{"id":23463,"date":"2018-04-05T05:04:07","date_gmt":"2018-04-05T08:04:07","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=23463"},"modified":"2018-04-05T05:04:07","modified_gmt":"2018-04-05T08:04:07","slug":"de-onde-vem-o-exemplo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/04\/05\/de-onde-vem-o-exemplo\/","title":{"rendered":"De onde vem o exemplo?"},"content":{"rendered":"<h5>Quando um jovem antrop\u00f3logo perguntou a um chefe ind\u00edgena como ele administrava seu povo, sua resposta foi exemplar. Quando \u2014 disse ele \u2014 o p\u00e1tio central da aldeia precisa ser limpo, eu pego o meu fac\u00e3o e inicio a tarefa. Pouco a pouco, os outros chegam, e logo todos est\u00e3o fazendo o que deveria ser feito. Esse mesmo chefe ensinou a esse mesmo rapaz uma antinorma da antipol\u00edcia brasileira: um bom chefe n\u00e3o acumula, ele distribui&#8230;<\/h5>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>O exemplo como exemplo \u00e9 o apan\u00e1gio dos humanos. Esses bichos que n\u00e3o nascem prontos. S\u00e3o programados para n\u00e3o terem programa e, por viverem na d\u00favida, precisam de mandamentos, leis e ideologias, quase sempre vindas do c\u00e9u e dos deuses, que variam entre si, dependem de pessoas e, como ensinou Marx, de circunst\u00e2ncias. O que \u00e9 amizade aqui, \u00e9 corrup\u00e7\u00e3o por l\u00e1; o que \u00e9 ativismo pol\u00edtico acol\u00e1, \u00e9 crime aqui&#8230; Por isso, esse \u201cbicho-homem\u201d mata em nome da vida, suplicia em nome de Deus, torna-se criminoso aviltando boas causas.<\/p>\n<p>No nosso caso, eis a descoberta simultaneamente alarmante e transformadora, os partidos do poder sempre foram donos e \u201ccuidadores\u201d do povo brasileiro. Os eternos \u201cdoutores\u201d, tidos como s\u00e1bios, sabiam o que fazer para levar o Brasil a um nobre futuro. Tanto isso \u00e9 verdade que hoje conseguimos ter linhagens de bo\u00e7ais que, cruzando entre si, est\u00e3o suicidando o pa\u00eds mas sem deixar de fazer \u2014 sejam eles de um lado ou do outro \u2014 o que sempre tiveram o direito de fazer: roubar a coisa p\u00fablica em redes de favores.<\/p>\n<p>Eu fico chocado quando ou\u00e7o pessoas falando do \u201cBrasil\u201d como se elas n\u00e3o fossem\u00a0<em>tamb\u00e9m<\/em>\u00a0o Brasil e n\u00e3o precisassem de ningu\u00e9m para fazer o pa\u00eds que desejam. Na nossa alma, somente o \u201cgoverno\u201d \u00e9 respons\u00e1vel e capaz de modificar o Brasil. Neste caso, o exemplo viria dos administradores-donos, n\u00e3o somente do poder (na f\u00f3rmula de Faoro), mas desse coisificado Brasil.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o vertical do sistema nos leva a olhar quem est\u00e1 por cima (para pedir ou obedecer) ou por baixo (para favorecer ou cuidar) mas uma perspectiva horizontal, hoje obrigat\u00f3ria, muda tudo. Agora, o exemplo vem, esperamos, dos \u201csupremos\u201d, mas\u00a0<em>tamb\u00e9m<\/em>\u00a0do bom senso igualit\u00e1rio: de um olhar agudo para os lados. Sem isso, vamos continuar procurando messias e santos e encontrando caudilhos e bo\u00e7ais.<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p>Cito um exemplo cl\u00e1ssico:<\/p>\n<p>\u201cQuando Xerxes, o grande rei dos persas, perguntou como aquelas cidades gregas sem rei se levantariam contra ele, Demaratus (rei de Esparta exilado) replicou: \u2018Eles t\u00eam, sim, um senhor, e esse senhor \u00e9 a lei que eles temem muito mais do que qualquer dos seus s\u00faditos. O que esse mestre comanda eles obedecem, e esse comando jamais varia \u2014 ele jamais retrocede nas guerras quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias e permanecem em forma\u00e7\u00e3o para conquistar ou morrer\u2019.\u201d (ver Alan Ryan, \u201cOn Politics\u201d)<\/p>\n<p>_________<\/p>\n<p>Estamos muito longe dos gregos e mais ainda dos \u201c\u00edndios\u201d, que a bo\u00e7alidade cultural situa na \u201cIdade da Pedra\u201d. Como ib\u00e9ricos, o que vale para uns n\u00e3o vale para os outros. Cada caso \u00e9 um caso e, embora a lei seja a mesma, o que conta n\u00e3o \u00e9 o crime, mas quem o praticou. N\u00e3o \u00e9 a lei que submete o \u201cpaciente\u201d; \u00e9 \u2014 estamos pagando para ver \u2014 o \u201cpaciente\u201d que a engloba.<\/p>\n<p>A lei, reitero neste Domingo de P\u00e1scoa com um desalento esperan\u00e7oso, depende de quem estamos falando.<\/p>\n<p>_________<\/p>\n<p>No livro de Suzanne Chantal, \u201cA vida quotidiana em Portugal ao tempo do terremoto (1755)\u201d, Lisboa: Livros do Brasil, 1962, ela fala de uma institui\u00e7\u00e3o pouco analisada, mas rotineira l\u00e1 e aqui: o empenho.<\/p>\n<p>\u201cO chefe da fam\u00edlia (e da casa) era, mais ou menos, o respons\u00e1vel (&#8230;) pelo casamento das raparigas e pelo emprego dos rapazes. Acresce, assim, que muitas vezes tinha que\u00a0<em>meter empenhos por seus protegidos,<\/em>\u00a0e fazia-o sem escr\u00fapulos nem vergonha. \u2018Nomeie, pois, este rapaz oficial num dos seus regimentos\u2019 \u2014 dizia tranquilamente um portugu\u00eas ao Conde de Lippe, vindo para reorganizar o Ex\u00e9rcito \u2014 ele foi meu companheiro durante vinte e cinco anos e isso merece recompensa.<\/p>\n<p>Custava recusar qualquer coisa a um amigo \u2014 que ali\u00e1s era quase sempre um pouco compadre ou parente (&#8230;) por isso abundavam funcion\u00e1rios in\u00fateis, legi\u00f5es de criados, os procuradores parasitas que gravitavam, obsequiosos e sem problemas, \u00e0 volta de todo homem de bem.<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o (&#8230;) estendia-se aos mais deserdados mas tamb\u00e9m aos menos merecedores. Recomendava-se um incapaz e afian\u00e7ava-se sem hesita\u00e7\u00f5es um malandrim. Desde que fosse primo de uma criada ou bastardo de um primo irrequieto. Uma pessoa influente pede a outra em benef\u00edcio de uma terceira, geralmente indigna ou nula, e obt\u00e9m para esta um favor imerecido, ou a sua isen\u00e7\u00e3o de um antigo merecido. De fato. (&#8230;) a influ\u00eancia pessoal era usada a torto e a direito.(&#8230;) Um pedido tornava-se um\u00a0<em>teste.\u00a0<\/em>Quanto pior fosse o caso, quanto mais o protegido tivesse ofendido a moral ou a lei, quanto mais obst\u00e1culos houvesse a vencer, mais o protetor afirmaria o seu poder.(&#8230;)\u201d (pagina 141).<\/p>\n<p>Seria da\u00ed que viria o exemplo?<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no Jornal O Globo &#8211; dispon\u00edvel na internet 05\/04\/2018<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um jovem antrop\u00f3logo perguntou a um chefe ind\u00edgena como ele administrava seu povo, sua resposta foi exemplar. Quando \u2014 disse ele \u2014 o p\u00e1tio central da aldeia precisa ser limpo, eu pego o meu fac\u00e3o e inicio a tarefa. 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