{"id":24372,"date":"2018-05-04T00:05:17","date_gmt":"2018-05-04T03:05:17","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=24372"},"modified":"2018-05-04T07:07:49","modified_gmt":"2018-05-04T10:07:49","slug":"o-amargo-sabor-de-ser-uma-candidata-laranja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/05\/04\/o-amargo-sabor-de-ser-uma-candidata-laranja\/","title":{"rendered":"O amargo sabor de ser uma candidata-laranja"},"content":{"rendered":"<p class=\"intro\">Mulheres registradas por partidos somente devido a lei que exige 30% de candidaturas femininas relatam desde amea\u00e7as a preju\u00edzos morais. Algumas concorrem sem ter chances, e outras t\u00eam mandato exercido por familiar.<\/p>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Flaviane de Souza Oliveira, de 38 anos, concluiu o curso de Direito numa universidade particular do Paran\u00e1, mas, ao contr\u00e1rio de seus colegas, n\u00e3o vai se inscrever na Ordem dos Advogados do Brasil. Tampouco vai prestar concurso p\u00fablico. Desempregada, ter\u00e1 que esperar at\u00e9 2019 para p\u00f4r em pr\u00e1tica tudo o que aprendeu na faculdade, pois, mesmo tendo votado corretamente, n\u00e3o est\u00e1 em dia com a Justi\u00e7a Eleitoral.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 o que o Tribunal Superior Eleitoral e especialistas chamam de &#8220;candidatas-laranja&#8221;, mulheres que s\u00e3o usadas apenas para cumprir a cota de candidaturas femininas prevista na legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Aprovada em 1997, a Lei Eleitoral 9.504\u00a0estabelece que, para as candidaturas aos cargos do Legislativo, &#8220;cada partido ou coliga\u00e7\u00e3o preencher\u00e1 o m\u00ednimo de 30% e o m\u00e1ximo de 70% para candidaturas de cada sexo&#8221;. Ou seja, a chamada &#8220;lei de cotas&#8221;\u00a0n\u00e3o determina\u00a0que necessariamente o menor percentual seja de mulheres, mas \u00e9 isso\u00a0o que ocorre na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha 33 anos, e um senhor apareceu no meu sal\u00e3o de beleza pedindo ajuda para a comunidade. Eu nunca o tinha visto na vida, mas ele me convenceu a ajud\u00e1-lo&#8221;, conta Oliveira. &#8220;Ele tirou c\u00f3pias dos documentos e me levou uns pap\u00e9is que assinei. Nunca mexi com isso, pois fiquei doente,\u00a0tive que tirar um n\u00f3dulo do seio, e esqueci.&#8221;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se lembrava com exatid\u00e3o do nome do partido e do cargo para o qual havia se candidatado: deputada estadual pelo PSDC em 2014. Apenas quando foi renovar o passaporte e buscou a quita\u00e7\u00e3o eleitoral, descobriu que a presta\u00e7\u00e3o de contas de sua candidatura n\u00e3o havia sido feita\u00a0e que, por isso, seu t\u00edtulo de eleitor estava cancelado.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca imaginei que meu nome estivesse l\u00e1 em Bras\u00edlia. Liguei para todas as pessoas que podia, falei com a minha professora de Direito Eleitoral e descobri que estava ferrada. N\u00e3o recebi um real, mas mesmo assim tinha que prestar contas&#8221;, explica ela, que soube da fraude somente no final de 2017.<\/p>\n<p>&#8220;Estou com o nome sujo sem dever nada. N\u00e3o posso prestar concurso p\u00fablico\u00a0nem tirar minha OAB. Todas as minhas portas est\u00e3o fechadas. N\u00e3o posso votar, renovar passaporte, viajar, nada. Espero primeiro a justi\u00e7a divina, pois sei que n\u00e3o tenho como mexer com peixe grande da pol\u00edtica como eles. N\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de bancar advogados, nada. E, agora, o que me orientaram \u00e9 esperar at\u00e9 o fim do mandato para que meu processo seja arquivado&#8221;, afirma a advogada.<\/p>\n<p>O caso dela n\u00e3o \u00e9 raridade nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras: de acordo com o TSE, em 2016, 89,3% dos candidatos sem nenhum voto eram mulheres. A promotora Vera L\u00facia Taberti, de S\u00e3o Paulo, entrevistou mais de 300 mulheres que se candidataram em 2016 e tiveram poucos votos ou poucos recursos financeiros.<\/p>\n<p>&#8220;Deparei-me com situa\u00e7\u00f5es inesperadas, como a de uma mulher que entrou num diret\u00f3rio de um partido para pedir \u00e1gua e a convenceram a ser candidata&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em outro caso, uma mulher a procurou no Minist\u00e9rio P\u00fablico dizendo que a m\u00e3e havia recebido uma intima\u00e7\u00e3o para prestar contas. &#8220;A senhora tinha esquizofrenia e n\u00e3o tinha qualquer condi\u00e7\u00e3o de se candidatar. Os laudos que a filha trouxe provavam isso&#8221;, conta.<\/p>\n<div class=\"picBox full rechts \"><a class=\"overlayLink init\" href=\"http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-amargo-sabor-de-ser-uma-candidata-laranja\/a-43632789#\" rel=\"nofollow\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.dw.com\/image\/37854365_401.png?resize=696%2C392\" alt=\"Candidatos que n\u00e3o receberam nenhum voto nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><\/div>\n<p><strong>&#8220;Separei uma vaga para voc\u00ea\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A advogada Karina Kufa,\u00a0coordenadora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Direito Eleitoral do IDP-SP, divide as candidatas-laranja\u00a0em dois tipos.\u00a0&#8220;H\u00e1 as que concorrem sem ter chances, e as que se elegem, mas cujo mandato \u00e9 exercido pelo marido, pai ou outro homem da fam\u00edlia. De todo modo, \u00e9 uma grave viol\u00eancia contra a mulher&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Para cumprir a chamada &#8220;lei de cotas&#8221;, os partidos chegam a buscar mulheres na v\u00e9spera do per\u00edodo de registro eleitoral. Foi o que aconteceu com Juliana Silveira*.\u00a0Indicada por um parente, ela ocupava um cargo de confian\u00e7a na\u00a0prefeitura de Castanhal, na regi\u00e3o metropolitana de Bel\u00e9m, em 2008, quando foi convocada a se candidatar.<\/p>\n<p>&#8220;Quando chegou o per\u00edodo eleitoral, como n\u00e3o completaram a cota de mulheres, este meu familiar, que at\u00e9 hoje \u00e9 deputado estadual, pediu que eu fosse visit\u00e1-lo em seu gabinete&#8221;, conta.\u00a0&#8220;Foi quando me disse que eu deveria me candidatar. As palavras dele foram exatamente estas: &#8216;Separei uma vaga para voc\u00ea&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Silveira alegou que estava na faculdade e n\u00e3o tinha qualquer condi\u00e7\u00e3o de se candidatar.\u00a0&#8220;Ele disse o seguinte: &#8216;Voc\u00ea sabe, n\u00e9? L\u00e1 fora tem muitas outras pessoas querendo esta vaga de emprego que voc\u00ea ocupa hoje'&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Amea\u00e7ada, a ent\u00e3o estudante n\u00e3o tinha outra coisa a fazer sen\u00e3o concorrer. Registrou sua candidatura a vereadora pelo DEM no prazo limite\u00a0e teve apenas nove votos.<\/p>\n<p>&#8220;Ele n\u00e3o era apenas algu\u00e9m que tinha poder sobre o meu cargo, mas tamb\u00e9m\u00a0um grau de parentesco. Sinto vergonha? Sim. Mas precisava do emprego para pagar a faculdade&#8221;, conta ela, que hoje \u00e9 advogada e tem 37 anos. &#8220;Me desvinculei do partido e de qualquer rela\u00e7\u00e3o familiar com ele.&#8221;<\/p>\n<p>Para Hannah Maruci Aflalo,\u00a0cientista pol\u00edtica e pesquisadora do Grupo de Estudos de G\u00eanero e Pol\u00edtica da USP,\u00a0as candidatas-laranja\u00a0representam uma falha na democracia brasileira.<\/p>\n<p>&#8220;Se entendemos a democracia como governo do povo, que traz uma ideia de igualdade, o fato de termos partidos que burlam a lei ao inv\u00e9s de cumpri-la mostra que h\u00e1 algo muito errado&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Eu posso ser soldado, mas n\u00e3o sou soldado besta&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Nem todas as candidaturas laranjas s\u00e3o oferecidas ou impostas \u00e0s mulheres, como ocorreu com Oliveira e Silveira. A empres\u00e1ria Joelma Luz era filiada ao PTdoB quando decidiu se candidatar a deputada estadual no Esp\u00edrito Santo, em 2006.<\/p>\n<p>&#8220;Coloquei meu nome \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do partido. Trabalhei meu lado\u00a0psicol\u00f3gico, conversei com a minha fam\u00edlia, me preparei para a elei\u00e7\u00e3o. Mas, na hora de compor a chapa, deixaram bem claro que eu seria uma candidata fict\u00edcia, sem ter acesso ao fundo partid\u00e1rio e que estava ali s\u00f3 para ajudar o partido&#8221;, conta Luz.<\/p>\n<p>&#8220;Estava em pr\u00e9-campanha e me preparei, mas quando vi que o jogo era diferente do que eu havia desenhado, decidi sair. Eu queria concorrer mas n\u00e3o haveria qualquer chance dentro do partido&#8221;, diz. &#8220;Ainda fizeram press\u00e3o psicol\u00f3gica, dizendo que eu deveria ajudar o partido, que deveria ser \u2018soldado e lutar a guerra&#8217;. Falei que era soldado, mas que n\u00e3o era soldado besta.&#8221;<\/p>\n<p>Aos 46 anos, Luz n\u00e3o desistiu da vida pol\u00edtica e hoje \u00e9 filiada \u00e0 Rede. &#8220;Sou assessora parlamentar de um prefeito. Ele inclusive\u00a0me viu nos jornais na \u00e9poca que denunciei aquele abuso [da candidatura laranja]&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Agora fa\u00e7o parte da executiva e minha milit\u00e2ncia \u00e9 para que a mulher seja inclu\u00edda de forma igual na pol\u00edtica. N\u00f3s temos um poder muito grande, e a mulher precisa compreender isso para fazer valer seu espa\u00e7o. Aquela experi\u00eancia amarga eu hoje tento transformar em doce para as outras&#8221;, diz.<\/p>\n<p><em>*O nome foi alterado a pedido da entrevistada.<\/em><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/candidatas-laranja-a-fal%C3%A1cia-da-inclus%C3%A3o-de-mulheres-na-pol%C3%ADtica-brasileira\/a-37851664\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Candidatas-laranja&#8221;: a fal\u00e1cia da inclus\u00e3o de mulheres na pol\u00edtica brasileira<\/a><\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito:\u00a0 Deutsche Welle Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 04\/04\/2018<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres registradas por partidos somente devido a lei que exige 30% de candidaturas femininas relatam desde amea\u00e7as a preju\u00edzos morais. Algumas concorrem sem ter chances, e outras t\u00eam mandato exercido por familiar. 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