{"id":18709,"date":"2017-11-27T00:10:53","date_gmt":"2017-11-27T03:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=18709"},"modified":"2017-11-26T18:56:28","modified_gmt":"2017-11-26T21:56:28","slug":"conflito-de-interesses-industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/11\/27\/conflito-de-interesses-industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/","title":{"rendered":"Conflito de interesses: ind\u00fastria de alimentos ocupa espa\u00e7os da universidade na Anvisa"},"content":{"rendered":"<h5 class=\"nitfSubtitle\">Grandes empresas emplacam indica\u00e7\u00f5es para assentos que cabem a faculdades e institutos de pesquisa na ag\u00eancia reguladora, que opta pelo sil\u00eancio<\/h5>\n<div id=\"viewlet-below-content-title\">\n<div id=\"parent-fieldname-description\" class=\"documentDescription\"><\/div>\n<div>\n<p>A ind\u00fastria de alimentos tem ocupado assentos que caberiam a universidades e institutos de pesquisa em colegiados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). Embora disponham de lugares pr\u00f3prios, as empresas contam ainda com pesquisadores alinhados, conseguindo influenciar na defini\u00e7\u00e3o da agenda e das normas da ag\u00eancia reguladora.<\/p>\n<p>O setor econ\u00f4mico chega a ter maioria em alguns espa\u00e7os, em especial nos grupos de trabalho que fornecem subs\u00eddios \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<div class=\"teads-inread\">\n<div id=\"moatPxCont283184\">\n<div id=\"moatPxDiv770936\">O principal representante da ind\u00fastria nos assentos da comunidade acad\u00eamica \u00e9 o International Life Sciences Institute (ILSI), criado em 1978 pela Coca-Cola. \u201cO ILSI Internacional e o ILSI Brasil acreditam que o f\u00f3rum cient\u00edfico \u00e9 um f\u00f3rum neutro e \u00e9 o \u00fanico que pode dar respostas seguras para uma popula\u00e7\u00e3o que necessita de uma contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, defende o diretor-presidente do ILSI, Ary Bucione.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Muitas vezes, o ILSI n\u00e3o est\u00e1 oficialmente na composi\u00e7\u00e3o dos grupos, mas professores de universidades p\u00fablicas falam em nome do instituto, como pudemos comprovar ao ler v\u00e1rios documentos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"content-core\">\n<div class=\"tile-rights\"><\/div>\n<div class=\"canvasImg\">\n<figure style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"TR_Supermercado_Vitoria_Foto_Tania_Rego_00209022017.jpg\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/o-joio-e-o-trigo\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/tr_supermercado_vitoria_foto_tania_rego_00209022017.jpg\/%40%40images\/343561da-4ae0-47c6-ab64-3bf0f08abf97.jpeg?resize=696%2C463&#038;ssl=1\" alt=\"TR_Supermercado_Vitoria_Foto_Tania_Rego_00209022017.jpg\" width=\"696\" height=\"463\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Supermercado em Vit\u00f3ria: as regras da alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o largamente influenciadas pela ind\u00fastria. T\u00e2nia R\u00eago \/ Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"discreet\">A ind\u00fastria de alimentos tem ocupado assentos que caberiam a universidades e institutos de pesquisa em colegiados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). Embora disponham de lugares pr\u00f3prios, as empresas contam ainda com pesquisadores alinhados, conseguindo influenciar na defini\u00e7\u00e3o da agenda e das normas da ag\u00eancia reguladora.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"textstructured\">\n<p>O setor econ\u00f4mico chega a ter maioria em alguns espa\u00e7os, em especial nos grupos de trabalho que fornecem subs\u00eddios \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<div class=\"teads-inread\">\n<div id=\"moatPxCont283184\">\n<div id=\"moatPxDiv770936\">O principal representante da ind\u00fastria nos assentos da comunidade acad\u00eamica \u00e9 o International Life Sciences Institute (ILSI), criado em 1978 pela Coca-Cola. \u201cO ILSI Internacional e o ILSI Brasil acreditam que o f\u00f3rum cient\u00edfico \u00e9 um f\u00f3rum neutro e \u00e9 o \u00fanico que pode dar respostas seguras para uma popula\u00e7\u00e3o que necessita de uma contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, defende o diretor-presidente do ILSI, Ary Bucione.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Muitas vezes, o ILSI n\u00e3o est\u00e1 oficialmente na composi\u00e7\u00e3o dos grupos, mas professores de universidades p\u00fablicas falam em nome do instituto, como pudemos comprovar ao ler v\u00e1rios documentos.<\/p>\n<p>Revisamos mais de uma centena de atas de reuni\u00f5es de grupos de trabalho na Anvisa. Entrevistamos dezenas de envolvidos no processo. Lemos o material cient\u00edfico apresentado por pesquisadores e diretamente pela ind\u00fastria para embasar a tomada de decis\u00e3o. E n\u00e3o encontramos nenhuma diverg\u00eancia relevante entre as posi\u00e7\u00f5es das empresas de alimentos e do ILSI. E tamb\u00e9m de alguns professores com trabalhos financiados pelo setor privado. Ao contr\u00e1rio, a converg\u00eancia \u00e9 constante.<\/p>\n<p>O congresso anual da organiza\u00e7\u00e3o contou em 2017 com a participa\u00e7\u00e3o de um diretor da Anvisa pela primeira vez. Fernando Mendes Garcia Neto criticou \u201cmodismos alimentares\u201d que, segundo ele, prejudicam a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, fazendo eco ao escopo argumentativo da ind\u00fastria. Ele falou em \u201cum m\u00ednimo de ordenamento regulat\u00f3rio que possa seguir em alinhamento com a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica desses produtos de forma a permitir, no menor tempo poss\u00edvel, a comercializa\u00e7\u00e3o deles em situa\u00e7\u00e3o que garanta efic\u00e1cia e seguran\u00e7a no uso\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ILSI e outras organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 ind\u00fastria t\u00eam trabalhado para agilizar processos dentro da Anvisa, especialmente no que diz respeito a novos produtos. Como a ind\u00fastria investe forte em inova\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre alguns passos \u00e0 frente da agenda regulat\u00f3ria e da pesquisa acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Sempre que se pronuncia publicamente, Bucione enfatiza que o ILSI \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Em algumas reuni\u00f5es da Anvisa, o instituto se faz representar por funcion\u00e1rios de empresas, inclusive Bucione, empregado da DuPont, fabricante de ingredientes fornecidos \u00e0 ind\u00fastria de alimentos.<\/p>\n<p>Aldo Baccarin, ex-Kraft Foods e presidente do ILSI de 2001 a 2015, representou o instituto no em um grupo de trabalho sobre alimentos funcionais. \u201cO ILSI \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o abstrata\u201d, diz Baccarin, antes de um raro momento de sil\u00eancio durante a mais de uma hora de conversa realizada em agosto. \u201cSim, a gente manda quem tem o melhor n\u00edvel de conhecimento, e sempre v\u00e3o assessorados por algu\u00e9m da ci\u00eancia. Eles t\u00eam que tomar muito cuidado para, se ficar em qualquer momento claro que h\u00e1 um conflito de interesses, essas pessoas t\u00eam que se abster e pular fora.\u201d<\/p>\n<p>O GT foi formado pela Comiss\u00e3o T\u00e9cnico-Cient\u00edfica de Assessoramento em Alimentos Funcionais e Novos Alimentos, instalada em 1999, mesmo ano de cria\u00e7\u00e3o da Anvisa. O grupo \u00e9 desde sempre dominado pelo ILSI.<\/p>\n<p>No grupo de trabalho aberto em 2013, a organiza\u00e7\u00e3o contou com dois assentos diretos. E ainda teve direito a mais duas cadeiras reservadas \u00e0 academia: H\u00e9lio Vannucchi, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP, e o Franco Lajolo, da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da USP e atual presidente do Comit\u00ea Cient\u00edfico do ILSI.<\/p>\n<p>Lajolo chegou a pedir durante as reuni\u00f5es que margarinas, sopas prontas e chocolates pudessem receber alega\u00e7\u00f5es de benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade. Ele \u00e9 copropriet\u00e1rio de duas patentes. Uma, de 2007, sobre a farinha de banana verde, um alimento funcional. E outra, de 2011, financiada pela Sadia, que justamente tenta promover o prato pronto congelado como algo ben\u00e9fico \u00e0 sa\u00fade. No grupo de trabalho, a Anvisa adotou, por\u00e9m, as alega\u00e7\u00f5es funcionais como exce\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como regra, fechando a porta para que ultraprocessados ou alimentos de baixo valor nutricional pudessem receber selinhos de \u201cbons para a sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTradicionalmente, na Anvisa, os grupos ligados \u00e0 ind\u00fastria est\u00e3o presentes. N\u00e3o faltam. T\u00eam um comprometimento com esses eventos que \u00e9 de outro planeta\u201d, resume Rafael Claro, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, que participou do grupo de trabalho sobre alimentos funcionais.<\/p>\n<dl class=\"image-left captioned\">\n<dt>\n<p><figure style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/o-joio-e-o-trigo\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\" rel=\"lightbox\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"Ind\u00fastria de alimentos ocupa espa\u00e7os da universidade na Anvisa\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/o-joio-e-o-trigo\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/%40%40images\/e75042c8-6c9c-4dd5-b303-4fe9eb14247b.jpeg?resize=400%2C266&#038;ssl=1\" alt=\"Ind\u00fastria de alimentos ocupa espa\u00e7os da universidade na Anvisa\" width=\"400\" height=\"266\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Na Anvisa, a ind\u00fastria d\u00e1 as cartas<\/figcaption><\/figure><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\">Alguns entrevistados consideram que o problema est\u00e1 na forma como s\u00e3o feitas as indica\u00e7\u00f5es. Os GTs da Anvisa seguem uma f\u00f3rmula previs\u00edvel. A sociedade civil se op\u00f5e \u00e0 ind\u00fastria. A ind\u00fastria se op\u00f5e a qualquer regula\u00e7\u00e3o. E os integrantes da academia s\u00e3o o fiel da balan\u00e7a, ou seja, conseguir nomear algu\u00e9m no m\u00ednimo simp\u00e1tico a suas ideias pode desequilibrar o jogo.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>\u201cSe a Anvisa fizer um c\u00f3digo mais r\u00edgido, e fulano recebeu financiamento de determinada empresa, ele n\u00e3o vai falar como universidade: vai falar como empresa\u201d, sugere Claro.<\/p>\n<p>Em alguns grupos, a ind\u00fastria conta ainda com a simpatia de institutos p\u00fablicos de pesquisa. \u00c9 o caso especialmente do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), um \u00f3rg\u00e3o do governo paulista vinculado \u00e0 Ag\u00eancia Paulista dos Agroneg\u00f3cios. A pr\u00f3pria miss\u00e3o institucional do Ital \u00e9 estar a servi\u00e7o da ind\u00fastria. Hoje, para citar dois exemplos, o \u00f3rg\u00e3o recha\u00e7a a nomenclatura \u201cultraprocessados\u201d para descrever alguns tipos de alimentos e alega que a obesidade \u00e9 causada por h\u00e1bitos pessoais.<\/p>\n<p><strong>A f\u00f3rmula n\u00e3o \u00e9 secreta<\/strong><\/p>\n<p>Em um encontro recente do Grupo de Trabalho de Nutri\u00e7\u00e3o e Alimentos para Fins Especiais, realizado no come\u00e7o de julho, em S\u00e3o Paulo, a presidente da Sociedade Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o (Sban), que, na verdade, estava inscrita como integrante da Unifesp, demonstrava certa impaci\u00eancia com os pormenores da discuss\u00e3o sobre a rotulagem de f\u00f3rmulas infantis para crian\u00e7as maiores de um ano. Os detalhes s\u00e3o justamente o motivo de ser do grupo, que atua desde 2010 discutindo as normas internacionais nessa \u00e1rea, um trabalho que pode custar horas em torno de uma palavra ou uma frase.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente, tinha uma f\u00f3rmula s\u00f3. E ningu\u00e9m morreu por causa disso. Eu fui criada com Leite Ninho\u201d, disse Olga Am\u00e2ncio, presidente da Sban, uma organiza\u00e7\u00e3o parceira do ILSI que vem recebendo cr\u00edticas pelas rela\u00e7\u00f5es com as grandes empresas de alimentos. Recentemente, a Sban promoveu v\u00eddeos nas redes sociais em defesa do leite de vaca e teve a Nestl\u00e9 como maior patrocinadora de um congresso.<\/p>\n<p>Na Anvisa, Am\u00e2ncio discordou da necessidade de informar no r\u00f3tulo que aquele alimento \u00e9 complementar \u00e0 dieta e n\u00e3o um substituto, pois considera por \u00f3bvio que ningu\u00e9m dar\u00e1 f\u00f3rmula a um beb\u00ea durante o dia inteiro, uma interpreta\u00e7\u00e3o que provocou certo mal-estar entre as defensoras do aleitamento materno.<\/p>\n<p>No fim de outubro, durante audi\u00eancia p\u00fablica na C\u00e2mara, a Sban apresentou-se contra a cria\u00e7\u00e3o de um imposto especial sobre os refrigerantes. A representante da entidade, Marcia Terra, afirmou que, embora n\u00e3o se tenha at\u00e9 o momento fechado posi\u00e7\u00e3o em torno do assunto, as evid\u00eancias cient\u00edficas iriam no sentido de mostrar que a medida \u00e9 pouco eficaz.<\/p>\n<p>Dias depois, ela, em nome da Sban, e pesquisadores do Ital estiveram em evento da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o (Abia) para defender o modelo de rotulagem frontal proposto pelo setor privado. O tema \u00e9 central nos debates atuais da Anvisa, que at\u00e9 o momento n\u00e3o se decidiu entre o sistema defendido pela sociedade civil e o advogado pelas empresas.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned\">\n<dt>\n<p><figure style=\"width: 1648px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"audiencia publica.jpg\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/o-joio-e-o-trigo\/industria-de-alimentos-ocupa-espacos-da-universidade-na-anvisa\/audiencia-publica.jpg\/image\" alt=\"audiencia publica.jpg\" width=\"1648\" height=\"1080\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Audi\u00eancia p\u00fablica na C\u00e2mara: a Sban foi contr\u00e1ria a aumentar os impostos sobre os refrigerantes (Foto: Luis Macedo\/C\u00e2mara dos Deputados)<\/figcaption><\/figure><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\">Marcia Vitolo, professora aposentada da Universidade Federal de Ci\u00eancias da Sa\u00fade de Porto Alegre, integrou o GT sobre f\u00f3rmulas infantis nos \u00faltimos anos. Ela n\u00e3o tem d\u00favidas de que a forma como s\u00e3o estruturados os grupos da Anvisa \u00e9 o cerne da quest\u00e3o. \u201cEm cada reuni\u00e3o, vai um grupo diferente. Essa descontinuidade faz com que o processo fique vulner\u00e1vel, o que \u00e9 de interesse maior da ind\u00fastria\u201d, resume. \u201cPorque a ind\u00fastria tem uma continuidade. Os profissionais t\u00e9cnicos, acad\u00eamicos, que v\u00e3o de alguma forma tentar dar o olhar da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o abarrotados de coisas.\u201d<\/dd>\n<\/dl>\n<p>O GT do qual fez parte Marcia Vitolo atua numa quest\u00e3o muito delicada. As f\u00f3rmulas infantis s\u00e3o o t\u00f3pico que fez saltar \u00e0 vista como a influ\u00eancia da ind\u00fastria pode minar os conhecimentos cient\u00edficos, resultando em d\u00e9cadas de desinforma\u00e7\u00e3o das m\u00e3es sobre os benef\u00edcios do aleitamento materno.<\/p>\n<p>Embora a ind\u00fastria hoje admita que nada \u00e9 melhor do que o leite natural, ainda h\u00e1 um forte jogo de press\u00e3o nessa seara, que pode ser facilmente reconhecido nas atas da reuni\u00e3o, com sucessivas tentativas de evitar qualquer restri\u00e7\u00e3o a esses produtos. O ILSI se op\u00f4s a que se adotasse a inscri\u00e7\u00e3o \u201cN\u00e3o nutricionalmente necess\u00e1rio\u201d nos r\u00f3tulos das f\u00f3rmulas para beb\u00eas acima de 12 meses, tese defendida por parte da comunidade acad\u00eamica e pela sociedade civil.<\/p>\n<p>\u201cO conflito de interesses \u00e0s vezes \u00e9 muito velado\u201d, resume Renata Monteiro, pesquisadora do Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas de Sa\u00fade Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia que participou de grupos de trabalho na Anvisa e no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cEu sou uma profissional de sa\u00fade, ent\u00e3o, quando sou chamada a um espa\u00e7o assim, sei exatamente qual \u00e9 meu papel. Quando se trata de um acad\u00eamico mais pr\u00f3ximo \u00e0 ind\u00fastria, \u00e9 mais dif\u00edcil. Porque n\u00e3o est\u00e1 tentando discutir a quest\u00e3o da ci\u00eancia: est\u00e1 para intermediar a ind\u00fastria com a quest\u00e3o acad\u00eamica, tentar criar argumenta\u00e7\u00e3o acad\u00eamica para justificar algumas coisas que a ind\u00fastria quer fazer.\u201d<\/p>\n<p>No come\u00e7o de 2017, o setor produtivo apresentou ao GT dois artigos de revis\u00e3o que deveriam ser tomados como material de refer\u00eancia, dada a escassa bibliografia brasileira sobre o tema. Um deles era assinado por professores de universidades federais em parceria com um funcion\u00e1rio da Danone.<\/p>\n<p><strong>Portas abertas<\/strong><\/p>\n<p>Em 2003, o ILSI op\u00f4s-se \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o de alerta sobre rotulagem de alimentos com gl\u00faten, alegando que a mensagem provocaria confus\u00e3o. Recentemente, fez oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa sobre rotulagem de alimentos com potencial alerg\u00eanico. \u201cO ILSI faz ci\u00eancia com evid\u00eancia. Ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o tiver evid\u00eancia, a gente n\u00e3o apoia a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o simplesmente questionamentos, sem a avalia\u00e7\u00e3o do risco, que \u00e9 o necess\u00e1rio para esse caso\u201d, resumiu Maria Cec\u00edlia de Figueiredo Toledo, professora aposentada da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.<\/p>\n<p>A Anvisa adotou no ano passado uma norma interna sobre conflito de interesses, adequando-se \u00e0 tamb\u00e9m recente legisla\u00e7\u00e3o federal sobre o tema. Tanto a regra quanto a lei v\u00e3o em m\u00e3o \u00fanica, dizendo apenas o que cabe ao servidor p\u00fablico e n\u00e3o a quem se relaciona com o poder p\u00fablico. Buscamos saber se o Comit\u00ea de \u00c9tica da ag\u00eancia reguladora ou a diretoria colegiada tomam atitudes quanto a essa quest\u00e3o, mas a assessoria de imprensa optou por vetar entrevistas e n\u00e3o enviar qualquer resposta, mesmo com pedidos reiterados desde o come\u00e7o de agosto.<\/p>\n<p>As resolu\u00e7\u00f5es da Anvisa seguem um rito. Primeiro, \u00e9 preciso que o assunto entre na lista de prioridades de regula\u00e7\u00e3o. Depois, que comece a ser debatido. Em seguida, edita-se uma proposta de resolu\u00e7\u00e3o, ou seja, um esbo\u00e7o da norma, que \u00e9 submetido a uma consulta p\u00fablica e recebe contribui\u00e7\u00f5es dos interessados. O ILSI \u00e9 ass\u00edduo em todas essas etapas.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios assuntos em discuss\u00e3o que despertam o interesse do instituto.<\/p>\n<p>A Anvisa est\u00e1 definindo novas normas para que um alimento possa ser considerado integral. O ILSI organizou dois eventos a respeito em agosto e setembro.<\/p>\n<p>Uma nova regula\u00e7\u00e3o para suplementos alimentares, de forma a tornar mais r\u00e1pida a libera\u00e7\u00e3o de produtos, teve debates promovidos pelo instituto, que tamb\u00e9m se envolveu em uma discuss\u00e3o parecida quanto a probi\u00f3ticos, que s\u00e3o alimentos ou medicamentos usados para melhorar a composi\u00e7\u00e3o da microbiota intestinal (vulgo flora). Ao que tudo indica, a Anvisa caminha para dar \u201cmaior flexibilidade\u201d \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de produtos, adotando o modelo canadense apresentado justamente por acad\u00eamicos pr\u00f3ximos \u00e0 ind\u00fastria e por uma consultoria parceira do ILSI.<\/p>\n<p>Os materiais do instituto sobre macro e micronutrientes constituem a base de refer\u00eancias da Anvisa. H\u00e1 integrantes do ILSI que reservaram para si h\u00e1 muitos anos o \u00fanico assento da comunidade acad\u00eamica na delega\u00e7\u00e3o brasileira para o Codex Alimentarius, espa\u00e7o de defini\u00e7\u00e3o das normas globais sobre alimenta\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>A tentativa do setor privado de ocupar espa\u00e7os acad\u00eamicos n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno brasileiro. A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental US Right to Know revelou recentemente uma troca de e-mails entre dois ex-executivos da Coca-Cola. Alex Malaspina, fundador do ILSI e ainda influente na organiza\u00e7\u00e3o, e Ernest Knowles, ex-vice-presidente de rela\u00e7\u00f5es institucionais da Coca, demonstravam preocupa\u00e7\u00e3o com os rumos do debate sobre obesidade. Knowles sugere que a empresa deveria estar \u00e0 frente dessa discuss\u00e3o, financiando organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e cient\u00edficas e fortalecendo a a\u00e7\u00e3o do ILSI na busca pelas causas dessa epidemia.<\/p>\n<p>O Observat\u00f3rio de Corpora\u00e7\u00f5es da Europa publicou em 2012 um documento mostrando que o ILSI teve portas abertas no \u00f3rg\u00e3o regulador da alimenta\u00e7\u00e3o no continente, o EFSA. O pr\u00f3prio ILSI admite ter conseguido enfraquecer as linhas de atua\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o a transg\u00eanicos, com a dispensa de testes mais profundos sobre como a altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode mexer com v\u00e1rios componentes nutricionais.<\/p>\n<p>No geral, conclui o Observat\u00f3rio, \u00e9 esse o papel do instituto: atuar por regras mais brandas que signifiquem economia milion\u00e1ria (ou bilion\u00e1ria) para as empresas patrocinadoras. Depois de v\u00e1rias evid\u00eancias de que o ILSI dava as cartas em decis\u00f5es importantes do \u00f3rg\u00e3o regulador, a EFSA adotou um novo padr\u00e3o de relacionamento e decidiu excluir o think tank da tomada de certas decis\u00f5es. Diante dos protestos do ILSI, a ent\u00e3o diretora-executiva da EFSA, Catherine Geslain-Lan\u00e9elle, escreveu uma carta na qual fala que a organiza\u00e7\u00e3o representa \u201cinteresses particulares\u201d e que a ag\u00eancia est\u00e1 \u201cmuito bem posicionada para saber a natureza de seu trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Por aqui, a Anvisa optou pelo sil\u00eancio.<\/p>\n<p><em><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong><a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/alimentos-processados-qual-o-rotulo-da-anvisa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alimentos processados: qual o r\u00f3tulo da Anvisa?<br \/>\n<\/a><\/strong><strong><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/02\/03\/temer-antecipa-pacote-do-veneno-e-proibe-anvisa-de-se-manifestar-sobre-agrotoxicos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Temer antecipa \u2018pacote do veneno\u2019 e pro\u00edbe Anvisa de se manifestar sobre agrot\u00f3xicos<\/a><\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/orgaos-de-vigilancia-nao-trazem-informacao-sobre-farinata-de-doria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00d3rg\u00e3os de vigil\u00e2ncia n\u00e3o trazem informa\u00e7\u00e3o sobre &#8216;farinata&#8217; de Doria<br \/>\n<\/a><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/bancada-ruralista-forca-medidas-menos-restritivas-aos-agrotoxicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bancada ruralista for\u00e7a medidas menos restritivas aos agrot\u00f3xicos<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><span class=\"documentAuthor\">Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Peres \/ Carta Capital &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/112017<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandes empresas emplacam indica\u00e7\u00f5es para assentos que cabem a faculdades e institutos de pesquisa na ag\u00eancia reguladora, que opta pelo sil\u00eancio A ind\u00fastria de alimentos tem ocupado assentos que caberiam a universidades e institutos de pesquisa em colegiados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). 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