{"id":23151,"date":"2018-03-26T00:04:49","date_gmt":"2018-03-26T03:04:49","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=23151"},"modified":"2018-03-25T16:48:31","modified_gmt":"2018-03-25T19:48:31","slug":"por-dentro-da-destruicao-secreta-da-grande-savana-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/03\/26\/por-dentro-da-destruicao-secreta-da-grande-savana-do-brasil\/","title":{"rendered":"Brasil: Durante d\u00e9cadas e enquanto ningu\u00e9m estava olhando, metade da savana mais rica do mundo foi desmatada."},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">A cachoeira do Macap\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 exatamente \u00e0 m\u00e3o, mas \u00e9 assim que tem que ser, na opini\u00e3o dos integrantes desta comunidade de pequenos propriet\u00e1rios no Nordeste do Brasil. Para que um forasteiro venha at\u00e9 aqui, precisa chegar ao aeroporto mais pr\u00f3ximo, o de Imperatriz, no sul do Maranh\u00e3o, seguir 400 quil\u00f4metros por estrada at\u00e9 Balsas, uma cidade de 90.000 habitantes e tr\u00eas concession\u00e1rias de tratores, e dali conseguir transporte para percorrer por duas horas estradas de terra. Quando a paisagem muda de uma mancha alaranjada para um borr\u00e3o de \u00e1rvores nuas, \u00e9 preciso passar por tr\u00eas pontes de madeira, a escola que o Governo prometeu e deixou na metade da obra e, sobretudo, o enorme cadeado que tranca a propriedade de dona Raimundinha.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924618_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924618_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Dona Raimundinha, 'guardi\u00e3' da cachoeira de Macap\u00e1, em Balsas (Maranh\u00e3o).\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Dona Raimundinha, &#8216;guardi\u00e3&#8217; da cachoeira de Macap\u00e1, em Balsas (Maranh\u00e3o).<span style=\"color: #222222;font-size: 15px\">\u00a0<\/span><\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u201cMeu Deus do c\u00e9u, que susto\u201d, exclama atropeladamente esta pilhade nervos de um metro e vinte, 59 anos e incont\u00e1veis rugas, enquanto abre a porteira. E insiste no caminho a casa dela. \u201cDe vez em quando vem gente de fora e n\u00e3o sabemos se s\u00e3o da hidrel\u00e9trica. Ai, n\u00e3o podem vir aqui, meu Deus do C\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p>Como quase todo mundo na comunidade do Macap\u00e1, dona Raimundinha vive com a fam\u00edlia e seus animais: os primeiros em uma casa de paredes de barro e telhado de palha, os outros, livres pelo terreno arenoso e ermo que est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas nas m\u00e3os da sua fam\u00edlia. E nela quer continuar, segundo conta, embora inquieta, agitando-se em sua sala, pela qual desfilam alguns pintinhos com a galinha m\u00e3e. \u201cIsto era do meu pai, que morreu, e a deu a meu irm\u00e3o, que morreu. Eu chorei suas mortes, para que depois chegue algu\u00e9m e me expulse. Sem dinheiro nem lugar para onde ir, meu Deus do c\u00e9u.\u201d Cobre o rosto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m como quase todo mundo do Macap\u00e1, dona Raimundinha vive sob uma amea\u00e7a invis\u00edvel. Uma empresa el\u00e9trica tem um plano para gerar energia com a cachoeira: em troca, teriam que expropriar as 70 fam\u00edlias que moram l\u00e1. Elas praticamente nunca puseram o p\u00e9 para fora das pr\u00f3prias terras. Mudar-se seria mais que traum\u00e1tico, seria uma perda de tudo o que \u00e9 mundo para eles. O ponto-chave \u00e9 n\u00e3o deixar que se aproximem da cachoeira para fazerem estudos de viabilidade, e o \u00fanico caminho f\u00e1cil \u00e9 o desta propriedade. A\u00ed a import\u00e2ncia do cadeado de dona Raimundinha.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 ela, feito uma guardi\u00e3 de conto de fadas com seu coque e sua ansiedade, controlando o mundo no meio do nada, sem nada mais a fazer sen\u00e3o dar um salto quando escuta um carro. Diz que nunca baixa a guarda. Que a amea\u00e7a da hidroel\u00e9trica consome sua vida. \u201cOs da cidade vivem muito bem enquanto n\u00f3s vamos na labuta de uma gera\u00e7\u00e3o a outra, nunca lhes fazemos nada, nos criamos com o suor de nossos bra\u00e7os. Por que n\u00e3o podem nos deixar em paz? Meu Deus do c\u00e9u\u201d, volta a se lamentar, enterrando de novo o rosto entre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o que dizem meus vizinhos, o que diz o padre. Que n\u00e3o podemos baixar a guarda, que temos de lutar\u201d, gagueja. \u201cE fazemos isso. \u00c9 tudo o que fazemos. At\u00e9 que se rendam. Ou at\u00e9 que&#8230; Meu Deus do c\u00e9u&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O Brasil costuma evocar a imagem de praia ou floresta, mas tem uma savana de dois milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados. O chamado Cerrado \u00e9 como uma faixa que divide o maior pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina pela metade: come\u00e7a no Maranh\u00e3o, ao norte, e vai descendo em diagonal ao longo de oito Estados at\u00e9 a fronteira com o Paraguai, no Mato Grosso. Separa o clima tropical e as florestas do Norte da Mata Atl\u00e2ntica e das cidades do Sudeste e do Sul. O que h\u00e1 no centro \u00e9 savana pura. Quil\u00f4metros e quil\u00f4metros de sol, poeira e monotonia interrompida apenas por planta\u00e7\u00f5es gigantescas da agroind\u00fastria. H\u00e1 tantas que se poderia pensar que se est\u00e1 nas plan\u00edcies do Missouri. Faz tanto calor que parece Timbuctu. E, no entanto, neste mundo s\u00e9pia e \u00e1spero est\u00e1 ocorrendo um dos maiores atentados \u00e0 biodiversidade do planeta.<\/p>\n<p>O Cerrado tem mais de 12.500 esp\u00e9cies de plantas, das quais mais de 7.300 s\u00f3 podem ser encontradas aqui. Abriga mil esp\u00e9cies de peixes e mais de 250 mam\u00edferos: delas, 18 s\u00e3o aut\u00f3ctones. \u00c9 a savana mais rica do mundo. E, ent\u00e3o v\u00eam as outras cifras, as preocupantes. Desde 1970, 47% desse bioma foi devastado. Somente em 2015, \u00faltimo ano com dados dispon\u00edveis, foram devastados 9.483 quil\u00f4metros quadrados. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, nesse mesmo ano a comunidade cient\u00edfica se indignou porque o desmatamento na Amaz\u00f4nia havia disparado, chegando a 6.207 quil\u00f4metros quadrados. O Cerrado \u00e9 a verdadeira trag\u00e9dia ambiental brasileira.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 a menos conhecida: o dado de 2015 \u00e9 dos poucos revelados pelo Governo brasileiro. Apareceu um dia em julho passado no site do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. Estava escondido dentro de uma s\u00e9rie de gr\u00e1ficos que festejavam as novas formas de monitorar a natureza.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924784_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924784_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Jo\u00e3o Carlos Coelho Cardoso em sua propriedade em Balsas (Maranh\u00e3o)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Carlos Coelho Cardoso em sua propriedade em Balsas (Maranh\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Como \u00e9 poss\u00edvel manter um segredo dessas dimens\u00f5es? \u201cCreio que \u00e9 uma quest\u00e3o arraigada na sociedade brasileira\u201d, diz David M. Lapola, pesquisador de mudan\u00e7as ambientais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). \u2018Talvez porque o Cerrado tem uma vegeta\u00e7\u00e3o menos exuberante que a Amaz\u00f4nia. Talvez porque a m\u00eddia s\u00f3 cubra assuntos relacionados com a Amaz\u00f4nia ou a Mata Atl\u00e2ntica. Talvez seja porque n\u00e3o h\u00e1 grandes mam\u00edferos como nas savanas africanas. Mas quando se fez a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira [em 1988], a Amaz\u00f4nia e outros biomas foram considerados patrim\u00f4nio nacional. O Cerrado, n\u00e3o.\u201d Maur\u00edcio Voivodic, presidente da WWF Brasil, recorda: \u201cA Amaz\u00f4nia despertou grande interesse mundial entre Governos estrangeiros e artistas sobre a import\u00e2ncia da conserva\u00e7\u00e3o. O Cerrado, por\u00e9m, \u00e9 um caso de enorme desaten\u00e7\u00e3o\u201d. (Mas existe\u00a0<a href=\"https:\/\/www.change.org\/p\/junte-se-a-mim-na-defesa-do-cerrado-e-da-caatinga?utm_source=embedded_petition_view\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma peti\u00e7\u00e3o online para o Congreso brasileiro transformar o bioma em patrim\u00f4nio nacional<\/a>).<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Apenas 3% do Cerrado est\u00e1 protegido, segundo a revista\u00a0<em>Nature Ecology and Evolution<\/em>. No ritmo em que se est\u00e1 devastando esse espa\u00e7o, e com a quantidade de esp\u00e9cies que cont\u00e9m, em 2050 ter\u00e3o desaparecido da face da Terra 1.140 de suas plantas end\u00eamicas. De 1500, quando se come\u00e7ou a registrar a popula\u00e7\u00e3o de plantas do mundo, at\u00e9 agora, foram extintas 139. \u201cO Cerrado \u00e9 um\u00a0<em>hotspot<\/em>\u00a0de biodiversidade, e o quinto que mais perdeu esp\u00e9cies\u201d, alerta Tim Newbold, que publicou um artigo sobre o tema na\u00a0<em>Science<\/em>\u00a0em 2016.<\/p>\n<p>Como ocorre na propriedade de dona Raimundinha, o Cerrado se transformou em um solo muito apetitoso para a agroind\u00fastria, que j\u00e1 controla mais de 75% das terras cultiv\u00e1veis do Brasil. E, ao contr\u00e1rio de dona Raimundinha, os pequenos propriet\u00e1rios t\u00eam cedido \u00e0s press\u00f5es para vender a pre\u00e7o vil seus 25%. \u201cMas se voc\u00ea vai a Minas Gerais ou a Goi\u00e1s, v\u00ea que os que partiram n\u00e3o ficaram melhor\u201d, assegura um vizinho de Raimundinha, Tancredo, com certa despreocupa\u00e7\u00e3o. Alto, magro, 51 anos, sem camisa e com chap\u00e9u de boiadeiro. Est\u00e1 sentado sob uma \u00e1rvore em sua propriedade: 38 hectares de poeira, pomares e galos que circulam livremente entre os humanos. Uma casa de barro e um po\u00e7o feitos por ele mesmo. Aqui vive com a mulher e aqui criou os tr\u00eas filhos. Comem do que plantam.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925030_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925030_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Tancredo na casa que ele construiu em Balsas (Maranh\u00e3o)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Tancredo na casa que ele construiu em Balsas (Maranh\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u201cA solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ir embora, \u00e9 ficar. \u00c9 ficar e lutar. Esta terra \u00e9 grande, mas tamb\u00e9m \u00e9 pequena [em compara\u00e7\u00e3o com as da agroind\u00fastria], por isso \u00e9 preciso estar sempre alerta. \u00c9 preciso seguir as pessoas que puxam as comunidades.\u201d Tancredo aponta um outro propriet\u00e1rio s\u00e9rio, ereto e silencioso sentado a seu lado.<\/p>\n<p>O Governo n\u00e3o faz quase nada pelo Cerrado, mas existe um grupo de pessoas que fazem. S\u00e3o os donos legais das terras fora da agroind\u00fastria. Os que passaram toda a vida nessas propriedades, hoje lentas, antiquadas e ineficientes. Os que t\u00eam as escrituras dessas terras. Quase nada entendem de leis (muitos n\u00e3o sabem nem escrever) e n\u00e3o s\u00e3o especialistas em ecologia. Mas \u00e0 sua maneira esta minoria num\u00e9rica faz parte da biodiversidade e est\u00e1 correndo tanto risco quanto ela. Sua sobreviv\u00eancia \u00e9 a de milhares de outras esp\u00e9cies. Alguns sozinhos, alguns com ajuda de associa\u00e7\u00f5es, transformaram-se nos \u00faltimos guardi\u00f5es do velho Cerrado.<\/p>\n<p>O avi\u00e3ozinho era como um p\u00e1ssaro de mau agouro. Quase todos os moradores do Macap\u00e1 o viram sobrevoar suas terras, como um pren\u00fancio dos problemas por vir. Paulo tamb\u00e9m o viu. O homem que acabava de herdar a principal propriedade da comunidade (e, com ela, a responsabilidade de proteger todas elas) decifrou em seguida o que aquilo significava. \u201cEstava l\u00e1 fazendo um estudo topogr\u00e1fico\u201d, lembra-se, hoje. \u201cEstava ali porque n\u00e3o os hav\u00edamos deixado entrar pessoalmente, e eles n\u00e3o tinham desistido.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEles\u201d s\u00e3o a PEC Energia, uma holding de empresas hidroel\u00e9tricas que desenvolve projetos em nove Estados brasileiros, e que aqui os moradores consideram sua arqui-inimiga. Tamb\u00e9m acham calamitoso o objetivo do estudo: aproveitar a cachoeira do Macap\u00e1 para construir uma pequena central hidroel\u00e9trica, o que alimentar\u00e1 as grandes fazendas da regi\u00e3o, mas vai obrig\u00e1-los, eles que j\u00e1 t\u00eam luz em suas propriedades menos lucrativas, a irem para outro lugar. Perder\u00e3o sua casa, ou seja, tudo, e o impacto ambiental seria incalcul\u00e1vel. \u201cTudo isso s\u00f3 beneficia o fazendeiro do lado\u201d, protesta Paulo. \u201cQuer mais luz para instalar mais piv\u00f4s e com eles dar de comer a mais gado. J\u00e1 tem cinco piv\u00f4s.\u201d Dizendo isso, ergue a m\u00e3o bem aberta e com o rosto desafiante, como se o gesto fosse uma ofensa. A PEC Energia respondeu a todos os telefonemas do EL PA\u00cdS dizendo que n\u00e3o tinham nada a comentar sobre esse projeto.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924892_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924892_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Paulo Coejho Cardoso na fazenda que herdou de seu pai\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Paulo Coejho Cardoso na fazenda que herdou de seu pai<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Paulo \u00e9 agricultor e vive da venda de coco, ab\u00f3bora, milho, melancia e feij\u00e3o em Balsas. Mas h\u00e1 anos sua verdadeira dedica\u00e7\u00e3o \u00e9 a esta causa. Em 2008, representantes da empresa se infiltraram nas propriedades em uma s\u00e9rie de visitas que os moradores julgam \u201cintimidadoras\u201d. Com medo, come\u00e7aram a se unir ao redor de Paulo. Ent\u00e3o foi tra\u00e7ada a estrat\u00e9gia: impedir a entrada da PEC Energia nas propriedades. Sem visitas n\u00e3o h\u00e1 estudo e sem estudo n\u00e3o h\u00e1 projeto de hidroel\u00e9trica que preste.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>2011 foi a prova de fogo. A PEC voltou a tentar, e os moradores se sentiram t\u00e3o intimidados que queimaram as pontes de madeira que permitem o acesso \u00e0s suas terras. Acamparam em pontos estrat\u00e9gicos. Duas semanas, 150 homens. Pareceu dar certo. E ent\u00e3o apareceu o avi\u00e3ozinho: o mau press\u00e1gio. A PEC Energia n\u00e3o ia desistir e estava em todas as esferas, da judicial \u00e0 pol\u00edtica. O l\u00edder que fosse defender a comunidade precisava se entregar plenamente.<\/p>\n<p>Era quase inevit\u00e1vel que o peso da luta recairia sobre Paulo. Porque estava disposto a ir aonde ningu\u00e9m mais queria ir. Porque \u00e9 filho de Raimundo Cardoso de Morais, o \u201chomem importante\u201d do lugar, e Raimundo agora est\u00e1 morto. Quando aqui n\u00e3o havia nada, em 1956, Raimundo havia comprado 200 hectares com dinheiro que havia juntado em Fortaleza. Contratou todos que moravam nas proximidades para cultivar a terra. Aquelas fam\u00edlias prosperaram, mas a sua prosperou mais: tiveram 11 filhos, que viram como a comunidade inteira girava em torno do patriarca. Os problemas eram levados \u00e0 sua varanda e resolvidos na mesa da cozinha. Em 2009, com 75 anos, Raimundo fez seu testamento: Paulo herdou a parte onde estava a casa e, com ela, o fluxo de problemas da comunidade. Em 2016, o patriarca caiu do cavalo e morreu. Tinha 82 anos. Penduraram sua foto sobre a cadeira onde costumava cochilar na entrada da casa.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925126_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925126_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Uma foto de Raimundo Cardoso de Morais na entrada da propriedade, onde ele sentava\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Uma foto de Raimundo Cardoso de Morais na entrada da propriedade, onde ele sentava<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0\u201cMeu pai era um homem importante\u201d, lamenta Paulo. Est\u00e1 em sua cozinha, sentado na mesa com capacidade para 20 pessoas que est\u00e1 um pouco mais adiante, na varanda de frente para a fazenda. Antes o mundo mudava l\u00e1 fora e era consertado aqui dentro. Antes.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Paulo aponta para o outro lado da varanda, para a fazenda. \u201cNasci e cresci aqui. Este ch\u00e3o tem o meu rastro, onde corria quando eu era pequeno. Um tro\u00e7o com um valor sentimental t\u00e3o incr\u00edvel n\u00e3o tem pre\u00e7o.\u201d No lugar para o qual havia apontado, seu sobrinho de 3 anos, David, loiro, com cabelo de corte tigelinha e despenteado, desenha c\u00edrculos na areia com a bicicleta. \u201cTenho tr\u00eas filhos, de 20, 13 e 7 anos, e eles v\u00e3o herdar esta terra, assim como a recebi do meu pai\u201d, promete.<\/p>\n<p>Mas os imperativos n\u00e3o s\u00e3o unicamente sentimentais. \u201cTodos sa\u00edmos perdendo\u201d, avalia Jo\u00e3o Carlos, irm\u00e3o mais novo do Paulo. Ele ficou com uma propriedade de 40 hectares onde cultiva cana e coco. \u201cEsse dinheiro nunca vai ser justo. Para estar onde estou agora, meu pai levou a vida inteira, e 20 anos da minha. Nesse tempo, aperfei\u00e7oei a produ\u00e7\u00e3o de cacha\u00e7a e agora ganho 10 vezes mais do que quando comecei. O coco tamb\u00e9m precisa ser cultivado durante quatro anos para poder vend\u00ea-lo. Comprei um trator. Vou perder tudo isso.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_7|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925211_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925211_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Detalhe da casa de Tancredo, em Balsas (Maranh\u00e3o)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Detalhe da casa de Tancredo, em Balsas (Maranh\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Paulo est\u00e1 cercado por uma s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es que o ajudam a percorrer os labirintos jur\u00eddicos e pol\u00edticos de seu inimigo. Mas uma parte fundamental do trabalho s\u00f3 pode ser feita por algu\u00e9m do Macap\u00e1: motivar outros agricultores a n\u00e3o desistirem e a n\u00e3o venderem suas terras. \u201cS\u00f3 podemos evitar isso [o pior] se estivermos todos unidos\u201d, Paulo repete com frequ\u00eancia enquanto dirige pelas propriedades, sacudindo-se no banco do motorista nas estradas de terra, com sua caminhonete envolta em uma nuvem de poeira. Parte de sua miss\u00e3o \u00e9 visitar os vizinhos e reacender seu interesse na luta. Lembr\u00e1-los de que haver\u00e1 uma reuni\u00e3o em breve ou uma nova estrat\u00e9gia, uma nova sa\u00edda. Para eles saberem que est\u00e3o acontecendo coisas. Tancredo, Dona Raimundinha. Todos. \u201cTemos que estar unidos\u201d, repete.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que todas as solu\u00e7\u00f5es que lhes ocorreram at\u00e9 agora foram tempor\u00e1rias. Entraram com uma a\u00e7\u00e3o contra a PEC e perderam. O juiz os obrigou a permitir a entrada dos representantes hidrel\u00e9trica: ainda assim, recusaram. Em fevereiro de 2017, a PEC iniciou uma nova investida. Eles asseguram que, mesmo que o inimigo venha com todos os pap\u00e9is em ordem, n\u00e3o permitir\u00e3o que entrem. A briga ser\u00e1 f\u00edsica se for preciso. Por enquanto, tudo depende de a Secretaria do Meio Ambiente do Maranh\u00e3o negar a licen\u00e7a para que a empresa fa\u00e7a o estudo. N\u00e3o t\u00eam certeza de que a decis\u00e3o ser\u00e1 favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o a tiveram at\u00e9 agora, e chegaram at\u00e9 aqui. O progresso, o dinheiro e a ind\u00fastria jogam contra e eles seguem. A solu\u00e7\u00e3o definitiva apenas existe. Aqui s\u00f3 h\u00e1 luta. Constante. A luta como um estilo de vida. A vida do her\u00f3i. \u201cNunca pensei no que faria se tivesse que ir. N\u00e3o penso nisso\u201d, diz, negando com a cabe\u00e7a. \u201cPensar nisso j\u00e1 \u00e9 uma derrota.\u201d<a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924478_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521924478_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"A cachoeira de Macap\u00e1\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A cachoeira de Macap\u00e1<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Visitar Dona Raimundinha tem o lado positivo de que \u00e9 o caminho para a cachoeira. Uma estrada de terra que pouco a pouco se transforma em um para\u00edso de vegeta\u00e7\u00e3o exuberante. E, ent\u00e3o, nos deparamos com um precip\u00edcio de 70 metros onde a \u00e1gua n\u00e3o para de cair. T\u00e3o grande que as palmeiras \u00e0 margem parecem min\u00fasculas. \u00c9 a cascata mais alta do Estado. \u00c9 aqui que a PEC imagina a hidroel\u00e9trica, mas tamb\u00e9m foi aqui que Raimundo viu uma comunidade quando ningu\u00e9m via nada. E, agora, Paulo tenta desesperadamente que essa vis\u00e3o, que a vida inteira dele, n\u00e3o perca sentido.<\/p>\n<p>\u201cEu poderia estar fazendo qualquer outra coisa e ganharia mais dinheiro. Viveria de maneira diferente\u201d, reflete Paulo. \u201cMas o valor desta terra para mim n\u00e3o tem pre\u00e7o. N\u00e3o pode ser que tudo nesta vida seja movido pelo real.\u201d<\/p>\n<p>\u2013 A responsabilidade de continuar a luta n\u00e3o te cansa?<\/p>\n<p>\u2013 Temos que levar em considera\u00e7\u00e3o que&#8230; Bem&#8230; Sim.<\/p>\n<h3>Forquilha (PI)<\/h3>\n<p>Esta \u00e9 uma nova guerra. Durante s\u00e9culos e at\u00e9 relativamente pouco tempo atr\u00e1s, o consenso mundial era de que o Cerrado n\u00e3o valia nada. Que daquele solo \u00e1cido e sem nutrientes n\u00e3o poderia nascer coisa de valor. Mas em 1973, durante a ditadura militar, os generais que governavam o pa\u00eds fundaram a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria) e estabeleceram como prioridade alcan\u00e7ar o imposs\u00edvel: transformar essa terra deserta em algo f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>O imposs\u00edvel foi alcan\u00e7ado em quatro etapas. A primeira, regar o solo com enormes quantidades de calc\u00e1rio para reduzir a acidez. A segunda, trazer da \u00c1frica uma planta chamada braqui\u00e1ria e cruz\u00e1-la at\u00e9 obter a braquiarinha e, depois, o braquiar\u00e3o, variedades perfeitas para este novo solo: cresciam mais r\u00e1pido do que a original. De repente, essa terra de ningu\u00e9m podia se tornar a pastagem de todos. A terceira, cruzar tipos de soja, um gr\u00e3o de latitudes temperadas, at\u00e9 obter uma vers\u00e3o milagrosa que crescesse sob o sol escaldante, em solos \u00e1cidos, e em duas colheitas anuais. E a quarta, popularizar a ideia de que a soja \u00e9 colhida cortando seu caule, n\u00e3o arando o solo; se o caule apodrece no solo, este absorve os nutrientes. O resultado foi impressionante. Onde n\u00e3o havia nada, o Brasil agora tinha centenas de milhares de quil\u00f4metros quadrados de terras agr\u00edcolas. Da savana africana havia sa\u00eddo um meio-oeste americano, um para\u00edso para alimentar um mundo superpovoado e enriquecer quem se apressasse. Ainda hoje, isso \u00e9 chamado de\u00a0<em>Milagre do Cerrado<\/em>.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925324_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925324_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Forquilha (Piau\u00ed)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A cachoeira de Macap\u00e1<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0A ind\u00fastria se expandiu. De importador de alimentos, o Brasil se tornou um dos principais exportadores. Em 1996, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola atingiu 23 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (75 bilh\u00f5es de reais, no c\u00e2mbio atual). Em 2006, foram 108 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Naquele ano, o Pr\u00eamio Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o foi entregue aos engenheiros que haviam trabalhado na Embrapa: a organiza\u00e7\u00e3o descreveu o Milagre do Cerrado como \u201cuma das maiores conquistas do s\u00e9culo XX na ci\u00eancia agr\u00edcola\u201d. No ano seguinte, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Colin Powell, admitiu que o Brasil havia se tornado uma \u201csuperpot\u00eancia agr\u00edcola\u201d capaz de fazer frente ao seu pa\u00eds. Em 2017, o Brasil foi o segundo maior exportador de soja do mundo, com uma safra recorde de 242 milh\u00f5es de toneladas. Depois de quatro anos mergulhado na pior recess\u00e3o econ\u00f4mica em d\u00e9cadas, o pa\u00eds viu a agricultura industrial responder por 23% do PIB, o maior peso em 13 anos: em parte por causa dos 51 milh\u00f5es de toneladas de soja que vendeu para a China, muitos dos quais foram cultivados aqui. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds engatado \u00e0s suas pr\u00f3prias colheitas, e o Cerrado \u00e9 uma pe\u00e7a fundamental desse maquin\u00e1rio.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Com um problema. O milagre foi projetado pensando de forma ambiciosa em uma terra cheia de habitantes modestos. \u201cA Embrapa n\u00e3o adaptou essas pr\u00e1ticas aos agricultores, que est\u00e3o mais preocupados em manter suas terras do que em aumentar sua efici\u00eancia\u201d, alertou em 2010 Joerg Priess, do Centro de Pesquisas Ambientais Helmhotz, da Alemanha. O Minist\u00e9rio da Agricultura n\u00e3o fornece dados exatos, se \u00e9 que existem, mas estima-se que o \u00eaxodo de agricultores familiares tenha sido significativo. O \u00faltimo censo \u00e9 de 2006, mas j\u00e1 mostrava que 90% das propriedades ocupavam apenas 25% da terra. J\u00e1 as propriedades com menos de 10 hectares est\u00e3o desaparecendo inexoravelmente desde 1985 (o restante n\u00e3o para de se multiplicar). S\u00e3o dados antigos e imprecisos, mas \u00e9 o que h\u00e1 no Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. \u201cE h\u00e1 muita discuss\u00e3o sobre a confiabilidade desses dados\u201d, diz David M. Lapola, da Universidade de Campinas.<\/p>\n<p>O tamanho da \u00e1rea dificulta tudo ainda mais. \u201cEssas pequenas comunidades est\u00e3o em \u00e1reas remotas, e isso complica sua uni\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o. Fazem parte delas pessoas pobres, negras, ind\u00edgenas. Pessoas historicamente exclu\u00eddas,\u201d alerta Gerardo Cerdas, representante da organizai\u00e7\u00e3o internacional Action Aid no comit\u00ea de dire\u00e7\u00e3o da Campanha de Defesa do Cerrado. \u201cH\u00e1 pessoas que t\u00eam de viajar mil quil\u00f4metros para fazer uma den\u00fancia e outros tantos para voltar.\u201d<\/p>\n<p>Ao transformar o solo, o car\u00e1cter inteiro do cen\u00e1rio foi mudado. O Cerrado \u00e9 hoje um lugar desenhado apenas para os grandes crescerem.<\/p>\n<p>Nesta ilha fluvial houve apenas uma regra durante d\u00e9cadas: fazia-se o que Renato Miranda Carvalho dissesse. Ele era o dono da terra, que fica na jun\u00e7\u00e3o de dois rios. As 19 fam\u00edlias que moram nela h\u00e1 d\u00e9cadas puderam ficar em suas casas prec\u00e1rias, sem pagar, mas tinham que trabalhar para ele. Ele tinha 3.000 hectares, eles, 500. Era respeitado; eles, pac\u00edficos. Ent\u00e3o, um homem de fora chegou e questionou a regra, e Renato sacou as pistolas.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia no Cerrado, onde os conflitos territoriais s\u00e3o resolvidos com armas em vez de senten\u00e7as judiciais. Mas \u00e9 a hist\u00f3ria da comunidade que resistiu. \u00c9 tudo o que \u00e9, na verdade, mesmo vendo quanto eles convivem com o trauma. \u201cEst\u00e1 vendo ela? Ainda sofre de ansiedade quando v\u00ea por aqui uma caminhonete que n\u00e3o conhece\u201d, conta o jovem de 29 anos, e aponta uma mulher negra reunida com outras numa varanda. Marcone Ramalho \u00e9 o contador de hist\u00f3rias n\u00e3o oficial da comunidade. A fam\u00edlia dele est\u00e1 h\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es nesta ilha.<\/p>\n<section id=\"sumario_10|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925501_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925501_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Detalhe de uma casa em Forquilha (Piau\u00ed)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Detalhe de uma casa em Forquilha (Piau\u00ed)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Em Balsas, no Maranh\u00e3o, tudo ficava a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Em Forquilha todas as casas est\u00e3o pr\u00f3ximas uma da outra, como em um povoado. Parece uma zona de guerra em reconstru\u00e7\u00e3o, um lugar marcado pelo antes e depois do \u201cconflito\u201d, como aqui se referem \u00e0 \u00e9poca das pistolas. H\u00e1 casas de barro, as velhas, e alvenaria, as mais novas. H\u00e1 constru\u00e7\u00f5es inacabadas; algumas porque s\u00e3o ru\u00ednas e outras porque s\u00e3o projetos da nova era. Em meio a elas vagam cabras, cachorros e galinhas, t\u00e3o soltos que \u00e9 dif\u00edcil saber de quem s\u00e3o.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Algumas cabras, ali\u00e1s, se escondem de Marcone numa das casas em ru\u00ednas enquanto ele passeia por seus escombros. \u201cNum dia de 2010, Renato come\u00e7ou a plantar eucalipto\u201d, recorda. \u201cEu nunca tinha visto aquela \u00e1rvore antes, e n\u00e3o entendia nada. \u2018O que ser\u00e1 isto, que fruta ser\u00e1 que ela d\u00e1?\u2019 Porque sempre comemos o qie sai da terra. Depois entendi que essas \u00e1rvores eram uma praga, que ele tinha plantado para que chupassem a nossa \u00e1gua. O rio secou. Era pelo desenvolvimento do Brasil, diziam. Pouco depois come\u00e7aram a chegar os pistoleiros. Empregados deles que se metiam nas nossas casas com armas, pedindo de comer. N\u00f3s lhes d\u00e1vamos galinha e n\u00e3o cobr\u00e1vamos. Diziam: \u2018O patr\u00e3o comprou a terra, acabou essa hist\u00f3ria de voc\u00eas viverem aqui de gra\u00e7a\u2019. Derrubaram esta casa, do tio da minha mulher. Est\u00e1 vendo como foram escalando o conflito?\u201d<\/p>\n<figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925666_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925666_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Marcone Ramalho entre eucaliptos queimados em Forquilha (Piau\u00ed)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Marcone Ramalho entre eucaliptos queimados em Forquilha (Piau\u00ed)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Marcone sai das ru\u00ednas e se encaminha a outra constru\u00e7\u00e3o: \u201cUm sujeito se enfiou na minha casa uma noite, com o rev\u00f3lver na cintura. A coronha aparecia pelo cinto. \u2018Vamos resolver isto j\u00e1, voc\u00eas precisam ir embora hoje.\u2019 E n\u00e3o fomos. No dia seguinte, vimos que tinham levado o gado. Sequestraram os animais e n\u00e3o lhes deram de comer durante 16 dias. Quando nos devolveram, estavam mortos de fome. Outro dia, \u00e0s sete da manh\u00e3, j\u00e1 estavam a\u00ed, dando uma surra nos animais. Perguntaram para uma mo\u00e7a que estava cortando coco no campo se ela n\u00e3o tinha medo das balas. A pol\u00edcia n\u00e3o vinha quando a gente chamava. S\u00f3 respondia aos chamados do\u00a0<em>coronel<\/em>. Assim, um susto atr\u00e1s do outro, durante anos. E pior era o tempo entre os sustos, a tens\u00e3o. Somos gente do campo, n\u00e3o sabemos como lidar com isso\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 chegou a outra casa deserta. \u201cAqui morava Luis de Ner\u00e1n, um dos nossos mais-velhos. A tia dele morreu, sabe-se l\u00e1 se n\u00e3o foi do estresse do conflito. Fomos todos ao vel\u00f3rio, menos Luis, que ficou e viu algu\u00e9m vindo e tacando fogo nos eucaliptos. Morreu de enfarte. Enterramos ele junto com a sua tia. Os mais velhos s\u00e3o importantes. Sabem coisas da lavoura que a gente n\u00e3o sabe. Isso n\u00f3s tamb\u00e9m perdemos.\u201d<\/p>\n<p>O caminho de volta o leva por uma casa grande de alvenaria. \u00c9 a do forasteiro que eles consideram o estopim de tudo isto.<\/p>\n<p>Maciel Bento dos Santos, um homem de 39 anos, seco como o ch\u00e3o do Piau\u00ed, nunca teve terra, por isso sabe bem como \u00e9 trabalhar a de outros. Seus pais, do interior do Estado, foram arrastando os seus oito filhos de gleba em gleba, conforme conseguissem trabalho. Ele era o ca\u00e7ula. Aos sete anos j\u00e1 dava sinais de intelig\u00eancia, e o mandaram para morar com seu tio em Uru\u00e7u\u00ed, perto de Forquilha. Passou o prim\u00e1rio, pediu para fazer o colegial, e depois insistiu em se formar em agronomia. \u201cEu queria saber das coisas, n\u00e3o queria ficar quieto\u201d, recorda hoje. O que ele fez tamb\u00e9m foi engravidar uma mo\u00e7a de Forquilha. Pouco depois, estavam morando juntos.<\/p>\n<p>O culto a Renato que se vivia naquele lugar n\u00e3o o seduziu. \u201cEle n\u00e3o era t\u00e3o bom. Vinha com documentos sobre a propriedade da terra que n\u00e3o tinham validade nenhuma e obrigava todo mundo a votar no PMDB, onde tinha amigos na prefeitura. Se n\u00e3o ganhasse, e uma vez n\u00e3o ganhou por 14 votos, abria o arroz para que os insetos comessem.\u201d Aquela comunidade precisava de um guia. Maciel come\u00e7ou a falar com todas as fam\u00edlias separadamente. Disse-lhes que as coisas n\u00e3o tinham que ser desse jeito. Numa elei\u00e7\u00e3o, as convenceu a votarem em outro partido. Ent\u00e3o, relata, come\u00e7aram as tens\u00f5es. Primeiro Raimundo, o patriarca, deixou de falar com ele, por ser agitador. Depois chegaram os pistoleiros.<\/p>\n<section id=\"sumario_9|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925427_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925427_sumario_normal.jpg?resize=696%2C557&#038;ssl=1\" alt=\"Maciel Bento dos Santos na casa dele em Forquilha (Piau\u00ed)\" width=\"696\" height=\"557\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Maciel Bento dos Santos na casa dele em Forquilha (Piau\u00ed)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u201cUm dia, passeando, meu cunhado me disse que uma moto estava seguindo a gente. Foi quando eu soube que os pistoleiros me perseguiam. Estavam em todo lugar, na cidade, nas lojas, na propriedade.\u201d N\u00e3o se importou muito: era o pre\u00e7o da luta. At\u00e9 que um dia, em 2015, recebeu um telefonema no posto de gasolina onde trabalhava. \u201cTinham entrado uns quantos na minha casa e n\u00e3o sa\u00edam. Estavam com meus filhos e minha mulher. N\u00e3o deixavam eles sa\u00edrem. N\u00e3o arredavam\u2026\u201d Aqui n\u00e3o h\u00e1 jeito seco que resista: Maciel come\u00e7a a solu\u00e7ar de ang\u00fastia. \u201cTinha 14 pessoas com escopetas de alto calibre na sala da minha casa, com meus meninos. O pessoal tinha chamado a pol\u00edcia, mas n\u00e3o vinham. Liguei para um agente da pol\u00edcia de Uru\u00e7u\u00ed e fomos correndo de moto.\u201d Naquela tarde, compreendeu at\u00e9 que ponto estava metido no conflito de Forquilha. Largou o trabalho e se dedicou a lutar contra Renato. O dia todo, todos os dias.<\/p>\n<p>Sua estrat\u00e9gia foi pedir ajuda fora, a quem lhe respondesse, o mais longe poss\u00edvel de Forquilha. Renato controlava o munic\u00edpio, mas, ao contr\u00e1rio de outros, Maciel conhecia o mundo fora dele. Pediu ajuda a entidades religiosas, como a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, a organiza\u00e7\u00f5es como a Action Aid, a sindicatos, \u00e0 pol\u00edcia de Uru\u00e7u\u00ed. Acabou reunindo for\u00e7as suficientes para enfrentar Renato. Hoje, ele sumiu da regi\u00e3o. E Forquilha est\u00e1 se reconstruindo. H\u00e1 novos projetos, e Maciel ajuda na constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<section id=\"sumario_12|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925794_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925794_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Maciel Bento dos Santos no rio da ilha Forquilha (Piau\u00ed)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Maciel Bento dos Santos no rio da ilha Forquilha (Piau\u00ed)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Um deles \u00e9 uma casa de farinha, algo existente em quase todas as propriedades para beneficiar a mandioca, fundamental na alimenta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma escola, para que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es possam estudar, como fez Maciel, e n\u00e3o voltem a cair nas m\u00e3os de um\u00a0<em>coronel<\/em>. Depois vir\u00e1 um posto de sa\u00fade. Na terra dos gigantes \u00e9 poss\u00edvel ser pequeno e vencer.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u201cVejo que o meu filho vai sofrer para manter o seu peda\u00e7o desta terra\u201d, reflete Marcone em outro de seus passeios. \u201cVencemos, mas n\u00e3o me sinto como um vencedor.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Sussuarana (TO)<\/strong><\/h3>\n<p>Com as hist\u00f3rias do Cerrado acontece o mesmo que com as fam\u00edlias felizes: quase todas se parecem. S\u00e3o hist\u00f3rias de opress\u00e3o, e \u00e0s vezes s\u00f3 muda o nome de quem faz o papel de Davi, e quem faz o de Golias. Fala-se obsessivamente da luta contra a ind\u00fastria, como na Catalunha se fala de independ\u00eancia e nos Estados Unidos de Donald Trump. \u00c9 uma regi\u00e3o do tamanho de um pa\u00eds e, cada vez mais, esta \u00e9 sua cultura. E, como toda cultura, tem seus artistas. Como Pedro, de 47 anos: no papel ele n\u00e3o faz nada, exceto algum trabalhinho eventual para que algu\u00e9m lhe pague a gasolina da moto do seu filho mais velho, que ele usa. Com ela se desloca envolto numa nuvem de poeira por Sussuarana, no leste do Estado mais central do Brasil, Tocantins. Ele mesmo admite que, embora viva em uma gleba desta comunidade rural h\u00e1 30 anos, n\u00e3o trabalha muito a terra. Sua mulher, sentada atr\u00e1s dele, assente com semblante severo ao ouvi-lo dizer isto.<\/p>\n<section id=\"sumario_14|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521926274_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521926274_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"O artista conhecido como Pedro de Piau\u00ed\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O artista conhecido como Pedro de Piau\u00ed<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0Mas em Sussuarana Pedro \u00e9 considerado fundamental: conhece todo mundo, e todo mundo que o conhece fala da luta. \u201cOutros est\u00e3o trabalhando e n\u00e3o t\u00eam tempo para a luta, e eu quero para os meus filhos o que eles merecem\u201d, diz ele. \u00c9 ele que vai aos tribunais (n\u00e3o sabe ler muito bem, mas sabe esgrimir um mapa na cara de um juiz: \u201csei o que eu falo num tribunal\u201d) e que mant\u00e9m a luta na boca de todos. \u201cDigamos que fa\u00e7o isto por meu grande cora\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta. E sorri, como se tivesse gostado da ideia.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Esta comunidade nasceu quando um programa fundi\u00e1rio oficial entregou terras a 36 fam\u00edlias da regi\u00e3o. Desde ent\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es se tornaram mais dif\u00edceis, os fazendeiros fazem suas sess\u00f5es de \u201cpersuas\u00e3o\u201d acompanhados de pistoleiros, e as expropria\u00e7\u00f5es foram se transformando em alternativas cada vez mais reais. Hoje restam seis fam\u00edlias. Todas dan\u00e7am ao compasso de Pedro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 eu que queira bancar o her\u00f3i, \u00e9 que se n\u00e3o fizer, ningu\u00e9m faz\u201d, continua. \u201cNunca imaginei que fosse ter tanta desenvoltura.\u201d Sua mulher nega com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<section id=\"sumario_15|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521926350_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521926350_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"A esposa do Pedro, em Sussuarana (Tocantins)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A esposa do Pedro, em Sussuarana (Tocantins)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u00a0O papel do Pedro implica reunir os seus vizinhos em algumas das casas, onde supostamente s\u00e3o discutidas estrat\u00e9gias para o futuro. Quando esse tema fica esgotado, a conversa volta ao passado. Hoje \u00e9 na casa de Jo\u00e3o Jos\u00e9, onde h\u00e1 um c\u00edrculo de cadeiras de jardim. Ocupam-no Pedro, Jo\u00e3o Jos\u00e9, seu irm\u00e3o Alexandre, e outro morador. Tamb\u00e9m est\u00e3o suas mulheres, que olham em sil\u00eancio e servem limonada.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Come\u00e7am a contar hist\u00f3rias que soam sempre iguais. Sempre h\u00e1 um papel que falta para resolver um tr\u00e2mite, um fazendeiro que burlou parte da legisla\u00e7\u00e3o, uma prefeitura em coniv\u00eancia com algum empres\u00e1rio. Sempre h\u00e1 um detalhe. T\u00e3o pequeno que nenhum tribunal admitiria como prova, mas que esmaga toda a comunidade. Pedro est\u00e1 reclinado em sua cadeira, barriga para fora, os bra\u00e7os atr\u00e1s da nuca.<\/p>\n<p>Alexandre conclui a sua: \u201cEm 2002 tiraram a terra dos meus pais. Deixaram 80 hectares para cada um de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Pedro interv\u00e9m para corrigir: \u201cCem! E sem luta teria menos\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jos\u00e9 recorda: \u201cE tiraram elas da gente dizendo que n\u00e3o tinha ningu\u00e9m l\u00e1\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Alexandre: \u201cE a m\u00e3e do meu pai tinha morrido aqui. Foi em 1968\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jos\u00e9: \u201c63\u201d.<\/p>\n<p>Alexandre: \u201cN\u00e3o, 65. E queriam tirar elas da gente do mesmo jeito\u201d.<\/p>\n<p>Uma comunidade pr\u00f3spera pode forjar a sua pr\u00f3pria cultura. Uma pobre e amea\u00e7ada \u00e9 obrigada a manter uma mentalidade espec\u00edfica, a que lhe permite sobreviver. No caso de Sussuarana, como em quase todo o Cerrado, essa cultura \u00e9 a da luta. A luta invade seu tempo livre, suas conversas, sua m\u00fasica, e at\u00e9 seu modo de ver a vida. Nesse sentido, Pedro \u00e9 o artista que esta comunidade necessita. \u00c9 quem mant\u00e9m a cultura vigente. Quem alonga a sombra do inimigo e faz com que as hist\u00f3rias antigas soem novas mais uma vez.<\/p>\n<section id=\"sumario_13|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\">\n<p><figure style=\"width: 980px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925913_sumario_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/03\/21\/politica\/1521648714_928895_1521925913_sumario_normal.jpg?resize=696%2C556&#038;ssl=1\" alt=\"Sussuarana (Tocantins)\" width=\"696\" height=\"556\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Sussuarana (Tocantins)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Pedro: \u201cA \u00e1gua est\u00e1 baixando, voc\u00eas viram?\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jos\u00e9: \u201cEu sa\u00ed por aquela porta sem um centavo. Sem arma. N\u00e3o tinha nada que fazer. E falei para eles: \u2018Onde voc\u00eas querem que eu fique?\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Alexandre: \u201cO problema, est\u00e1 bem claro, \u00e9 que teriam te matado para te tirar\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jose: \u201cMinha sobrinha tem dez anos. Agora continuam amea\u00e7ando a gente porque n\u00e3o temos dinheiro, e s\u00f3 vale quem tem dinheiro. Comigo faz tr\u00eas anos me arruinaram o arroz e n\u00e3o sabemos o que fazer\u201d.<\/p>\n<p>Alexandre: \u201cO problema, est\u00e1 bem claro, \u00e9 que viv\u00edamos num lugar cobi\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Jos\u00e9: \u201cUm lugar cobi\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria continua, de uma boca para outra, rumo a lugar algum. L\u00e1 fora tudo est\u00e1 im\u00f3vel. N\u00e3o h\u00e1 brisa. O sol abrasa a terra. O ronco de um porco no seu chiqueiro \u00e9 a \u00fanica coisa que delata a passagem do tempo. S\u00e3o cinco horas de uma tarde qualquer no Cerrado. Amanh\u00e3, a luta continua.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Tom C. Avenda\u00f1o e Fotos de Felipe Fittipaldi\/Ela Pais Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 26\/03\/2018<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cachoeira do Macap\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 exatamente \u00e0 m\u00e3o, mas \u00e9 assim que tem que ser, na opini\u00e3o dos integrantes desta comunidade de pequenos propriet\u00e1rios no Nordeste do Brasil. Para que um forasteiro venha at\u00e9 aqui, precisa chegar ao aeroporto mais pr\u00f3ximo, o de Imperatriz, no sul do Maranh\u00e3o, seguir 400 quil\u00f4metros por estrada at\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":23157,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-23151","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/savana.jpg?fit=696%2C313&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23151\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23157"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}