{"id":24367,"date":"2018-05-04T00:02:02","date_gmt":"2018-05-04T03:02:02","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=24367"},"modified":"2018-05-04T06:57:37","modified_gmt":"2018-05-04T09:57:37","slug":"por-que-os-casos-de-malaria-cresceram-50-no-brasil-apos-6-anos-de-queda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/05\/04\/por-que-os-casos-de-malaria-cresceram-50-no-brasil-apos-6-anos-de-queda\/","title":{"rendered":"Por que os casos de mal\u00e1ria cresceram 50% no Brasil ap\u00f3s 6 anos de queda"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><figcaption class=\"media-caption\"><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Equipado com microsc\u00f3pios e medicamentos, um barco deixa a \u00e1rea urbana de Bagre, no Par\u00e1, rumo aos povoados da cidade localizados no meio da floresta amaz\u00f4nica &#8211; o mais distante deles, a 18 horas de viagem. O objetivo da viagem \u00e9 combater a mal\u00e1ria, que voltou a crescer. De um ano para outro, o n\u00famero de casos no munic\u00edpio subiu impressionantes 5160% &#8211; de 129, em 2016, para 6789, em 2017.<\/p>\n<p>Na viagem, a embarca\u00e7\u00e3o margeia a floresta praticamente intocada. Ao chegar a comunidades ribeirinhas, os agentes de sa\u00fade desembarcam e v\u00e3o de encontro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Se observam casos suspeitos de mal\u00e1ria, fazem um pequeno furo no dedo do paciente para coletar sangue. Em seguida, levam o material para os microscopistas que aguardam no barco. Em cerca de 20 minutos, sai o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>&#8220;Em uma dessas travessias at\u00e9 o povoado mais distante, em mar\u00e7o, paramos em cerca de 30 comunidades, ao longo de 10 dias. Coletamos em torno de 700 l\u00e2minas, 50 deram positivo&#8221;, diz Jos\u00e9 Pinheiro Maia, diretor de endemias de Bagre. Para ter uma ideia, a cidade paulista de Campinas, que foi a mais afetada das regi\u00f5es Sul-Sudeste, registrou 14 casos ao longo de todo o ano passado. A maioria dos casos ocorre na zona rural, em \u00e1reas pr\u00f3ximas da floresta.<\/p>\n<p>Bagre \u00e9 um dos casos mais agudos de um fen\u00f4meno que atinge todo o Brasil, particularmente a Amaz\u00f4nia. Em 2017, o n\u00famero de casos de mal\u00e1ria subiu 50% no pa\u00eds, chegando a 194 mil ocorr\u00eancias. O crescimento ocorreu depois de seis anos de queda &#8211; em 2016, o Brasil registrou o menor n\u00famero de casos em 37 anos, o que foi visto como um grande sucesso no combate \u00e0 mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas em maio do ano passado o cen\u00e1rio mudou: a mal\u00e1ria voltou a crescer. O pico do aumento ocorreu em setembro, quando o n\u00famero de casos dobrou em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas do ano anterior. Este ano, a alta continua. Em fevereiro, o \u00faltimo m\u00eas com dados dispon\u00edveis, o aumento era de 48% em compara\u00e7\u00e3o com um ano antes.<\/p>\n<p>A mal\u00e1ria \u00e9 uma doen\u00e7a febril, transmitida pela picada de um mosquito infectado pelo Plasmodium, um parasita. No Brasil, a principal forma da doen\u00e7a \u00e9 a vivax, mais branda, que oferece pouco risco de morte, ao contr\u00e1rio da forma mais comum nos pa\u00edses africanos. Por aqui, 99% dos casos s\u00e3o registrados na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Os maiores aumentos ocorreram no Par\u00e1 (153%), Amazonas (65%) e Roraima (56%). Embora grande parte do territ\u00f3rio desses Estados apresente casos de mal\u00e1ria, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave mesmo em um n\u00famero muito pequeno de cidades. Apenas 25 munic\u00edpios concentram 9 de cada 10 casos extras da doen\u00e7a registrados no ano passado. Bagre est\u00e1 no topo da lista, com 6,6 mil casos a mais.<\/p>\n<p>Maia, o diretor de endemias de Bagre, pegou mal\u00e1ria duas vezes nos \u00faltimos seis meses. Antes disso, o paraense de 60 anos s\u00f3 tinha contra\u00eddo a doen\u00e7a uma vez na vida, h\u00e1 muitos anos. Em dezembro, ele ficou doente ap\u00f3s uma visita ao filho que vive na zona rural de Bagre &#8211; esse filho, a nora e os cinco netos tamb\u00e9m pegaram mal\u00e1ria. Em mar\u00e7o, adoeceu novamente, ap\u00f3s uma das viagens de barco para combater o surto da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Nas viagens, a gente dorme dentro do barco, em redes com mosquiteiro, usa repelente, tenta vestir roupa comprida. Mesmo assim, a gente n\u00e3o escapa&#8221;, diz Maia. &#8220;Mal\u00e1ria \u00e9 muito ruim. D\u00e1 muita febre, muito tremor. Tenho medo de pegar de novo, mas a gente vai ter que tratar do povo e ir para as \u00e1reas de mal\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p>Mas o que fez Bagre e a Amaz\u00f4nia brasileira passarem de um cen\u00e1rio de queda cont\u00ednua para uma alta t\u00e3o grande? &#8220;Essa \u00e9 uma pergunta um pouco complicada&#8221;, resume Marcus Lacerda, m\u00e9dico infectologista da Funda\u00e7\u00e3o de Medicina Tropical, sediada em Manaus. A BBC Brasil entrevistou cinco especialistas brasileiros em mal\u00e1ria para tentar entender o que est\u00e1 por tr\u00e1s do surto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4C50\/production\/_101163591_grafico_malaria.jpg?resize=615%2C419&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico mostra n\u00famero de casos de mal\u00e1ria de 2007 a 2017\" width=\"615\" height=\"419\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">BBC BRASIL<\/span><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Fragilidades do programa de combate \u00e0 mal\u00e1ria<\/h2>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o definitiva, apenas hip\u00f3teses. Uma delas, \u00e9 que a mal\u00e1ria est\u00e1 aumentando no mundo todo, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, por algum motivo ainda desconhecido. Em 2016, os casos de mal\u00e1ria subiram 2% nos 91 pa\u00edses analisados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade. Ainda n\u00e3o h\u00e1 dados de 2017.<\/p>\n<p>A principal hip\u00f3tese apresentada pelos especialistas, contudo, est\u00e1 dentro dos limites e do controle nacionais: a perda da import\u00e2ncia da mal\u00e1ria em todos os n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8211; federal, estadual e municipal. Como a doen\u00e7a vinha caindo havia seis anos, parecia estar sob controle. Isso teria feito o poder p\u00fablico baixar a guarda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, enquanto a mal\u00e1ria ca\u00eda, o Brasil foi assolado por surtos de doen\u00e7as infecciosas t\u00edpicos de zonas urbanas, como dengue, zika e chikungunya, que mobilizaram a opini\u00e3o p\u00fablica. O foco, ent\u00e3o, teria mudado.<\/p>\n<p>&#8220;A mal\u00e1ria atinge uma popula\u00e7\u00e3o rural, que tem pouca capacidade de reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dengue, zika, chikungunya atingem popula\u00e7\u00e3o urbana, que reivindica mais. Ent\u00e3o, houve a troca de um pelo outro (nas pol\u00edticas p\u00fablicas)&#8221;, diz Pedro Tauil, m\u00e9dico epidemiologista e professor da Universidade Nacional de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;A perda de prioridade pol\u00edtica da mal\u00e1ria gera perda de recursos humanos e materiais, e diminuiu a capacidade de controle da doen\u00e7a. Mas, no caso da mal\u00e1ria, n\u00e3o basta diminuir a incid\u00eancia. Se afrouxar as medidas de controle antes de eliminar a doen\u00e7a, a mal\u00e1ria volta&#8221;, continua Tauil.<\/p>\n<p>Para entender o que Tauil quer dizer com isso, \u00e9 preciso conhecer como funciona o ciclo da mal\u00e1ria. O parasita Plasmodium tem dois hospedeiros: o ser humano e o mosquito Anopheles. A doen\u00e7a \u00e9 transmitida quando a f\u00eamea do mosquito infectado pica uma pessoa. E como o mosquito fica infectado? Quando pica uma pessoa com mal\u00e1ria, em um determinado momento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ou seja, o ciclo \u00e9 do mosquito para a pessoa e da pessoa para o mosquito. Mas, quando o doente recebe tratamento, deixa de infectar o mosquito. A\u00ed, o ciclo para.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, s\u00f3 h\u00e1 aumento de casos de mal\u00e1ria quando h\u00e1 falha na identifica\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo infectado. Nesse caso, ele continua sendo uma fonte de infec\u00e7\u00e3o para o mosquito&#8221;, explica Jess\u00e9 Reis Alves, infectologista do Instituto Em\u00edlio Ribas, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;A gente acredita que o aumento esteja relacionado \u00e0 fragilidade de medidas de controle&#8221;, opina T\u00e2nia Chaves, do Instituto Evandro Chagas, do Par\u00e1. Reis Alves concorda que a mal\u00e1ria pode ter aumentado porque o controle diminuiu e avalia que isso ocorreu porque &#8220;muitas das a\u00e7\u00f5es que vinham sendo feitas de forma coordenada acabaram sendo desmontadas&#8221;.<\/p>\n<div class=\"responsive-table-container\">\n<table class=\"story-table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>AS 10 CIDADES COM MAIS MAL\u00c1RIA EM 2017<\/strong><\/td>\n<td><strong>N\u00daMERO DE CASOS<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"story-table__row__even\">\n<td>Cruzeiro do Sul (AC)<\/td>\n<td>21.416<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Manaus (AM)<\/td>\n<td>13.595<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"story-table__row__even\">\n<td>S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (AM)<\/td>\n<td>12.274<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>M\u00e2ncio Lima (AC)<\/td>\n<td>9.278<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"story-table__row__even\">\n<td>Barcelos (AM)<\/td>\n<td>8.129<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Santa Isabel do Rio Negro (AM)<\/td>\n<td>7.581<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"story-table__row__even\">\n<td>Bagre (PA)<\/td>\n<td>6.789<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Oeiras do Par\u00e1 (PA)<\/td>\n<td>5.675<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"story-table__row__even\">\n<td>Anaj\u00e1s (PA)<\/td>\n<td>5.585<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Coari (AM)<\/td>\n<td>4.519<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p>A BBC Brasil ouviu cr\u00edticas un\u00e2nimes \u00e0 fus\u00e3o dos departamentos de mal\u00e1ria com os de dengue, zika e chikungunya no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, ocorrida em novembro de 2016, vista por especialistas como sinal da perda de import\u00e2ncia da mal\u00e1ria no \u00e2mbito federal. A pasta nega que a mudan\u00e7a tenha resultado em qualquer preju\u00edzo. Por outro lado, n\u00e3o tem um diagn\u00f3stico do que provocou o aumento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o tem um diagn\u00f3stico espec\u00edfico. O que a gente observa \u00e9 que h\u00e1 munic\u00edpios que diminu\u00edram (os casos de mal\u00e1ria) e outros que aumentaram. A gente est\u00e1 indo a essas localidades para identificar o que est\u00e1 acontecendo. Ainda n\u00e3o temos o relat\u00f3rio pronto&#8221;, afirma Osnei Okumoto, secret\u00e1rio de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Especialistas tamb\u00e9m apontam fragilidades nas pol\u00edticas municipais. &#8220;As pessoas praticamente n\u00e3o morrem mais por mal\u00e1ria no Brasil. Ent\u00e3o, (a doen\u00e7a) deixa de ser prioridade para as prefeituras. Elas deixam de investir em pessoal e equipamento. Naturalmente, o programa de controle vai entrando em uma fadiga&#8221;, afirma Marcus Lacerda, da Funda\u00e7\u00e3o de Medicina Tropical.<\/p>\n<p>&#8220;As a\u00e7\u00f5es essenciais de controle de mal\u00e1ria cabem aos munic\u00edpios. Mas isso \u00e9 uma carga enorme para eles, que t\u00eam uma grande depend\u00eancia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, do ponto de vista t\u00e9cnico, log\u00edstico e financeiro&#8221;, afirma Marcelo Urbano Ferreira, m\u00e9dico especialista em parasitologia, do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da USP.<\/p>\n<p>\u00c9 o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que estabelece as diretrizes do combate \u00e0 mal\u00e1ria e distribui medicamentos e inseticidas. Tamb\u00e9m pode oferecer recursos extras em caso de crise. Para a regi\u00e3o de Bagre, por exemplo, a pasta prometeu o envio de ajuda, segundo o secret\u00e1rio de sa\u00fade de Oeiras do Par\u00e1, cidade vizinha, que teve o segundo maior aumento absoluto de casos do pa\u00eds. O dinheiro, que seria usado para pagar combust\u00edvel dos barcos e equipamentos para fazer os testes, ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n<p>&#8220;Uma viagem dessa que a gente faz para essa comunidade mais distante de Bagre chega a custar R$ 7 mil. \u00c9 muito caro para o munic\u00edpio, a nossa renda n\u00e3o \u00e9 tanto&#8221;, diz Jos\u00e9 Maia, o respons\u00e1vel pelo combate \u00e0 mal\u00e1ria no local.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E7C8\/production\/_101163395_whatsappimage2018-05-03at15.52.26.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E7C8\/production\/_101163395_whatsappimage2018-05-03at15.52.26.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Homem observa l\u00e2mina de exame de mal\u00e1ria no microsc\u00f3pio, em um barco equipado para fazer atendimento de sa\u00fade em Bagre (PA)\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0DIVULGA\u00c7\u00c3O\/SECRETARIA DE SA\u00daDE DE BAGRE (PA) Image caption\u00a0Homem observa l\u00e2mina de exame de mal\u00e1ria no microsc\u00f3pio, em um barco equipado para fazer atendimento de sa\u00fade em Bagre (PA)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Erradica\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria no Brasil<\/h2>\n<p>No Brasil, nem sempre a mal\u00e1ria foi uma doen\u00e7a da Amaz\u00f4nia. Nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, &#8220;havia mal\u00e1ria em todo o territ\u00f3rio nacional&#8221;, explica Ferreira. &#8220;O fato de ter ficado restrita \u00e0 Amaz\u00f4nia \u00e9 o resultado do sucesso parcial da campanha de erradica\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria no pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, o combate \u00e0 doen\u00e7a \u00e9 mais dif\u00edcil. Primeiro, h\u00e1 uma abund\u00e2ncia maior do mosquito da mal\u00e1ria. Segundo, as pessoas est\u00e3o muito dispersas no territ\u00f3rio rural e \u00e9 mais complicado chegar at\u00e9 elas para trat\u00e1-las. Al\u00e9m disso, a expans\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, promovida durante o per\u00edodo militar, elevou o n\u00famero de casos da doen\u00e7a, segundo o especialista em parasitologia.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia foi que, &#8220;nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, a coisa explodiu na Amaz\u00f4nia. Em 1970, eram cerca de 50 mil casos. Em 1985, passamos para cerca de 500 mil. Ficamos por muito tempo em um patamar elevado, a\u00ed come\u00e7ou a declinar de novo&#8221;, por volta de 2008, diz Ferreira.<\/p>\n<p>E agora, voltou a subir. As not\u00edcias s\u00e3o ruins, mas no comunicado publicado na p\u00e1gina do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no Dia Mundial de Luta contra a Mal\u00e1ria, no final de abril, o destaque foi a queda dos casos em rela\u00e7\u00e3o a um per\u00edodo em que a doen\u00e7a ainda estava nas suas fases mais altas: &#8220;No ano passado, foram notificados 194 mil casos, uma redu\u00e7\u00e3o de 57% nos \u00faltimos 10 anos. Em 2007, foram 459 mil casos&#8221;, publicou a pasta. Nenhuma men\u00e7\u00e3o ao aumento de 50% entre 2016 e 2017.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto estamos discutindo o aumento de mal\u00e1ria, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade coloca em sua p\u00e1gina not\u00edcia de queda no n\u00famero de casos. \u00c9 falsa, esconde parte dos n\u00fameros&#8221;, critica Ferreira.<\/p>\n<p>Ferreira acredita que o Brasil precisa buscar a erradica\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria. Lacerda, da Funda\u00e7\u00e3o de Medicina Tropical, concorda: &#8220;A gente tem que perseguir algo mais s\u00f3lido no Brasil. Precisamos pensar em eliminar a mal\u00e1ria. \u00c9 uma doen\u00e7a erradic\u00e1vel. Mas, para isso, os esfor\u00e7os tem que ser intensificados. Quando cai o n\u00famero de casos de mal\u00e1ria, o gestor p\u00fablico n\u00e3o pode entender que tem que diminuir o volume de dinheiro para essa doen\u00e7a. S\u00f3 pode se contentar quando erradicar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A erradica\u00e7\u00e3o pode come\u00e7ar por munic\u00edpios que t\u00eam poucos casos. Se voc\u00ea deixa uma mal\u00e1ria residual e o programa de combate falha, como agora, esses casos residuais podem virar um novo surto. Basta uma pessoa para reiniciar o ciclo&#8221;, explica. &#8220;Quando a erradica\u00e7\u00e3o acontecer, a\u00ed n\u00e3o vou mais me preocupar com doen\u00e7a do passado. Na Amaz\u00f4nia, o que gostar\u00edamos \u00e9 que pud\u00e9ssemos usar os recursos da sa\u00fade com doen\u00e7as de popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 envelhecendo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo foi perdido? Acho que n\u00e3o, mas \u00e9 um alerta. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem que dar uma resposta a isso&#8221;, fala o infectologista Jess\u00e9 Reis Alves, do Instituto Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15CF8\/production\/_101163398_gettyimages-914145490.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15CF8\/production\/_101163398_gettyimages-914145490.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra hem\u00e1ceas infectadas por parasita da mal\u00e1ria\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES &#8211;\u00a0Image caption\u00a0Ilustra\u00e7\u00e3o mostra hem\u00e1ceas infectadas por parasita da mal\u00e1ria<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Febre, calafrios, tremores, suores<\/h2>\n<p>Depois que o mosquito infectado pica uma pessoa, os parasitas v\u00e3o primeiramente para o f\u00edgado. Nessa fase da doen\u00e7a, o doente pode sentir cansa\u00e7o, fadiga e n\u00e1usea. Depois, os parasitas caem na corrente sangu\u00ednea e v\u00e3o parasitar as hem\u00e1cias &#8211; c\u00e9lulas do sangue tamb\u00e9m conhecidas por gl\u00f3bulos vermelhos.<\/p>\n<p>Quando as hem\u00e1cias est\u00e3o extremamente parasitadas, se rompem. \u00c9 quando aparecem os principais sintomas da mal\u00e1ria &#8211; febre alta, calafrios, tremores, suores excessivos e dor de cabe\u00e7a. No come\u00e7o, os sintomas podem ser di\u00e1rios. Depois, podem aparecer de forma c\u00edclica, a cada dois ou tr\u00eas dias, por exemplo.<\/p>\n<p>Em casos graves, o paciente pode ter altera\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, ficar prostrado, ter convuls\u00e3o, hemorragia.<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1 duas esp\u00e9cies mais importantes de Plasmodium, o protozo\u00e1rio que provoca a mal\u00e1ria: o falciparum e o vivax. O vivax representou 90% dos casos de 2017. \u00c9 tamb\u00e9m o menos nocivo, atingindo menos de 1% das hem\u00e1cias. Raramente \u00e9 mortal.<\/p>\n<p>O maior problema da mal\u00e1ria vivax \u00e9 que demanda um tratamento mais longo, com administra\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios de 7 a 14 dias. Mas, muitas vezes as pessoas param antes, quando sentem os sintomas melhorarem. Quando isso acontece, o parasita pode permanecer no corpo.<\/p>\n<p>Para lidar com a baixa ader\u00eancia, uma medica\u00e7\u00e3o em dose \u00fanica est\u00e1 em desenvolvimento e pode ser testada no Brasil nos pr\u00f3ximos anos. &#8220;O Brasil \u00e9 o primeiro lugar onde vamos testar esse rem\u00e9dio. Se funcionar, ser\u00e1 levado para outras regi\u00f5es do mundo&#8221;, conta Lacerda.<\/p>\n<p>J\u00e1 o falciparum, \u00e9 menos comum no Brasil e em toda Am\u00e9rica Latina, mas mais frequente na \u00c1frica. Em 2017, foram 21 mil casos desse tipo de mal\u00e1ria no pa\u00eds, 37% mais que em 2016. Em quadros graves, pode acometer at\u00e9 25% das hem\u00e1cias, causando um quadro de anemia grave e podendo provocar morte.<\/p>\n<p>O tratamento da mal\u00e1ria \u00e9 feito com rem\u00e9dios espec\u00edficos, que eliminam o parasita do corpo. No Brasil, eles n\u00e3o s\u00e3o vendidos em farm\u00e1cia, apenas distribu\u00eddos pela rede p\u00fablica depois da detec\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. \u00c9 uma forma de regular o uso e evitar o surgimento de uma resist\u00eancia ao medicamento. \u00c9 extremamente importante tomar a medica\u00e7\u00e3o conforme indicado e n\u00e3o abandonar o tratamento antes do tempo.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 teve mal\u00e1ria, n\u00e3o est\u00e1 imune, pode ter diversas outras vezes. O que pode acontecer \u00e9 que a pessoa conquiste uma certa imunidade, que atenue os sintomas de uma pr\u00f3xima infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mosquitos s\u00e3o mais frequentes entre o entardecer e o amanhecer. Durante \u00e0 noite, tamb\u00e9m picam, mas menos.<\/p>\n<p>Para se prevenir, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade recomenda usar mosquiteiros impregnados com inseticida (distribu\u00eddos pelas autoridades de sa\u00fade), colocar telas em portas e janelas e usar repelentes.<\/p>\n<p>Entre as medidas que podem ser tomadas por agentes p\u00fablicos est\u00e3o o borrifo de inseticidas duradouros nas paredes internas das casas &#8211; assim, depois de picar uma pessoa infectada, o mosquito pousa na parede e morre &#8211; e a\u00e7\u00f5es para eliminar criadouros. N\u00e3o existe vacina contra a mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8220;A forma de prote\u00e7\u00e3o \u00e9, basicamente, evitar que o mosquito pique &#8211; como dormir embaixo de mosquiteiro, usar roupas de mangas longas e repelentes. Isso funciona mais para quem vai ficar temporariamente em \u00e1rea de risco. Mas, na realidade de quem vive na Amaz\u00f4nia, \u00e9 muito dif\u00edcil fazer isso o tempo todo. A\u00ed, (o controle) \u00e9 basicamente ter acesso a sistema de sa\u00fade&#8221;, fala Reis Alves, que tamb\u00e9m coordena o N\u00facleo de Medicina do Viajante do Instituto Em\u00edlio Ribas.<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-43720715\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Da contamina\u00e7\u00e3o ao tratamento, o papel da desigualdade no atual surto de febre amarela no pa\u00eds<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Amanda Rossi d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 04\/05\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Equipado com microsc\u00f3pios e medicamentos, um barco deixa a \u00e1rea urbana de Bagre, no Par\u00e1, rumo aos povoados da cidade localizados no meio da floresta amaz\u00f4nica &#8211; o mais distante deles, a 18 horas de viagem. 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