{"id":16678,"date":"2017-09-18T00:01:57","date_gmt":"2017-09-18T03:01:57","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=16678"},"modified":"2017-09-17T20:03:08","modified_gmt":"2017-09-17T23:03:08","slug":"a-festa-que-merecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/09\/18\/a-festa-que-merecemos\/","title":{"rendered":"A festa que merecemos."},"content":{"rendered":"<p>Talvez seja este mesmo o melhor momento para comemorarmos. O Brasil moderno nunca passou por uma crise t\u00e3o profunda, t\u00e3o radical, t\u00e3o dolorosa como essa<\/p>\n<p>Em meu livro \u201cVida de cinema\u201d, publicado em 2014 pela Editora Objetiva, come\u00e7o um de seus cap\u00edtulos dizendo o seguinte.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil sa\u00eda de longa ditadura para a esperan\u00e7a de um horizonte democr\u00e1tico. No primeiro Rock in Rio, realizado na Barra da Tijuca em janeiro de 1985, reunindo mais de 100 mil pessoas durante uma semana para ouvir grandes estrelas internacionais do rock, as bandas brasileiras empunhavam bandeiras nacionais, coisa que se tornara malvista, desde que os militares haviam imposto rituais patri\u00f3ticos nas escolas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se importava com a lama que as chuvas de ver\u00e3o deixavam no terreno preparado \u00e0s pressas para o evento. Muito menos com o cheiro de urina provocado pela cerveja, pelos banheiros prec\u00e1rios ou pelos espectadores que desabafavam por ali mesmo, no ch\u00e3o de terra. Depois de tanto samba de protesto e tantos filmes c\u00edvicos de resist\u00eancia, a festa inaugural da democracia brasileira seria um show de rock\u2019n\u2019roll\u201d.<\/p>\n<p>Vou me lembrar sempre do Rock in Rio de 1985 como aquela \u201cfesta inaugural\u201d, um projeto de introdu\u00e7\u00e3o ao que esper\u00e1vamos que se tornassem os anos que haveriam de logo vir.<\/p>\n<p>Em vez disso, vivemos per\u00edodo tenebroso de superinfla\u00e7\u00e3o e morat\u00f3ria da d\u00edvida externa, de farsas c\u00edvicas que foram coroadas com a elei\u00e7\u00e3o de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente a suceder aos ditadores militares, eleito pelo voto universal e direto, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os da nova Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e \u201ccidad\u00e3\u201d. Dois anos depois, o presidente eleito pela maioria do povo brasileiro seria apeado do poder, condenado ao impeachment pela corrup\u00e7\u00e3o generalizada dele e de seus pares.<\/p>\n<p>Mas ali, na noite da Barra da Tijuca, Cazuza e seus parceiros, com os olhos iluminados, faziam enormes bandeiras do Brasil bailarem ao vento, nos enchendo de orgulho e tanta esperan\u00e7a. Ouv\u00edamos James Taylor cantar a melanc\u00f3lica \u201cYou\u2019ve got a friend\u201d, como um hino a anunciar nosso futuro solid\u00e1rio, o futuro de um povo renascido. O exagero da festa nos fazia vencer a tristeza dos mais de 20 anos que antecederam aquela noite.<\/p>\n<p>Para isso \u00e9 que servem as festas. Para, nos piores momentos, nos alimentarem de alguma esperan\u00e7a e planos poss\u00edveis para o futuro. Para acreditarmos que podemos ser felizes, como no carnaval ou no r\u00e9veillon. Como no Rock in Rio de 1985.<\/p>\n<p>Talvez seja este mesmo o melhor momento para comemorarmos. O Brasil moderno nunca passou por uma crise t\u00e3o profunda, t\u00e3o radical, t\u00e3o dolorosa como essa. N\u00f3s nunca sofremos tantas d\u00favidas, decep\u00e7\u00f5es e dores de diversas naturezas c\u00edvicas. E, no entanto, estamos todos vivos, n\u00e3o apenas no sentido f\u00edsico da vida, mas sobretudo no sentido moral, no da expectativa de futuro.<\/p>\n<p>Com mais ou menos entusiasmo, cada um de n\u00f3s tem um plano para esse futuro, valendo-se da for\u00e7a de nossas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, da liberdade que conquistamos, das bases construtoras de nossa exist\u00eancia como na\u00e7\u00e3o. Nossos pol\u00edticos podem mentir, roubar, trair nossa confian\u00e7a, n\u00e3o importa de que partido venham. Mas eles n\u00e3o s\u00e3o o Brasil \u2014 o Brasil desmoronou mas n\u00e3o ruiu. Punir seus pol\u00edticos agora, sejam eles quais e quantos forem, n\u00e3o significa que estamos punindo o pa\u00eds, muito pelo contr\u00e1rio. Outro dia, algu\u00e9m disse que, com toda essa crise, podemos estar vivendo o come\u00e7o da \u201cprimavera brasileira\u201d. Acredito nisso.<\/p>\n<p>Uns querem diretas j\u00e1, outros preparam as campanhas de seus candidatos para 2018. J\u00e1 disse que eu, por exemplo, gostaria de aproveitar 2018 e a profundidade da crise para refundar o Brasil, sem nenhum apelo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o antiga ou recente, fatalmente corrompida, propondo novas pol\u00edticas com novos pol\u00edticos, ignorando tudo que ficou para tr\u00e1s e s\u00f3 nos fez muito mal. Talvez esteja na hora de propormos a nova civiliza\u00e7\u00e3o que o Brasil pode fundar e representar.<\/p>\n<p>Justamente por isso, n\u00e3o \u00e9 hora de curvar-se ao presente como se fosse o nosso destino, n\u00e3o \u00e9 hora de aceitar o sofrimento como inevit\u00e1vel e bem-vindo. O sofrimento s\u00f3 pode ser bem-vindo para os religiosos tarados da autoflagela\u00e7\u00e3o, aqueles que precisam sofrer para merecer o para\u00edso celeste ou a sociedade sem classes.<\/p>\n<p>No Ano Novo de 2000, o ent\u00e3o prefeito Luiz Paulo Conde me encomendou um document\u00e1rio sobre a aurora do s\u00e9culo XXI. O filminho tinha roteiro de Mill\u00f4r Fernandes, narra\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro e trilha sonora de Tom Jobim (o Conde era um prefeito que cultivava a cultura!). Eu at\u00e9 que andava meio triste, mas foi filmando o r\u00e9veillon de 2000 que meu entusiasmo pelo tempo se consolidou. Quando comemoramos um Ano Novo ou um Rock in Rio, estamos celebrando nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia, nossa passagem por aqui. N\u00e3o tem nada que mere\u00e7a mais essa celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no Jornal O Globo &#8211;<em> dispon\u00edvel na internet 18\/09\/2017<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez seja este mesmo o melhor momento para comemorarmos. 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