{"id":19407,"date":"2017-12-14T04:13:48","date_gmt":"2017-12-14T07:13:48","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=19407"},"modified":"2017-12-14T04:15:49","modified_gmt":"2017-12-14T07:15:49","slug":"peregrinacoes-da-desigualdade-luiz-gonzaga-belluzzo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2017\/12\/14\/peregrinacoes-da-desigualdade-luiz-gonzaga-belluzzo\/","title":{"rendered":"Peregrina\u00e7\u00f5es da desigualdade.\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"cmp_buttons_container\">\n<div class=\"cmp_share_container\">\u00a0<strong><em>O consenso obtido pela m\u00eddia bloqueia o imagin\u00e1rio social e os pobres delegam as decis\u00f5es para os \u201cs\u00e1bios\u201d.<\/em>\u00a0<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p>A nova pesquisa do IBGE revela o que todos sabem e alguns simulam ignorar. O Brasil disputa o p\u00f3dio da desigualdade com o Lesoto e a Z\u00e2mbia. As manchetes da quinta-feira proclamam: o rendimento m\u00e9dio mensal do 1% mais rico \u00e9 36 vezes maior do que os recebimentos dos 50% mais pobres.<\/p>\n<p>A pesquisa rec\u00e9m-divulgada tem maior abrang\u00eancia e acuidade no c\u00e1lculo dos rendimentos, o que n\u00e3o permite compara\u00e7\u00f5es com as informa\u00e7\u00f5es capturadas em pesquisas anteriores. Mas o \u00cdndice de Gini j\u00e1 colocava o Brasil entre os campe\u00f5es da desigualdade, a despeito dos esfor\u00e7os do governo Lula de minorar as dores e sofrimentos da pobreza absoluta e elevar o padr\u00e3o de vida da classe trabalhadora. Especialistas argumentam que os mais ricos resistiram melhor \u00e0 depress\u00e3o de 2015 e 2016 do que os mais pobres.<\/p>\n<p><strong>Democracia e capitalismo<\/strong><br \/>\nFiquei surpreso, n\u00e3o com o fen\u00f4meno, mas com a constata\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia hist\u00f3rica e universal registra a maior resili\u00eancia das classes propriet\u00e1rias e dos assalariados de escol no epis\u00f3dio de encolhimento do n\u00edvel de atividade. Esta \u00e9 a marca registrada das sociedades em que o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico est\u00e1 distribu\u00eddo desigualmente.<\/p>\n<p>Os \u201cpecados\u201d de concep\u00e7\u00e3o e de administra\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas econ\u00f4micas regressivas, como a brasileira, n\u00e3o s\u00e3o daqueles que podem ser cometidos solitariamente por economistas, ministros da Fazenda ou presidentes da Rep\u00fablica. Acidentes de tal monta causados por erros individuais ou por pequenos grupos dirigentes podem acontecer na hist\u00f3ria dos povos, mas estou convencido de que eles s\u00e3o menos frequentes do que imagina o senso comum.<\/p>\n<p>A desigualdade secular brasileira est\u00e1 na raiz da reemerg\u00eancia dos antigos ideais do liberalismo econ\u00f4mico, apresentados como o \u201c\u00faltimo grito\u201d da moda econ\u00f4mica. Nas confronta\u00e7\u00f5es que hoje assolam e j\u00e1 assolaram a pol\u00edtica brasileira, nada mais velho do que o novo. A prolifera\u00e7\u00e3o de caras novas destina-se a esconder o rosto do velho e persistente poder da casa-grande esculpido em p\u00e9trea solidez.<\/p>\n<p>Nos empenhos da troca de m\u00e1scaras, os disfarces de maior sucesso no momento foram confeccionados por m\u00e3os h\u00e1beis. Os artes\u00e3os do conservadorismo sabem esculpir com novos cinz\u00e9is as formas petrificadas do velho arranjo olig\u00e1rquico. S\u00e3o escultores altamente qualificados nos of\u00edcios do continu\u00edsmo com continuidade que encaixam, com ajustes mas sem atritos, as m\u00e1scaras do novo nos rostos encarquilhados dos velhos senhores de sempre.<\/p>\n<p>O consenso dominante dos dominantes trata de explicar que, se os c\u00e2nones de sua domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o forem respeitados, a vida dos dominados vai piorar ainda mais. Patrocinada pelo monop\u00f3lio da m\u00eddia, a forma\u00e7\u00e3o desse consenso \u00e9 um m\u00e9todo eficaz de bloquear o imagin\u00e1rio social, uma a\u00e7\u00e3o destinada a comprovar que a hist\u00f3ria humana n\u00e3o deve ser entregue \u00e0s decis\u00f5es insensatas da democracia dos \u201cpobres e ignorantes\u201d, mas mantida permanentemente sob o controle dos \u201cs\u00e1bios\u201d.<\/p>\n<p>Em seu rastro de contund\u00eancias, o golpe de 2016 sacrificou a Rep\u00fablica e espalhou os despojos \u00e0s costas de 13 milh\u00f5es de desempregados. O apetite voraz de muitos brasileiros ricos e bonitos por preconceitos de todos os matizes chegou ao ponto do regurgitamento.<\/p>\n<p>Na onda recente de mastiga\u00e7\u00e3o de improp\u00e9rios racistas, homof\u00f3bicos e regionalistas, tal voracidade encontrou aux\u00edlio nos maxilares que proclamam as virtudes da \u201cmeritocracia\u201d. Meritocracia no Brasil \u00e9 palavra de ordem para justificar a rapina praticada pelos bonitinhos da finan\u00e7a in\u00fatil e predat\u00f3ria. Rapina da riqueza produzida pelo esfor\u00e7o coletivo dos empres\u00e1rios, os que sobraram e ainda insistem em produzir \u201ccoisas\u201d e ideias inovadoras, juntamente com seus trabalhadores.<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o de renda e riqueza engendrada pelo poder do capital est\u00e9ril veio acompanhada pela rejei\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d. A rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 mais profunda porque atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertin\u00eancia \u00e0 mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferencia\u00e7\u00e3o e desidentifica\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos \u201coutros\u201d, ou seja, \u00e0 massa de pobres e miser\u00e1veis que \u201cinfesta\u201d o Pa\u00eds. E essa desidentifica\u00e7\u00e3o vem assumindo cada vez mais as fei\u00e7\u00f5es de um individualismo agressivo e antirrepublicano. Uma esp\u00e9cie de caricatura do americanismo.<\/p>\n<p>\u00c9 ocioso dizer que tais expectativas e anseios n\u00e3o s\u00e3o um desvio psicol\u00f3gico, mas enterram suas ra\u00edzes nas profundezas da desigualdade que h\u00e1 s\u00e9culos assola o Pa\u00eds. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no per\u00edodo do desenvolvimentismo, as classes cosmopolitas t\u00eam sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodu\u00e7\u00e3o do apartheid social e impiedosas na cr\u00edtica do desenvolvimento nacional, a partir de um primeiro-mundismo abstrato e n\u00e3o raro, vulgar.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no DIAP (<em> originalmente na revista Carta Capital<\/em>\u00a0) &#8211; dispon\u00edvel na internet 14\/12\/2017<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0O consenso obtido pela m\u00eddia bloqueia o imagin\u00e1rio social e os pobres delegam as decis\u00f5es para os \u201cs\u00e1bios\u201d.\u00a0 A nova pesquisa do IBGE revela o que todos sabem e alguns simulam ignorar. O Brasil disputa o p\u00f3dio da desigualdade com o Lesoto e a Z\u00e2mbia. As manchetes da quinta-feira proclamam: o rendimento m\u00e9dio mensal do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1975,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-19407","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/beluzzo.gif?fit=134%2C166&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}