{"id":23203,"date":"2018-03-27T00:04:03","date_gmt":"2018-03-27T03:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=23203"},"modified":"2018-03-26T21:48:43","modified_gmt":"2018-03-27T00:48:43","slug":"o-doutorado-e-prejudicial-a-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/03\/27\/o-doutorado-e-prejudicial-a-saude-mental\/","title":{"rendered":"O doutorado \u00e9 prejudicial \u00e0 sa\u00fade mental."},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos foram publicadas diversas pesquisas que alertam sobre o estado de sa\u00fade mental dos alunos de doutorado. Um exemplo recente \u00e9 o trabalho que acaba de sair na\u00a0<em>Nature Biotechnology<\/em>, apontando que os doutorandos s\u00e3o seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade e\u00a0depress\u00e3o\u00a0em compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o geral. Segundo esse trabalho, dirigido pelo pesquisador Nathan Vanderford, da Universidade de Kentucky (EUA), isto significa que 39% dos candidatos a doutor sofrem de depress\u00e3o moderada ou severa, frente a 6% da popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0__container__\">Poder\u00edamos pensar que esses resultados se devem a cortes nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, ou que sejam algo intr\u00ednseco a empregos altamente competitivos, sejam ou n\u00e3o doutorados; entretanto, outro estudo, este realizado pela Universidade de Gent (Flandres, B\u00e9lgica), conclui que os doutorandos, em compara\u00e7\u00e3o com outros grupos profissionais com alta forma\u00e7\u00e3o, sofrem com maior frequ\u00eancia sintomas de deteriora\u00e7\u00e3o na sua sa\u00fade mental. \u201cEsta \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o muito importante, porque progressivamente estamos compreendendo que existem problemas de sa\u00fade mental entre os doutorandos, e estudos como este nos ajudam a entender melhor suas causas\u201d, afirma Vanderford.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"teads-inread\">\n<div>\n<div id=\"teads0\" class=\"teads-player\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Para aprofundar esse tema, Katia Levecque, pesquisadora da Universidade de Gent e primeira autora do estudo belga, reuniu uma amostra de 3.659 doutorandos de universidades flamengas, que seguem um programa muito similar ao do resto da Europa e\u00a0Estados Unidos, e quantificou a frequ\u00eancia com que os alunos afirmaram ter experimentado nas \u00faltimas semanas algum entre 12 sinais associados ao estresse e, potencialmente, a problemas psiqui\u00e1tricos (especialmente a depress\u00e3o). Entre essas caracter\u00edsticas est\u00e3o sentir-se infeliz ou deprimido, sob press\u00e3o constante, perda de autoconfian\u00e7a ou ins\u00f4nia devido \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os resultados foram que 41% dos doutorandos se sentiam sob press\u00e3o constante, 30% deprimidos ou infelizes, e 16% se sentiam in\u00fateis. Al\u00e9m disso, metade deles relatavam conviver com pelo menos 2 dos 12 sinais avaliados no teste.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">39% dos doutorandos sofrem de depress\u00e3o moderada ou severa, frente a 6% da popula\u00e7\u00e3o geral<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">\u201cFomos os primeiros a estudar os doutorandos como um grupo \u00e0 parte, usando um tamanho de amostra adequado e comparando-os com outros grupos de popula\u00e7\u00e3o altamente formados\u201d, enfatiza Levecque. Os resultados mais chamativos desse estudo aparecem quando se comparam pessoas fazendo uma tese doutoral com outras popula\u00e7\u00f5es (um grupo de popula\u00e7\u00e3o geral, outro de trabalhadores e um de estudantes), todas elas com um alto n\u00edvel educativo (de alunos da gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria a doutorados): em todos os casos, o grupo de pessoas que estavam fazendo doutorado tinha com muito mais frequ\u00eancia sinais de deteriora\u00e7\u00e3o em sua sa\u00fade mental, chegando por exemplo a que 32% dos doutorandos relatassem pelo menos 4 dos 12 sintomas, frente aos 12%-15% das pessoas dos grupos controle.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O estudo tamb\u00e9m examina se entre os doutorandos existem condi\u00e7\u00f5es que aumentem as possibilidades de ter ou desenvolver um problema psiqui\u00e1trico. Levecque conclui, por exemplo, que o desenvolvimento desses sintomas \u00e9 independente da disciplina do doutorado, sejam ci\u00eancias, ci\u00eancias sociais, humanidades, ci\u00eancias aplicadas ou ci\u00eancias biom\u00e9dicas. N\u00e3o ocorre o mesmo quanto ao g\u00eanero, j\u00e1 que as\u00a0mulheres\u00a0que fazem doutorado t\u00eam 27% mais possibilidades de sofrerem problemas psiqui\u00e1tricos que os homens.<\/p>\n<p>Outro fator que pode influir na sa\u00fade do estudante, nesse caso tanto negativa quanto positivamente, \u00e9 o tipo de orientador: a sa\u00fade mental dos doutorandos era melhor do que o normal quando tinham um mentor cuja lideran\u00e7a lhes inspirava. Pelo contr\u00e1rio, outros estilos de lideran\u00e7a eram neutras, ou no caso dos orientadores que se abstinham de dirigir ou guiar o doutorando\u00a0\u2014 um tipo de lideran\u00e7a\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0\u2014 seus orientandos tinham 8% mais chances de desenvolverem sofrimento psicol\u00f3gico. \u201cMas, al\u00e9m do estilo de lideran\u00e7a, h\u00e1 outros fatores importantes, como o n\u00edvel de press\u00e3o no ambiente profissional, o pr\u00f3prio controle sobre o ritmo de trabalho ou quando fazer pausas, que tamb\u00e9m est\u00e3o relacionadas com o orientador. Por isso o orientador \u00e9 relevante tanto direta como indiretamente para a sa\u00fade mental dos doutorandos\u201d, detalha a pesquisadora.<\/p>\n<p>A concilia\u00e7\u00e3o familiar \u00e9 outro tema importante, j\u00e1 que quem tem uma situa\u00e7\u00e3o conflitiva entre sua fam\u00edlia e o trabalho fica 52% mais propenso a desenvolver um problema psiqui\u00e1trico. E o mesmo ocorre com a carga de trabalho, que pode chegar a aumentar em 65% a apari\u00e7\u00e3o de dist\u00farbios psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">As mulheres que fazem doutorado t\u00eam 27% mais chances que os homens de sofrerem problemas psiqui\u00e1tricos<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Todo esse trabalho feito pela Universidade de Gante deixa claro que mesmo em pa\u00edses como a B\u00e9lgica, onde as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas s\u00e3o favor\u00e1veis, o desenvolvimento do doutorado exp\u00f5e os alunos a situa\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas para sua sa\u00fade mental, acima do que \u00e9 habitual em outros ambientes similares. Sobre isto, Levecque enfatiza o valor de melhorar a assist\u00eancia em sa\u00fade mental aos doutorandos, j\u00e1 que eles s\u00e3o um dos pilares da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica em n\u00edvel mundial; e d\u00e1 tr\u00eas conselhos b\u00e1sicos: \u201cEm primeiro lugar, forme-se e dedique tempo a conhecer sua pr\u00f3pria sa\u00fade\u2026 e a de outras pessoas. Em segundo lugar, fale de um modo expl\u00edcito sobre a sa\u00fade mental. E finalmente, no n\u00edvel das organiza\u00e7\u00f5es, estas deveriam se preocupar com o bem-estar dos seus empregados tanto por raz\u00f5es humanit\u00e1rias como financeiras: o bem-estar do funcion\u00e1rio e sua efic\u00e1cia trabalhista est\u00e3o altamente correlacionados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: Pablo Barrecheguren\/El Pais Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 27\/03\/2018<\/strong><abbr title=\"Brasilia Time\"><\/abbr><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos foram publicadas diversas pesquisas que alertam sobre o estado de sa\u00fade mental dos alunos de doutorado. Um exemplo recente \u00e9 o trabalho que acaba de sair na\u00a0Nature Biotechnology, apontando que os doutorandos s\u00e3o seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade e\u00a0depress\u00e3o\u00a0em compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o geral. 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