{"id":25380,"date":"2018-06-02T06:06:21","date_gmt":"2018-06-02T09:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=25380"},"modified":"2018-06-02T09:38:03","modified_gmt":"2018-06-02T12:38:03","slug":"como-o-whatsapp-mobilizou-caminhoneiros-driblou-governo-e-pode-impactar-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/06\/02\/como-o-whatsapp-mobilizou-caminhoneiros-driblou-governo-e-pode-impactar-eleicoes\/","title":{"rendered":"Como o WhatsApp mobilizou caminhoneiros, driblou governo e pode impactar elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Depois de uma insurrei\u00e7\u00e3o popular convocada por SMS em Mo\u00e7ambique, em 2010, da Primavera \u00c1rabe difundida pelo Twitter no Oriente M\u00e9dio, em 2011, e das manifesta\u00e7\u00f5es brasileiras de junho de 2013 impulsionadas pelo Facebook, chegou a vez do WhatsApp ocupar o protagonismo na organiza\u00e7\u00e3o de uma mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A greve dos caminhoneiros, que interditou milhares de trechos de rodovias em todo o pa\u00eds ao longo de dez dias, \u00e9 a maior mobiliza\u00e7\u00e3o mundial j\u00e1 feita pelo WhatsApp, dizem Yasodara C\u00f3rdova, pesquisadora da Escola de Governo de Harvard, nos Estados Unidos, que estuda como os governos lidam com a Internet, e Fabr\u00edcio Benevenuto, professor de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pioneiro na pesquisa de conte\u00fados compartilhados em grupos de WhatsApp. &#8220;A mobiliza\u00e7\u00e3o ocorre por motivos sociais. As redes d\u00e3o uma vaz\u00e3o a esses sentimentos&#8221;, diz Yasodara.<\/p>\n<p>&#8220;Na quarta-feira antes da greve, o (pre\u00e7o do) diesel aumentou. Desci para Santos para levar carga. Quando voltei, o diesel j\u00e1 tinha aumentado. Na sexta, aumentou de novo. A galera se comunicou no WhatsApp e falou: n\u00e3o est\u00e1 dando mais&#8221;, lembra o caminhoneiro Mois\u00e9s de Oliveira, que ficou parado na Rodovia R\u00e9gis Bittencourt, em S\u00e3o Paulo, onde ajudou a organizar um grupo de grevistas, sempre com o celular \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_25381\" aria-describedby=\"caption-attachment-25381\" style=\"width: 320px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/imagem-da-BBC_montagem_whatsapp.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25381 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/imagem-da-BBC_montagem_whatsapp.jpg?resize=320%2C180\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/imagem-da-BBC_montagem_whatsapp.jpg?w=320&amp;ssl=1 320w, https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/imagem-da-BBC_montagem_whatsapp.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25381\" class=\"wp-caption-text\">Algumas das imagens que mais circularam em grupos de WhatsApp sobre a greve de caminhoneiros \/ Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o Projeto Elei\u00e7\u00f5es Sem Fake e grupos de WhatsApp<\/figcaption><\/figure>\n<p>A ess\u00eancia do trabalho do caminhoneiro \u00e9 circular. Isso facilitou que as mensagens se espalhassem rapidamente por diferentes pontos do Brasil. &#8220;A gente viaja o Brasil inteiro e vai conhecendo outros caminhoneiros. Quando chega no posto para dormir, a gente conversa, troca o (n\u00famero de) WhatsApp. A\u00ed, quando chegou a greve, j\u00e1 havia v\u00e1rios grupos montados e a gente distribuiu a informa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Oliveira, de 40 anos, 22 anos deles passados atr\u00e1s do volante do caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O Whatsapp facilitou demais a nossa comunica\u00e7\u00e3o. Antes, a gente era desconhecido (um do outro). Agora, o pessoal faz um v\u00eddeo e, em dois minutos, j\u00e1 espalhou pelo Brasil&#8221;, completa. &#8220;A gente n\u00e3o \u00e9 envolvido com partido pol\u00edtico nenhum. Mas a gente tem a nossa log\u00edstica&#8221;.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quinta-feira, apesar de j\u00e1 n\u00e3o haver mais pontos de interdi\u00e7\u00e3o nas estradas, segundo a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal, os apelos pela continuidade da greve n\u00e3o haviam parado de circular pelo WhatsApp. Eram desde pedidos para caminhoneiros irem at\u00e9 Bras\u00edlia, para que ficassem parados em casa, at\u00e9 convoca\u00e7\u00f5es de protestos nas cidades.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8299\/production\/_101833433_hi047082904.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8299\/production\/_101833433_hi047082904.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Pessoas e carros fazem fila para comprar combust\u00edvel em um posto em Luziania (GO), no s\u00e9timo dia da greve dos caminhoneiros\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pessoas e carros fazem fila para comprar combust\u00edvel em um posto em Luziania (GO), no s\u00e9timo dia da greve dos caminhoneiros.\u00a0Direito de imagem\u00a0REUTERS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Conversas fechadas, criptografadas, sem rastro e em pir\u00e2mide<\/h2>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o por WhatsApp tem caracter\u00edsticas diferentes das feitas por Twitter e Facebook. Os dois \u00faltimos &#8220;s\u00e3o como uma via p\u00fablica, uma pra\u00e7a, onde voc\u00ea abre uma banquinha e as pessoas podem te ver e interagir com voc\u00ea. J\u00e1 o grupo de WhatsApp \u00e9 como a sala de jantar da sua casa, n\u00e3o entra todo mundo&#8221;, exemplifica a pesquisadora brasileira Yasodara C\u00f3rdova.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, enquanto postagens p\u00fablicas no Twitter ou Facebook podem ser vistas por qualquer um e chegar de uma vez s\u00f3 a milhares de usu\u00e1rios, as mensagens de WhatsApp atingem apenas um indiv\u00edduo ou os participantes do grupo, limitados a um n\u00famero m\u00e1ximo de 256 pessoas. Dali, podem ser levadas para outras pessoas ou outros grupos, em uma distribui\u00e7\u00e3o em pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, todo di\u00e1logo \u00e9 criptografado &#8211; \u00e9 como se a sala de jantar estivesse bem trancada e s\u00f3 pudesse entrar quem fosse convidado ou tivesse a chave.<\/p>\n<p>Isso faz com que a conversa fique fechada &#8211; para acess\u00e1-la, s\u00f3 infiltrado. &#8220;A comunica\u00e7\u00e3o no Whatsapp acontece de maneira mais velada, mais escondida. S\u00e3o grupos relativamente pequenos. E n\u00e3o h\u00e1 registro p\u00fablico, um rastro, porque h\u00e1 essa encripta\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Benevenuto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 mais difusa. A conversa vai se propagando pelos celulares, sem registro de quem foi a fonte original da informa\u00e7\u00e3o &#8211; seja mensagem em texto, imagem, \u00e1udio ou v\u00eddeo. Assim, fica mais dif\u00edcil identificar quem s\u00e3o as vozes mais difundidas e que est\u00e3o se transformando em lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas fazem com que a mobiliza\u00e7\u00e3o pelo WhatsApp represente um novo desafio para governos, acostumados a negociar com lideran\u00e7as de organiza\u00e7\u00f5es definidas, com logotipo e CNPJ.<\/p>\n<p>&#8220;O sindicato \u00e9 um modelo que est\u00e1 em decl\u00ednio no mundo todo. N\u00e3o s\u00f3 em termos de representatividade, mas tamb\u00e9m em metodologia. No caso da greve dos caminhoneiros, h\u00e1 um pioneirismo da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho baseado na internet. \u00c9 uma esp\u00e9cie de sindicato digital. \u00c9 poss\u00edvel que no futuro a gente tenha novas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho como essa&#8221;, fala Yasodara.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Governo foi driblado pela organiza\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros<\/h2>\n<p>No quarto dia de greve, uma quinta-feira,\u00a0o governo do presidente Michel Temer fechou um acordo com parte dos representantes de associa\u00e7\u00f5es e sindicatos de caminhoneiros, se comprometendo a baixar o pre\u00e7o do combust\u00edvel em 10% por 30 dias. Com isso, anunciou que a greve iria ter uma tr\u00e9gua. Naquele momento, os postos j\u00e1 come\u00e7avam a ficar sem combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas os caminhoneiros organizados pelo WhatsApp n\u00e3o concordaram com a negocia\u00e7\u00e3o. No aplicativo, seguiram-se mensagens de rep\u00fadio \u00e0s lideran\u00e7as que negociaram com o governo Temer, al\u00e9m de a\u00fadios e v\u00eddeos notificando sobre pontos de paraliza\u00e7\u00e3o que se mantinham ativos. Nada de acordo, a greve continuava.<\/p>\n<p>&#8220;Se n\u00e3o tivesse o WhatsApp, eu creio que o governo j\u00e1 tinha enganado a gente h\u00e1 dias. O governo ia na televis\u00e3o dizer que a greve acabou. At\u00e9 um caminhoneiro conseguir se comunicar com outro, j\u00e1 tinha tudo mundo ido embora, tinha acabado a greve. Agora, a gente assistiu a nota do presidente e j\u00e1 passou informa\u00e7\u00e3o para os grupos de WhatsApp: n\u00e3o acabou n\u00e3o&#8221;, explica o caminhoneiro Mois\u00e9s Oliveira.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3861\/production\/_101833441_41649113324_e5c0b367e4_o-1024x704.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3861\/production\/_101833441_41649113324_e5c0b367e4_o-1024x704.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Governador de S\u00e3o Paulo M\u00e1rcio Fran\u00e7a reunido com representantes dos caminhoneiros\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Image caption\u00a0Governador de S\u00e3o Paulo M\u00e1rcio Fran\u00e7a reunido com representantes dos caminhoneiros \/ Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o Governo de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">S\u00e3o Paulo usou o WhatsApp nas negocia\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>No Estado de S\u00e3o Paulo, foi tra\u00e7ada uma estrat\u00e9gia diferente para negociar com os grevistas. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de S\u00e3o Paulo, Marcos da Costa, irm\u00e3o de um caminhoneiro hoje afastado da profiss\u00e3o, resolveu entrar nas negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o era um movimento institucionalizado, respondendo a sindicatos e associa\u00e7\u00f5es. Eram caminhoneiros que se esgotaram com o aumento do pre\u00e7o dos combust\u00edveis e come\u00e7aram a parar (de rodar). A comunica\u00e7\u00e3o deles por WhatsApp permitiu que se formasse uma onda muito r\u00e1pida no Brasil inteiro&#8221;, diz Costa.<\/p>\n<p>Depois da negocia\u00e7\u00e3o fracassada do governo federal na quinta-feira, Costa pediu que colegas advogados do setor de transportes procurassem identificar quem eram as lideran\u00e7as dos caminhoneiros parados em S\u00e3o Paulo. Em seguida, no s\u00e1bado de manh\u00e3, mais de 10 delas se reuniram na sede da OAB.<\/p>\n<p>&#8220;No come\u00e7o da reuni\u00e3o, os caminhoneiros pediram para tirar foto e fazer v\u00eddeo para compartilhar nos grupos de WhatsApp. Isso viralizou. E serviu para que a gente pudesse ter seguran\u00e7a da capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o daquelas pessoas&#8221;, fala o presidente da OAB.<\/p>\n<p>Em seguida, foi montado um novo grupo de WhatsApp entre esses caminhoneiros e a OAB. &#8220;Esse grupo serviu de prepara\u00e7\u00e3o das pautas de negocia\u00e7\u00e3o. Ele canalizava as demandas dos caminhoneiros, porque cada pessoa dessas tinha interlocu\u00e7\u00e3o com outros grupos de WhatsApp. Era uma rede gigantesca&#8221;, fala Costa. &#8220;Eu n\u00e3o tenho d\u00favida de que isso fez a diferen\u00e7a. Foi fundamental para abrir a possibilidade de di\u00e1logo com aqueles que estavam realmente \u00e0 frente do movimento&#8221;.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado \u00e0 tarde, o grupo de WhatsApp criado pela OAB se reuniu com o governo de S\u00e3o Paulo para negociar a desobstru\u00e7\u00e3o das estradas do Estado.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda durante a reuni\u00e3o, eles (os representantes dos caminhoneiros) mandaram mensagens de WhatsApp para a base pedindo para liberar (as estradas). Cerca de uma hora depois, vimos pela cobertura da m\u00eddia que a libera\u00e7\u00e3o estava come\u00e7ando. Foi o di\u00e1logo por WhatsApp que permitiu a primeira libera\u00e7\u00e3o de rodovia&#8221;, comenta o advogado. O movimento dos caminhoneiros em S\u00e3o Paulo n\u00e3o acabou ali, mas de fato come\u00e7ou a diminuir.<\/p>\n<p>Ainda no s\u00e1bado, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, esteve em S\u00e3o Paulo para participar das conversas com o grupo paulista, tomar conhecimento das pautas e tentar tirar as negocia\u00e7\u00f5es de Bras\u00edlia do limbo.<\/p>\n<p>&#8220;A greve mostrou que vamos ter que criar mecanismos para dar conta de demandas apresentadas de forma completamente diferentes. Tradicionalmente, eram institui\u00e7\u00f5es que iam ao governo apresentar suas pautas. Hoje, vemos movimentos l\u00edquidos, absolutamente horizontalizados. A partir de agora, os governos v\u00e3o ter que aprender a lidar com essa nova realidade e aprender a identificar canais que possam servir para di\u00e1logo&#8221;, conclui Costa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6741\/production\/_101833462_ipsos.jpg?resize=696%2C603&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico de pizza mostra como os caminhoneiros tomaram conhecimento da greve, segundo Ipsos: 45% por WhatsApp, 18% sendo parados na estrada\" width=\"696\" height=\"603\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Pesquisa Ipsos questionou caminhoneiros sobre como tomaram conhecimento da greve \/ Imagem: Ipsos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">WhatsApp foi a principal forma de contato com a mobiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A primeira medi\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do WhatsApp na greve dos caminhoneiros foi feita pelo Ipsos. Na \u00faltima ter\u00e7a-feira, o instituto de pesquisa entrevistou cerca de 1,2 mil caminhoneiros que usam um aplicativo de cargas. Dentre os entrevistados, quase metade (46%) soube da paralisa\u00e7\u00e3o via WhatsApp.<\/p>\n<p>\u00c9 mais que o dobro de import\u00e2ncia da pr\u00f3pria estrada &#8211; 18% souberam do movimento sendo parados por colegas enquanto rodavam com o caminh\u00e3o. O Facebook veio em seguida, informando 8,5% dos entrevistados. Um n\u00famero \u00ednfimo de 1% foi convocado por sindicato ou associa\u00e7\u00e3o. Entre os entrevistados, est\u00e3o tanto caminhoneiros que estavam protestando, como quem ficou em casa ou estava rodando normalmente.<\/p>\n<p>Por outro lado, nem tudo \u00e9 digital. Entre o grupo mais ativo de caminhoneiros, que continuava parado nas estradas na \u00faltima ter\u00e7a-feira, o corpo a corpo foi t\u00e3o importante quanto a mobiliza\u00e7\u00e3o nas redes &#8211; 39% tomaram conhecimento da greve na estrada, enquanto outros 39% souberam por WhatsApp e Facebook.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do WhatsApp na greve tamb\u00e9m fica evidente em um boato que circulou no pr\u00f3prio app, alertando usu\u00e1rios para n\u00e3o atualizarem o aplicativo. Segundo a mensagem, a atualiza\u00e7\u00e3o do WhatsApp teria sido determinada pelo governo federal para inviabilizar a comunica\u00e7\u00e3o de participantes da greve. O WhatsApp informou que essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o procede.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O dia a dia dos grupos de WhatsApp<\/h2>\n<p>Uma vez que a mobiliza\u00e7\u00e3o tinha come\u00e7ado, o WhatsApp foi fundamental para propagar informa\u00e7\u00f5es, passar mensagens de motiva\u00e7\u00e3o, angariar apoio e bater de frente com o governo do presidente Michel Temer.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ter um retrato de como isso aconteceu pelo monitor do WhatsApp desenvolvido pelo projeto &#8220;Elei\u00e7\u00f5es Sem Fake&#8221;, coordenado por Benevenuto, da UFMG. O sistema acompanha 182 grupos p\u00fablicos com tem\u00e1tica pol\u00edtica e seleciona quais s\u00e3o as imagens mais compartilhadas diariamente. \u00c9 a \u00fanica ferramenta brasileira que acompanha o que ocorre dentro do WhatsApp &#8211; seu uso \u00e9 restrito a pesquisadores.<\/p>\n<p>Segundo o monitor, um dia antes da greve come\u00e7ar, uma imagem de caminh\u00f5es parados em uma estrada j\u00e1 estava entre as dez mais compartilhadas do dia: &#8220;greve geral pela baixa dos combust\u00edveis, voc\u00ea apoia?&#8221;. Era o movimento se organizando.<\/p>\n<p>J\u00e1 na segunda-feira, quando os caminhoneiros come\u00e7aram a parar as rodovias, a greve foi a tem\u00e1tica das cinco imagens mais compartilhadas do dia. Na ter\u00e7a-feira, idem &#8211; sendo que uma das imagens fazia um chamado: &#8220;caminhoneiros convocam popula\u00e7\u00e3o, sozinho (sic) n\u00e3o conseguiremos&#8221;.<\/p>\n<p>Na quinta-feira, quando o governo de Michel Temer buscou negociar com lideran\u00e7as de organiza\u00e7\u00f5es de caminhoneiros, o topo de compartilhamentos foi uma imagem com a hashtag &#8220;SomosTodosCaminhoneiros&#8221; e outra com a frase &#8220;A greve continua&#8221;. Tamb\u00e9m circularam memes culpando o PT pela crise e, no sentido oposto, dizendo que a crise come\u00e7ou porque o PT saiu do governo.<\/p>\n<p>Em seguida,\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-44244583\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pedidos de interven\u00e7\u00e3o militar passaram a despontar<\/a>. J\u00e1 na \u00faltima ter\u00e7a-feira, quando o protesto dos caminhoneiros j\u00e1 estava perdendo for\u00e7a, os grupos de WhatsApp foram tomados por cr\u00edticas \u00e0 baixa ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao protesto: &#8220;Povo tem o governo que merece: reclama ficar 3h na fila do hospital, mas fica 8h na fila do posto de combust\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B561\/production\/_101833464_hi047051247.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B561\/production\/_101833464_hi047051247.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Fila de caminh\u00f5es parados em rodovia\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Caminhoneiros bloqueiam a rodovia Regis Bittencourt, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, no sexto dia da greve.\u00a0Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Informa\u00e7\u00f5es reais duelam com fake news<\/h2>\n<p>Nesse meio tempo, foram surgindo grupos de WhastsApp de apoiadores dos caminhoneiros, para troca de informa\u00e7\u00f5es sobre a greve. A BBC Brasil acompanhou seis deles. Em meio a mensagens verdadeiras, circulavam muitas not\u00edcias falsas e desatualizadas. Entre elas, v\u00eddeos dizendo que manifestantes tinham ocupado Bras\u00edlia e imagens informando que militares estariam prestes a tomar o poder.<\/p>\n<p>No come\u00e7o desta semana, foi feito um apelo nos grupos: que os caminhoneiros passassem a informar data, hora e local da mensagem de \u00e1udio ou v\u00eddeo, j\u00e1 que tudo estava mudando muito rapidamente e era preciso identificar se se tratava de algo novo ou n\u00e3o. Em um dos grupos, criado no dia seguinte \u00e0 greve, o administrador deletou mais de 200 participantes acusados de promover &#8220;fake news&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A ideia do WhatsApp \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o ponta a ponta. N\u00e3o tem impulsionamento de mensagens, como no Facebook. Ent\u00e3o, a empresa n\u00e3o tem influ\u00eancia no di\u00e1logo. S\u00e3o grupos se auto-organizando e repassando essas mensagens&#8221;, afirma Benevenuto.<\/p>\n<p>\u00c9 uma via aberta, por onde trafegam os diferentes ideiais de uma sociedade. &#8220;Eu me lembro de ver a primavera \u00e1rabe, em 2011, e pensar: &#8216;as redes sociais v\u00e3o virar movimento pol\u00edtico, v\u00e3o alavancar a democracia, v\u00e3o abrir a cabe\u00e7a das pessoas, n\u00e3o tem como governos autorit\u00e1rios controlarem uma coisa dessas&#8217;. E hoje vemos que pode ser usada para qualquer dos lados. Tem pedido de interven\u00e7\u00e3o militar, not\u00edcia falsa&#8230;&#8221;, completa o pesquisador da UFMG.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">WhatsApp vai ser importante nas elei\u00e7\u00f5es de 2018<\/h2>\n<p>O WhatsApp, usado por 60% da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, j\u00e1 \u00e9 uma das principais fontes de informa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Segundo o Digital News Report de 2017, um estudo sobre o consumo de not\u00edcias produzido em conjunto pela Reuters Institute e pela Universidade de Oxford em 36 pa\u00edses, 46% dos brasileiros usam WhatsApp para encontrar not\u00edcias.<\/p>\n<p>O n\u00famero \u00e9 muito maior do que a m\u00e9dia mundial, de 15%, e chamou a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores. No estudo, eles destacaram que o WhatsApp cresceu tanto no Brasil que j\u00e1 est\u00e1 rivalizando com o Facebook &#8211; usado por 57% dos brasileiros para encontrar not\u00edcias.<\/p>\n<p>&#8220;A greve de caminhoneiros aponta totalmente como pode ser o uso do WhatsApp nas elei\u00e7\u00f5es de 2018&#8221;, diz Maur\u00edcio Moura, pesquisador da George Washington University, nos Estados Unidos, que analisou o uso do aplicativo nas elei\u00e7\u00f5es de 2014. Segundo o pesquisador, a tend\u00eancia \u00e9 que o debate eleitoral deste ano ocorra muito dentro do app de conversas.<\/p>\n<p>&#8220;A rede social das elei\u00e7\u00f5es de 2018 vai ser o WhatsApp. Hoje, muito mais pessoas t\u00eam smarthphones no Brasil do que em 2014&#8221;, avalia Moura, que tamb\u00e9m j\u00e1 trabalhou com campanhas pol\u00edticas e \u00e9 fundador da Ideia Big Data, que realiza pesquisas de opini\u00e3o. &#8220;Agora, n\u00e3o tem como fazer campanha no WhatsApp sem n\u00fameros de telefone. Por isso, a primeira estrat\u00e9gia dos candidatos e partidos \u00e9 coletar n\u00fameros de celular, em eventos, fan pages&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo antes da campanha, j\u00e1 h\u00e1 diversos grupos de apoiadores de candidatos, como Jair Bolsonaro. &#8220;A tend\u00eancia \u00e9 as pessoas se organizarem nos grupos de WhatsApp em torno de candidatos e pautas. Por outro lado, pessoas que querem desestabilizar as campanhas umas das outras tamb\u00e9m estar\u00e3o operando nos grupos de WhatsApp com bastante intensidade&#8221;, acrescenta Yasodara.<\/p>\n<p>O combate \u00e0s not\u00edcias falsas, que se tornou uma grande preocupa\u00e7\u00e3o desde a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, em 2016, promete ser muito mais dif\u00edcil no WhatsApp. O Facebook, por exemplo, se comprometeu a n\u00e3o impulsionar p\u00e1ginas que promovam not\u00edcias falsas. A rede social pode fazer isso porque funciona como uma mediadora das publica\u00e7\u00f5es. J\u00e1 no WhatsApp, onde n\u00e3o h\u00e1 nenhuma forma de controle externo, isso \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto Facebook e Twitter estiveram sob forte escrut\u00ednio nos \u00faltimos tempos, o WhatsApp passou um pouco batido. Por\u00e9m, o app \u00e9 extremamente utilizado dentro do Brasil. Com toda essa aten\u00e7\u00e3o que se deu \u00e0s outras redes, muito do esfor\u00e7o de campanha pol\u00edtica migra para o WhatsApp, onde n\u00e3o h\u00e1 quase nenhum monitoramento&#8221;, diz Benevenuto, da UFMG.<\/p>\n<p>No WhatsApp, combater not\u00edcias falsas e discursos de \u00f3dio &#8220;\u00e9 um desafio t\u00e3o complexo quanto regular o discurso dentro das casas das pessoas&#8221;, compara Yasodara. &#8220;Como a sociedade faz para que os pais n\u00e3o ensinem aos filhos que o nazismo \u00e9 uma coisa legal? Primeiro, criminaliza o que \u00e9 ilegal. Segundo, traz cada vez mais informa\u00e7\u00f5es verdadeiras para o debate p\u00fablico &#8220;, opina a pesquisadora de Harvard.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Amanda Rossi<\/span>\u00a0com a colabora\u00e7\u00e3o de\u00a0 Juliana Gragnani, Andr\u00e9 Shalders e Felipe Souza da<span class=\"byline__title\">\u00a0BBC Brasil em S\u00e3o Paulo. dispon\u00edvel na internet 02\/06\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de uma insurrei\u00e7\u00e3o popular convocada por SMS em Mo\u00e7ambique, em 2010, da Primavera \u00c1rabe difundida pelo Twitter no Oriente M\u00e9dio, em 2011, e das manifesta\u00e7\u00f5es brasileiras de junho de 2013 impulsionadas pelo Facebook, chegou a vez do WhatsApp ocupar o protagonismo na organiza\u00e7\u00e3o de uma mobiliza\u00e7\u00e3o. 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