{"id":20225,"date":"2018-01-15T00:02:01","date_gmt":"2018-01-15T03:02:01","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=20225"},"modified":"2018-01-14T07:14:35","modified_gmt":"2018-01-14T10:14:35","slug":"o-brasil-esta-experimentando-uma-das-maiores-desindustrializacoes-da-historia-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/01\/15\/o-brasil-esta-experimentando-uma-das-maiores-desindustrializacoes-da-historia-da-economia\/","title":{"rendered":"\u201cO Brasil est\u00e1 experimentando uma das maiores desindustrializa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da economia\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h5 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \">Considerado de direita na Coreia do Sul e de esquerda na Inglaterra, o economista heterodoxo Ha-Joon Chang critica o rumo das pol\u00edticas brasileiras e defende protecionismo nos pa\u00edses emergente.<abbr title=\"Brasilia Summer Time\"><\/abbr><\/h5>\n<p>Voc\u00ea se considera de esquerda? Mesmo acostumado a dar entrevistas, essa pergunta ainda faz gaguejar\u00a0Ha-Joon Chang, professor de economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que se tornou conhecido por expor os problemas do\u00a0capitalismo. \u201cBem&#8230;eu possivelmente sou\u201d, respondeu um pouco reticente o acad\u00eamico, como quem confessasse um pecado. Para ele, no mundo polarizado de hoje, admitir-se de qualquer tend\u00eancia ideol\u00f3gica pode significar uma senten\u00e7a de morte para um potencial di\u00e1logo. Al\u00e9m disso, em diferentes pa\u00edses, a percep\u00e7\u00e3o de direita e esquerda \u00e9 diferente. \u201cNa\u00a0Coreia do Sul\u00a0e\u00a0Jap\u00e3o, por exemplo, o tipo de pol\u00edtica industrial que defendo \u00e9 considerada de direita. J\u00e1 na Inglaterra, onde vivo hoje em dia, \u00e9 uma pol\u00edtica de esquerda\u201d, afirmou o autor sul-coreano do best-seller\u00a0<em>Chutando a Escada: A Estrat\u00e9gia do Desenvolvimento em Perspectiva Hist\u00f3rica\u00a0(Editora Unesp)<\/em>, que veio ao Brasil participar do F\u00f3rum de Desenvolvimento, em Belo Horizonte. Ha-Joon Chang conversou com o El PA\u00cdS sobre polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, hist\u00f3ria econ\u00f4mica e o futuro do sistema econ\u00f4mico mundial, que, para ele, n\u00e3o \u00e9 nem capitalista, nem socialista.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0Como a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica afeta o desenvolvimento econ\u00f4mico?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0A polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 a pior coisa que pode acontecer para a economia. Tudo se torna simb\u00f3lico. Voc\u00ea come\u00e7a a se opor a determinada pol\u00edtica simplesmente porque ela est\u00e1 associada a um partido de esquerda ou direita. Os debates est\u00e3o se tornando cada vez mais dif\u00edceis. Ambos os lados, ao inv\u00e9s de debater, gritam uns com os outros. Eu gosto de me descrever como um pragmatista. N\u00e3o importa de onde a vem determinada pol\u00edtica para o desenvolvimento\u00a0econ\u00f4mico, contanto que ela funcione.<\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/01\/05\/economia\/1515177346_780498_1515177499_noticia_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/01\/05\/economia\/1515177346_780498_1515177499_noticia_normal.jpg?resize=696%2C464&#038;ssl=1\" alt=\"Ha-Joon Chang,especialista em economia do desenvolvimento da Universidade de Cambridge\" width=\"696\" height=\"464\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ha-Joon Chang,especialista em economia do desenvolvimento da Universidade de Cambridge\u00a0DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Desde o\u00a0Consenso de Washington, no final da d\u00e9cada de 1980, muitos pa\u00edses pobres abra\u00e7aram as recomenda\u00e7\u00f5es internacionais para propagar o livre com\u00e9rcio como uma das formas de combater a mis\u00e9ria e se desenvolver. Como voc\u00ea avalia o resultado dessa medida?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Hoje, quando olhamos para os pa\u00edses ricos, em sua maioria, eles praticam o\u00a0livre com\u00e9rcio. Por isso, \u00e9 comum pensarmos que foi com esta receita que eles se desenvolveram. Mas, na realidade, eles se tornaram ricos usando o protecionismo e as empresas estatais. Foi s\u00f3 quando eles enriqueceram \u00e9 que adotaram o livre com\u00e9rcio para si e tamb\u00e9m como uma imposi\u00e7\u00e3o a outros Estados. O nome do meu livro,\u00a0<em>Chutando a escada<\/em>, faz refer\u00eancia a um livro de um economista alem\u00e3o do s\u00e9culo XIX,\u00a0Friedrich List, que foi exilado pol\u00edtico nos Estados Unidos em 1820. Ele critica a\u00a0Inglaterra\u00a0por querer impor aos\u00a0EUA\u00a0e \u00e0\u00a0Alemanha\u00a0o livre com\u00e9rcio. Afinal, quando voc\u00ea olha para a hist\u00f3ria inglesa, eles usaram todo o tipo de protecionismo para se tornar uma na\u00e7\u00e3o rica. A Inglaterra dizendo que pa\u00edses n\u00e3o podem usar o protecionismo \u00e9 como algu\u00e9m que ap\u00f3s subir no topo de uma escada, chuta a escada para que outros n\u00e3o possam us\u00e1-la novamente.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|despiece\" class=\"sumario_despiece derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_miniatura\">\n<p><figure style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/01\/05\/economia\/1515177346_780498_1515177749_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/01\/05\/economia\/1515177346_780498_1515177749_sumario_normal.jpg?resize=360%2C525&#038;ssl=1\" alt=\"\u201cO Brasil est\u00e1 experimentando uma das maiores desindustrializa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da economia\u201d\" width=\"360\" height=\"525\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cO Brasil est\u00e1 experimentando uma das maiores desindustrializa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da economia\u201d<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Como se deu o desenvolvimento dos pa\u00edses ricos na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>Estes pa\u00edses cresceram com base no que\u00a0Alexander Hamilton\u00a0[1789-1795], primeiro secret\u00e1rio do Tesouro dos Estados Unidos [que estabeleceu os alicerces do capitalismo norte-americano], defendeu como o\u00a0argumento da ind\u00fastria nascente. Do mesmo jeito que mandamos nossas crian\u00e7as para a escola ao inv\u00e9s do trabalho quando s\u00e3o pequenas, e as protegemos elas crescerem, os Governos de economias emergentes t\u00eam que proteger suas ind\u00fastrias at\u00e9 que elas cres\u00e7am e possam competir com as ind\u00fastrias de pa\u00edses ricos. Praticamente todos os pa\u00edses ricos, come\u00e7ando pela Inglaterra no s\u00e9culo XVIII, Estados Unidos e Alemanha, no s\u00e9culo XIX,\u00a0Su\u00e9cia\u00a0no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, al\u00e9m de Jap\u00e3o,\u00a0Coreia do Sul\u00a0e\u00a0Taiwan&#8230;todos estes pa\u00edses se desenvolveram usando protecionismo, subs\u00eddios estatais, controle do investimento direto estrangeiro, e em alguns casos, at\u00e9 mesmo empresas estatais.<\/p>\n<div class=\"teads-inread\">\n<div>\n<div id=\"teads1\" class=\"teads-player\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Como esse passado dialoga com as medidas atuais de austeridade, que se tornaram fetiche em todo mundo como promessa de crescimento?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0A\u00a0receita de austeridade usada na Gr\u00e9cia\u00a0\u00e9 a mesma tentada na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica e em alguns pa\u00edses da \u00c1sia nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, e que criou desastrosos resultados econ\u00f4micos. Investir em pol\u00edtica de austeridade \u00e9 contraproducente. As pessoas que defendem esse tipo de pol\u00edtica entendem que, quando voc\u00ea tem uma grande d\u00edvida p\u00fablica, um jeito de reduzir essa d\u00edvida \u00e9 cortar os gastos do Governo a fim de reduzir o d\u00e9ficit fiscal. Mas um jeito melhor de reduzir o d\u00e9ficit \u00e9 fazer a economia crescer mais r\u00e1pido. Depois da\u00a0Segunda Guerra Mundial, a Gr\u00e3-Bretanha tinha uma d\u00edvida mais de 200% de seu\u00a0PIB\u00a0[Produto Interno Bruto], mas sua economia estava crescendo r\u00e1pido. E depois de algumas d\u00e9cadas, isso deixou de ser um problema. Hoje, a Inglaterra tem tentado uma pol\u00edtica de austeridade, mais amena que a da Gr\u00e9cia, \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m sem sucesso em reduzir o d\u00e9ficit p\u00fablico proporcionalmente a renda nacional. Isso porque o PIB est\u00e1 crescendo muito lentamente. Se voc\u00ea corta os gastos, seu endividamento pode ficar um pouco menor, mas a renda precisa crescer.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0O pa\u00eds corre o risco de ficar estagnado?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Exatamente. O que \u00e9 incr\u00edvel \u00e9 que essa pol\u00edtica vem sendo usada v\u00e1rias vezes, como no Brasil nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, e nunca funcionou.\u00a0Albert Einstein falava que a defini\u00e7\u00e3o de loucura \u00e9 fazer a mesma coisa v\u00e1rias vezes e esperar resultados diferentes. O problema \u00e9 que muitos economistas que defendem essas medidas, quando sua teoria n\u00e3o funciona, culpam a realidade. Como se a teoria nunca estivesse errada.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea \u00e9 bastante cr\u00edtico da desindustrializa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses emergentes. Por que \u00e9 t\u00e3o ruim ser dependente das commodities?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0As pessoas t\u00eam que entender como \u00e9 s\u00e9ria a redu\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o no Brasil. Nos anos 80 e 90, no ponto mais alto da industrializa\u00e7\u00e3o, esse setor representou 35% da produ\u00e7\u00e3o nacional. Hoje n\u00e3o \u00e9 nem 12% e est\u00e1 caindo. O Brasil est\u00e1 experimentando uma das\u00a0maiores desindustrializa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, em um per\u00edodo muito curto. O pa\u00eds tem que se preocupar. E eu n\u00e3o estou dizendo nada novo. Muitos economistas latino-americanos j\u00e1 levantavam o problema da depend\u00eancia de commodities prim\u00e1rias na d\u00e9cada de 1950 e 1960. Quando voc\u00ea \u00e9 dependente de commodities prim\u00e1rias h\u00e1 uma tend\u00eancia de que o pre\u00e7o dos produtos caia no longo prazo em compara\u00e7\u00e3o com os produtos manufaturados. Al\u00e9m disso, os pa\u00edses dependentes de commodities n\u00e3o conseguem controlar seu destino.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Por exemplo?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Quando algu\u00e9m inventa uma alternativa para o seu produto, isso pode devastar o valor de sua economia. A ind\u00fastria brasileira de borracha foi um grande\u00a0<em>hit<\/em>\u00a0at\u00e9 que os americanos e russos inventaram a borracha sint\u00e9tica nos anos 1930 e 1940. Quando os alem\u00e3es inventaram a chamada\u00a0s\u00edntese de Haber-Bosch\u00a0para a produ\u00e7\u00e3o de am\u00f4nia, a ser usado na fabrica\u00e7\u00e3o de fertilizantes, Chile e Peru, que costumavam ganhar muito dinheiro exportando o fertilizante natural\u00a0guano, que foi o mais valioso fertilizante nos s\u00e9culo XIX, tiveram anos de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Isso sem contar o potencial lento de crescimento das commodities e rela\u00e7\u00e3o a outras ind\u00fastrias, como a de tecnologia.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Mas o caso do Brasil n\u00e3o seria diferente, j\u00e1 que o pa\u00eds investe em tecnologia na \u00e1rea agr\u00edcola, e n\u00e3o s\u00f3 extra\u00e7\u00e3o de commodity?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Para ser justo, eu sei que o Brasil tem tido algum sucesso na \u00e1rea\u00a0agr\u00edcola, como produzir soja no Cerrado, que \u00e9 uma regi\u00e3o muito \u00e1rida, onde tradicionalmente esta esp\u00e9cie n\u00e3o cresceria. \u00c9 realmente impressionante. Mas quando voc\u00ea se especializa em soja voc\u00ea n\u00e3o pode aumentar sua produtividade da mesma forma que um pa\u00eds especializado em alta tecnologia, que pode aumentar sua produtividade em 20%, 30% ao ano. Sinceramente, o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que parece estar voltando no tempo no seu desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Como voc\u00ea avalia o papel do Estado neste cen\u00e1rio?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses em desenvolvido, o Brasil tem a habilidade de fazer as coisas acontecerem por meio da interven\u00e7\u00e3o governamental. A\u00a0Embraer, por exemplo, \u00e9 uma empresa de economia mista. A agricultura no Cerrado \u00e9 subsidiada com recursos do governo. Em v\u00e1rios setores, o pa\u00eds j\u00e1 mostrou que quando quer fazer uma coisa, ele consegue. Infelizmente, os respons\u00e1veis por fazerem as pol\u00edticas p\u00fablicas parecem que perderam o rumo. Eles basicamente desistiram do modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico por meio de um\u00a0<em>upgrade<\/em>na economia, com investimento em ind\u00fastrias de alta tecnologia.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Onde voc\u00ea acha que a pol\u00edtica p\u00fablica falhou?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Eu conheci v\u00e1rios empres\u00e1rios irritados em S\u00e3o Paulo pois as pessoas no Governo n\u00e3o parecem estar preocupadas com o decl\u00ednio da ind\u00fastria manufatureira no pa\u00eds. Sei que muitos economistas defendem que n\u00e3o importa se voc\u00ea est\u00e1 exportando soja ou avi\u00f5es, desde que esteja fazendo dinheiro. E, no curto prazo, isso pode at\u00e9 ser verdade. Mas no longo prazo, \u00e9 muito ruim para a economia. Al\u00e9m disso, as pol\u00edticas macroecon\u00f4micas t\u00eam sido muito ruins para o setor industrial, especialmente a alta taxa de juros, uma das maiores do mundo.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0No Governo Dilma, v\u00e1rios setores receberam subs\u00eddio e mesmo assim, os empres\u00e1rios n\u00e3o pareciam estar satisfeitos. O que faltou?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0O\u00a0Governo de Dilma\u00a0canalizou v\u00e1rios subs\u00eddios em alguns setores em particular. Mas isso s\u00f3 foi necess\u00e1rio por conta da pol\u00edtica de alta taxa de juros, uma vez que as companhias brasileiras n\u00e3o conseguem competir no mercado global de outra forma. N\u00e3o sei todos os detalhes. Mas sei que houve erros,\u00a0corrup\u00e7\u00e3o. As metas governamentais tamb\u00e9m foram determinadas de forma equivocada&#8230;sempre privilegiando a estabilidade macroecon\u00f4mica. J\u00e1 o decl\u00ednio da ind\u00fastria n\u00e3o foi considerado um problema. Focou em a\u00e7\u00f5es como\u00a0Bolsa Fam\u00edlia, mas sem prestar aten\u00e7\u00e3o em dar um\u00a0<em>upgrade<\/em>\u00a0na economia.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0A Coreia do Sul pode ser considerada um exemplo de economia que conseguiu dar esse\u00a0<em>upgrade<\/em>?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Depende de qual Coreia do Sul que estamos falando. A Coreia do Sul depois da crise asi\u00e1tica de 1997 abra\u00e7ou o neoliberalismo, n\u00e3o tanto como os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, mas desregulamentou o mercado financeiro e alavancou pol\u00edticas industriais. O resultado \u00e9 que uma economia que costumava crescer 6%, 7%, 8% at\u00e9 1990, agora est\u00e1 sofrendo para crescer 3%. Isso porque as mudan\u00e7as que criaram l\u00edderes globais na \u00e1rea industrial, automotiva e eletr\u00f4nica, tamb\u00e9m produziram baixo crescimento, falta de trabalho e n\u00e3o impediram que estas ind\u00fastrias migrassem para outros pa\u00edses. E mesmo assim, n\u00e3o tivemos o colapso industrial que se v\u00ea no Brasil.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Qual foi o papel da educa\u00e7\u00e3o no crescimento da Coreia do Sul?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0No come\u00e7o, a\u00a0educa\u00e7\u00e3o\u00a0teve um papel muito importante. At\u00e9 os anos 80, era poss\u00edvel algu\u00e9m de uma fam\u00edlia pobre se tornar juiz, governador ou cirurgi\u00e3o. Infelizmente, a partir dos anos 90, tivemos um sobreinvestimento em educa\u00e7\u00e3o, com o crescimento dos neg\u00f3cios privados. T\u00ednhamos o maior investimento em educa\u00e7\u00e3o do mundo. Mas hoje, considerando o valor que estamos investindo, e o tempo que os estudantes est\u00e3o gastando para conseguir suas qualifica\u00e7\u00f5es&#8230;o sistema se tornou bem ineficiente. A mobilidade social caiu muito nos \u00faltimos anos, porque as pol\u00edticas educacionais deixaram de ser coordenadas com pol\u00edticas industriais.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea comenta que estamos entrando no fim da abordagem neoliberal ao desenvolvimento. O Brexit seria um exemplo desse come\u00e7o do fim?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>: Poderia ser. Mas temos que considerar que h\u00e1 tr\u00eas tipos de pessoas que\u00a0 votaram pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/referendum_permanencia_reino_unido_ue\/a\">Brexit<\/a>. Um deles s\u00e3o os liberais que votaram para se livrar das regulamenta\u00e7\u00f5es impostas pela Uni\u00e3o Europeia. H\u00e1 ainda o grupo anti-estrangeiros e anti-imigra\u00e7\u00e3o. E um terceiro grupo, os trabalhadores no Norte da Inglaterra, que j\u00e1 foi o centro produtor do pa\u00eds, e que experimentou uma desindustrializa\u00e7\u00e3o massiva. Estas pessoas perderam seus trabalhos, e agora culpam trabalhadores da\u00a0Pol\u00f4nia,\u00a0Rom\u00eania\u00a0e\u00a0Hungria\u00a0pela sua sorte. Podemos dizer que \u00e9 o come\u00e7o do fim no sentido em que isso aconteceu com a insatisfa\u00e7\u00e3o que muitas pessoas t\u00eam com a\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o\u00a0e o livre com\u00e9rcio.<\/p>\n<p><strong>P:<\/strong>\u00a0H\u00e1 algum lugar onde estaria sendo gestada uma solu\u00e7\u00e3o para o modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico dos pa\u00edses?<\/p>\n<p><strong>R:<\/strong>\u00a0Cingapura\u00a0\u00e9 hoje o exemplo mais bem sucedido de um pa\u00eds com desenvolvimento pragm\u00e1tico e n\u00e3o ideol\u00f3gico. Quando lemos sobre Cingapura nos jornais\u00a0<em>The Wall Street Journal<\/em>\u00a0e na revista\u00a0<em>The Economist<\/em>\u00a0sempre ouvimos falar da pol\u00edtica de livre com\u00e9rcio e o acolhimento positivo que o pa\u00eds tem com o investidor estrangeiro. O que \u00e9 verdade. Mas n\u00e3o se fala que 90% das terras do pa\u00eds s\u00e3o de propriedade do Governo; 85% das casas s\u00e3o de propriedade do governo; e 22% do PIB \u00e9 produzido por empresas p\u00fablicas. Eles t\u00eam um modelo pragm\u00e1tico de economia, que mistura elementos do capitalismo de livre mercado e do socialismo. Eles n\u00e3o s\u00e3o capitalistas, nem socialistas. S\u00e3o pragmatistas. Uma de minhas frases favoritas \u00e9 de\u00a0Deng Xiaoping, o ex-l\u00edder Chin\u00eas: \u201cEu n\u00e3o ligo se o gato \u00e9 preto ou branco, contanto que seja bom em pegar ratos\u201d. Isso \u00e9 o pragmatismo.<\/p>\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h3 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">MAIS INFORMA\u00c7\u00d5ES<\/span><\/h3>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"apoyos\">\n<ul class=\"apoyos-listado\">\n<li class=\"apoyo_ apoyo_foto\">\n<figure class=\"foto foto_w140\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/01\/05\/economia\/1515177346_780498_1515190490_sumarioapoyo_normal.jpg?resize=140%2C100&#038;ssl=1\" alt=\"\u201cO Brasil est\u00e1 experimentando uma das maiores desindustrializa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da economia\u201d\" width=\"140\" height=\"100\" \/><\/figure>\n<p><span class=\"apoyo-titulo\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/29\/economia\/1514561775_898430.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2018, um ano de crescimento global sincronizado<\/a><\/span><\/li>\n<li class=\"apoyo_ apoyo_sinfoto\"><span class=\"apoyo-titulo\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/22\/economia\/1513963368_703686.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Andr\u00e9 Perfeito | \u201cMercado trabalha com ideia ing\u00eanua de que surgir\u00e1 um candidato pr\u00f3-reformas\u201d<\/a><\/span><\/li>\n<li class=\"apoyo_ apoyo_sinfoto\"><span class=\"apoyo-titulo\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/02\/economia\/1514932396_861750.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">China e Argentina impulsionam saldo recorde do Brasil na balan\u00e7a comercial<\/a><\/span><\/li>\n<li class=\"apoyo_ apoyo_sinfoto\"><span class=\"apoyo-titulo\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/26\/economia\/1514302576_186939.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2018 e o desafio de voltar a crescer sem o avan\u00e7o do emprego prec\u00e1rio<\/a><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Regiane Oliveira\/El Pa\u00eds Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 15\/0\/2018<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerado de direita na Coreia do Sul e de esquerda na Inglaterra, o economista heterodoxo Ha-Joon Chang critica o rumo das pol\u00edticas brasileiras e defende protecionismo nos pa\u00edses emergente. Voc\u00ea se considera de esquerda? Mesmo acostumado a dar entrevistas, essa pergunta ainda faz gaguejar\u00a0Ha-Joon Chang, professor de economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":20229,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-20225","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/desindustrializa%C3%A7%C3%A3o.png?fit=480%2C270&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20225\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}