{"id":25754,"date":"2018-06-13T07:20:58","date_gmt":"2018-06-13T10:20:58","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=25754"},"modified":"2018-06-13T07:20:58","modified_gmt":"2018-06-13T10:20:58","slug":"quando-a-viena-da-valsa-sambou-roberto-damatta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/06\/13\/quando-a-viena-da-valsa-sambou-roberto-damatta\/","title":{"rendered":"Quando a Viena da valsa sambou.\u00a0Roberto DaMatta"},"content":{"rendered":"<h6><strong>No Brasil, os ladr\u00f5es e os ricos jamais perdem; no futebol, os marginalizados viram, por conta exclusiva do seu talento, reis e milion\u00e1rios<\/strong><\/h6>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>Viena foi centro da mitologia moderna. \u00c9 preciso lembrar que Sigmund Freud, o inventor de uma nova concep\u00e7\u00e3o humana ali floresceu? Ou basta falar da valsa que pela primeira vez permitiu que homens e mulheres pudessem dan\u00e7ar se abra\u00e7ando frontalmente, olho no olho, num ritmo que um observador da \u00e9poca chamava preconceituosamente de \u201cafricano\u201d \u2014 hipn\u00f3tico, sensual e embriagador. A valsa fabricou Viena tal como o samba inventou um Brasil. Esse mesmo Brasil que roubou o futebol dos seus \u201ccolonizadores\u201d ingleses e, no domingo que passou, deu o baile no time austr\u00edaco em plena Viena, mais uma vez desbancando as teses de uma velha teoria colonialista. Essa sim, t\u00e3o vira-lata quanto os seus inventores. Foi quando a Viena da valsa sambou.<\/p>\n<p>Ren\u00e9 Descartes inventou o \u201cpenso, logo existo\u201d. Freud desmantelou o axioma, afirmando o oposto: quanto mais penso, menos existo; quanto mais controlo minha consci\u00eancia reprimindo o profundamente desejado, mais fa\u00e7o o indesejado. Quem nos controla \u00e9 (tamb\u00e9m) e sobretudo o (in) consciente. A ele pertence esse Brasil oculto que o futebol revela em toda a sua plenitude, talento e orgulhosa honestidade. Tudo o que vergonhosamente tem estado ausente de um mundo p\u00fablico dominado por administradores desonestos \u2014 \u201cpol\u00edticos\u201d que nos levam ao jogo intermin\u00e1vel da derrota. Justamente os que afirmam ser o futebol (e n\u00e3o o populismo autorit\u00e1rio e mendaz) o \u00f3pio do povo&#8230;<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o inventou o reino do esporte e do futebol. Mas asseguro que o esporte \u00e9 um mecanismo mais do que adequado para viver as agruras do mundo. Nele, perdemos honradamente e vencemos sem arrog\u00e2ncia. Pela mesma pauta, podemos pensar em todos os condicionais sem sermos fil\u00f3sofos. Para mim, n\u00e3o h\u00e1 melhor educador do \u201cprinc\u00edpio de realidade\u201d do que o futebol que nos ensina com a frustra\u00e7\u00e3o, com a compuls\u00e3o, com as doen\u00e7as e com a derrota.<\/p>\n<p>Por que o mundo n\u00e3o \u00e9 como queremos? Ora, diz a cartomante, porque temos a capacidade de pensar alternativas. Quem pensa em ganhar, pensa em perder, embora a consci\u00eancia, como o cora\u00e7\u00e3o, possa ter raz\u00f5es que, como ensinou Pascal, ele n\u00e3o conhe\u00e7a. O desejo do triunfo ocorre com o jogo. Ele \u00e9 oposto \u00e0 sociabilidade brasileira corrente do \u201cmais ou menos\u201d. No esporte e na Copa, h\u00e1 o tudo ou nada.<\/p>\n<p>Deus pode ser ou n\u00e3o ser brasileiro&#8230;<\/p>\n<p>Ao refletir sobre o futebol, assinalei essa aus\u00eancia do \u201cmais ou menos\u201d que exige um novo horizonte na vit\u00f3ria ou derrota. Como o melhor professor de democracia do Brasil, o futebol obriga ao desempenho \u2014 a resultados. E, pior que isso, ele tem como premissa uma igualdade absoluta. No futebol \u2014 ao contr\u00e1rio da pol\u00edtica \u2014 sabemos de tudo, menos do resultado. Ademais nele n\u00e3o cabem os triunfos eternos. No Brasil, os ladr\u00f5es e os ricos jamais perdem; no futebol, os marginalizados viram, por conta exclusiva do seu talento, reis e milion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O interesse pelo futebol corre em paralelo \u00e0 busca pela igualdade como um valor num sistema profundamente desigual. \u00c9 isso que proporciona a experi\u00eancia de igualdade, de mobilidade, de vit\u00f3ria e, hoje em dia, de transpar\u00eancia junto do resgate de uma honra coletiva aviltada e perversamente roubada por quem tinha como dever preserv\u00e1-la.<\/p>\n<p>O populismo e o messianismo negam a esfera do esporte que harmoniza carisma, patrimonialismo e um conjunto de regras que valem para todos, coagindo dirigentes, jogadores, \u00e1rbitros, comentaristas e torcedores.<\/p>\n<p>Um mesmo conjunto de regras produz resultado diversos. Ocorrendo em tempos e espa\u00e7os demarcados, o esporte abre uma tr\u00e9gua entre pa\u00edses e pessoas ricas ou pobres, fracas ou poderosas; ao mesmo tempo em que concilia o jogador excepcional com o seu time. H\u00e1 um confronto consciente de uma equipe contra outra; mas h\u00e1 tamb\u00e9m o confronto inconsciente de ambas as equipes com as circunst\u00e2ncias que elas criam durante a partida.<\/p>\n<p>E assim vai o futebol criando eventos que se transformam em estruturas e estruturas que engendram eventos e ciclos cuja determina\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel fora do generoso eixo do \u201cdestino\u201d, e do dualismo \u201csorte\/azar\u201d. De qualquer forma, prefiro mil vezes os gastos com uma Copa e uma Olimp\u00edada do que com uma guerra ou roubalheira pol\u00edtica como tem sido o caso do Brasil.<\/p>\n<p>Quebramos a invencibilidade dos austr\u00edacos que ganharam da Alemanha. Ambos falantes de uma l\u00edngua que muitos acham dif\u00edcil. T\u00e3o complicada que s\u00f3 os mais inteligentes a aprendiam. Vejam at\u00e9 onde ia a nossa autodeprecia\u00e7\u00e3o e, pior que isso, a nossa burrice.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no Jornal O Globo &#8211; <\/strong><strong>dispon\u00edvel na internet 13\/06\/2018<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, os ladr\u00f5es e os ricos jamais perdem; no futebol, os marginalizados viram, por conta exclusiva do seu talento, reis e milion\u00e1rios Viena foi centro da mitologia moderna. \u00c9 preciso lembrar que Sigmund Freud, o inventor de uma nova concep\u00e7\u00e3o humana ali floresceu? 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