{"id":27239,"date":"2018-07-25T00:05:23","date_gmt":"2018-07-25T03:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=27239"},"modified":"2018-07-24T19:20:59","modified_gmt":"2018-07-24T22:20:59","slug":"nao-devemos-ter-medo-de-nao-fazer-nada-produtivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/07\/25\/nao-devemos-ter-medo-de-nao-fazer-nada-produtivo\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o devemos ter medo de n\u00e3o fazer nada produtivo\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h5 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \">Quando crian\u00e7a, a escritora e jornalista alem\u00e3 Andrea K\u00f6hler (Bad Pyrmont, 1957) olhava o interior de algumas caixas de seus av\u00f3s com fotos hologr\u00e1ficas de pessoas; se esperasse e as movesse, pareciam fantasmas. Algo de fantasmag\u00f3rico tamb\u00e9m havia no fato de aguardar pela revela\u00e7\u00e3o do papel fotogr\u00e1fico: \u201cO que n\u00e3o aparecia, com a espera aparecia\u201d. Isso acabou com a chegada da foto digital: \u201c\u00c9 puro imediatismo: voc\u00ea dispara e v\u00ea; o tempo de espera pela revela\u00e7\u00e3o se perdeu, um lapso em que outras coisas podiam acontecer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paisagem, \u00e0s pessoas ali retratadas ou a voc\u00ea mesmo; com o digital, essas coisas deixam de acontecer\u201d. E a\u00ed nasceu a ideia de\u00a0<em>Die geschenkte Zeit (<\/em>&#8216;O tempo dado: um ensaio sobre a espera&#8217;, em tradu\u00e7\u00e3o livre<em>)<\/em>, uma refinada reflex\u00e3o liter\u00e1rio-filos\u00f3fica sobre a espera, tran\u00e7ada a partir das leituras de 42 livros, dos\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Irm%C3%A3os_Grimm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">irm\u00e3os Grimm<\/a>\u00a0a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Peter_Sloterdijk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sloterdijk<\/a>, passando pelos picos de Beckett e seu\u00a0<em>Esperando Godot<\/em>\u00a0ou do Heidegger de\u00a0<em>Os Conceitos Fundamentais da Metaf\u00edsica<\/em>.<\/h5>\n<p>K\u00f6hler s\u00f3 v\u00ea virtudes no \u201caborrecimento de esperar\u201d uma (in)a\u00e7\u00e3o que hoje \u00e9 um an\u00e1tema ou suposto estado de imbecilidade improdutiva nesta sociedade do yoctosegundo e do turbocapitalismo. Mas essa acelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o deteve o sofrimento da espera; pelo contr\u00e1rio, a Internet e o Twitter tornam todos mais impulsivos e impacientes. \u201cPodemos reduzir e tornar mais intensos os intervalos, mas eles continuam a\u00ed, com a obsess\u00e3o de us\u00e1-los para algo produtivo, enquanto eliminar os tempos de espera nos deixa menos tempo para pensar e nos conectar com n\u00f3s mesmos\u201d. At\u00e9 recentemente correspondente nos\u00a0Estados Unidos, l\u00e1 ela detectou a \u00faltima consequ\u00eancia: \u201cQuerer encurtar os tempos de espera s\u00f3 fez crescer exponencialmente a ansiedade e a necessidade de tratamento m\u00e9dico nas pessoas\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto izquierda foto_w360\">\n<p><figure style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/07\/22\/actualidad\/1532254071_117195_1532278719_noticia_normal.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/07\/22\/actualidad\/1532254071_117195_1532278719_noticia_normal.jpg?resize=360%2C541&#038;ssl=1\" alt=\"Andrea K\u00f6hler em Barcelona\" width=\"360\" height=\"541\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A escritora alem\u00e3 Andrea K\u00f6hler defende as vantagens da espera em um ensaio liter\u00e1rio-filos\u00f3fico<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\"><\/div>\n<p>Baseando-se no Nabokov de\u00a0<em>Fala, Mem\u00f3ria<\/em>, a autora desenvolve a tese de que a vida n\u00e3o deixa de ser uma longa espera para morrer, ou um clar\u00e3o entre dois negros infinitos. \u201cO ber\u00e7o balan\u00e7a no abismo\u201d, escreve o autor de\u00a0<em>Lolita<\/em>. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma ideia t\u00e3o terr\u00edvel: a vida \u00e9 algo que acontece entre dois momentos de vazio; o homem \u00e9 o \u00fanico animal que sabe que sua vida termina e \u00e9 isso que o leva a criar arte; que haja um princ\u00edpio e um fim e uma dire\u00e7\u00e3o lhe d\u00ea sentido; \u00e9 um paradoxo existencial\u201d, acredita K\u00f6hler. Todo criador, argumenta, deve suportar a espera: que os pensamentos cheguem e sejam organizados. \u00c9 o que\u00a0Kafka\u00a0chamou de \u201chesita\u00e7\u00e3o antes do nascimento\u201d porque, como ela diz, \u201cn\u00e3o se deve for\u00e7ar a musa, mas \u00e9 preciso preparar o terreno para ela, esperar\u201d. Trata-se, portanto, de entender toda espera \u201ccomo tempo concedido e n\u00e3o perdido\u201d, longe da adjetiva\u00e7\u00e3o que o Romantismo XVIII associou a \u201cdor\u201d e \u201csofrimento\u201d, e assim ver que adoecer \u00e9 \u201cum compasso de espera, uma pausa que o corpo pede\u201d e que parte do encanto e da raz\u00e3o de ser da viagem consiste em que \u201calgu\u00e9m espere e d\u00ea f\u00e9 de nossa aus\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>K\u00f6hler pratica o que escreve: ap\u00f3s uma primeira resposta, aproveita a pausa da transcri\u00e7\u00e3o feita por seu interlocutor para pensar e acrescentar argumentos, como em sua assevera\u00e7\u00e3o de que, mesmo que tenhamos adaptado nosso equipamento sensorial ao tempo acelerado, os sentimentos conservam sua lentid\u00e3o. \u201cN\u00e3o deixamos de ser humanos: nossos sentimentos mant\u00eam um certo anacronismo, geramos defesas contra a ang\u00fastia da rapidez, por isso n\u00e3o podemos nos libertar da lentid\u00e3o, o que explica o auge de\u00a0fen\u00f4menos como a medita\u00e7\u00e3o, a\u00a0<em>slow food<\/em>, a yoga&#8230;\u201d, diz. Mas o que acontece quando n\u00e3o fazemos nada? \u201cMuitas coisas, chega o inexplic\u00e1vel e o inaudito, por exemplo: precisamos abrir espa\u00e7o para que o maravilhoso passe; a quest\u00e3o hoje \u00e9 n\u00e3o ter medo de n\u00e3o fazer algo produtivo\u201d.<\/p>\n<p>E, ap\u00f3s a pausa, outro argumento: \u201cO ser humano procura, por natureza, seguran\u00e7a, enquanto que na espera tudo pode acontecer; mas se eliminamos a possibilidade de que possam ocorrer coisas, no fundo perdemos liberdade e pode ser que tamb\u00e9m mem\u00f3ria\u201d. Outra pausa e continua: \u201cPensar, escrever requer tempo e a natureza, tamb\u00e9m: da gesta\u00e7\u00e3o, da puberdade e do casulo de um inseto, que s\u00e3o est\u00e1gios de espera, surgir\u00e1 uma criatura diferente&#8230; A fruta tamb\u00e9m precisa de tempo para amadurecer e tem suas esta\u00e7\u00f5es; a mem\u00f3ria humana est\u00e1 associada a isso e aos odores dessa fruta em sua temporada.\u00a0O que acontecer\u00e1 com a mem\u00f3ria\u00a0se existem frutas o ano inteiro e se essas j\u00e1 n\u00e3o cheiram como antes porque n\u00e3o amadureceram o suficiente na \u00e1rvore?\u201d.<\/p>\n<p>Magra, sentada bem reta sem tocar o encosto da cadeira, K\u00f6hler parece prestar aten\u00e7\u00e3o em tudo. Agora terminou um ensaio parecido sobre a vergonha e est\u00e1 em plena produ\u00e7\u00e3o de outro sobre os rostos: \u201cCada face, claro, \u00e9 diferente, mas \u00e0s vezes existem reflexos de umas em outras\u201d. Assuntos, de qualquer forma, bem afastados. \u201cN\u00e3o acredite: s\u00e3o essenciais na conforma\u00e7\u00e3o do ser humano, para se conhecer e conhecer os demais\u201d. Pelo menos, pouco abordados: \u201cSim, na\u00a0Filosofia\u00a0existem muitos livros sobre o tempo, mas poucos sobre a espera\u201d. Talvez o problema da espera seja fazer com que a pessoa converse com ela mesma. E isso sempre d\u00e1 medo.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">A ESPERA MACHISTA<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>Em\u00a0<i>Madame Bovary<\/i>\u00a0e em\u00a0<i>Anna Karenina<\/i>\u00a0a ensa\u00edsta se fixa no fato de que a rebeli\u00e3o contra a espera feminina significa a perdi\u00e7\u00e3o, o que contrasta, afirma, com a espera positiva quando se trata do idealizado homem perfeito. A espera \u00e9 machista? \u201cDurante muitos per\u00edodos da Humanidade, sempre foi a mulher a esperar que o homem voltasse, por exemplo, de longas viagens explorat\u00f3rias e de guerras, e assim se associou; Pen\u00e9lope, a mulher de Ulisses, \u00e9 o primeiro personagem liter\u00e1rio em que a espera \u00e9 unida \u00e0 narra\u00e7\u00e3o&#8230; E tudo isso, por sua vez, \u00e9 ligado a uma eterna pergunta do ser humano: existir\u00e1, em algum lugar, algu\u00e9m esperando por mim?\u201d.<\/p>\n<p><strong><span class=\"articulo-localizaciones\"><span class=\"articulo-localizacion\">Cr\u00e9dito: Carles Geli de Barcelona\u00a0 para el Pa\u00eds Brasil &#8211; dispon\u00edvel na internet 25\/07\/2018<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando crian\u00e7a, a escritora e jornalista alem\u00e3 Andrea K\u00f6hler (Bad Pyrmont, 1957) olhava o interior de algumas caixas de seus av\u00f3s com fotos hologr\u00e1ficas de pessoas; se esperasse e as movesse, pareciam fantasmas. 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