{"id":15832,"date":"2017-08-21T00:15:44","date_gmt":"2017-08-21T03:15:44","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=15832"},"modified":"2017-08-20T18:51:21","modified_gmt":"2017-08-20T21:51:21","slug":"conta-de-nunca-chegar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/08\/21\/conta-de-nunca-chegar\/","title":{"rendered":"Conta de nunca chegar."},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00f3prio STF sempre tem se manifestado a favor de quem ganha tanto dinheiro com sal\u00e1rio e penduricalhos<\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 Arg\u00e9lia para o ex\u00edlio, o pernambucano Maur\u00edlio Ferreira Lima j\u00e1 morava l\u00e1. Levou-me para um passeio e passou num a\u00e7ougue para comprar carne. Fez a transa\u00e7\u00e3o em franc\u00eas mas, ao sair, disse da porta: \u201cpendura\u201d. Fiquei surpreso com a naturalidade e o sorriso do a\u00e7ougueiro. Maur\u00edlio revelou que esta era a \u00fanica palavra em portugu\u00eas que ensinou a ele.<\/p>\n<p>Cada vez que o governo vem anunciar uma nota fiscal, lembro-me de Maur\u00edlio. \u00c9 como se dissessem: \u201cmais R$ 20 bilh\u00f5es, pendurem\u201d. Maur\u00edlio pagava suas contas em dia. Ao contr\u00e1rio do governo, tratava apenas do que comprava, e n\u00e3o de proje\u00e7\u00f5es para o ano seguinte. O governo pendurou R$ 20 bilh\u00f5es em 2107 e anunciou que vai pendurar R$ 30 bilh\u00f5es em 2018.<\/p>\n<p>Quem vai pagar tanto dinheiro? Eles falam em economia nos gastos p\u00fablicos. N\u00e3o acredito. Os dados est\u00e3o a\u00ed: deputados e senadores querem alguns bilh\u00f5es para financiar suas campanhas.<\/p>\n<p>Se fossem s\u00f3 os pol\u00edticos, ainda havia uma esperan\u00e7a. A Justi\u00e7a, que tem sido aliada da sociedade na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito reticente quando se discutem os supersal\u00e1rios que excedem o teto legal. Nesta semana, falando com um procurador que atua no Norte do pa\u00eds, ele me passou um quadro desolador. H\u00e1 promotores que chegam a ganhar R$ 125 mil mensais.<\/p>\n<p>As not\u00edcias sobre ju\u00edzes do Mato Grosso que receberam at\u00e9 R$ 500 mil frequentaram o notici\u00e1rio e sa\u00edram em paz. Um dos ju\u00edzes chegou a declarar: \u201cn\u00e3o estou nem a\u00ed para o espanto que a not\u00edcia causou\u201d. Ele n\u00e3o est\u00e1 mesmo. Considera legal receber, e pronto. O pr\u00f3prio Supremo Tribunal Federal sempre tem se manifestado a favor de quem ganha tanto dinheiro com sal\u00e1rio e penduricalhos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a orfandade dos brasileiros \u00e9 total. Os pol\u00edticos n\u00e3o s\u00f3 desviam dinheiro como inventam f\u00f3rmulas para receber fortunas atrav\u00e9s de suas leis eleitorais. E a Justi\u00e7a n\u00e3o mostra nenhuma sensibilidade para o problema. O que fazer nessas circunst\u00e2ncias?<\/p>\n<p>Dentro do quadro de apatia que se criou no pa\u00eds, parece que a alternativa \u00e9 trabalhar e separar o dinheiro do imposto, assim como muitos, em \u00e1reas de risco, saem com o dinheiro exato do assalto. Mas \u00e9 uma t\u00e1tica que tem seus limites. A m\u00e1quina burocr\u00e1tica brasileira \u00e9 muito pesada para o pa\u00eds. Ela se comporta como se estiv\u00e9ssemos nadando em dinheiro.<\/p>\n<p>O grande problema da necess\u00e1ria austeridade \u00e9 o pr\u00f3prio governo. Se ele tem um projeto de reforma da Previd\u00eancia que implica em sacrif\u00edcios para alguns, quem vai apoi\u00e1-lo sabendo que n\u00e3o h\u00e1 reciprocidade nos esfor\u00e7os? O resultado disso \u00e9 a marcha da insensatez que vai nos levando progressivamente ao caos. No momento, falamos em bilh\u00f5es com tranquilidade, mas j\u00e1 h\u00e1 quem calcule em meio trilh\u00e3o o rombo nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Mas toda essa conversa sobre n\u00fameros acaba sendo abstrata. Nas estradas, caiu o policiamento; nas fronteiras, a redu\u00e7\u00e3o de verbas dificulta a a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas. Nos hospitais, ent\u00e3o, a escassez mata.<\/p>\n<p>Em 2013, a sociedade intuiu que isso estava errado e se manifestou nas ruas, queria servi\u00e7os decentes para os impostos que paga. Naquele momento, as grandes empresas estavam tranquilas. Se reclamavam dos impostos, a resposta foi simples: ampliar isen\u00e7\u00f5es. O BNDES emprestava dinheiro a juros reduzidos, e os pr\u00f3prios pol\u00edticos ofereciam isen\u00e7\u00f5es. De tal forma ofereceram que, no Rio, cabeleireiros, joalherias e at\u00e9 um prost\u00edbulo tornaram-se isentos. A corrup\u00e7\u00e3o mostrou como recursos p\u00fablicos eram drenados. A quebradeira agora vai colocar tamb\u00e9m em cena algo que n\u00e3o era t\u00e3o discutido em 2013. Pedia-se um servi\u00e7o decente em troca do imposto.<\/p>\n<p>Agora, num momento em que cogitam a alta dos impostos, o Brasil merece um grande debate sobre como o bolo dos recursos p\u00fablicos \u00e9 dividido.<\/p>\n<p>Por que h\u00e1 tantas isen\u00e7\u00f5es e qual o benef\u00edcio que trazem para o pa\u00eds? Por que uma m\u00e1quina com tanta gente \u00e9 t\u00e3o pouco produtiva? Por que sal\u00e1rios t\u00e3o altos, tantos penduricalhos?<\/p>\n<p>No Congresso participei de in\u00fameros debates sobre isso, tentando convencer o governo, na \u00e9poca, a reduzir radicalmente as viagens, que custavam em torno de R$ 800 milh\u00f5es por ano. J\u00e1 havia os meios para isso: teleconfer\u00eancia, Skype. Hoje foram ampliados com novas alternativas.<\/p>\n<p>O alto custo n\u00e3o \u00e9 apenas com passagens, mas tamb\u00e9m com as di\u00e1rias pagas aos funcion\u00e1rios. Por isso, quando se fala em reduzir custos e aumentar a produtividade, h\u00e1 sempre uma resist\u00eancia. Apesar de haver gente bem-intencionada entre os funcion\u00e1rios, o \u00e2nimo para aumentar a produtividade de servi\u00e7os p\u00fablicos deveria vir do universo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Do mundo pol\u00edtico n\u00e3o vir\u00e1 nada. Foi o pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio que criou esse monstro dispendioso. Os pol\u00edticos, nesse epis\u00f3dio, n\u00e3o s\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o, e sim uma parte substancial do problema. Se depender eles, o atraso se eterniza. Sempre que apertar, v\u00e3o dizer: \u201cpendurem\u201d.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no Jornal O Globo <em>&#8211; dispon\u00edvel na internet <\/em><em>21<\/em><em>\/08\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00f3prio STF sempre tem se manifestado a favor de quem ganha tanto dinheiro com sal\u00e1rio e penduricalhos Quando cheguei \u00e0 Arg\u00e9lia para o ex\u00edlio, o pernambucano Maur\u00edlio Ferreira Lima j\u00e1 morava l\u00e1. Levou-me para um passeio e passou num a\u00e7ougue para comprar carne. 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