{"id":27114,"date":"2018-07-21T07:40:17","date_gmt":"2018-07-21T10:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=27114"},"modified":"2018-07-21T07:40:43","modified_gmt":"2018-07-21T10:40:43","slug":"javalis-selvagens-e-homens-comuns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/07\/21\/javalis-selvagens-e-homens-comuns\/","title":{"rendered":"Javalis Selvagens e homens comuns."},"content":{"rendered":"<h5>Mesmo que n\u00e3o se possa enganar a todos durante todo o tempo, somos ref\u00e9ns da irresponsabilidade dos Tr\u00eas Poderes<\/h5>\n<div class=\"corpo margin-default\">\n<p>D\u00e1 para imaginar o que \u00e9 isso? Ficar dias e dias na escurid\u00e3o total, encolhido entre o declive de um ch\u00e3o de pedra e a proximidade de teto e paredes de rocha, cercado de \u00e1gua, sem saber se \u00e9 dia ou noite. De in\u00edcio, dividindo com mais 12 pessoas a parca ra\u00e7\u00e3o de uma merendazinha. Depois, sem ter o que comer. E sem saber se algu\u00e9m l\u00e1 fora tem no\u00e7\u00e3o do que se passa.<\/p>\n<p>De repente, brota da \u00e1gua uma luz. Uma voz estranha diz algo num idioma que ningu\u00e9m entende. Quase ningu\u00e9m. Ainda bem que h\u00e1 um imigrante no grupo. Bendito imigrante, a confirmar que algu\u00e9m diferente sempre tem algo a dar. \u00c9 o \u00fanico capaz de compreender e responder ao que o dono da voz diz em ingl\u00eas. Assim o jovem time de futebol dos Javalis Selvagens sabe que era alvo de buscas, havia sido encontrado, e algu\u00e9m lhes acenava com comida, rem\u00e9dios e o fiapo de esperan\u00e7a de uma opera\u00e7\u00e3o complicad\u00edssima para tentar salvar o grupo ilhado na escurid\u00e3o das profundezas de uma caverna.<\/p>\n<p>Ilhado at\u00e9 certo ponto. Homem algum \u00e9 uma ilha, garantira um poeta nesse mesmo idioma ingl\u00eas h\u00e1 quatro s\u00e9culos. O mesmo John Donne que escrevera outras palavras que desde ent\u00e3o t\u00eam lembrado a fraternidade, solidariedade e igualdade entre todos os seres humanos: \u201cA morte de cada homem me diminui, pois sou parte da humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.\u201d<\/p>\n<p>Dando provas de que essa no\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o se perdeu e continua viva na esp\u00e9cie humana, no exterior da caverna as pessoas faziam o que estavam a seu alcance: se mobilizavam, rezavam, montavam a l\u00f3gica racional de uma incr\u00edvel opera\u00e7\u00e3o de resgate. Especialistas de outros pa\u00edses viajaram para a Tail\u00e2ndia e se associaram aos esfor\u00e7os locais, disciplinados e objetivos, sem perguntar o que ganhariam com isso ou de que etnia ou nacionalidade eram os prisioneiros da caverna. T\u00e9cnicos an\u00f4nimos e milion\u00e1rios conhecidos ofereceram o que podiam. E depois de semanas o planeta festejou o final feliz que parecia imposs\u00edvel naquela trag\u00e9dia anunciada. Homens comuns a consagrar a humanidade comum de v\u00edtimas e her\u00f3is \u2014 incluindo o mergulhador que perdeu a pr\u00f3pria vida na luta para salvar as dos outros. Vit\u00f3ria poss\u00edvel a partir do profundo sentimento da condi\u00e7\u00e3o humana compartilhada. Todos homens comuns.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o contrastar essa consci\u00eancia de destino comum com a pretens\u00e3o de se distinguir do comum dos mortais, exibida com acinte e desenvoltura em uma opera\u00e7\u00e3o de resgate montada do outro lado do mundo, num plant\u00e3o judici\u00e1rio de domingo, simult\u00e2neo \u00e0s \u00faltimas horas do esfor\u00e7o coletivo heroico na Tail\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Mas talvez n\u00e3o devesse ser surpresa. O objetivo era soltar Lula, algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 visto como homem comum. Ali\u00e1s, j\u00e1 ele mesmo atestara que entende n\u00e3o haver essa natureza comum entre todos n\u00f3s. Desde que, h\u00e1 tempos, consagrou a doutrina de dois pesos e duas medidas quando afirmou de outro ex-presidente: \u201cO Sarney tem hist\u00f3ria no Brasil suficiente para que n\u00e3o seja tratado como se fosse uma pessoa comum\u201d, apesar de antes j\u00e1 ter se referido ao pol\u00edtico maranhense com pesados insultos e ofensas.<\/p>\n<p>Mais recentemente, o condenado em segunda inst\u00e2ncia, agora alvo da tentativa de liberta\u00e7\u00e3o no domingo, fizera quest\u00e3o de frisar: \u201cEu n\u00e3o sou um ser humano, sou uma ideia\u201d. Ideias n\u00e3o s\u00e3o encarcer\u00e1veis. Todos sabemos (ou podemos imaginar com boa dose de realismo) que, mais cedo ou mais tarde, Lula ser\u00e1 solto por algum indulto \u2014 como Jos\u00e9 Dirceu, condenado a mais de 30 anos, est\u00e1 solto. N\u00e3o ficar\u00e1 preso muito tempo \u2014 como Cabral e Cunha, por exemplo, t\u00eam mais chance de ficar. A ideia que Lula encarna \u00e9 mais poderosa que a destes, reveste-se do charme de uma narrativa de Cinderela ou Robin Hood, e tem mais seguidores escancarados. Embora tamb\u00e9m seja poderos\u00edssima, a ideia encarnada por outros, de encher os bolsos quando ningu\u00e9m est\u00e1 olhando, n\u00e3o se presta a defesas p\u00fablicas, apoio de intelectuais, simpatia no exterior. Explicitada, choca pelo cinismo, n\u00e3o \u00e9 temperada e resgatada pelo mito.<\/p>\n<p>Por isso, no fundo dessa caverna curitibana em cujas paredes se projetam sombras m\u00edticas, d\u00e1 para acusar o clar\u00e3o vindo da realidade exterior. A culpa \u00e9 da luz. Sem ela, n\u00e3o se veria o mal nem haveria sombras. Talvez at\u00e9 essa acusa\u00e7\u00e3o possa colar. Ao menos em alguns setores, por algum tempo.<\/p>\n<p>De qualquer modo, mesmo que n\u00e3o se possa enganar a todos durante todo o tempo, somos ref\u00e9ns da irresponsabilidade dos Tr\u00eas Poderes que aprisionam o pa\u00eds. N\u00e3o h\u00e1 como fugir da m\u00e1xima de Mill\u00f4r Fernandes: o resultado \u00e9 o que resultar. Para ele despencamos.<\/p>\n<p>Ou d\u00e1 para ter esperan\u00e7a de que brote das \u00e1guas a cabe\u00e7a de algu\u00e9m comum, trazendo uma luz e falando uma l\u00edngua que a maioria de n\u00f3s n\u00e3o vai entender mas que aceitaremos como um caminho para o resgate? Feito de racionalidade e disciplina.<\/p>\n<p>Nesse caso, ainda precisar\u00edamos fazer como os Javalis Selvagens : treinar o f\u00f4lego, aprender a nadar e mergulhar no desconhecido. Seremos capazes?<\/p>\n<p>Haja cora\u00e7\u00e3o, como nos repetiram \u00e0 exaust\u00e3o nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p><strong>Artigo publicado no jornal O Globo &#8211; <\/strong><strong>dispon\u00edvel na internet 21\/07\/2018<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Nota: O presente artigo n\u00e3o traduz a opini\u00e3o do ASMETRO-SN. Sua publica\u00e7\u00e3o tem o prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo que n\u00e3o se possa enganar a todos durante todo o tempo, somos ref\u00e9ns da irresponsabilidade dos Tr\u00eas Poderes D\u00e1 para imaginar o que \u00e9 isso? Ficar dias e dias na escurid\u00e3o total, encolhido entre o declive de um ch\u00e3o de pedra e a proximidade de teto e paredes de rocha, cercado de \u00e1gua, sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4049,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[134],"tags":[],"class_list":{"0":"post-27114","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Carinha-Ana-Maria-Machado.jpg?fit=220%2C220&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27114\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}