend\u00eancia \u00e9 de multiplicar pela redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o as dificuldades de ingressar e sair de um lugar ou n\u00edvel de assist\u00eancia para outro. \u00c9 falso propagar uma \u00fanica alternativa, um caminho sem volta para a organiza\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade. O uso do termo acess\u00edvel para alcunhar o plano de menor pre\u00e7o faz uma confus\u00e3o proposital. Barato significa n\u00e3o ter acesso, pagar plano e ser atendido pelo SUS. Temos a possibilidade de recusar falsas designa\u00e7\u00f5es, resgatar o sentido cl\u00e1ssico do termo acesso, como igual oportunidade de dispor de a\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os de sa\u00fade, e o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, como organiza\u00e7\u00f5es que trabalhem para a sa\u00fade de todos.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado jornal O Globo<\/strong> <em><strong>&#8211; dispon\u00edvel na internet <\/strong><\/em><em><strong>31<\/strong><\/em><em><strong>\/07\/2017<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os planos baratos com muralhas para o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade foram cunhados de acess\u00edveis Empres\u00e1rios e o ministro da Sa\u00fade continuam trabalhando com afinco para mudar as regras de comercializa\u00e7\u00e3o dos planos. Querem vender contratos com coberturas ainda mais reduzidas e pre\u00e7os menores. 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