{"id":15633,"date":"2017-08-14T00:02:40","date_gmt":"2017-08-14T03:02:40","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=15633"},"modified":"2017-08-13T21:38:09","modified_gmt":"2017-08-14T00:38:09","slug":"intolerancia-racismo-as-claras-e-fuzis-a-mostra-o-que-vi-e-senti-no-maior-protesto-movido-pelo-odio-em-decadas-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/08\/14\/intolerancia-racismo-as-claras-e-fuzis-a-mostra-o-que-vi-e-senti-no-maior-protesto-movido-pelo-odio-em-decadas-nos-eua\/","title":{"rendered":"Intoler\u00e2ncia, racismo \u00e0s claras e fuzis \u00e0 mostra: O que vi (e senti) no maior protesto movido pelo \u00f3dio em d\u00e9cadas nos EUA"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p>O spray me atingiu pelo corpo todo &#8211; e por uns tr\u00eas minutos eu n\u00e3o enxergava nada e corria, tentando sair da pancadaria. Algu\u00e9m me puxou com for\u00e7a e me carregou. Eu n\u00e3o tinha ideia de quem era e temia o que fariam comigo. &#8220;Calma, calma, voc\u00ea vai ficar bem.&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se confirmou.<\/p>\n<p>Eles come\u00e7aram a correr. Sabiam que n\u00f3s os seguiamos e n\u00e3o diziam nada. Corremos por quase 10 minutos at\u00e9 chegar ao alto de um vale.<\/p>\n<p>Pois foi exatamente \u00f3dio o que eu encontrei nas horas seguintes.<\/p>\n<p class=\"story-body__introduction\">Quando propus minha ida neste fim de semana a Charlottesville, uma cidade universit\u00e1ria de 50 mil habitantes ao sul de Washington, nos Estados Unidos, minha ideia era conhecer os diferentes matizes da nova direita americana ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump.<\/p>\n<p>O protesto &#8220;Unite the Right&#8221;, ou &#8220;Unir a Direita&#8221;, at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha muito espa\u00e7o na imprensa. Alguns blogs chamavam aten\u00e7\u00e3o para o ato, alguns com elogios \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do orgulho e nacionalismo americano, outros com cr\u00edticas \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o que estes valores podem carregar.<\/p>\n<p>Meu vag\u00e3o no trem era heterog\u00eaneo. Fam\u00edlias voltavam para a cidade com beb\u00eas para o almo\u00e7o de domingo com os av\u00f3s, estudantes vinham reencontrar pais e namorados, um ou outro jornalista fingia que estava ali por coincid\u00eancia e achava que estava sendo discreto mexendo em seus computadores, tablets e celulares freneticamente (eu era um deles).<\/p>\n<p>Quatro homens chamavam aten\u00e7\u00e3o na fileira ao lado. Carecas, fortes, cheios de tatuagens, vestindo cal\u00e7a bege e camisa branca, eles conversavam sobre algo s\u00e9rio &#8211; e me olhavam muito feio quando eu tentava ler seus l\u00e1bios, que sussurravam e me deixavam pescar apenas palavras soltas. Uma delas foi &#8220;hate&#8221; &#8211; ou \u00f3dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8909\/production\/_97318053_senra4.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Manifestantes de extrema-direita em Charlottesville\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem RICARDO SENRA\/BBC BRASIL Image caption Tom agressivo, prel\u00fadio para a confronta\u00e7\u00e3o que se seguiu<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto desfazia a mala, li no Twitter boatos de uma poss\u00edvel demonstra\u00e7\u00e3o-surpresa dos manifestantes, que haviam feito um acordo com a prefeitura para desfilar pela cidade s\u00f3 no dia seguinte.<\/p>\n<p>Era sexta-feira \u00e0 noite e eu corri para a Universidade de Virginia, ao norte do centro da cidadezinha de casar\u00f5es preservados e pra\u00e7as com monumentos antigos. O campus estava escuro, vultos andavam de um lado para o outro em busca de algum sinal.<\/p>\n<p>Um grupo de aproximadamente 20 homens subiu em passo acelerado em dire\u00e7\u00e3o ao jardim interno. A 50 metros de dist\u00e2ncia, um grupo menor os seguia. Corri at\u00e9 eles pela penumbra.<\/p>\n<p>O segundo bloco era formado por estudantes que escreviam para um site local. Anne, uma jovem de uns 20 anos, no m\u00e1ximo, me explicou: &#8220;S\u00e3o eles. Est\u00e3o tentando nos despistar e andando em c\u00edrculos&#8221;.<\/p>\n<p>Em 15 minutos eu entenderia o que ela quis dizer com &#8220;eles&#8221;. Depois de circular todos os cantos do campus, um dos homens gritou: &#8220;Vamos!<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DD54\/production\/_97306665_f6d3513c-285c-4c36-a34d-efc851f8a74f.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Tens\u00e3o em protesto em Charlotteville, EUA\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem REUTERS Image caption Manifesta\u00e7\u00e3o rodeia grupo de anti-fascistas que tenta proteger a est\u00e1tua do ex-presidente ameticano Thomas Jefferson<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Eles&#8221; estavam l\u00e1 embaixo. Centenas de homens e mulheres, incluindo algumas crian\u00e7as, se organizavam em filas, rindo alto e brincando entre si enquanto acendiam tochas. Estava muito escuro e a luz das tochas de madeira tingia de vermelho o gramado, onde estudantes normalmente jogam beisebal e futebol americano.<\/p>\n<p>Um homem com tom agressivo come\u00e7a a falar no megafone. &#8220;Alinhem-se agora! Duas filas! Todos! Agora!&#8221;<\/p>\n<p>A linha iluminada pelas tochas j\u00e1 alcan\u00e7ava o horizonte quando eles come\u00e7aram a marchar. &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o nos substituir!&#8221;, &#8220;Judeus n\u00e3o v\u00e3o nos substituir!&#8221;, &#8220;Vidas brancas importam!&#8221;, gritavam, bradando tamb\u00e9m ofensas a gays e estrangeiros.<\/p>\n<p>&#8220;Sou nazista, sim&#8221;, &#8220;A negra est\u00e1 assustada&#8221;, &#8220;Suma daqui, viadinho&#8221;, &#8220;Ele n\u00e3o \u00e9 americano&#8221;. Os gritos raivosos, partindo do meio das tochas que homenageavam a Ku Klux Klan (grupo racista que promoveu linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros), bast\u00f5es de baseball e socos ingleses.<\/p>\n<p>A caminhada terminou com uma briga generalizada com estudantes que tentaram impedi-los de se aproximar da est\u00e1tua de Thomas Jefferson, terceiro presidente americano, em frente ao pr\u00e9dio principal da universidade.<\/p>\n<p>Mas tudo isso era s\u00f3 um pren\u00fancio do que aconteceria no dia seguinte, o s\u00e1bado da marcha oficial.<\/p>\n<p>Acordei com gritos na pra\u00e7a ao lado do hotel: &#8220;Esc\u00f3ria racista!&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-with-caption\">\n<div class=\"player-with-placeholder\">\n<figure style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"media-placeholder player-with-placeholder__image narrative-video-placeholder\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/images\/ic\/720x405\/p05c7drv.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Supremacistas brancos e grupos antirracismo entram em confronto nos EUA<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Ali, grupos antifascistas &#8211; opositores aos supremacistas brancos, em muitos casos tamb\u00e9m agressivos e radicais &#8211; se reuniam para contra-atacar. Nascida e criada em Charlottesville, a senhora que servia o caf\u00e9 da manh\u00e3 comentava com a gerente.<\/p>\n<p>&#8220;O Manny disse que est\u00e1 assustado. Acredita que mandaram ele vestir a farda e vir trabalhar?&#8221;<\/p>\n<p>Depois descobri que Manny \u00e9 policial aposentado h\u00e1 quase dez anos. Ele havia dito que os colegas temiam pelo pior, porque a quantidade de homens se aglomerando nas pra\u00e7as da cidade s\u00f3 crescia.<\/p>\n<p>&#8220;Manny disse que s\u00f3 uma tempestade seria capaz de controlar isso aqui&#8221;, contou a cozinheira. A previs\u00e3o do tempo de fato indicava chuvas durante todo o dia.<\/p>\n<p>Durante quatro horas, homens com su\u00e1sticas tatuadas no cr\u00e2nio e bandeiras confederadas (s\u00edmbolo do grupo que lutou na guerra civil americana por manter a escravid\u00e3o) trocavam socos, pauladas e cusparadas com jovens vestindo m\u00e1scaras e carregando bast\u00f5es de madeira e sprays de pimenta.<\/p>\n<p>Eles se batiam at\u00e9 sangrar, e policiais como o velho Manny assistiam a tudo de longe, visivelmente impotentes diante de grupos numerosos, estimados entre 2 e 6 mil pessoas, segundo a m\u00eddia local.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12B39\/production\/_97310667_7d6313bc-db58-4c90-901d-35e1b0ee710d.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Supremacistas brancos em marcha de extrema-direita em Charlotesville, na Virg\u00ednia\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem REUTERS Image caption Supremacistas brancos foram vistos usando uniformes militares e carregando armas<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os nacionalistas, neonazistas, supremacistas brancos e simpatizantes se concentravam na pra\u00e7a, em torno da est\u00e1tua do general confederado Robert E. Lee, um dos principais defensores da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Antifascistas, punks, anarquistas e simpatizantes (incluindo hippies de roupas coloridas e tran\u00e7as como os que vimos nos v\u00eddeos de Woodstock) ficavam do lado de fora.<\/p>\n<p>Para entrar na pra\u00e7a, os nacionalistas precisavam atravessar um pared\u00e3o formado por antifascistas. Durante o caminho saltavam ofensas pesadas de ambos os lados, e volta e meia os ataques verbais se tornavam f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Fui pego de surpresa em uma dessas escaladas violentas. Eu tentava filmar o encontro entre os grupos, quando uma briga generalizada come\u00e7ou. Nacionalistas fechavam os olhos e batiam com bandeiras em tudo o que viam pela frente e antifascistas faziam o mesmo com sprays de pimenta.<\/p>\n<p>A jovem fazia parte de um grupo de estudantes volunt\u00e1rios que levavam materiais de primeiros-socorros, \u00e1gua e comida para atender a feridos. Eles passaram vinagre no meu rosto e um produto que at\u00e9 agora n\u00e3o entendi qual \u00e9 &#8211; mas tirou o ardor dos meus olhos na hora. Eles me salvaram no meio da confus\u00e3o.Voltei \u00e0 cobertura para a BBC Brasil e o que mais impressionava a meu redor, mesmo a mim, brasileiro, era a quantidade de armas. Grupos uniformizados, representando os dois lados dos protestos, carregavam pistolas e fuzis, com cintos repletos de muni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Virginia, quem tem porte de armas e determinados tipos de licen\u00e7a pode circular pelas cidades exibindo o armamento. A combina\u00e7\u00e3o entre a primeira e a segunda emendas da Constitui\u00e7\u00e3o americana &#8211; liberdade de express\u00e3o e direito ao porte de armas, respectivamente &#8211; faziam em Charlottesville uma combina\u00e7\u00e3o tensa.<\/p>\n<p>O medo era que, a qualquer momento, algu\u00e9m disparasse e um tiroteio de propor\u00e7\u00f5es imensas deixasse uma multid\u00e3o de feridos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16F81\/production\/_97318049_senra1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Grupos armados em Charlottesville\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem RICARDO SENRA\/BBC BRASIL Image caption Grupos exibiam armas pesadas de assalto abertamente<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Felizmente, isso n\u00e3o aconteceu. O governador declarou estado de emerg\u00eancia, e em poucos minutos helic\u00f3pteros, tanques e centenas de policiais de diferentes grupos, incluindo a For\u00e7a Nacional, chegaram \u00e0 cidade e ordenaram a sa\u00edda dos grupos nacionalistas da pra\u00e7a. Eles seguiram em fila para uma estrada que leva para o sub\u00farbio local.<\/p>\n<p>Pelo megafone, a pol\u00edcia dizia: &#8220;Evacuem a \u00e1rea. Evacuem a \u00e1rea. Quem continuar aqui ser\u00e1 preso.&#8221;<\/p>\n<p>A maior parte das ruas do centro foi bloqueada e eu fiquei preso em um quarteir\u00e3o, sem poder ir at\u00e9 o hotel &#8211; \u00fanico lugar onde eu poderia plugar meu computador numa tomada, j\u00e1 que todo o com\u00e9rcio estava fechado.<\/p>\n<p>Nesse momento, pela segunda vez, encontrei uma onda inspiradora de solidariedade em meio ao \u00f3dio que pontuou o fim de semana em Charlottesville. Grupos de moradores, muitos deles idosos, circulavam pelas poucas ruas liberadas, oferecendo garrafas de \u00e1gua gelada e pacotinhos com batatas chips e amendoins.<\/p>\n<p>&#8220;Se hidrate, se alimente&#8221;, diziam, sorrindo. &#8220;Quanto custa?&#8221;, perguntei automaticamente, achando que eram vendedores ambulantes. &#8220;Fazemos por amor&#8221;, respondeu a senhora de cabelos brancos e avental azul, dando um tapinha em minhas costas.<\/p>\n<p>Dois homens com tatuagens de s\u00edmbolos nacionalistas estavam sentados em um canto, mexendo no celular. O grupo foi at\u00e9 eles tamb\u00e9m: &#8220;Beba \u00e1gua. Se hidrate. Se alimente&#8221;.<\/p>\n<p>Passaram-se duas horas at\u00e9 que as ruas do centro fossem abertas novamente. N\u00e3o demorou at\u00e9 que os grupos que tentavam circular voltassem a se reunir.<\/p>\n<p>Quando tudo parecia mais calmo, tentei seguir um pequeno grupo de nacionalistas que se dirigia at\u00e9 um estacionamento para entrar na van que os trouxe a cidade. Nesse momento, um carro cinza, completamente destru\u00eddo, passou em alta velocidade.<\/p>\n<p>Alguns antifascistas aplaudiram, achando que o carro do nacionalista havia sido depredado. Estavam errados.<\/p>\n<figure class=\"media-with-caption\">\n<div class=\"player-with-placeholder\">\n<figure style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"media-placeholder player-with-placeholder__image narrative-video-placeholder\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/images\/ic\/720x405\/p05c7gfp.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Homem atropela manifestantes antirracismo em cidade dos EUA<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>A duas quadras de onde est\u00e1vamos, uma multid\u00e3o gritava ap\u00f3s o carro ter atropelado dezenas de pessoas e fugido em marcha r\u00e9, para depois acelerar em fuga em frente ao estacionamento onde eu estava.<\/p>\n<p>Quatro ambul\u00e2ncias chegaram r\u00e1pido &#8211; pessoas ensanguentadas eram carregadas, parentes e amigos choravam em desespero e a pol\u00edcia tentava, \u00e0 for\u00e7a, isolar o local. Mais tarde soubemos: Heather Heyer, uma mulher de 32 anos, morreu atropelada (no domingo tr\u00eas mortes foram confirmadas), enquanto outras 19 pessoas ficaram feridas.<\/p>\n<p>A cidade foi novamente evacuada por algumas horas. Anoiteceu, e a rua de pedestres do centro hist\u00f3rico, que na v\u00e9spera estava lotada de estudantes comendo e bebendo animados, antes de entrar nas boates locais, estava deserta. Jornalistas e policiais eram os \u00fanicos a ir e vir, sempre em busca de &#8220;algo novo&#8221;.<\/p>\n<p>No local do atropelamento, um grupo de jovens acendia velas e trazia flores. Eles se organizaram em roda e come\u00e7aram a rezar, abra\u00e7ados.<\/p>\n<p>A chuva prevista para a manh\u00e3 daquele s\u00e1bado enfim come\u00e7ou a cair. Inicialmente leve, uma garoa, depois mais pesada &#8211; o que lentamente esvaziou o centro por completo.<\/p>\n<p>Charlottesville estava de luto.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 deste domingo, moradores varriam cal\u00e7adas e tentavam recome\u00e7ar. No caf\u00e9 da manh\u00e3 do hotel, a cozinheira conversava com a gerente.<\/p>\n<p>&#8220;Manny ainda n\u00e3o acordou, coitado. Est\u00e1 em choque. Sue (sua esposa) disse que ele n\u00e3o dorme tanto h\u00e1 30 anos.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Ricardo Senra e<\/span><\/strong><span class=\"byline__title\"><strong>nviado especial da BBC Brasil a Charlottesville &#8211; dispon\u00edvel na internet 14\/08\/2017<\/strong><br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O spray me atingiu pelo corpo todo &#8211; e por uns tr\u00eas minutos eu n\u00e3o enxergava nada e corria, tentando sair da pancadaria. Algu\u00e9m me puxou com for\u00e7a e me carregou. 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