{"id":24794,"date":"2018-05-16T05:00:15","date_gmt":"2018-05-16T08:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=24794"},"modified":"2018-05-16T05:02:21","modified_gmt":"2018-05-16T08:02:21","slug":"escolher-morrer-roberto-damatta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/05\/16\/escolher-morrer-roberto-damatta\/","title":{"rendered":"Escolher morrer."},"content":{"rendered":"<h5>Na semana passada comemoramos o Dia das M\u00e3es e os 130 anos do fim da escravid\u00e3o. A pauta da cr\u00f4nica estaria feita, n\u00e3o fosse o desafio de tudo alinhavar com a perturbadora not\u00edcia da morte assistida e programada (esse eufemismo para o suic\u00eddio) de David Goodall, um professor brit\u00e2nico de 104 anos.<\/h5>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>A figura materna \u2014 aquela mulher que nos construiu e abrigou no seu corpo \u2014 \u00e9 um emblema da vida. Ela fala da Virgem Maria, M\u00e3e de Deus, da padroeira do Brasil e da maternidade como a mediadora entre a vida e o nada.<\/p>\n<p>Na minha vida, mam\u00e3e foi libertadora com o seu piano tocado com virtuosidade e amor. Era ela quem, ao entardecer, harmonizava nossa casa.<\/p>\n<p>Entre essa m\u00e3e branca e livre e as m\u00e3es escravas cujos filhos nasciam na iniquidade, h\u00e1 o fosso de uma desumana desigualdade at\u00e9 hoje predominante no Brasil. Muitos de n\u00f3s conhecemos a ternura dessas mulheres na forma de amas de leite e empregadas. Trabalhadores pouco alcan\u00e7ados pelos ressentimentos de classe que tanto t\u00eam marcado este pa\u00eds de privil\u00e9gios e de privilegiados mais conscientes dos seus direitos do que dos seus deveres.<\/p>\n<p>Escravid\u00e3o \u00e9, como disse o soci\u00f3logo de Harvard Orlando Patterson, morte social. Morte n\u00e3o escolhida e, obviamente, evitada como provam as fugas e revoltas de escravos em toda a parte.<\/p>\n<p>Aos 104 anos de uma vida aparentemente bem-sucedida, o velho David Goodall afirma: \u201cEu n\u00e3o desejo mais continuar a vida\u201d e \u2014 eis o que me mobilizou \u2014 \u201cestou muito feliz de ter a oportunidade de termin\u00e1-la.\u201d<\/p>\n<p>Como compreender essa busca da morte?<\/p>\n<p>Como situar tal serenidade num mundo cuja cosmologia afirma a imortalidade como pr\u00eamio e o cerne da salva\u00e7\u00e3o? Num outro mundo, \u00e9 claro. Num mundo onde n\u00e3o h\u00e1 escravid\u00e3o nem maternidades a serem comemoradas porque ningu\u00e9m nasce no \u201coutro mundo\u201d (esse universo das coisas perfeitas e eternas, como disse Plat\u00e3o e repetem os nossos credos).<\/p>\n<p>Surpreendeu-me a morte assistida de um idoso vivendo um est\u00e1gio da exist\u00eancia concebido como de reconcilia\u00e7\u00e3o, no qual a morte f\u00edsica n\u00e3o seria mais t\u00e3o tenebrosa pois, como o pr\u00f3prio Goodall remarcou, a velhice (e disso eu entendo!) nos leva para fora da vida.<\/p>\n<p>O que \u00e9 extraordin\u00e1rio no caso \u00e9 o escolher quando (e como) morrer \u2014 esse apan\u00e1gio dos suicidas que, por mil motivos, exerceram o absurdo de sua liberdade; ou, para ficar mais pr\u00f3ximo de Albert Camus, a liberdade como um absurdo \u2014 como um paradoxo filos\u00f3fico do tamanho de um bonde.<\/p>\n<p>\u00c9mile Durkheim distinguiu dois tipos de suic\u00eddio. O mais conhecido seria o resultado de uma brutal aus\u00eancia de solidariedade. O menos falado e o mais intrigante seria o suic\u00eddio altru\u00edsta ou de honra, feito para reparar a pr\u00f3pria dignidade; ou a honra do grupo maculada pelo suicida, que oferece a pr\u00f3pria vida para reparar o mal que causou. O maior exemplo de altru\u00edsmo \u00e9 o sacrif\u00edcio de Jesus Cristo pela humanidade; e o de Maria e de todas as m\u00e3es que sofrem com a morte daqueles que sa\u00edram do seu corpo.<\/p>\n<p>Num outro plano, o nascimento na iniquidade da escravid\u00e3o levou muitos ao suic\u00eddio. Ao uso de sua liberdade existencial para a morte como uma sa\u00edda e uma escolha. Afinal de contas, \u00e9 melhor morrer do que viver como \u201ccoisa\u201d de um senhor.<\/p>\n<p>A modernidade \u00e9 feita de infinitos direitos individuais que contestam valores criando, por\u00e9m, novas obriga\u00e7\u00f5es. Direitos se ligam a escolhas. E a deveres. Se podemos escolher g\u00eaneros e \u2014 nos limites do bem senso e do rid\u00edculo \u2014 a idade, porque n\u00e3o ter tamb\u00e9m o direito de morrer?<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de David Goodall assombra, mas o direito de morrer \u00e9 aceito nos fumantes inveterados, nos que abusam do \u00e1lcool, nos que comem al\u00e9m da conta e naqueles que s\u00e3o convocados a morrer pela p\u00e1tria ou por uma causa. A convers\u00e3o integral a uma causa suprime a liberdade e a responsabilidade. Da perspectiva da \u201ccausa\u201d, n\u00e3o matamos seres humanos, mas perigosos subversivos. Quem justifica a exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o ideal de pureza ou a liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos. A surdez ideol\u00f3gica sempre conduz ao que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. Nessas estruturas, o mal torna-se t\u00e3o plaus\u00edvel quanto uma mala cheia de dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>Os autocratas sabem tudo \u2014 eles dominam os fatos \u2014 mas n\u00e3o assinam nada&#8230;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o escolhemos a vida, n\u00e3o seria justo poder escolher, como fazem os her\u00f3is, os m\u00e1rtires, os ativistas e os sofredores, a morte?<\/p>\n<p>O ato da morte consciente deve ter acompanhado muitos suicidas. E a nega\u00e7\u00e3o do direito de morrer \u00e9 mais evidente em sistemas nos quais a vida tem que ser suportada a qualquer pre\u00e7o, sem reclama\u00e7\u00e3o e revolta, como o nosso. Algo perfeito num universo escravocrata e paternalista.<\/p>\n<p>O que mais perturba na morte assistida \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que tanto morte quanto a vida s\u00e3o imanentes. Vivemos relacionados aos outros Mas quando n\u00e3o se quer mais viver assim n\u00e3o seria legitimo morrer?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p><strong>Artigo publicado na p\u00e1gina do Jornal O Globo &#8211; dispon\u00edvel na internet 16\/05\/2018<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada comemoramos o Dia das M\u00e3es e os 130 anos do fim da escravid\u00e3o. A pauta da cr\u00f4nica estaria feita, n\u00e3o fosse o desafio de tudo alinhavar com a perturbadora not\u00edcia da morte assistida e programada (esse eufemismo para o suic\u00eddio) de David Goodall, um professor brit\u00e2nico de 104 anos. 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