{"id":23951,"date":"2018-04-23T00:02:23","date_gmt":"2018-04-23T03:02:23","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=23951"},"modified":"2018-04-21T20:40:17","modified_gmt":"2018-04-21T23:40:17","slug":"da-contaminacao-ao-tratamento-o-papel-da-desigualdade-no-atual-surto-de-febre-amarela-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/04\/23\/da-contaminacao-ao-tratamento-o-papel-da-desigualdade-no-atual-surto-de-febre-amarela-no-pais\/","title":{"rendered":"Da contamina\u00e7\u00e3o ao tratamento, o papel da desigualdade no atual surto de febre amarela no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">Ao se despedir do ver\u00e3o, \u00e9poca mais prop\u00edcia para a expans\u00e3o da febre amarela, o Brasil come\u00e7a a fazer um balan\u00e7o de como a doen\u00e7a se manifestou na popula\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Segundo o mais recente boletim do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, de julho de 2017 ao in\u00edcio de abril de 2018 foram confirmados 1.127 casos de febre amarela no pa\u00eds, incluindo 331 \u00f3bitos. O Sudeste concentra a maioria dos registros (Minas Gerais com 43% dos casos; S\u00e3o Paulo 40%; e Rio 17%). No mesmo per\u00edodo entre 2016 e 2017, foram 712 casos e 228 \u00f3bitos.<\/p>\n<p>Desta vez, os governos observaram uma expans\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela para regi\u00f5es metropolitanas. Essa seria a causa do aumento no n\u00famero de casos, segundo o minist\u00e9rio. Se no per\u00edodo passado a febre amarela circulou por \u00e1reas ocupadas por 11,2 milh\u00f5es de pessoas, no atual, atingiu 35,9 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Mas, segundo especialistas consultados pela BBC Brasil, a popula\u00e7\u00e3o rural continua sendo a mais vulner\u00e1vel \u00e0 doen\u00e7a<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/D811\/production\/_100831355_hi045845130.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/D811\/production\/_100831355_hi045845130.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Mulher coloca roupa no varal em casa perto de mata\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Mulher coloca roupa no varal em casa perto de mata &#8211; Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Febre amarela do tipo silvestre torna mais vulner\u00e1veis popula\u00e7\u00f5es que vivem e trabalham na mata<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Isso porque a febre amarela vista hoje no pa\u00eds \u00e9 do tipo silvestre &#8211; ou seja, seu v\u00edrus \u00e9 transmitido por mosquitos que vivem em ambientes de mata, dos g\u00eaneros Haemagogus e Sabethes. Nas cidades, as infec\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido registradas ocorrem ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o a \u00e1reas de floresta, como parques.<\/p>\n<p>Desde 1942, o Brasil n\u00e3o tem casos de febre amarela urbana, quando o vetor \u00e9 o mosquito\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>\u00a0&#8211; tamb\u00e9m transmissor da dengue, chikungunya e zika. Para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a probabilidade da transmiss\u00e3o urbana da doen\u00e7a no Brasil \u00e9 &#8220;baix\u00edssima&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, o impacto da febre amarela em \u00e1reas rurais passa a despertar a aten\u00e7\u00e3o de pesquisadores para outro aspecto: o efeito da desigualdade sobre surtos recentes da doen\u00e7a, j\u00e1 que essas regi\u00f5es apresentam indicadores socioecon\u00f4micos mais prec\u00e1rios e distantes dos radares das autoridades de sa\u00fade do pa\u00eds &#8211; recebendo bem menos aten\u00e7\u00e3o em preven\u00e7\u00e3o e tratamento do que os grandes centros urbanos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8334\/production\/_100888533_hi045584976.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8334\/production\/_100888533_hi045584976.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Profissional de sa\u00fade prepara aplica\u00e7\u00e3o de vacina contra febre amarela\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0AFP &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Segundo pesquisadora, regi\u00f5es como o Noroeste mineiro, uma das mais afetadas pela febre amarela, teve baixa cobertura vacinal em compara\u00e7\u00e3o com \u00e1reas sem casos da doen\u00e7a &#8211; Direito de imagem\u00a0AFP &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Segundo pesquisadora, regi\u00f5es como o Noroeste mineiro, uma das mais afetadas pela febre amarela, teve baixa cobertura vacinal em compara\u00e7\u00e3o com \u00e1reas sem casos da doen\u00e7a<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;A grande maioria das v\u00edtimas \u00e9 de agricultores pobres&#8221;, resume Paulo Buss, sanitarista e diretor do Centro de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dados oficiais que detalhem a situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica das v\u00edtimas da doen\u00e7a, mas fatores como menor renda e dificuldade no acesso \u00e0 sa\u00fade no campo revelam o papel da desigualdade neste cen\u00e1rio. Confira alguns destes fatores.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">1. Rural versus urbano<\/h2>\n<p>Buss destaca que a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 febre amarela frequentemente est\u00e1 ligada ao trabalho em \u00e1reas de mata e com rendimento inferior \u00e0 m\u00e9dia nacional, como o extrativismo.<\/p>\n<p>&#8220;Existe uma clara influ\u00eancia do local de moradia e da ocupa\u00e7\u00e3o na manifesta\u00e7\u00e3o dessa enfermidade. Isso n\u00e3o acontece s\u00f3 com a febre amarela, mas tamb\u00e9m com a mal\u00e1ria e outras doen\u00e7as infecciosas&#8221;, diz o sanitarista.<\/p>\n<p>Outro dado que denuncia o papel da atividade econ\u00f4mica na vitimiza\u00e7\u00e3o pela doen\u00e7a \u00e9 sua preval\u00eancia em homens: segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre os casos suspeitos registrados desde julho de 2017, 17% foram em mulheres e 83% em homens. Para especialistas, essa diferen\u00e7a vem justamente do contato mais frequente de homens com a mata para fins de trabalho.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0BAC\/production\/_100888920_extrativismo.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0BAC\/production\/_100888920_extrativismo.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Extrativista caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mata\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Extrativista caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mata &#8211; Direito de imagem\u00a0ARISON JARDIM\/ SECOM ACRE &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Atividades na mata como o extrativismo acaba expondo trabalhadores a mosquitos que transmitem a febre amarela silvestre<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>De fato, indicadores de renda, al\u00e9m de escolaridade e de expectativa de vida, dividem o Brasil rural do urbano. Foi isso que mostrou um estudo conjunto do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica e Aplicada (Ipea) e da Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro (FJP).<\/p>\n<p>Segundo essa pesquisa, considerando dados para 2010, a renda per capita da popula\u00e7\u00e3o urbana \u00e9 quase tr\u00eas vezes maior do que a da popula\u00e7\u00e3o rural (R$ 882 e R$ 312, respectivamente); na escolaridade, 60% da popula\u00e7\u00e3o urbana com mais de 18 anos concluiu o ensino fundamental, contra 26,5% da popula\u00e7\u00e3o rural; a esperan\u00e7a de vida ao nascer, na cidade, \u00e9 de 74,5 anos, enquanto no campo \u00e9 de 71,5 anos.<\/p>\n<p>Em 2017, um estudo da Diretoria de An\u00e1lise de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV-DAPP), por sua vez, mostrou que o Noroeste mineiro, com alto n\u00famero de \u00f3bitos por febre amarela na \u00e9poca e baixo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), teve n\u00edveis baixos de cobertura vacinal contra a doen\u00e7a e de or\u00e7amento para lidar com crises epidemiol\u00f3gicas. Isso mesmo na compara\u00e7\u00e3o com cidades mineiras sem diagn\u00f3stico da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Ao cruzar esses dados, a inten\u00e7\u00e3o foi considerar a rela\u00e7\u00e3o entre a desigualdade e o n\u00e3o privilegiamento de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de sa\u00fade. Em Minas Gerais, no ano passado, vimos a prioriza\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es metropolitanas de Belo Horizonte, Juiz de Fora e Uberl\u00e2ndia, por exemplo&#8221;, aponta Danielle Sanches, pesquisadora da FGV-DAPP.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m em outros Estados, como no Rio e em S\u00e3o Paulo, vimos a escolha por vacinar mais nas regi\u00f5es metropolitanas. \u00c9 importante vacinar nesses locais pela concentra\u00e7\u00e3o populacional, mas \u00e9 preciso uma conscientiza\u00e7\u00e3o diante da corrida indiscriminada aos postos. A popula\u00e7\u00e3o alvo da imuniza\u00e7\u00e3o contra a febre amarela s\u00e3o os moradores de \u00e1reas rurais&#8221;.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, uma explica\u00e7\u00e3o para tais decis\u00f5es dos governos est\u00e1 no poder de press\u00e3o dos moradores de \u00e1reas urbanas &#8211; e da imprensa, concentrada nessas \u00e1reas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">2. Acesso \u00e0 sa\u00fade fora dos grandes centros<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F224\/production\/_100888916_aj_historias-do-prgramas-mais-medicos-no-estado-do-acre_005.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F224\/production\/_100888916_aj_historias-do-prgramas-mais-medicos-no-estado-do-acre_005.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Profissionais de sa\u00fade examinam paciente em casa feita de lenha\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Profissionais de sa\u00fade examinam paciente em casa feita de lenha &#8211; Direito de imagem\u00a0ARISON JARDIM\/ SECOM\/ AC &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Estudos mostram que h\u00e1 desigualdade no acesso \u00e0 sa\u00fade em \u00e1reas rurais e urbanas<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O estudo da FGV-DAPP mostrou tamb\u00e9m que os munic\u00edpios com baixo IDHM no noroeste de Minas n\u00e3o contavam em seu quadro com infectologistas &#8211; especialistas m\u00e9dicos cruciais no diagn\u00f3stico e tratamento da febre amarela.<\/p>\n<p>&#8220;Sobretudo no acesso \u00e0 sa\u00fade, as desigualdades entre as \u00e1reas urbanas e rurais se manifestam&#8221;, diz Sanches.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 sa\u00fade fora dos grandes centros marca h\u00e1 d\u00e9cadas os debates sobre as defici\u00eancias do atendimento m\u00e9dico no Brasil. Para Carolina Batista, diretora m\u00e9dica para Am\u00e9rica Latina da Iniciativa Medicamentos para Doen\u00e7as Negligenciadas (DNDi, na sigla em ingl\u00eas), essas dificuldades n\u00e3o se limitam ao enfrentamento de longas dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&#8220;Pessoas que vivem em zonas rurais t\u00eam um acesso muito inferior a servi\u00e7os especializados e de refer\u00eancia, a ferramentas de diagn\u00f3sticos, medicamentos espec\u00edficos, entre outros. Em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas metropolitanas, isso \u00e9 extremamente desigual. Mas, ao mesmo tempo que isso imp\u00f5e um grande desafio, demonstra a enorme pluralidade que temos no nosso pa\u00eds, o que exige pensar o sistema de sa\u00fade de forma inovadora&#8221;, aponta a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>&#8220;No caso da febre amarela, popula\u00e7\u00f5es rurais s\u00e3o afetadas duplamente. Uma primeira carga vem da pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o a vetores de uma doen\u00e7a potencialmente grave como a febre amarela; e uma segunda, do acesso limitado \u00e0 sa\u00fade&#8221;.<\/p>\n<p>Para o sanitarista Paulo Buss, os efeitos da desigualdade na febre amarela se tornam mais evidentes ap\u00f3s a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Na preven\u00e7\u00e3o, por meio da vacina, excepcionalmente se mitiga a desigualdade no pegar a febre amarela. Mas, depois que se adquire a febre amarela, a letalidade \u00e9 dependente dos recursos tecnol\u00f3gicos dispon\u00edveis, como materiais para hidrata\u00e7\u00e3o, equipamentos para lidar com um choque hemorr\u00e1gico e uma UTI. Uma vez adquirida a enfermidade, a desigualdade se torna muito expressiva&#8221;, diz Buss.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">3. Ocupa\u00e7\u00e3o desordenada<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A404\/production\/_100888914_hi045845140.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Homem pendura roupa perto do varal ao lado de floresta\" width=\"696\" height=\"392\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Homem pendura roupa perto do varal ao lado de floresta &#8211; Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Especialistas destacam import\u00e2ncia de planejamento urbano no controle da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 febre amarela<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de acesso \u00e0 moradia tamb\u00e9m podem contribuir com a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 febre amarela na medida em que a ocupa\u00e7\u00e3o desordenada da terra acaba avan\u00e7ando sobre as florestas.<\/p>\n<p>&#8220;A entrada na franja das florestas, sem um planejamento, acaba expondo a popula\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas de circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus por meio do mosquito que transmite a febre amarela silvestre. Isso significa uma penetra\u00e7\u00e3o em ecossistemas aos quais a popula\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o est\u00e1 acostumada, em um contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;, diz Buss.<\/p>\n<p>Para os especialistas, \u00e9 justamente essta tend\u00eancia de ocupa\u00e7\u00e3o que explica o avan\u00e7o das fronteiras de circula\u00e7\u00e3o da febre amarela. H\u00e1 uma d\u00e9cada, a febre amarela era considerada end\u00eamica (com incid\u00eancia constante em determinado agrupamento ou regi\u00e3o) apenas na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, o que fazia dali uma \u00e1rea com recomenda\u00e7\u00e3o permanente para a vacina\u00e7\u00e3o. A partir de 2015, observou-se uma expans\u00e3o da doen\u00e7a para o Centro-Oeste e, posteriormente, para o Sudeste.<\/p>\n<p>Hoje, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade considera mais vulner\u00e1veis as popula\u00e7\u00f5es de \u00e1reas rec\u00e9m-afetadas pelo v\u00edrus e que v\u00eam recebendo a chamada vacina\u00e7\u00e3o de bloqueio. Mas, justamente pelo avan\u00e7o da doen\u00e7a, a pasta definiu que, at\u00e9 2019, todo o pa\u00eds ter\u00e1 recomenda\u00e7\u00e3o para a vacina.<\/p>\n<p>Buss explica que, diferente de outras doen\u00e7as infecciosas, hoje a febre amarela n\u00e3o tem na falta de acesso ao saneamento um fator importante para sua expans\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Doen\u00e7as como a dengue deixam mais vulner\u00e1veis popula\u00e7\u00f5es sem \u00e1gua encanada ou recolhimento regular de lixo, por exemplo. A falta de saneamento facilita a prolifera\u00e7\u00e3o do mosquito\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>. Mas, como a febre amarela no pa\u00eds hoje \u00e9 a silvestre, n\u00e3o se estabelece uma rela\u00e7\u00e3o direta com o saneamento&#8221;, afirma o sanitarista.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">4. Doen\u00e7a negligenciada<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14044\/production\/_100888918_febre_amarela_010.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14044\/production\/_100888918_febre_amarela_010.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Crian\u00e7as e fam\u00edlias observam vacina\u00e7\u00e3o realizada com o apoio da Pol\u00edcia Militar, no Par\u00e1\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as e fam\u00edlias observam vacina\u00e7\u00e3o realizada com o apoio da Pol\u00edcia Militar, no Par\u00e1 &#8211; Direito de imagem\u00a0ASCOM \/ POL\u00cdCIA MILITAR\/ PA &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Para o sanitarista Paulo Buss, vacina\u00e7\u00e3o mitiga o efeito das desigualdades na expans\u00e3o da febre amarela<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Doen\u00e7as negligenciadas&#8221; s\u00e3o aquelas que, apesar de prejudicarem milh\u00f5es de pessoas pelo mundo, possuem investimentos reduzidos em pesquisas, produ\u00e7\u00e3o de medicamentos e vacinas &#8211; pelo pouco interesse que despertam na ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n<p>Elas costumam ser end\u00eamicas em popula\u00e7\u00f5es de baixa renda, sobretudo na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina &#8211; s\u00e3o doen\u00e7as negligenciadas de popula\u00e7\u00f5es negligenciadas, e que muitas vezes foram erradicadas ou controladas em pa\u00edses desenvolvidos. A pr\u00f3pria OMS reconhece que a ocorr\u00eancia dessas doen\u00e7as &#8220;est\u00e1 ligada a uma associa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias determinantes sociais e em parte porque essas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o de atrair a aten\u00e7\u00e3o de tomadores de decis\u00e3o para os seus problemas e atrair recursos&#8221; (no estudo\u00a0<i>Doen\u00e7as tropicais negligenciadas: igualdade e determinantes sociais<\/i>, de Jens Aagaard-Hansen e Claire Lise Chaignat).<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) lista 20 doen\u00e7as negligenciadas, entre elas dengue, doen\u00e7a de Chagas, esquistossomose, hansen\u00edase, mal\u00e1ria, tuberculose e doen\u00e7a do sono.<\/p>\n<p>A febre amarela n\u00e3o est\u00e1 na lista da OMS, mas, segundo Carolina Batista, do DNDi, o conceito \u00e9 din\u00e2mico e est\u00e1 em constante reavalia\u00e7\u00e3o. Para ela, a febre amarela tem todas as caracter\u00edsticas de uma doen\u00e7a negligenciada.<\/p>\n<p>Entre elas, est\u00e1 o fato de ser uma doen\u00e7a tropical e infecciosa. Segundo Batista, apesar de ter uma vacina de comprovada excel\u00eancia &#8211; produzida pela Fiocruz -, esta n\u00e3o passou por inova\u00e7\u00f5es recentes. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 um protocolo de tratamento espec\u00edfico para a febre amarela.<\/p>\n<p>&#8220;O arsenal terap\u00eautico para o tratamento da febre amarela \u00e9 limitado. A abordagem \u00e9 pelo controle dos sintomas e limita\u00e7\u00e3o de complica\u00e7\u00f5es, como as que podem vir a afetar o f\u00edgado&#8221;, aponta a m\u00e9dica.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Mariana Alvim d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 23\/04\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao se despedir do ver\u00e3o, \u00e9poca mais prop\u00edcia para a expans\u00e3o da febre amarela, o Brasil come\u00e7a a fazer um balan\u00e7o de como a doen\u00e7a se manifestou na popula\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos meses. Segundo o mais recente boletim do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, de julho de 2017 ao in\u00edcio de abril de 2018 foram confirmados 1.127 casos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":20434,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-23951","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/febre-1.jpg?fit=640%2C407&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23951"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23951\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}