{"id":23003,"date":"2018-03-21T00:10:27","date_gmt":"2018-03-21T03:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=23003"},"modified":"2018-03-20T16:58:35","modified_gmt":"2018-03-20T19:58:35","slug":"23003","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/03\/21\/23003\/","title":{"rendered":"Decreto cria duas maiores reservas marinhas do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">O presidente Michel Temer assinou um decreto que transforma partes dos arquip\u00e9lagos de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, em Pernambuco, e de Trindade e Martim Vaz, no Esp\u00edrito Santo, nos dois maiores conjuntos de unidades de conserva\u00e7\u00e3o marinha do Brasil.<\/p>\n<p>Conforme o Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o desta ter\u00e7a-feira, foram criadas duas \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) e dois Monumentos Naturais (Mona) nas proximidades dos arquip\u00e9lagos, num total de 92 milh\u00f5es de hectares \u2013 uma \u00e1rea equivalente aos Estados de Minas Gerais e Goi\u00e1s somados.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), o decreto faz com que a por\u00e7\u00e3o de \u00e1guas marinhas protegidas no Brasil passe de 1,5% a 25%. Isso permite que o pa\u00eds cumpra com folga um acordo internacional que prev\u00ea a prote\u00e7\u00e3o de 17% das \u00e1guas marinhas e costeiras at\u00e9 2020.<\/p>\n<p>Para Angela Kuczac, diretora-executiva da Rede Pr\u00f3-Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, o decreto representou &#8220;uma vit\u00f3ria para a natureza&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Os limites (das unidades) poderiam ser melhores, o desenho das \u00e1reas poderia ser mais representativo e ter incorporado \u00e1reas que ficaram de fora, mas \u00e9 ineg\u00e1vel o ganho e o avan\u00e7o que tivemos hoje&#8221;, afirmou.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Floresta no fundo do mar&#8217;<\/h2>\n<p>Uma das reservas criadas abarca uma forma\u00e7\u00e3o que o bi\u00f3logo capixaba Jo\u00e3o Luiz Gasparini define como &#8220;uma floresta tropical no fundo do mar&#8221; \u2013 a cordilheira composta por cerca de 30 montes submarinos de origem vulc\u00e2nica entre a cidade de Vit\u00f3ria e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o da cordilheira \u2013 dona da maior variedade de esp\u00e9cies que vivem em recifes entre todas as ilhas brasileiras \u2013 era uma demanda antiga de pesquisadores, que a consideram essencial para a manuten\u00e7\u00e3o de estoques pesqueiros em \u00e1guas vizinhas e um dos melhores laborat\u00f3rios naturais do mundo. A cadeia ganhou visibilidade global em agosto de 2017, quando um estudo baseado na forma\u00e7\u00e3o de sua fauna foi capa da revista cient\u00edfica Nature.<\/p>\n<p>Coautor do artigo, Jo\u00e3o Luiz Gasparini descreve o espanto de sua primeira visita a Trindade, em 1995. Logo ap\u00f3s desembarcar na ilha, diz ter encontrado numa po\u00e7a de mar\u00e9 uma esp\u00e9cie que jamais havia sido catalogada pela ci\u00eancia &#8211; um peixe azulado com uma mancha amarela no topo. &#8220;De cara percebi que existia ali um universo fant\u00e1stico para ser explorado&#8221;, ele diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 648px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13E81\/production\/_99773518_02-mapabatimetrico.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13E81\/production\/_99773518_02-mapabatimetrico.jpg?resize=648%2C597&#038;ssl=1\" alt=\"Mapa batim\u00e9trico da cadeia de montes submarinos entre Vit\u00f3ria e Trindade\" width=\"648\" height=\"597\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Mapa batim\u00e9trico da cadeia de montes submarinos entre Vit\u00f3ria e Trindade &#8211; Image caption Cadeia de montes submarinos entre Vit\u00f3ria e a ilha de Trindade guarda &#8220;floresta tropical no fundo do mar&#8221; | Imagem: Museu Nacional &#8211; UFRJ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O animal, batizado\u00a0<i>Stegastes trindadensis<\/i><i>,<\/i>\u00a0integra o grupo de 13 esp\u00e9cies de peixes recifais end\u00eamicas (restritas ao local) registradas na cordilheira at\u00e9 agora. Somando-as \u00e0s que tamb\u00e9m habitam outras regi\u00f5es, a lista alcan\u00e7a 270 esp\u00e9cies de peixes recifais \u2013 24 delas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o \u2013, uma das mais altas taxas de diversidade entre todas as ilhas do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m habitam a cordilheira cerca de 140 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubar\u00f5es e 12 de golfinhos e baleias.<\/p>\n<p>Para Gasparini, h\u00e1 muitas outras esp\u00e9cies a descobrir. &#8220;A gente ainda mal arranhou a casca do ovo da biodiversidade da cadeia Vit\u00f3ria-Trindade.&#8221;<\/p>\n<p>Pesquisadores tentam agora ultrapassar pela primeira vez o ponto no fundo do mar a partir do qual a temperatura cai drasticamente, uma varia\u00e7\u00e3o conhecida como termoclina. Por enquanto, alcan\u00e7aram no m\u00e1ximo 80 metros de profundidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/818E\/production\/_99766133_dd5e2dbd-c9b4-4d1d-bc99-b7ce84818301.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/818E\/production\/_99766133_dd5e2dbd-c9b4-4d1d-bc99-b7ce84818301.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Peixe da reserva\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Peixe da reserva &#8211; Image caption\u00a0A reserva tem 40 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubar\u00f5es e 12 de golfinhos e baleias (Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Luiz Gasparini\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Abaixo dessa zona, sobre montes mais distantes da superf\u00edcie, esperam encontrar esp\u00e9cies distintas das vistas at\u00e9 agora. &#8220;Os recifes mais profundos s\u00e3o o novo \u00e9den, a pr\u00f3xima fronteira para quem quer fazer mergulho cient\u00edfico no mundo&#8221;, diz Gasparini.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mergulho desafiador<\/h2>\n<p>H\u00e1 muitos anos pesquisadores tentam chegar \u00e0s \u00e1guas frias da cordilheira, mas a dist\u00e2ncia entre a costa e os montes submersos mais fundos torna a miss\u00e3o complexa.<\/p>\n<p>Navios da Marinha costumam levar tr\u00eas dias para chegar a Trindade, onde o Brasil mant\u00e9m uma base militar. E para mergulhar at\u00e9 as profundezas com seguran\u00e7a, \u00e9 preciso contar com equipamentos caros.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo capixaba Hudson Pinheiro, principal autor do artigo na Nature e que faz p\u00f3s-doutorado na California Academy of Sciences, diz que as eras glaciais ajudam a explicar a biodiversidade da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Naqueles per\u00edodos, enquanto os habitats costeiros eram afetados pela redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel da \u00e1gua, os montes submarinos ficaram expostos como ilhas, tornando-se ref\u00fagios para a vida marinha.<\/p>\n<p>Conforme o n\u00edvel do mar subiu nos \u00faltimos 10 mil anos, muitas dessas esp\u00e9cies permaneceram isoladas e se adaptaram aos novos ambientes, agora submersos. Mesmo assim, a cadeia jamais perdeu a conex\u00e3o com o continente, pois muitas esp\u00e9cies costeiras usam os montes como trampolins, deslocando-se pela cadeia de uma extremidade \u00e0 outra, no meio do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Hoje ao menos dez desses montes t\u00eam entre 30 metros e 150 metros de profundidade. O elo da cordilheira com o continente, diz Pinheiro, \u00e9 o que torna a forma\u00e7\u00e3o brasileira \u00fanica no mundo. H\u00e1 outras cadeias montanhosas de origem vulc\u00e2nica no meio do oceano, como o Hava\u00ed. Mas, como est\u00e3o distantes do continente, o deslocamento das esp\u00e9cies nessas \u00e1reas \u00e9 limitado.<\/p>\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o para a riqueza da fauna na cordilheira \u00e9 variedade de algas calc\u00e1rias, um tipo de planta marinha respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de recifes naturais. H\u00e1 na cadeia 16 esp\u00e9cies dessas algas, que criam nichos e habitats para centenas de outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Pinheiro era um dos principais entusiastas da cria\u00e7\u00e3o da reserva marinha. Hoje, diz ele, a \u00e1rea est\u00e1 amea\u00e7ada pela pesca comercial e pela minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 na regi\u00e3o relatos sobre a a\u00e7\u00e3o de barcos com redes presas a grandes rodas, do tamanho de pneus de caminh\u00e3o, que s\u00e3o arrastadas sobre os recifes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A89E\/production\/_99766134_03bceed0-d15b-4be6-97c4-f3e4d809c07f.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A89E\/production\/_99766134_03bceed0-d15b-4be6-97c4-f3e4d809c07f.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Cardume de peixes na reserva Vit\u00f3ria-Trindade\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Cardume de peixes na reserva Vit\u00f3ria-Trindade &#8211; Image caption\u00a0O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente enviar\u00e1 um decreto \u00e0 Presid\u00eancia para a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o em torno da cordilheira (Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Luiz Gasparini\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Outro tipo de pesca que preocupa os pesquisadores \u00e9 a feita com espinhel, quando anz\u00f3is s\u00e3o enfileirados para capturar peixes maiores. Tubar\u00f5es s\u00e3o muito vulner\u00e1veis a esse m\u00e9todo de captura; como geram poucos filhotes, podem ser rapidamente aniquilados.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 barcos brasileiros atuam na cordilheira. Parte da cadeia Vit\u00f3ria-Trindade fica em \u00e1guas internacionais, por onde transitam barcos estrangeiros. Segundo os pesquisadores, h\u00e1 relatos de que esses barcos tamb\u00e9m estariam pescando no mar territorial brasileiro, o que \u00e9 ilegal.<\/p>\n<p>Em nota \u00e0 BBC Brasil, a Marinha disse realizar patrulhas regulares na cordilheira para inspecionar e apreender embarca\u00e7\u00f5es irregulares.<\/p>\n<p>Outro temor dos pesquisadores era a minera\u00e7\u00e3o submarina. Segundo um estudo no site do ICMBio, o Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral (DNPM) j\u00e1 concedeu duas licen\u00e7as para a explora\u00e7\u00e3o de bancos de rodolito (crostas de alga calc\u00e1ria e outros organismos) e recifes de corais na cadeia Vit\u00f3ria-Trindade.<\/p>\n<p>A atividade durou tr\u00eas anos, e o material extra\u00eddo foi usado como fertilizante em planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar. No site do DNPM h\u00e1 registro de novos pedidos de licen\u00e7a na regi\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CFAE\/production\/_99766135_f41e3a4a-f20a-4881-9285-f0658d7dd1dc.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CFAE\/production\/_99766135_f41e3a4a-f20a-4881-9285-f0658d7dd1dc.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Peixe da reserva\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0Os pesquisadores registraram 13 esp\u00e9cies de peixes recifais end\u00eamicas (restritas ao local) na cordilheira at\u00e9 agora (cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Luiz Gasparini\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Pinheiro, a atividade destr\u00f3i forma\u00e7\u00f5es que levam milhares de anos para se desenvolver e p\u00f5e em risco muitas esp\u00e9cies end\u00eamicas e amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pesquisador disse esperar que a cria\u00e7\u00e3o da reserva ponha fim \u00e0 atividade e que a proibi\u00e7\u00e3o da pesca em partes da cordilheira ajude a repor estoques de peixes em \u00e1reas vizinhas sobrexploradas.<\/p>\n<p><span class=\"byline__name\" style=\"font-weight: bold\">Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Fellet d<\/span><span class=\"byline__title\"><b>a BBC Brasil em Bras\u00edlia &#8211; dispon\u00edvel\u00a0na internet 21\/03\/2018<\/b><\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Michel Temer assinou um decreto que transforma partes dos arquip\u00e9lagos de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, em Pernambuco, e de Trindade e Martim Vaz, no Esp\u00edrito Santo, nos dois maiores conjuntos de unidades de conserva\u00e7\u00e3o marinha do Brasil. 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