{"id":17750,"date":"2017-10-30T00:04:13","date_gmt":"2017-10-30T03:04:13","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=17750"},"modified":"2017-10-29T07:17:32","modified_gmt":"2017-10-29T10:17:32","slug":"por-que-o-brasil-escapou-ileso-da-droga-que-virou-epidemia-nos-eua-e-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/10\/30\/por-que-o-brasil-escapou-ileso-da-droga-que-virou-epidemia-nos-eua-e-na-europa\/","title":{"rendered":"Por que o Brasil escapou ileso da droga que virou epidemia nos EUA e na Europa"},"content":{"rendered":"<div class=\"with-extracted-share-icons\">Magros e com ar abatido, eles perambulam pelas ruas, com isqueiro na m\u00e3o, comprando drogas para aplacar sua crise de abstin\u00eancia. O cen\u00e1rio pode lembrar o de usu\u00e1rios de crack, que se espalham pelas capitais brasileiras, mas nesse caso retratam uma outra realidade: a do uso de hero\u00edna e opioides nos Estados Unidos e na Europa.<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>Os Estados Unidos acabaram de declarar uma epidemia de opioides \u2013 drogas derivadas do \u00f3pio, como a hero\u00edna, a morfina e a metadona \u2013 como uma emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica. &#8220;Nunca vimos algo como o que tem acontecido nos \u00faltimos quatro anos&#8221;, disse o presidente Donald Trump na quinta.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, no pa\u00eds de Gales e na Esc\u00f3cia, o n\u00famero de mortes por overdose de hero\u00edna dobrou nos \u00faltimos cinco anos &#8211; e \u00e9 hoje o maior por ano desde que o governo come\u00e7ou a medir.<\/p>\n<p>Nos EUA, um levantamento do governo federal divulgado em setembro apontou que o n\u00famero de mortes causadas por fentanil, um anest\u00e9sico e analg\u00e9sico opioide de acesso restrito, aumentou 540% em tr\u00eas anos &#8211; foi de 3 mil, em 2014, para 20 mil, em 2017.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que a epidemia atinge diferentes partes do pa\u00eds. A presen\u00e7a constante do v\u00edcio em opi\u00e1ceos sobrecarrega governos estaduais, que precisam deslocar cada vez mais recursos para remediar o problema.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o no uso dessas subst\u00e2ncias, no entanto, n\u00e3o chegou ao Brasil. Aqui o problema \u00e9 outro.<\/p>\n<p>O \u00faltimo Levantamento Nacional de \u00c1lcool e Drogas dispon\u00edvel, feito em 2012 pela Unifesp, apontava que 1,8 milh\u00e3o de pessoas j\u00e1 haviam experimentado crack no pa\u00eds, enquanto a coca\u00edna havia sido usada por 5,6 milh\u00f5es. J\u00e1 a Pesquisa Nacional sobre o Crack feita pela Fiocruz em 2013 revelou que havia cerca de 370 mil usu\u00e1rios regulares de crack nas capitais.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/98C4\/production\/_98480193_hi003325224.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Seringa e colher\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0O tr\u00e1fico brasileiro n\u00e3o trabalha com a distribui\u00e7\u00e3o em escala de hero\u00edna | Foto: Science Photo Library<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Nenhum dos levantamentos aponta presen\u00e7a relevante de hero\u00edna. O estudo feito pela Unifesp nem cita a droga. E s\u00f3 0,84 dos usu\u00e1rios de crack j\u00e1 experimentaram hero\u00edna e outros opioides, de acordo com a pesquisa da Fiocruz.<\/p>\n<p>&#8220;A hero\u00edna tem preval\u00eancia muito baixa independentemente do estrato social &#8211; em diferentes classes sociais, g\u00eaneros, idade, forma\u00e7\u00e3o&#8221;, explica o pesquisador Francisco In\u00e1cio Bastos, principal especialista em drogas da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do estudo sobre o crack.<\/p>\n<p>Como conseguimos escapar ilesos desse problema?<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Veteranos de guerra<\/h2>\n<p>A hero\u00edna \u00e9 derivada do \u00f3pio &#8211; droga origin\u00e1ria da \u00c1sia que j\u00e1 era conhecida na Europa h\u00e1 mil\u00eanios quando um tratado proibiu sua comercializa\u00e7\u00e3o, em 1912.<\/p>\n<p>Produzida atrav\u00e9s da mesma planta, a papoula, a hero\u00edna foi sintetizada pela primeira vez pelo qu\u00edmico brit\u00e2nico Charles Romley Alder Wright, no fim do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Foi distribu\u00edda como rem\u00e9dio para dor pela empresa farmac\u00eautica Bayer durante mais de uma d\u00e9cada nos Estados Unidos e na Europa, at\u00e9 relatos de que a subst\u00e2ncia era viciante levaram tamb\u00e9m \u00e0 sua proibi\u00e7\u00e3o, nos anos 1910.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, ela continuou a ser produzida ilegalmente e se tornou um problema na Europa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E6E4\/production\/_98480195_gettyimages-119406297.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Papoula\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES Image captionA hero\u00edna \u00e9 derivada do \u00f3pio, produzido a partir da papoula | Foto: Getty Images<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>J\u00e1 nos EUA, o grande mercado para a hero\u00edna se formou nos anos 1970, segundo Guaracy Mingardi, especialista do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica e ex-subsecret\u00e1rio nacional de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;Os soldados que lutaram na Guerra do Vietn\u00e3 (1955-1975) come\u00e7aram a voltar viciados. Eles tamb\u00e9m tinham conhecido e criado relacionamentos com os traficantes, o que ajudou a disseminar a droga&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>No Brasil, nunca se criou essa demanda, segundo Mingardi. Ele explica que o tr\u00e1fico muitas vezes se utiliza das rotas comerciais existentes \u2013 e o menor n\u00famero de rotas entre Brasil e \u00c1sia nesse per\u00edodo ajudou a inibir a dissemina\u00e7\u00e3o da droga.<\/p>\n<p>Muito longe da \u00c1sia e das rotas de distribui\u00e7\u00e3o, o Brasil acaba recebendo hero\u00edna muito raramente \u2013 e a pre\u00e7os muito mais altos.<\/p>\n<p>A estimativa dos especialistas \u00e9 que a droga esteja custando U$ 150 (R$ 450) por 1g. Como compara\u00e7\u00e3o, uma pedra de crack custa em torno de R$ 10 na cracol\u00e2ndia paulistana.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15C14\/production\/_98480198_gettyimages-147562655.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Seringa\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES Image captionO mercado para a hero\u00edna nos EUA se formou nos anos 1970, especialmente ap\u00f3s a volta dos soldados do Vietn\u00e3 | Foto: Getty Images<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A quest\u00e3o do pre\u00e7o e da distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. No caso da coca\u00edna, por exemplo, estamos ao lado dos maiores produtores do mundo. Mesmo assim, a maior parte da coca\u00edna consumida aqui, por exemplo, vem da Bol\u00edvia, porque a colombiana \u00e9 mais cara e costuma ir para os EUA e a Europa&#8221;, afirma ele.<\/p>\n<p>O crime organizado brasileiro tamb\u00e9m n\u00e3o parece ter estrat\u00e9gias ou escala de distribui\u00e7\u00e3o de opioides.<\/p>\n<p>&#8220;Pelos poucos registros de uso de hero\u00edna aqui \u00e9 poss\u00edvel perceber que a droga n\u00e3o vem atrav\u00e9s do tr\u00e1fico comum, dos mesmos distribuidores que vendem maconha, coca\u00edna e crack&#8221;, afirma Mingardi.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Francisco In\u00e1cio Bastos, da Fiocruz, concorda com essa avalia\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o existe distribui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, \u00e9 um ou outro estrangeiro que traz um pouco para c\u00e1&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Efeito colateral<\/h2>\n<p>Outro fator a ser levado em conta \u00e9 que os brasileiros n\u00e3o t\u00eam um alto consumo de rem\u00e9dios anest\u00e9sicos como os americanos, explica Bastos.<\/p>\n<p>&#8220;Eles t\u00eam costume maior de consumir anest\u00e9sicos e analg\u00e9sicos por uma s\u00e9rie de motivos: o pa\u00eds \u00e9 mais rico, a popula\u00e7\u00e3o tem uma sobrevida maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7as cr\u00f4nicas e reum\u00e1ticas, o acesso \u00e9 maior&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>Segundo ele, o h\u00e1bito de consumir opioides legais acaba levando muitas pessoas ao v\u00edcio. &#8220;Muitos rem\u00e9dios que s\u00e3o receitados acabam gerando um v\u00edcio. As pessoas ficam dependentes de (subst\u00e2ncias opioides como) fentanil, metadona e oxicodona. Depois que a quantidade receitada acaba, na dificuldade de conseguir as drogas \u2013 vendidas s\u00f3 com prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica \u2013 a pessoa acaba comprando hero\u00edna na rua, porque ela tem efeitos parecidos&#8221;, diz Bastos.<\/p>\n<p>Em 2015, um ter\u00e7o dos americanos recebeu prescri\u00e7\u00e3o para usar esse tipo de medicamento, segundo dados do governo federal dos EUA.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10C64\/production\/_98480786_hi042245472.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Usu\u00e1rio de hero\u00edna no Bronx\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES Image captionMalefic\u00edos da hero\u00edna foram muito divulgados em campanhas publicit\u00e1rias no Brasil nos anos 1980 | Foto: Getty Images<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para a menor incid\u00eancia de hero\u00edna no Brasil \u00e9 que os malefic\u00edos da droga foram muito divulgados em campanhas contra o seu uso \u2013 principalmente a partir dos anos 1980, quando houve um pico de consumo no mundo.<\/p>\n<p>A validade dessa tese, no entanto, \u00e9 question\u00e1vel se considerada a quantidade de publicidade negativa feita sobre o crack e o fato de que o uso dessa droga apenas se intensificou desde os anos 1990.<\/p>\n<p>A hero\u00edna \u00e9 uma droga depressora. Gera uma sensa\u00e7\u00e3o de euforia intensa seguida por um per\u00edodo de seda\u00e7\u00e3o, e \u00e9 rapidamente viciante. Usada continuamente, causa ins\u00f4nia, disfun\u00e7\u00e3o sexual, enfraquecimento do sistema imunol\u00f3gico e pode desencadear doen\u00e7as psic\u00f3logicas e les\u00f5es cerebrais.<\/p>\n<p>Conforme o corpo se acostuma com a subst\u00e2ncia, necessita de doses cada vez maiores para obter a mesma sensa\u00e7\u00e3o &#8211; por isso a droga tem um alto \u00edndice de overdose.<\/p>\n<p>&#8220;As classes baixas consomem o crack, que \u00e9 mais barato. Nas classes m\u00e9dias, que teriam poder aquisitivo para consumir o produto, a reputa\u00e7\u00e3o da droga pode ter um papel em suprimir o uso&#8221;, diz Bastos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um c\u00edrculo virtuoso &#8211; n\u00e3o existe demanda, ent\u00e3o os traficantes n\u00e3o trazem. E como n\u00e3o existe distribui\u00e7\u00e3o, as pessoas n\u00e3o viciam&#8221;, diz. &#8220;Um problema a menos para a gente se preocupar.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Let\u00edcia Mori d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 30\/10\/2017<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magros e com ar abatido, eles perambulam pelas ruas, com isqueiro na m\u00e3o, comprando drogas para aplacar sua crise de abstin\u00eancia. 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