{"id":25935,"date":"2018-06-20T05:54:31","date_gmt":"2018-06-20T08:54:31","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=25935"},"modified":"2018-06-20T05:54:31","modified_gmt":"2018-06-20T08:54:31","slug":"espancamentos-banho-em-represa-gelada-e-fezes-no-carro-os-castigos-a-policiais-de-elite-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/06\/20\/espancamentos-banho-em-represa-gelada-e-fezes-no-carro-os-castigos-a-policiais-de-elite-no-brasil\/","title":{"rendered":"Espancamentos, banho em represa gelada e fezes no carro: os castigos a policiais de elite no Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">Quatro policiais fardados se aproximam de uma represa em uma madrugada de inverno na zona sul de S\u00e3o Paulo. Um deles entrega sua arma e o coldre a um colega e caminha, ent\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<p>O jovem soldado da For\u00e7a T\u00e1tica (policiamento ostensivo) entra na polu\u00edda represa Billings, em meio a garrafas pl\u00e1sticas e lixo flutuando, enquanto bate os dentes de frio. A \u00e1gua j\u00e1 est\u00e1 na altura de sua cintura e a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que suas pernas adormeceram, mas seus colegas de profiss\u00e3o s\u00f3 ficam satisfeitos ap\u00f3s ele mergulhar e voltar encharcado. Com a farda completamente molhada, ele se apresenta ao comandante e trabalha assim durante todo o seu plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Conhecido como &#8220;pagar banho&#8221;, esse \u00e9 um dos castigos aplicados com maior frequ\u00eancia nos batalh\u00f5es e pelot\u00f5es de elite das pol\u00edcias civil e militar do Brasil, como a Tropa de Choque paulista e o Bope no Rio. Ocorre quando policiais cometem erros classificados como leves, como passar uma coordenada ou c\u00f3digo errado \u00e0 tropa por r\u00e1dio ou olhar para uma mulher durante patrulha na rua.<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-43163790\">Corrup\u00e7\u00e3o policial viabiliza tr\u00e1fico de armas e \u00e9 central na crise, diz procurador que investiga escalada da viol\u00eancia no Rio<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>H\u00e1 uma variedade de outras puni\u00e7\u00f5es f\u00edsicas aplicadas definidas pelos pr\u00f3prios policiais. Uma delas \u00e9 conhecida como &#8220;ch\u00e1 de manta&#8221; \u2013 uma esp\u00e9cie de corredor polon\u00eas com chutes, socos e golpes de toalhas molhadas nas costas. Os policiais tamb\u00e9m s\u00e3o castigados com s\u00e9ries exaustivas de flex\u00f5es no ver\u00e3o, sem direito a \u00e1gua, e at\u00e9 mordidas nas n\u00e1degas enquanto s\u00e3o imobilizados por colegas de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil entrevistou mais de 20 policiais militares, civis e bombeiros de diversas patentes diferentes, e todos confirmaram a exist\u00eancia desses castigos. A maior parte conta que j\u00e1 sofreu algum tipo de puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica na corpora\u00e7\u00e3o. Alguns, por\u00e9m, concordam com a exist\u00eancia desse c\u00f3digo paralelo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14118\/production\/_102100228_gettyimages-904669858.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14118\/production\/_102100228_gettyimages-904669858.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Policiais durante protesto\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Policiais da Tropa de Choque de S\u00e3o Paulo s\u00e3o obrigados a tomam banho gelado e trabalhar molhados quando cometem erros.\u00a0Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Castigos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos<\/h2>\n<p>Em parte das tropas de elite de S\u00e3o Paulo, como o Choque, as Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e as Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), policiais s\u00e3o punidos at\u00e9 mesmo por se apoiarem numa parede ap\u00f3s horas de trabalho em p\u00e9, de acordo com agentes ouvidos pela reportagem. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 permitido que eles busquem abrigo ou usem alguma capa em caso de chuva.<\/p>\n<p>Em alguns setores, h\u00e1 ainda os castigos psicol\u00f3gicos &#8211; menos comuns entre os policiais de elite. Segundo o relato de um agente penitenci\u00e1rio, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que c\u00e3es de rua s\u00e3o colocados dentro dos carros de funcion\u00e1rios que cometeram erros. Presos, os animais urinam, defecam e arranham o interior do ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das puni\u00e7\u00f5es por erros cometidos durante o trabalho, h\u00e1 ainda relatos de abusos nas academias de forma\u00e7\u00e3o de policiais, enquanto os aspirantes \u00e0 profiss\u00e3o est\u00e3o se preparando para exerc\u00ea-la.<\/p>\n<p>Nesta semana, por exemplo, um soldado da Rotam (Rondas Ostensivas T\u00e1ticas Metropolitanas) de Goi\u00e1s teve um bras\u00e3o de metal cravado no peito ap\u00f3s concluir o curso preparat\u00f3rio e se formar no batalh\u00e3o especial. Procurada, a Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica de Goi\u00e1s n\u00e3o comentou o caso at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p>A Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo, respons\u00e1vel pela maior parte dos casos ouvidos pela BBC News Brasil para esta reportagem, afirmou que &#8220;n\u00e3o admite castigos de quaisquer naturezas, especialmente os f\u00edsicos&#8221;, e que &#8220;em eventuais casos, a Corregedoria apura com o m\u00e1ximo rigor e, caso sejam comprovadas irregularidades, os envolvidos respondem a processo administrativo disciplinar e penal, que podem levar a puni\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 mesmo \u00e0 demiss\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Questionada por mais de uma semana, a Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo n\u00e3o informou quantas den\u00fancias com esse teor foram recebidas nos \u00faltimos anos ou quantos policiais foram punidos por permitir ou participar dessas agress\u00f5es. A pasta tamb\u00e9m disse que n\u00e3o seria poss\u00edvel entrevistar o coronel corregedor da Pol\u00edcia Militar, Marcelino Fernandes, por problemas de agenda.<\/p>\n<p>O ouvidor das pol\u00edcias de S\u00e3o Paulo, Benedito Domingos Mariano, afirmou que o \u00f3rg\u00e3o recebeu duas den\u00fancias de policiais que sofreram trotes agressivos e castigos com banho gelado nos \u00faltimos dois anos. Ambas de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no interior do Estado.<\/p>\n<p>&#8220;Eles disseram ser obrigados a tomar banho gelado de manh\u00e3, vestir a farda molhada e depois trabalhar. Elas (as den\u00fancias) foram encaminhadas \u00e0 Corregedoria da PM, que ouviu o comando de policiamento da regi\u00e3o, que negou tudo. N\u00f3s arquivamos como den\u00fancia n\u00e3o confirmada pelos \u00f3rg\u00e3os apoiadores&#8221;, disse.<\/p>\n<p>O ouvidor afirmou ser contra essas agress\u00f5es e que, a partir dos relatos feitos pela reportagem, vai tratar sobre o assunto com o corregedor.<\/p>\n<p>Ele falou sobre a import\u00e2ncia de os policiais denunciarem os abusos, mas pondera que eles sentem medo.<\/p>\n<p>&#8220;Eles t\u00eam receio de sofrer repres\u00e1lias dentro de suas unidades e de ficarem marcados por fazer esse tipo de den\u00fancia. Agora, se h\u00e1 mais de 20 casos desse tipo como voc\u00ea ouviu, deixa de ser uma quest\u00e3o pontual para ser uma quest\u00e3o geral e que deve ser discutida com o corregedor.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pena alternativa<\/h2>\n<p>De acordo com policiais militares ouvidos pela reportagem, os castigos funcionam como uma esp\u00e9cie de pena alternativa ao c\u00f3digo interno de conduta \u00e9tica da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais pr\u00e1ticas, na opini\u00e3o deles, viraram um costume irrevers\u00edvel dentro da corpora\u00e7\u00e3o, uma vez que o policial prefere optar por uma puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica a responder a um processo formal.<\/p>\n<p>Um dos motivos \u00e9 que, por mais simples que seja, um processo formal pode causar um grande impacto na carreira do policial, j\u00e1 que todas as puni\u00e7\u00f5es s\u00e3o marcadas no registro funcional \u2013 documento que os acompanha durante toda a trajet\u00f3ria militar. No caso de uma futura promo\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a de local de trabalho, esses pontos s\u00e3o decisivos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/347A\/production\/_102043431_gettyimages-488064206.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/347A\/production\/_102043431_gettyimages-488064206.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Policiais da Tropa de Choque com escudos\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Policiais relatam que preferem sofrer castigos f\u00edsicos a responder oficialmente por pequenos erros.\u00a0Direito de imagem\u00a0GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Um comandante de batalh\u00e3o explica: &#8220;Se o policial trabalha em S\u00e3o Miguel Paulista ou no Graja\u00fa (regi\u00f5es do extremo leste e sul de S\u00e3o Paulo, respectivamente) e quer ir para uma \u00e1rea nobre como Perdizes ou Higien\u00f3polis, ele precisa ter uma pontua\u00e7\u00e3o alta. Se ele responder oficialmente por pequenos erros e perder pontos por bobagens, isso vai dificultar muito a vida dele&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo os agentes, o policial que recebe constantes puni\u00e7\u00f5es pode sofrer penas tidas como graves, como perder o direito de levar a arma consigo durante a folga, por exemplo. Al\u00e9m de prejudicar a seguran\u00e7a pessoal do agente p\u00fablico, a restri\u00e7\u00e3o afetaria o moral do policial, acostumado a portar uma pistola mesmo fora do expediente.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Reflexo nas ruas<\/h2>\n<p>Os policiais ouvidos pela reportagem contam que os castigos f\u00edsicos se tornam parte do cotidiano desde as academias.<\/p>\n<p>Estudantes da Academia de Pol\u00edcia do Barro Branco de S\u00e3o Paulo relatam que h\u00e1 uma grande press\u00e3o psicol\u00f3gica para que o aluno desista de se formar durante os tr\u00eas anos de curso.<\/p>\n<p>Uma aluna afirmou que algumas falhas, como deixar de bater contin\u00eancia a um oficial, deixar de engraxar o coturno ou n\u00e3o passar a roupa corretamente pode levar a penas graves, como deten\u00e7\u00e3o durante um fim de semana \u2013 o \u00fanico per\u00edodo em que os estudantes podem voltar para casa.<\/p>\n<p>Esse tipo de pr\u00e1tica \u00e9 aprovada por parte dos oficiais. Um deles, que j\u00e1 comandou um pelot\u00e3o de For\u00e7a T\u00e1tica na zona sul de S\u00e3o Paulo, defende as penas f\u00edsicas, por exemplo.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu estive \u00e0 frente de um pelot\u00e3o de For\u00e7a T\u00e1tica, eu sabia que isso acontecia e tinha consci\u00eancia de que era algo para o crescimento do policial. E acho estranho que isso cause sofrimento porque ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a passar por isso. O banho \u00e9 uma escolha do pr\u00f3prio policial e quase um gracejo para ele n\u00e3o sofrer as puni\u00e7\u00f5es formais&#8221;, disse um policial militar que hoje atua na zona oeste de S\u00e3o Paulo e pediu para n\u00e3o ser identificado.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o dele, o banho \u00e9 um reconhecimento do pr\u00f3prio policial de que ele cometeu um erro que poderia ter colocado em risco a vida de seus companheiros. Ele diz que o castigo serve como reflex\u00e3o. Mesmo em um posto de comando, ele mesmo relata que j\u00e1 &#8220;pagou banho&#8221; na frente dos outros policiais.<\/p>\n<p>&#8220;Certa vez, eu errei em um treinamento e nem precisei falar nada, fui direto para a cachoeira. N\u00e3o \u00e9 nenhum dem\u00e9rito, mesmo sendo comandante de pelot\u00e3o ou de companhia. Se isso for usado para o crescimento, eu acho vi\u00e1vel e enaltecedor. Mas se for usado para diminuir e humilhar, n\u00e3o. O cara paga banho e mostra para toda a equipe que tinha consci\u00eancia da falha e que n\u00e3o far\u00e1 de novo&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Por outro lado, Elisandro Lotin, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Pra\u00e7as (Anaspra) e membro do Conselho do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, classifica essas t\u00e9cnicas como uma heran\u00e7a do regime militar.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F2F8\/production\/_102100226_swat.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F2F8\/production\/_102100226_swat.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Marcos do Val\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Instrutor de t\u00e9cnicas policiais da SWAT diz que t\u00e9cnicas de treinamento com agress\u00e3o s\u00f3 devem ser usadas em caso de guerra.\u00a0Direito de imagem\u00a0DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;\u00c9 uma l\u00f3gica de submiss\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o e tortura que n\u00e3o faz sentido. Se voc\u00ea treinar um policial de forma bruta, \u00e9 claro que ele vai externar isso em algu\u00e9m. Como voc\u00ea quer que os policiais respeitem os direitos humanos se eles n\u00e3o t\u00eam os direitos humanos deles respeitados?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>Segundo ele, que tamb\u00e9m \u00e9 especialista em ci\u00eancias criminais, algumas pol\u00edcias treinam novos soldados com tapas no rosto e fazem racionamento de comida. Em alguns casos, PMs s\u00e3o obrigados a raspar a cabe\u00e7a e comer um alimento militar conhecido como catanho \u2013 uma refei\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea com farinha de mandioca, peda\u00e7os de p\u00e3o e carne armazenada em um saco pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Policiais militares entrevistados pela BBC News Brasil questionaram a atua\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos para coibir as agress\u00f5es dentro dos batalh\u00f5es e academias de elite do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Membro do Movimento Nacional dos Direitos Humanos e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana), Ariel de Castro Alves disse que o \u00f3rg\u00e3o precisa receber os relatos para ter um ponto de partida para denunci\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso papel \u00e9 denunciar viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos em qualquer situa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s fazemos visitas em pres\u00eddios e batalh\u00f5es com base em relatos, mesmo que sejam an\u00f4nimos. O problema \u00e9 que nesses setores militares eles conseguem descobrir quem as fez e isso acaba inibindo os policiais&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Alves defende que a desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias brasileiras &#8220;acabaria com o ambiente de brutalidade e opress\u00e3o nos batalh\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Ele afirma que os casos de agress\u00f5es s\u00e3o comuns e que h\u00e1 tr\u00eas anos denunciou um caso de recrutas que eram obrigados a fazer flex\u00f5es no asfalto quente.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, os alunos da Escola de Forma\u00e7\u00e3o de Soldados de Registro, no interior de S\u00e3o Paulo, sofreram queimaduras graves nas palmas das m\u00e3os \u2013 as bolhas causadas pelos exerc\u00edcios deixaram as m\u00e3os deles em carne viva.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Como policiais s\u00e3o treinados em outros pa\u00edses?<\/h2>\n<p>Instrutor de treinamento da Swat (unidade de pol\u00edcia especializada dos EUA) h\u00e1 18 anos, Marcos do Val diz que os treinamentos e puni\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas s\u00f3 devem ser usados para preparar soldados para guerras.<\/p>\n<p>&#8220;O aprendizado por meio da viol\u00eancia foi desenvolvido nas duas guerras mundiais porque \u00e9 o modo mais f\u00e1cil de treinar o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas em pouco tempo. Isso porque a absor\u00e7\u00e3o \u00e9 mais r\u00e1pida quando h\u00e1 dor. Na guerra, o soldado tamb\u00e9m vive outra realidade, onde ele vai passar fome, sede e pode at\u00e9 ser um prisioneiro de guerra. Um policial n\u00e3o precisa disso&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Do Val afirma que os castigos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos s\u00e3o vistos como ultrapassados tanto nos Estados Unidos quanto em outros pa\u00edses da Europa onde ele d\u00e1 palestras de seguran\u00e7a, como Fran\u00e7a, Portugal e It\u00e1lia. Segundo avalia, as t\u00e9cnicas com uso da viol\u00eancia est\u00e3o com os dias contados tamb\u00e9m no Brasil.<\/p>\n<p>Ele explica que o tempo de treinamento dos policiais deve ser usado para desenvolver a t\u00e1tica, citando como exemplo os policiais americanos, que fazem treinos f\u00edsicos e t\u00e9cnicos de forma intercalada, como corrida, tiro, flex\u00f5es e an\u00e1lise de cen\u00e1rios de crimes.<\/p>\n<p>Marcos do Val afirma que, nos EUA, cada policial recebe uma avalia\u00e7\u00e3o individual em cada exerc\u00edcio. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 conciliar os treinos f\u00edsicos e t\u00e9cnicos e apontar quais pontos podem melhorar. Nenhuma puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e9 tolerada.<\/p>\n<p>&#8220;A forma\u00e7\u00e3o policial no Brasil viveu um retrocesso gigantesco depois do lan\u00e7amento do filme\u00a0<i>Tropa de Elite<\/i>, que fortaleceu a cultura de comer no ch\u00e3o e levar tapa na cara.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Pode demorar dez ou cem anos, mas isso vai acabar porque \u00e9 uma t\u00e9cnica que n\u00e3o evolui e n\u00e3o deve mais ter espa\u00e7o. Falo inclusive para meus alunos anteciparem isso e as pol\u00edcias federal e civil j\u00e1 est\u00e3o seguindo bem esse caminho&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito: <span class=\"byline__name\">Felipe Souza d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 20\/06\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quatro policiais fardados se aproximam de uma represa em uma madrugada de inverno na zona sul de S\u00e3o Paulo. 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