{"id":17720,"date":"2017-10-28T05:07:54","date_gmt":"2017-10-28T08:07:54","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=17720"},"modified":"2017-10-28T05:07:54","modified_gmt":"2017-10-28T08:07:54","slug":"e-loucura-dizer-que-pobre-nao-tem-habito-alimentar-diz-embaixador-da-onu-contra-a-fome-e-pai-do-slow-food","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/10\/28\/e-loucura-dizer-que-pobre-nao-tem-habito-alimentar-diz-embaixador-da-onu-contra-a-fome-e-pai-do-slow-food\/","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 loucura dizer que pobre n\u00e3o tem h\u00e1bito alimentar&#8221;, diz embaixador da ONU contra a fome e &#8216;pai&#8217; do Slow Food"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">O italiano Carlo Petrini \u00e9 conhecido mundialmente por ter criado o movimento Slow Food, por meio do qual dedicou quase metade da vida a tentar mudar a forma como nos alimentamos, da produ\u00e7\u00e3o no campo aos pratos \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Hoje embaixador da ONU contra a fome, ele veio ao Brasil nesta semana para eventos de sua organiza\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o ficou nada satisfeito ao saber dos mais recentes planos da cidade para erradicar a fome.<\/p>\n<p>A prefeitura anunciou, entre outras medidas, a distribui\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda um composto industrializado, a farinata, feito com alimentos que seriam descartados. Ao defender suas propriedades nutricionais, o prefeito Jo\u00e3o Doria (PSDB) disse se tratar de um alimento &#8220;aben\u00e7oado&#8221; e o comparou a &#8220;comida de astronauta&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/6702\/production\/_98507362_carlopetrini_6.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Carlo Petrini discursa\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0Italiano defende h\u00e1 quase 30 anos um sistema mais justo de produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\">Seus cr\u00edticos, por\u00e9m, apelidaram o composto de &#8220;ra\u00e7\u00e3o para pobre&#8221;. Em rea\u00e7\u00e3o a isso, Doria reafirmou o que falou na TV h\u00e1 alguns anos, quando comandava um reality show: &#8220;O pobre n\u00e3o tem h\u00e1bito alimentar, tem fome&#8221;.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Dizer isso \u00e9 uma loucura. Esse \u00e9 um prefeito muito, muito limitado&#8221;, afirmou Petrini \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Conhe\u00e7o pobres da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina que t\u00eam uma grande consci\u00eancia alimentar, uma cultura alimentar muito mais importante que a desse prefeito. Conhe\u00e7o pobres no campo que t\u00eam um conhecimento incr\u00edvel sobre as mat\u00e9rias primas e que comem muito bem.&#8221;<\/p>\n<p>A Prefeitura de S\u00e3o Paulo afirmou que as cr\u00edticas s\u00e3o &#8220;lament\u00e1veis&#8221; por se basearem em informa\u00e7\u00f5es superficiais e incompletas&#8221; (leia nota completa ao final desta reportagem).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/161B2\/production\/_98464509_983e67da-f5ab-4481-bc42-b28f1b3ae7c4.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Jo\u00e3o Doria apresenta a farinata ao lado de Dom Odilo Scherer, arcebispo de SP\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0AFP Image captionPrefeito de S\u00e3o Paulo anunciou que composto alimentar ser\u00e1 distribu\u00eddo como parte de plano de erradica\u00e7\u00e3o da fome<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Petrini evitou criticar a farinata diretamente. &#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o sua qualidade, como \u00e9 produzida, se \u00e9 feita s\u00f3 produtos que iam para o lixo&#8221;. Mas, em seguida, questionou se \u00e9 poss\u00edvel comer o composto &#8220;em um restaurante de qualidade daqui&#8221;.<\/p>\n<p>Diante da negativa, retrucou: &#8220;Por que n\u00e3o? Por que os ricos n\u00e3o podem comer? E os pobres precisam comer isso? N\u00e3o se resolve a fome com produtos que iam para o lixo&#8221;.<\/p>\n<p>Petrini conversou com a reportagem em uma confer\u00eancia de gastronomia na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, onde estava para apresentar a edi\u00e7\u00e3o brasileira da Arca do Gosto, projeto criado por sua ONG para catalogar ingredientes \u00fanicos de cada culin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ele ainda participar\u00e1 neste domingo de um jantar beneficente elaborado por chefs renomados para destacar ingredientes nativos do pa\u00eds amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o e do lan\u00e7amento de um document\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, se tem essa ideia ruim de que a gastronomia \u00e9 para ricos. N\u00e3o acredito isso. A gastronomia \u00e9 para todos, \u00e9 o patrim\u00f4nio alimentar de cada pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Comida boa, limpa e justa<\/h2>\n<p>O italiano de 68 anos \u00e9 jornalista e soci\u00f3logo, mas \u00e9 seu ativismo que o distingue.<\/p>\n<p>Foi em um protesto em 1986 contra uma loja da rede McDonald&#8217;s em Roma, aos p\u00e9s da Escadaria Espanhola, um dos pontos mais visitados da cidade, que tudo come\u00e7ou. Tr\u00eas anos mais tarde, em contraponto \u00e0 tend\u00eancia do fast-food (&#8220;comida r\u00e1pida&#8221;, em ingl\u00eas), seria oficialmente fundado o movimento Slow Food (&#8220;comida lenta&#8221;).<\/p>\n<p>Apesar do nome, n\u00e3o se trata exatamente de comer sem pressa, mas de desacelerar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de alimentos, fortalecendo produtores locais e gerando menos impacto ao meio ambiente, e de fazer comida &#8220;boa, limpa e justa&#8221;, como diz o lema da organiza\u00e7\u00e3o, que tem 100 mil membros em 160 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Esse trabalho conferiu a ele honras como ser eleito pelo jornal brit\u00e2nico The Guardian como uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta e o pr\u00eamio Campe\u00e3o da Terra, o mais importante na \u00e1erea ambiental conferido pela ONU, para a qual Petrini atua desde o ano passado no combate \u00e0 fome na Europa como embaixador de sua ag\u00eancia para agricultura e alimenta\u00e7\u00e3o, a FAO.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1748A\/production\/_98507359_1709285b-d688-4547-b859-10ee481827d5.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Agricultor no Paran\u00e1\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0Para ministros do G7, Petrini defendeu ser preciso proteger o pequeno e m\u00e9dio produtor rural | Foto: ANPr<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi com essa autoridade que ele discursou para ministros da agricultura do G7, o grupo das sete maiores economias do mundo, em uma reuni\u00e3o em Bergamo, na It\u00e1lia, h\u00e1 cerca de dez dias. Ele defendeu para os governos de Canad\u00e1, Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, Reino Unido e Estados Unidos que eles tenham um minist\u00e9rio dedicado \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, h\u00e1 minist\u00e9rio para agricultura, mas isso \u00e9 s\u00f3 uma parte da alimenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 fruto do trabalho de muitas pessoas. \u00c9 uma ci\u00eancia hol\u00edstica que envolve tamb\u00e9m pescadores, artes\u00e3os, antrop\u00f3logos, historiadores, economistas, cozinheiros. Precisa de um minist\u00e9rio especial&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>Petrini defendeu ainda que o livre-com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o houver uma prote\u00e7\u00e3o especial para os 500 milh\u00f5es de pequenos e m\u00e9dios produtores do planeta. &#8220;Os pequenos produtores n\u00e3o t\u00eam capacidade de comprar apoio pol\u00edtico nem de fazer lobby como as multinacionais, e s\u00e3o eles que fornecem 75% dos alimentos da humanidade.&#8221;<\/p>\n<p>Uma pesquisa da Transpar\u00eancia Internacional mostrou que mais da metade do Congresso brasileiro foi eleito em 2014 com doa\u00e7\u00f5es de empresas da ind\u00fastria de alimentos &#8211; um ano depois, o financiamento de campanhas por empresas acabou proibido pelo Supremo Tribunal Federal. Foram ao todo R$ 500 milh\u00f5es, tr\u00eas vezes mais do que nas elei\u00e7\u00f5es de 2010.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 correto um conceito de livre-com\u00e9rcio que defende apenas os interesses de quem produz 25% da comida no mundo&#8221;, disse Petrini.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Ato pol\u00edtico&#8217;<\/h2>\n<p>A Slow Food busca fazer isso de forma mais intensa desde que criou a rede de produtores Terra Madre, em 2004, o que, segundo seu fundador, levou um movimento at\u00e9 ent\u00e3o bastante restrito aos pa\u00edses mais ricos \u00e0s regi\u00f5es menos desenvolvidas na \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u00c9 esse conceito que tamb\u00e9m est\u00e1 na mente do italiano quando ele defende que &#8220;comer \u00e9 um ato pol\u00edtico&#8221;. &#8220;Se escolho produtos de multinacionais, favore\u00e7o essa realidade insustent\u00e1vel atual.&#8221;<\/p>\n<p>Mas todas as grandes corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o alvos de suas cr\u00edticas? &#8220;A maioria. H\u00e1 empresas virtuosas, que pagam bem os produtores e agem de forma sustent\u00e1vel, mas a maioria trabalha com o paradigma da quantidade e n\u00e3o da qualidade.&#8221;<\/p>\n<p>Diante dos argumentos de que a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria em massa \u00e9 necess\u00e1ria para alimentar os 7,6 bilh\u00f5es de habitantes do mundo, Petrini garante que isso &#8220;n\u00e3o \u00e9 verdade&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Essa \u00e9 uma ideia de uma economia doente. Hoje, produzimos comida suficiente para 12 bilh\u00f5es de pessoas, mas 35% vai para o lixo. Isso \u00e9 rid\u00edculo e vergonhoso. A primeira coisa que temos de trabalhar \u00e9 o desperd\u00edcio&#8221;, defende.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D84A\/production\/_98507355_24c78428-494f-49ec-9991-812c517c0e8e.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Refugiados rohingya\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0REUTERS Image captionN\u00famero de pessoas com fome no mundo deve aumentar por causa de conflitos e terrorismo, diz Petrini<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Ele tamb\u00e9m rejeita cr\u00edticas de que o est\u00edmulo aos cultivos org\u00e2nicos e familiares \u00e9 elitista, porque seus produtos s\u00e3o mais caros do que os tradicionais.<\/p>\n<p>&#8220;Na It\u00e1lia, era mais caro no in\u00edcio, mas, depois que a produ\u00e7\u00e3o aumentou, o pre\u00e7o caiu. Ainda custa mais do que o outro, sempre vai ser assim, mas \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade: gasto mais com a comida e economizo com rem\u00e9dios.&#8221;<\/p>\n<p>Petrini argumenta ainda que a cr\u00edtica do desperd\u00edcio &#8220;vale para todos&#8221;, inclusive para as &#8220;classes mais baixas&#8221;. D\u00e1 como exemplo a pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o de um shopping que visitou no Brasil, um lugar de uma &#8220;tristeza infinita&#8221;, em suas palavras. &#8220;Paga-se muito pouco, come-se muito mal e h\u00e1 muito desperd\u00edcio, justamente porque \u00e9 t\u00e3o barato&#8221;, disse.<\/p>\n<p>&#8220;A comida perdeu o valor nos \u00faltimos 50 anos. Precisamos pagar um pouco mais pela comida para compensar de forma justa o produtor. Hoje, isso n\u00e3o acontece, e, assim, a categoria que mais passa fome no mundo \u00e9 a de agricultores.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Moqueca, bob\u00f3 e feijoada<\/h2>\n<p>Petrini diz que o contingente de pessoas que passam fome no mundo deve aumentar. Ele acompanha o levantamento de dados da FAO e afirma que, dos 815 milh\u00f5es atuais, deveremos passar de 850 milh\u00f5es no pr\u00f3ximo ano por causa de &#8220;guerra, terrorismo e mis\u00e9ria&#8221;.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o n\u00famero de pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o cresceu 6% no ano passado, de acordo com dados da ONU, passando para 42,5 milh\u00f5es de pessoas, ou 6,6% dos habitantes da regi\u00e3o, enquanto o Brasil manteve o \u00edndice abaixo de 2,5% dos seus 207,7 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, vem aumentando no mundo o n\u00famero de pessoas com sobrepeso ou obesas. Divulgados em janeiro, os dados mais recentes da FAO mostram que 20% da popula\u00e7\u00e3o brasileira estava obesa em 2014 &#8211; eram 17,8% quatro anos antes &#8211; e 54% estava acima do peso, enquanto na Am\u00e9rica Latina um ter\u00e7o dos adolescentes e dois ter\u00e7os dos adultos enfrentavam esses problemas.<\/p>\n<p>No mundo, h\u00e1 700 milh\u00f5es de obesos, segundo um estudo publicado no peri\u00f3dico cient\u00edfico The New England Journal of Medicine, o qual apontou que a preval\u00eancia desse mal mais do que dobrou em 73 pa\u00edses desde 1980.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 4000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8E12\/production\/_98507363_carlopetrini_5.jpg?resize=696%2C460&#038;ssl=1\" alt=\"Carlo Petrini em sua casa\" width=\"696\" height=\"460\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0Petrini diz comer cada vez menos carne preocupado com o consumo excessivo desse alimento no mundo | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre os motivos, est\u00e1 o aumento do consumo de alimentos hipercal\u00f3ricos com baixo valor nutritivo. Dados da consultoria Euromonitor, mostram que, entre 2011 e 2016, aumentou em 25% a venda de produtos industrializados e em 30% o consumo de fast-food.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o duas faces do mesmo problema&#8221;, diz Petrini. &#8220;Talvez fosse melhor o prefeito de S\u00e3o Paulo dar aquele alimento a essas pessoas (os obesos).&#8221;<\/p>\n<p>No \u00e2mbito pessoal, o italiano conta que reduziu seu consumo de carne em 60% nos \u00faltimos cinco anos, preocupado com o consumo excessivo desse tipo de alimento no mundo, especialmente em pa\u00edses desenvolvidos. Segundo dados da FAO de 2015, a m\u00e9dia global \u00e9 de 41,3 kg, enquanto, em na\u00e7\u00f5es industrializadas, chega a 95,7 kg.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o advoga necessariamente pelo vegetarianismo ou sua vertente que exclui todo produto de origem animal, o veganismo. &#8220;\u00c9 uma escolha pessoal. O mundo n\u00e3o \u00e9 uma Igreja Cat\u00f3lica. Cada um age como quiser.&#8221;<\/p>\n<p>E n\u00e3o v\u00ea com bons olhos o costume de se alimentar pensando apenas no vi\u00e9s nutricional, um comportamento que, se exagerado, pode ser caracterizado como um dist\u00farbio alimentar, a ortorexia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma ideia redutiva do valor da alimenta\u00e7\u00e3o. Ao nascer, somos alimentados por nossas m\u00e3es. \u00c9 um ato de amor que nos permite viver. \u00c9 at\u00e9 mesmo espiritual, porque, em toda religi\u00e3o, a liga\u00e7\u00e3o do homem com o divino passa pelo alimento.&#8221;<\/p>\n<p>E quais s\u00e3o seus pratos brasileiros preferidos? &#8220;A moqueca e o bob\u00f3&#8221;, conta ele. &#8220;E farofa. Com feijoada, \u00e9 o casamento perfeito.&#8221;<\/p>\n<p>____________________________________________________<\/p>\n<p><i>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, a Prefeitura de S\u00e3o Paulo enviou a seguinte nota \u00e0 BBC Brasil:<\/i><\/p>\n<p><i>\u00c9 lament\u00e1vel que intelectuais e especialistas critiquem algo com base em informa\u00e7\u00f5es superficiais e incompletas. Mais reprov\u00e1vel \u00e9 quando um ve\u00edculo de imprensa de prest\u00edgio publica estas cr\u00edticas sem a devida contextualiza\u00e7\u00e3o. Foi o que aconteceu com a reportagem publicada pelo servi\u00e7o brasileiro da BBC com base em entrevista do italiano Carlo Petrini. Sem conhecer a din\u00e2mica dos acontecimentos, Petrini atacou o prefeito de S\u00e3o Paulo &#8211; usando-se, para isso, mais de frases de efeitos do que argumentos.<\/i><\/p>\n<p><i>Para que os leitores da BBC entendam o real contexto dos fatos, e possam fazer um ju\u00edzo adequado tanto das cr\u00edticas do italiano quanto dos acontecimentos, \u00e9 preciso esclarecer que:<\/i><\/p>\n<p><i>1. Ao usar a frase relativa aos &#8220;h\u00e1bitos alimentares&#8221;, tanto no programa televisivo quanto recentemente, o prefeito de S\u00e3o Paulo quis dar \u00eanfase ao drama das pessoas que passam fome e que precisam de solu\u00e7\u00f5es urgentes. Por uma quest\u00e3o de l\u00f3gica elementar, somente tem h\u00e1bito alimentar quem consegue comer &#8211; e quem n\u00e3o consegue sofre os malef\u00edcios da fome. O prefeito n\u00e3o se referiu a pobres que comem, mas a pessoas que passam fome, uma conclus\u00e3o \u00f3bvia.<\/i><\/p>\n<p><i>2. A farinata n\u00e3o ser\u00e1 distribu\u00edda como substituto de alimentos naturais. O produto, fabricado por uma entidade n\u00e3o-governamental com aval da Igreja Cat\u00f3lica, foi inclu\u00eddo como uma possibilidade de reaproveitamento de alimentos pr\u00f3ximos \u00e0 data de vencimento. A farinata seria, ent\u00e3o, usada como suplemento alimentar. Antes, no entanto, de qualquer eventual distribui\u00e7\u00e3o do produto, ainda ser\u00e3o necess\u00e1rios estudos de como isso ser\u00e1 feito.<\/i><\/p>\n<p><i>3. A discuss\u00e3o sobre a farinata surgiu dentro da cria\u00e7\u00e3o de um programa da Prefeitura para combater o desperd\u00edcio dos alimentos.<\/i><\/p>\n<p><i>4. O italiano ignora, por completo, iniciativas da Prefeitura na \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o, como o Banco de Alimentos, o incentivo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de hortas e o uso de alimentos org\u00e2nicos na merenda escolar. Pela primeira vez, ser\u00e1 servido um alimento org\u00e2nico in natura na rede municipal de ensino: a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o assinou, no \u00faltimo dia 25, oito contratos da agricultura familiar para adquirir de cooperativas do Vale do Ribeira banana nanica e prata, convencional e org\u00e2nica. Os alimentos come\u00e7am a ser distribu\u00eddos nas escolas a partir do pr\u00f3ximo dia 6.<\/i><\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Rafael Barifouse d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 28\/10\/2017<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O italiano Carlo Petrini \u00e9 conhecido mundialmente por ter criado o movimento Slow Food, por meio do qual dedicou quase metade da vida a tentar mudar a forma como nos alimentamos, da produ\u00e7\u00e3o no campo aos pratos \u00e0 mesa. 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