{"id":26306,"date":"2018-07-02T00:10:21","date_gmt":"2018-07-02T03:10:21","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=26306"},"modified":"2018-07-01T20:14:55","modified_gmt":"2018-07-01T23:14:55","slug":"26306","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/07\/02\/26306\/","title":{"rendered":"Cientistas desvendam como funciona o c\u00e9rebro de uma pessoa corrupta"},"content":{"rendered":"<section class=\"bg-gray-extra\">\n<div class=\"container container-full-width\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-sm-10 col-sm-offset-1\">\n<h4 class=\"txt-gray mb-0\">Ci\u00eancia mostra que a corrup\u00e7\u00e3o vai moldando \u00e1reas cerebrais de um indiv\u00edduo ao ponto de ele deixar de se constranger quando age de forma desonesta<\/h4>\n<h4 class=\"txt-gray mb-0\"><strong style=\"color: #222222;font-family: Verdana, Geneva, sans-serif;font-size: 15px\">\u00a0<\/strong><span style=\"color: #222222;font-family: Verdana, Geneva, sans-serif;font-size: 15px\">Ela est\u00e1 nas manchetes dos jornais, na B\u00edblia, no C\u00f3digo de Hamur\u00e1bi, no livro indiano Arthashastra, do s\u00e9culo 4 antes de Cristo. Acompanhando o homem em sua trajet\u00f3ria pela Terra, a corrup\u00e7\u00e3o continua atual\u00edssima e, se na Antiguidade cl\u00e1ssica intrigava fil\u00f3sofos como Arist\u00f3teles \u2014 autor de De generatione et corruptione \u2014, hoje \u00e9 estudada por cientistas, que tentam encontrar, no c\u00e9rebro, os mecanismos associados \u00e0 desonestidade.<\/span><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section>\n<div class=\"container container-full-width mt-20 mb-20\">\n<div class=\"row divider-wrapper\">\n<div id=\"esquerda_8_12_1\" class=\"col-sm-10 col-sm-offset-1 col-md-6 mb-35 js-tools-fixed-parent\">\n<article>\n<div class=\"txt-serif js-article-box article-box article-box-capitalize mt-15\">\n<div><\/div>\n<div>Corrup\u00e7\u00e3o, como ensina o Houaiss, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 subornar ou tomar para si o que n\u00e3o lhe pertence. Trata-se de \u201cdeprava\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos, costumes etc.\u201d, refere-se \u00e0 devassid\u00e3o moral. Ao investigar a fisiologia do corrupto, as pesquisas debru\u00e7am-se tanto sobre sociopatas que prejudicam os outros sem sentir o menor remorso quanto sobre o cidad\u00e3o comum, dito \u201cde bem\u201d, que, contudo, \u00e9 capaz de aproveitar o quebra-quebra em uma manifesta\u00e7\u00e3o de rua para saquear o supermercado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o que o c\u00e9rebro seja o \u201cculpado\u201d pela desonestidade. \u00c9 quase o contr\u00e1rio disso. Se, de fato, alguns psicopatas exibem estruturas e fun\u00e7\u00f5es cerebrais diferentes do que se considera normal, como a interrup\u00e7\u00e3o de circuitos neuronais associados a empatia, medo e culpa, elas n\u00e3o levam necessariamente ao crime. Estudos estimam em 1% a 3% o \u00edndice de psicopatas na popula\u00e7\u00e3o mundial, e a maioria deles n\u00e3o vai se desviar das normas sociais ao longo da vida. Por outro lado, nem todo corrupto \u2014 sist\u00eamico ou de ocasi\u00e3o \u2014 apresenta alguma altera\u00e7\u00e3o na atividade dos neur\u00f4nios. O que os estudos mostram \u00e9 como o comportamento imoral vai moldando o c\u00e9rebro, at\u00e9 que ele se acostume a burlar as regras. Isso os cientistas j\u00e1 conseguiram visualizar em exames de imagem como resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cO que sempre me preocupou n\u00e3o s\u00e3o os serial killers, mas o que aconteceu na Iugosl\u00e1via de 1991 a 2001\u201d, ilustra o psiquiatra Pedro Ant\u00f4nio Schmidt, pesquisador do Instituto do C\u00e9rebro da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (Inser\/PUC-RS). Um dos palestrantes da confer\u00eancia Mecanismos cerebrais da corrup\u00e7\u00e3o, que inaugurou o Congresso Brain 2018, na semana passada, em Gramado, Schmidt refere-se \u00e0 guerra na regi\u00e3o dos B\u00e1lc\u00e3s que deixou quase 98 mil mortos e foi marcada pelos estupros em massa nas zonas de conflito. \u201cDe repente, come\u00e7ou um \u00f3dio; vizinhos que eram amigos se tornaram inimigos. Como algu\u00e9m vira assassino? Como acha o.k. estuprar a filha do vizinho? Essas pessoas n\u00e3o eram assassinas antes, como passam a aceitar esse tipo de coisa?\u201d, questiona.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro comportamento citado por Schmidt \u00e9 a alta toler\u00e2ncia do brasileiro com contraventores, como Aniz Abrah\u00e3o David, que reuniu celebridades e pol\u00edticos na festa de arromba que comemorou seu anivers\u00e1rio, no ano passado; e mesmo com criminosos. \u201cQuando o ex-jogador de futebol Bruno saiu da cadeia com um habeas corpus do ministro Marco Aur\u00e9lio de Mello, ele tinha um f\u00e3-clube. Mas ele n\u00e3o era mais um goleiro, era um assassino.\u201d Bruno Fernandes foi condenado a 22 anos de pris\u00e3o pelo assassinato e a oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver da ex-namorada Eliza Samudio, al\u00e9m do sequestro do filho que teve com ela. Mostrando uma foto de pessoas na estrada, cheias de sacolas na m\u00e3o, o psiquiatra contextualiza: \u201cEsse caminh\u00e3o frigor\u00edfero tombou no interior do Paran\u00e1. As pessoas saquearam a carga. N\u00e3o eram pessoas miser\u00e1veis, elas n\u00e3o estavam passando fome. S\u00e3o tipos de atitudes que n\u00f3s, brasileiros, temos h\u00e1 muito tempo\u201d, lamenta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O c\u00e9rebro se adapta \u00e0 desonestidade, diz o pesquisador, citando um artigo publicado em outubro de 2016 na revista Nature Neuroscience. O trabalho da Universidade College London (UCL) e da Universidade de Duke identificou altera\u00e7\u00f5es na am\u00edgdala, estrutura cerebral associada ao medo e \u00e0 resposta de fuga\/luta, \u00e0 medida que os atos desleais v\u00e3o sendo repetidos. \u201cSuspeit\u00e1vamos que deveria haver um princ\u00edpio biol\u00f3gico b\u00e1sico que contribui para esse fen\u00f4meno, chamado de adapta\u00e7\u00e3o emocional\u201d, conta Tali Sharot, professora de neuroci\u00eancia cognitiva da UCL. Neil Garrett, pesquisador da mesma institui\u00e7\u00e3o, explica que o processo adaptativo \u00e9 um princ\u00edpio-chave no estudo de como o c\u00e9rebro processa informa\u00e7\u00e3o sensorial. \u201cSe voc\u00ea entra em uma sala repleta de fuma\u00e7a de cigarro, o cheiro inicial ser\u00e1 muito forte. Depois de alguns instantes, o seu sistema olfativo vai se ajustar \u00e0 presen\u00e7a da fuma\u00e7a, e voc\u00ea vai perceb\u00ea-la bem menos\u201d, ilustra.<\/div>\n<div><\/div>\n<h3>Encorajados<\/h3>\n<div>A hip\u00f3tese dos pesquisadores era a de que a adapta\u00e7\u00e3o emocional tamb\u00e9m pode ocorrer na tomada de decis\u00f5es. \u201cEspecificamente, quer\u00edamos saber se nos adaptamos a situa\u00e7\u00f5es que, inicialmente, consideramos aversivas, como trapacear, ser infiel e mentir\u201d, afirma Garrett. Isso poderia ser constatado caso a resposta emocional, com o tempo, come\u00e7asse a enfraquecer. Para verificar a tese, os pesquisadores desenvolveram uma s\u00e9rie de testes, dos quais participaram 55 pessoas com idade entre 18 e 65 anos. Os volunt\u00e1rios trabalharam em pares \u2014 atores contratados pela equipe \u2014 em uma tarefa, que consistia em pedir que o outro adivinhasse a quantidade de dinheiro contido numa jarra cheia de moedas de centavos de libras. Eles foram informados que, dependendo da resposta (certa, superestimada ou subestimada), poderiam se beneficiar, favorecer o outro ou obter vantagens para ambos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra regra do jogo: os participantes poderiam mentir \u00e0 vontade. O resultado mostrou que os volunt\u00e1rios n\u00e3o apenas trapacearam, como o fizeram cada vez mais, caso fossem beneficiados. Nas situa\u00e7\u00f5es em que a desonestidade traria vantagens financeiras a eles e aos pares, os volunt\u00e1rios se mostraram ainda mais estimulados a passar por cima da verdade, sugerindo, segundo os pesquisadores, que isso parecia tornar a mentira mais aceit\u00e1vel. No fim, para verificar a rea\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, os cientistas repetiram o teste com 25 pessoas que, dessa vez, participaram da tarefa enquanto eram escaneadas pelo exame de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cO que descobrimos foi que, \u00e0 medida que o tempo passava, as respostas das \u00e1reas associadas \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, especialmente na am\u00edgdala, diminu\u00edam nos participantes que estavam mentindo bastante. Isso sugere que o ato de dizer mentiras reduz a resposta emocional do nosso c\u00e9rebro \u00e0 desonestidade e nos encoraja a contar mentiras maiores no futuro\u201d, explica Neil Garrett. Em um dos testes do estudo, os pesquisadores conseguiram mostrar, inclusive, que a diminui\u00e7\u00e3o na atividade cerebral \u00e9 um preditor do aumento subsequente do n\u00edvel de trapa\u00e7a. \u201cAcredito que essa foi a primeira evid\u00eancia emp\u00edrica de que o comportamento desonesto vai aumentando quando se repete\u201d, diz o pesquisador. A neurocientista Tali Sharot explica: \u201cNormalmente, quando mentimos para obter alguma vantagem disso, a nossa am\u00edgdala produz um sentimento negativo, limitando at\u00e9 onde podemos ir com a mentira. Mas, conforme trapaceamos, essa rea\u00e7\u00e3o vai reduzindo at\u00e9 se tornar muito fraca..\u201d Nesse momento, mentir j\u00e1 n\u00e3o causa constrangimento ao desonesto.<\/div>\n<h3>Como os psicopatas<\/h3>\n<div><\/div>\n<div>Da\u00ed a import\u00e2ncia de frear o comportamento desonesto, observam especialistas. \u201cQuando os corruptos come\u00e7am a roubar, podem se sentir culpados, mas, ent\u00e3o, se acostumam com isso e n\u00e3o se importam mais. Se n\u00e3o forem punidos, esse comportamento ficar\u00e1 cada vez mais normal\u201d, observa Antoine Bechara, professor de psicologia da Universidade de Southern Calif\u00f3rnia e especialista no processo de tomada de decis\u00f5es, que tamb\u00e9m foi palestrante na confer\u00eancia Mecanismos cerebrais da corrup\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O neurocientista compara o c\u00e9rebro do corrupto sist\u00eamico, incluindo pol\u00edticos desonestos, ao de um psicopata, cuja am\u00edgdala funciona de maneira diferente do restante da popula\u00e7\u00e3o. \u201cO psicopata verdadeiro tem uma patologia real no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Ele n\u00e3o se sente obrigado a seguir as regras\u201d, diz Bechara. \u201cA raiz do comportamento corrupto est\u00e1 na recompensa. N\u00f3s n\u00e3o agimos dessa forma porque conseguimos controlar nosso comportamento e, na minha opini\u00e3o, fazemos esse controle por causa da puni\u00e7\u00e3o. Se o corrupto n\u00e3o \u00e9 condenado pela Justi\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para deixar de se comportar de maneira desonesta\u201d, acredita.<\/div>\n<h3>Da paz \u00e0 agress\u00e3o<\/h3>\n<div><\/div>\n<div>O epis\u00f3dio da guerra da B\u00f3snia lembrado pelo psiquiatra Pedro Ant\u00f4nio Schmidt no congresso Brain 2018 j\u00e1 foi observado em muitos outros conflitos, como na Lib\u00e9ria e em Ruanda. Em tempos de paz, pessoas de grupos \u00e9tnicos distintos vivem em harmonia. Por\u00e9m, tornam-se inimigas da noite para o dia, podendo cometer atrocidades que nunca imaginaram ser capazes, ao se deflagrar um confronto armado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, acabaram de publicar um estudo no qual tentam responder por que a viol\u00eancia pode alcan\u00e7ar esse n\u00edvel entre pessoas que sempre conviveram pacificamente. A pesquisa investigou o comportamento de estudantes do leste da Eslov\u00e1quia em rela\u00e7\u00e3o a ciganos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para examinar o comportamento hostil, os pesquisadores pediram aos jovens que participassem de um jogo no qual poderiam prejudicar o outro. Pelas regras, dois jogadores recebem dois euros cada e, simultaneamente, escolhem pagar 20 centavos para reduzir o rendimento do opositor em um euro ou simplesmente manter o dinheiro inalterado. Os jogadores permanecem an\u00f4nimos e jogam um contra o outro apenas uma vez.<\/div>\n<h3>Intencional<\/h3>\n<div><\/div>\n<div>Os pesquisadores usaram uma lista de nomes t\u00edpicos para informar aos participantes se o par era integrante da popula\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria eslovaca ou da minoria cigana. Al\u00e9m disso, o experimento foi projetado de forma que tr\u00eas jovens da mesma turma tomassem a decis\u00e3o um ap\u00f3s o outro \u2014 portanto, eles sabiam qual tinha sido a escolha dos colegas que jogaram anteriormente.<small class=\"txt-no-serif hidden-print\"><\/small><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os cientistas descobriram que o comportamento de deliberadamente prejudicar o opositor foi significativamente influenciado pelas escolhas dos pares. Al\u00e9m disso, quando achavam que estavam jogando contra ciganos (identificados pelos nomes lidos pelos pesquisadores), os estudantes se mostraram ainda mais agressivos. \u201cA hostilidade dobrava quando dirigida aos ciganos, o que n\u00e3o aconteceu contra pessoas dos pr\u00f3prios grupos sociais\u201d, observaram os autores do trabalho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cNossos resultados sugerem que normas sociais fracas podem levar a uma mudan\u00e7a s\u00fabita no comportamento individual em rela\u00e7\u00e3o a outro grupo \u00e9tnico, passando da boa conviv\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o. Por isso \u00e9, importante processar e punir crimes de \u00f3dio\u201d, disse, em nota, Jana Cahl\u00edkov\u00e1, pesquisadora do Max Planck.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Vulner\u00e1veis<\/strong><\/div>\n<div><em>Nos \u00faltimos anos, os atos de agress\u00e3o a esse povo aumentaram no pa\u00eds europeu e vizinhos. Segundo o relat\u00f3rio da Ag\u00eancia dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia (UE), divulgado em abril, um em cada tr\u00eas ciganos \u00e9 v\u00edtima de ass\u00e9dio na UE. Al\u00e9m disso, as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o bem distintas das de outros moradores do continente: 80% dos ciganos est\u00e3o em risco de pobreza, contra 17 % da m\u00e9dia geral.\u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><span class=\"txt-gray author-wrapper text-nowrap d-inline-block mb-10\"><span class=\"ml-10\">Cr\u00e9dito: Paloma Oliveto, enviada especial\/Correio Braziliense &#8211; dispon\u00edvel na internet 02\/07\/2018<\/span><\/span><\/strong><\/div>\n<div><strong>* A rep\u00f3rter viajou a convite da organiza\u00e7\u00e3o do Brain 2018<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ci\u00eancia mostra que a corrup\u00e7\u00e3o vai moldando \u00e1reas cerebrais de um indiv\u00edduo ao ponto de ele deixar de se constranger quando age de forma desonesta \u00a0Ela est\u00e1 nas manchetes dos jornais, na B\u00edblia, no C\u00f3digo de Hamur\u00e1bi, no livro indiano Arthashastra, do s\u00e9culo 4 antes de Cristo. 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