{"id":25717,"date":"2018-06-12T08:48:22","date_gmt":"2018-06-12T11:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=25717"},"modified":"2018-06-12T08:49:18","modified_gmt":"2018-06-12T11:49:18","slug":"a-falencia-das-elites-marco-antonio-villa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/06\/12\/a-falencia-das-elites-marco-antonio-villa\/","title":{"rendered":"A fal\u00eancia das elites.\u00a0"},"content":{"rendered":"<h5>Candidatos e lideran\u00e7as partid\u00e1rias est\u00e3o desconectados do Brasil real. N\u00e3o entendem que as ruas querem transforma\u00e7\u00e3o<\/h5>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>A desilus\u00e3o com o processo de escolha do novo presidente da Rep\u00fablica \u00e9 evidente. A maioria dos eleitores n\u00e3o encontra um candidato que esteja sintonizado com o sentimento das ruas. Algu\u00e9m que possa entusiasmar o pa\u00eds. Que pense o novo. Que elabore propostas originais. Que consiga exp\u00f4-las e mostrar sua viabilidade. Que rompa com o senso comum, com o mesmismo, com a obviedade que acabou virando sin\u00f4nimo de pol\u00edtico brasileiro. Vivemos a hora da xepa, a escolha \u00e9 do menos estragado, do menos pior. E elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi feita para isso. Dever\u00edamos escolher os melhores, os mais preparados.<\/p>\n<p>Este processo de desilus\u00e3o est\u00e1 relacionado com o sistema pol\u00edtico-jur\u00eddico que nasceu com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Vivemos a turbul\u00eancia mais longa e mais profunda da hist\u00f3ria da Rep\u00fablica. H\u00e1 uma crise estrutural e n\u00e3o apenas conjuntural. As possibilidades de mudan\u00e7as reais est\u00e3o vedadas. A petrifica\u00e7\u00e3o da estrutura \u00e9 evidente. N\u00e3o h\u00e1 sequer brechas, mesmo que m\u00ednimas. A efic\u00e1cia para a preserva\u00e7\u00e3o do mesmo desmoralizou a democracia. A desilus\u00e3o do eleitor \u00e9 a resposta a tudo isso. \u00c9 o m\u00e1ximo que, por hora, pode fazer.<\/p>\n<p>Nada indica que o Congresso eleito a 7 de outubro ser\u00e1 melhor que o atual. A renova\u00e7\u00e3o habitual \u2014 em torno de 40% \u2014 deve se manter. Mas \u00e9 enganosa. H\u00e1 somente uma mudan\u00e7a nos nomes. As mesmas fam\u00edlias, os mesmos interesses, continuar\u00e3o a ser dominantes na vida parlamentar. O espet\u00e1culo da democracia \u2014 como se denominava antigamente a elei\u00e7\u00e3o \u2014 ser\u00e1, mais uma vez, uma \u00f3pera-bufa.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o dos piores acabou, evidentemente, levando \u00e0 fal\u00eancia das elites dirigentes. O empobrecimento moral associou-se \u00e0 mediocridade intelectual. Que cena infame e vil. Meu Deus! Meu Deus! Que horror, como diria Castro Alves (que para os poderosos n\u00e3o passa de uma pra\u00e7a \u2014 ponto de partida dos trios el\u00e9tricos no carnaval baiano). S\u00e3o Paulo \u00e9 um bom exemplo. Em 1922, a c\u00e9lebre Semana de Arte Moderna teve como patrocinador a fam\u00edlia Prado. E diversas a\u00e7\u00f5es culturais foram apoiadas pelos potentados locais. Cem anos depois, o quadro \u00e9 muito diferente. O top \u00e9 convidar para alegrar as suas festas Anitta, Pablo Vittar ou Jojo Todynho. E, se em 1954, quando do IV Centen\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, William Faulkner, pr\u00eamio Nobel de literatura, visitou a cidade como convidado especial; hoje preferem os livros de algum padre de fancaria, um Santo Agostinho da decad\u00eancia \u2014 e haja decad\u00eancia.<\/p>\n<p>O descaso com os rumos do pa\u00eds \u00e9 muito claro quando nos aproximamos da elite financeira. Ela est\u00e1 no Brasil mas n\u00e3o vive aqui, apenas habita \u2014 h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, claro, mas s\u00e3o rar\u00edssimas. Seu mundo \u00e9, principalmente, os Estados Unidos e, secundariamente, a Europa. Lembra aqueles degredados do s\u00e9culo XVI. O sonho \u00e9 voltar \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o \u2014 viver longe do Brasil. Quando tivemos de enfrentar e vencer o projeto criminoso de poder petista, que queria transformar o pa\u00eds numa Venezuela, o que fez o sistema financeiro? Silenciou, o que j\u00e1 seria um crime de lesa-p\u00e1tria? N\u00e3o, fez pior. Manifestou apoio ao PT at\u00e9 o final. N\u00e3o custa recordar que Dilma Rousseff insistiu muito para que o presidente de um grande banco brasileiro fosse o seu ministro da Fazenda, quando do segundo governo. S\u00f3 n\u00e3o obteve seu intento porque o banco n\u00e3o tinha um substituto para o cargo. Outro dirigente de banco, tr\u00eas meses antes do impeachment, deu uma longa entrevista a um peri\u00f3dico paulista defendendo de forma envergonhada a gest\u00e3o petista, isto, volto a lembrar, quando o pa\u00eds j\u00e1 tinha conhecimento pleno do petrol\u00e3o e as ruas eram ocupadas por milh\u00f5es de brasileiros exigindo que a nossa bandeira n\u00e3o fosse vermelha. Ah se n\u00e3o fosse a classe m\u00e9dia&#8230;<\/p>\n<p>A fal\u00eancia das elites e a petrifica\u00e7\u00e3o das estruturas de poder s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pela crise estrutural. O processo eleitoral \u00e9 apenas sua face mais vis\u00edvel. Aguardamos at\u00f4nitos o que poder\u00e1 acontecer a 28 de outubro, quando do segundo turno. O chamado centro lan\u00e7ou meia d\u00fazia de candidatos e nenhum conseguiu entusiasmar. A direita tem um candidato que sequer poderia ser qualificado neste campo ideol\u00f3gico se estivesse na Europa \u2014 e que mal consegue expor uma ideia com um m\u00ednimo de coer\u00eancia. Na esquerda, seu candidato mais forte est\u00e1 preso e condenado a 12 anos de pris\u00e3o. Tivemos tamb\u00e9m pretensos candidatos que logo abandonaram a raia. Um \u00e9 conhecido por animar audit\u00f3rios aos s\u00e1bados; outro por treinar times de voleibol e o \u00faltimo porque presidiu o STF por algumas semanas. O primeiro dissertava platitudes \u2014 o m\u00e1ximo que poderia abstrair; o segundo \u00e9 considerado um motivador de equipes (o que \u00e9 isso?) e o \u00faltimo ficou conhecido por alguns tu\u00edtes \u2014 isso mesmo, no Brasil atual pensamento se resume a 280 caracteres com espa\u00e7o. E basta \u2014 para ele, claro.<\/p>\n<p>Os candidatos e as lideran\u00e7as partid\u00e1rias est\u00e3o desconectados do Brasil real. Vivem em outro plano. N\u00e3o entendem que as ruas querem uma profunda transforma\u00e7\u00e3o. Permanecem no passado. Sup\u00f5em que as maquina\u00e7\u00f5es nos gabinetes em Bras\u00edlia v\u00e3o surtir algum efeito, como se o eleitor fosse uma simples marionete. E o presidente da Rep\u00fablica nisso tudo? Tem como objetivo m\u00e1ximo manter-se no cargo at\u00e9 a posse do seu sucessor. Se conseguir, vai se considerar um vitorioso. E depois ter\u00e1 de acertar contas com a Justi\u00e7a \u2014 e n\u00e3o s\u00e3o poucas. Entrar\u00e1 para a hist\u00f3ria das elei\u00e7\u00f5es presidenciais como o \u00fanico mandat\u00e1rio que nenhum candidato quis receber seu apoio.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: estes candidatos s\u00e3o frutos de uma rep\u00fablica apodrecida. O Brasil merece coisa muito melhor.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no Jornal O Globo &#8211; <\/strong><strong>dispon\u00edvel na internet 12\/06\/2018<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Candidatos e lideran\u00e7as partid\u00e1rias est\u00e3o desconectados do Brasil real. N\u00e3o entendem que as ruas querem transforma\u00e7\u00e3o A desilus\u00e3o com o processo de escolha do novo presidente da Rep\u00fablica \u00e9 evidente. A maioria dos eleitores n\u00e3o encontra um candidato que esteja sintonizado com o sentimento das ruas. Algu\u00e9m que possa entusiasmar o pa\u00eds. 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