{"id":22139,"date":"2018-02-26T05:27:32","date_gmt":"2018-02-26T08:27:32","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=22139"},"modified":"2018-02-26T05:27:32","modified_gmt":"2018-02-26T08:27:32","slug":"que-tiro-foi-esse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/02\/26\/que-tiro-foi-esse\/","title":{"rendered":"Que tiro foi esse?"},"content":{"rendered":"<h5>A Para\u00edso do Tuiuti recuperou o morro cl\u00e1ssico, puro e sofrido, adicionando-lhe o discurso farsesco do PT, que faz a escravid\u00e3o perenizar-se no \u201ccativeiro social\u201d, celebra a CLT varguista e anuncia uma \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d conduzida pelo \u201cquilombo da favela\u201d. Na quarta de cinzas, encerrado o carnaval pol\u00edtico pra ingl\u00eas ver, chegou a interven\u00e7\u00e3o federal, pra brasileiro ver. Que tiro foi esse? Os jornalistas referem-se \u00e0 \u201cinterven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de seguran\u00e7a do Rio\u201d, numa tentativa desesperada de conciliar o conceito \u00e0 realidade factual. O governador segue no comando do governo estadual. Mas o Planalto, com seu benepl\u00e1cito expl\u00edcito, cassa-lhe o controle da seguran\u00e7a p\u00fablica. O paradoxo indica o triunfo da Tuiuti: continuamos, deploravelmente, a fingir que o morro \u2014 tanto faz se casto ou criminoso, subjugado ou sublevado \u2014 \u00e9 um mundo \u00e0 parte.<\/h5>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>A hist\u00f3ria velha evolui em novo cap\u00edtulo. Na sua hora \u00e1urea, a pol\u00edtica das UPPs ganhou tanto apoio, pol\u00edtico e popular, quanto ter\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o, ao menos na sua fase inicial. As UPPs produziram um equil\u00edbrio tempor\u00e1rio, cobrindo com gaze fina a ferida purulenta. Nas \u201ccomunidades pacificadas\u201d, atualizaram-se os pactos criminosos, enquanto se redividiam os territ\u00f3rios das fac\u00e7\u00f5es armadas. A mil\u00edcia, que \u00e9 a \u201cpol\u00edcia do B\u201d, alastrou seu poder, saltando dos servi\u00e7os de botij\u00e3o de g\u00e1s e \u201cgatonet\u201d para os neg\u00f3cios imobili\u00e1rios. O CV desgastou-se em conflitos com a ADA e o TCP, o que preparou a irrup\u00e7\u00e3o do PCC em terras cariocas.<\/p>\n<p>Sob a prec\u00e1ria seguran\u00e7a das UPPs, nada se fez para reformar as pol\u00edcias, identificar as ramifica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do crime organizado ou radiografar suas rela\u00e7\u00f5es com as autoridades p\u00fablicas. A ruptura do equil\u00edbrio provis\u00f3rio decorreu do colapso financeiro estadual, que provocou uma implos\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, nas formas de ondas de abandonos abertos ou ocultos dos empregos. Os pedidos de baixa, o absente\u00edsmo disfar\u00e7ado e a coopta\u00e7\u00e3o de policiais pelas mil\u00edcias e pelas fac\u00e7\u00f5es escancararam a cidade \u00e0 criminalidade comum. Ag\u00eancias dos correios pararam de entregar objetos em \u00e1reas cr\u00edticas da metr\u00f3pole. T\u00e1xis come\u00e7aram a recusar corridas fora dos limites da Zona Sul. Que tiro foi esse? As armas e os proj\u00e9teis desceram o morro, dinamitando a \u201cnormalidade\u201d pr\u00e9via. Da\u00ed, a interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temer reassumiu a iniciativa perdida com o arrastado fracasso da reforma previdenci\u00e1ria e, sobretudo, apossou-se da bandeira valiosa da seguran\u00e7a p\u00fablica, apertando uma tecla estrat\u00e9gica no cen\u00e1rio da campanha presidencial que se avizinha. Nesse passo, contudo, reagiu a uma cat\u00e1strofe real. Pela primeira vez, o presidente casual, sitiado pelo descr\u00e9dito, tem a oportunidade de ganhar a aten\u00e7\u00e3o popular. As pessoas comuns querem, como m\u00ednimo, circular nas ruas sem medo. Por isso, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o circunscreve-se a for\u00e7as pol\u00edticas hipnotizadas pela ideologia (PT, PSOL) ou pelo mais rasteiro oprtunismo eleitoral (PT, novamente, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes). Mas a alma lampedusiana da interven\u00e7\u00e3o de Temer emergir\u00e1 cedo ou tarde: trata-se de mudar tudo para que tudo permane\u00e7a como sempre foi.<\/p>\n<p>Duas perguntas \u00f3bvias n\u00e3o ter\u00e3o resposta do Planalto. A primeira: se n\u00e3o h\u00e1 diverg\u00eancias fundamentais de pol\u00edtica entre o governador e o presidente, por que cassar as atribui\u00e7\u00f5es do primeiro na \u00e1rea da seguran\u00e7a p\u00fablica? A segunda: por que a interven\u00e7\u00e3o circunscreve-se \u00e0 seguran\u00e7a se o colapso do Rio abrange as finan\u00e7as estaduais e atinge o conjunto dos servi\u00e7os p\u00fablicos?<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, s\u00f3 com a Pol\u00edcia Militar e a Pol\u00edcia Civil, n\u00e3o estamos conseguindo\u201d deter o crime organizado, alegou Luiz Fernando Pez\u00e3o. A conclus\u00e3o l\u00f3gica do diagn\u00f3stico seria um pedido estadual para ampliar a opera\u00e7\u00e3o militar federal de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Mas, no lugar disso, segundo informa-nos o Planalto, Pez\u00e3o \u201cparticipou das discuss\u00f5es\u201d e \u201cconcordou com a elabora\u00e7\u00e3o do decreto\u201d de interven\u00e7\u00e3o. A curiosa unidade de prop\u00f3sitos entre o agente da interven\u00e7\u00e3o e a v\u00edtima dela sugere que uma parte crucial da hist\u00f3ria permanece escondida.<\/p>\n<p>Que tiro foi esse? A interven\u00e7\u00e3o destina-se a restaurar uma pel\u00edcula de equil\u00edbrio sem destruir a rede de inst\u00e1veis alian\u00e7as que entrela\u00e7a a elite pol\u00edtica estadual, a pol\u00edcia, a mil\u00edcia e as fa\u00e7\u00f5es criminosas. O poder militar est\u00e1 encarregado de recuperar a capacidade policial de conter a criminalidade comum, circunscrevendo o tiroteio ao universo das favelas. O interventor designado n\u00e3o tem a prerrogativa de extirpar o crime organizado das estruturas pol\u00edticas, administrativas e policiais do Rio. Sua miss\u00e3o exclusiva \u00e9 retra\u00e7ar a linha demarcat\u00f3ria entre a \u201ccidade\u201d e o \u201cmorro\u201d, a fim de represar a crise.<\/p>\n<p>Pez\u00e3o fica. A sua presen\u00e7a no governo, apenas sem o comando da seguran\u00e7a p\u00fablica, cumpre a fun\u00e7\u00e3o de um seguro. Temer est\u00e1 dizendo aos s\u00f3cios \u201crespeit\u00e1veis\u201d das fac\u00e7\u00f5es criminosas que, no fim, tudo ser\u00e1 como antes. De certo modo, a Para\u00edso do Tuiuti venceu. O \u201cmorro\u201d pode continuar a ser cantado como lugar m\u00edtico, de calv\u00e1rio e reden\u00e7\u00e3o, desde que a c\u00e9lebre bala perdida n\u00e3o ultrapasse os seus limites. A festa deve seguir, respeitando-se um adequado intervalo de sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no jornal O globo \u00a0&#8211; dispon\u00edvel na internet 26\/02\/2018<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000080\">Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz necessariamente a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Para\u00edso do Tuiuti recuperou o morro cl\u00e1ssico, puro e sofrido, adicionando-lhe o discurso farsesco do PT, que faz a escravid\u00e3o perenizar-se no \u201ccativeiro social\u201d, celebra a CLT varguista e anuncia uma \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d conduzida pelo \u201cquilombo da favela\u201d. 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