{"id":28010,"date":"2018-08-16T00:08:07","date_gmt":"2018-08-16T03:08:07","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=28010"},"modified":"2018-08-15T18:14:04","modified_gmt":"2018-08-15T21:14:04","slug":"como-fraudes-de-madeireiras-ameacam-a-sobrevivencia-do-ipe-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/08\/16\/como-fraudes-de-madeireiras-ameacam-a-sobrevivencia-do-ipe-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Como fraudes de madeireiras amea\u00e7am a sobreviv\u00eancia do ip\u00ea na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">A extra\u00e7\u00e3o de ip\u00ea nas reservas do Estado do Par\u00e1 est\u00e1 sendo fraudada para legalizar madeira clandestina. Pesquisadores brasileiros afirmam que as madeireiras estariam superestimando o volume de madeira cuja extra\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida, de forma a legalizar madeira retirada ilegalmente de \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente, como a beira dos rios.<\/p>\n<p>O trabalho foi publicado em um artigo na revista cient\u00edfica\u00a0Science Advances. A partir dele espera-se identificar e coibir as empresas e os t\u00e9cnicos de manejo florestal envolvidos nas fraudes.<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>&#8220;Os madeireiros est\u00e3o superestimando os volumes de madeira que alegam existir nas \u00e1reas que desejam explorar, especialmente de ip\u00ea, que \u00e9 a madeira mais cara e a mais procurada&#8221;, afirma o engenheiro agr\u00f4nomo Pedro Brancalion, pesquisador na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de S\u00e3o Paulo, em Piracicaba.<\/p>\n<p>Seu colega na Esalq, o tamb\u00e9m engenheiro agr\u00f4nomo Edson Vidal, vai al\u00e9m: &#8220;Alguns poucos engenheiros agr\u00f4nomos respons\u00e1veis pela vistoria das \u00e1reas de mata a ser explorada inflam o volume das esp\u00e9cies mais valiosas. Fazem isso para poder incluir nos carregamentos legais de madeira troncos de ip\u00ea extra\u00eddos ilegalmente de reservas ind\u00edgenas, de \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o ou nas reservas obrigat\u00f3rias de mata nativa que cada fazenda \u00e9 obrigada a manter&#8221;. Brancalion e Vidal pesquisam o manejo florestal de esp\u00e9cies nativas tropicais.<\/p>\n<p>Para entender como e por que os planos de manejo est\u00e3o sendo fraudados, \u00e9 preciso conhecer o processo legal de explora\u00e7\u00e3o de madeira na Amaz\u00f4nia. Cada fazenda na regi\u00e3o \u00e9 obrigada a manter uma reserva florestal que corresponde a 80% da \u00e1rea total da propriedade, conhecida como reserva legal.<\/p>\n<p>A extra\u00e7\u00e3o controlada de madeira nas \u00e1reas de reserva legal \u00e9 permitida, desde que siga certos crit\u00e9rios. Deve-se contratar um engenheiro agr\u00f4nomo para fazer o plano de manejo e acompanhar o trabalho das madeireiras. Esse profissional deve contar todas as \u00e1rvores de cada esp\u00e9cie que existem na \u00e1rea que se quer explorar. Ao faz\u00ea-lo, ele coloca plaquinhas de identifica\u00e7\u00e3o nos troncos.<\/p>\n<p>Existe um volume m\u00e1ximo de cada esp\u00e9cie comercial, como ip\u00ea, jatob\u00e1 ou cumaru, que pode ser derrubada em cada \u00e1rea. As \u00e1rvores devem ter um tronco com di\u00e2metro superior a 60 cent\u00edmetros, ou seja, s\u00e3o \u00e1rvores maiores e mais antigas. Mas nem todas elas podem vir abaixo. &#8220;No caso do ip\u00ea, \u00e9 preciso manter um m\u00ednimo de tr\u00eas \u00e1rvores por hectare, para garantir o repovoamento da \u00e1rea,&#8221; diz Brancalion.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir da contagem das \u00e1rvores que o agr\u00f4nomo tem condi\u00e7\u00f5es de estimar a quantidade em metros c\u00fabicos de madeira de cada esp\u00e9cie que pode ser extra\u00edda naquele local. Essas quantidades fazem parte do plano de manejo, que \u00e9 submetido \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de fiscais da Secretaria de Meio Ambiente do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Uma vez aprovado o plano de manejo, \u00e9 emitida uma licen\u00e7a (ou Autoriza\u00e7\u00e3o de Explora\u00e7\u00e3o Florestal). S\u00f3 a\u00ed podem ser derrubadas, mas apenas aquelas indicadas no plano de manejo e dentro do volume m\u00e1ximo previsto. O agr\u00f4nomo respons\u00e1vel deve acompanhar o manejo e colocar placas de identifica\u00e7\u00e3o, especificando a esp\u00e9cie de cada tora retirada, assim como especificando o toco ao qual pertence cada madeira removida.<\/p>\n<p>&#8220;Apenas troncos certificados podem circular pelas rodovias, para envio aos centros consumidores no Sudeste do pa\u00eds. Se houver toras sem certifica\u00e7\u00e3o, o caminh\u00e3o \u00e9 barrado pela pol\u00edcia na estrada,&#8221; explica Vidal.<\/p>\n<p>&#8220;Nos casos que parecem estar sendo fraudados, os madeireiros alegam ter extra\u00eddo, por exemplo, aquelas dez toras de ip\u00ea constantes no plano de manejo aprovado (mas que, na verdade, n\u00e3o existiam na regi\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o)&#8221;, diz Vidal.<\/p>\n<p>&#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 isso que de fato fazem. Os madeireiros derrubam dez \u00e1rvores, mas talvez metade delas seja ip\u00ea, cujos troncos s\u00e3o identificados e carregados nos caminh\u00f5es. As outras cinco \u00e1rvores abatidas pertencem, na verdade, a esp\u00e9cies de menor valor comercial, e mesmo esp\u00e9cies n\u00e3o comerciais.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/185E\/production\/_102983260_mma.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/185E\/production\/_102983260_mma.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Madeira apreendida em opera\u00e7\u00e3o do Ibama\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Somente troncos certificados est\u00e3o autorizados a circular pelas rodovias brasileiras.\u00a0Direito de imagem\u00a0MINIST\u00c9RIO DO MEIO AMBIENTE<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Os madeireiros ganham duas vezes. Eles cortam e arrastam as \u00e1rvores de menor valor no lugar de ip\u00eas nas \u00e1reas legalizadas, e cortam e arrastam ip\u00eas de \u00e1reas proibidas,&#8221; diz o bi\u00f3logo Saulo de Souza, da Esalq, que tamb\u00e9m participou da pesquisa. Quanto aos troncos das esp\u00e9cies n\u00e3o comerciais, s\u00e3o simplesmente abandonados na mata para apodrecer.<\/p>\n<p>Uma vez que as \u00e1rvores pouco comerciais s\u00e3o retiradas, o agr\u00f4nomo respons\u00e1vel pela fraude coloca uma placa em seus tocos indicando que se trata de um ip\u00ea. &#8220;Mas a outra placa, aquela que deveria ser afixada no tronco de madeira de menor valor correspondente, \u00e9 na realidade afixado num tronco de ip\u00ea, tronco este que foi abatido de forma ilegal, como por exemplo na margem dos rios, onde a extra\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida,&#8221; explica Vidal. &#8220;Com a placa indicando que aquele tronco de ip\u00ea foi extra\u00eddo legalmente, a madeira ilegal pode ser transportada normalmente pelas rodovias.&#8221;<\/p>\n<p>Um outro estratagema \u00e9 afirmar no plano de manejo que as \u00e1rvores s\u00e3o maiores do que realmente s\u00e3o. Segundo Vidal, o volume fict\u00edcio de madeira legal resultante passa a ser preenchido com madeira ilegal. &#8220;\u00c9 basicamente assim que os madeireiros fazem para esquentar a madeira retirada de forma clandestina.&#8221;<\/p>\n<p>Como foi que o estudo chegou a tais conclus\u00f5es? Os pesquisadores resolveram confrontar os dados referentes ao n\u00famero de esp\u00e9cies e ao volume de madeira das licen\u00e7as de extra\u00e7\u00e3o aprovadas, com uma estimativa cient\u00edfica do volume de madeira, por esp\u00e9cie, que deveria existir originalmente nas \u00e1reas que foram manejadas. Tal estimativa pode ser feita a partir de imagens de sat\u00e9lite da floresta, registradas pelo governo federal nos anos 1970.<\/p>\n<p>Os pesquisadores investigaram 427 licen\u00e7as de manejo constantes no sistema da Secretaria de Meio Ambiente, e que foram aprovadas pelos fiscais do governo. Agindo desse modo, obteve-se o levantamento da quantidade de \u00e1rvores de cada esp\u00e9cie e do volume de madeira indicado em cada licen\u00e7a.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi estimar o volume de madeira existente em cada hectare de floresta registrado nas fotos de sat\u00e9lite. As licen\u00e7as mencionavam a exist\u00eancia de 80 esp\u00e9cies diferentes. Os pesquisadores estudaram as onze esp\u00e9cies mais abundantes. Chegou-se assim numa estimativa cient\u00edfica do volume de madeira de cada esp\u00e9cie que existia nos locais explorados.<\/p>\n<p>Ao confrontar os dados das licen\u00e7as com as estimativas feitas dos registros de sat\u00e9lite, os pesquisadores verificaram que muitos n\u00fameros n\u00e3o batiam. &#8220;Havia licen\u00e7as alegando um volume de ip\u00ea at\u00e9 quatro vezes superior ao volume por n\u00f3s estimado,&#8221; afirma Brancalion.<\/p>\n<p>&#8220;Em m\u00e9dia, naqueles planos de manejo que parecem ter sido fraudados, os volumes indicados s\u00e3o o dobro do verdadeiro. Especificamente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de ip\u00ea, 77% dos planos foram aparentemente fraudados,&#8221; revela Souza.<\/p>\n<p>Por fim, em outubro de 2017, acompanhado de membros da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Greenpeace e da For\u00e7a Nacional, Souza realizou uma vistoria em algumas \u00e1reas onde a extra\u00e7\u00e3o ilegal de ip\u00ea parecia ter sido elevada. &#8220;Havia nos locais dezenas de &#8216;\u00e1rvores imagin\u00e1rias'&#8221;, comenta Souza.<\/p>\n<p>A partir da identifica\u00e7\u00e3o dos planos de manejo em teoria fraudados, foi poss\u00edvel descobrir os nomes dos agr\u00f4nomos respons\u00e1veis por cada um deles. Na regi\u00e3o, h\u00e1 97 profissionais que trabalham para as madeireiras elaborando planos de manejo.<\/p>\n<p>&#8220;As fraudes parecem estar relacionadas a uma minoria entre os t\u00e9cnicos&#8221;, diz Brancalion. De acordo com os pesquisadores, cerca de 15% deles s\u00e3o os respons\u00e1veis por todos os planos supostamente fraudados.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil procurou a \u00e1rea de fiscaliza\u00e7\u00e3o da Secret\u00e1ria de Meio Ambiente do Par\u00e1 e representantes da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00fastria Exportadoras de Madeiras do Par\u00e1 (Aimex) &#8211; as empresas madeireiras Amaz\u00f4nia Florestal, sediada em Bel\u00e9m, Advantage Florestal, de Ananindeua (PA), e Ipex Com\u00e9rcio de Madeiras, de Marituba (PA) -, mas n\u00e3o obteve retorno.<\/p>\n<p>&#8220;Estou muito preocupado com o futuro do ip\u00ea&#8221;, diz o pesquisador Edson Vidal. &#8220;Ele pode seguir o caminho do mogno, que foi extra\u00eddo at\u00e9 o desaparecimento no Par\u00e1.&#8221; O mogno era a madeira mais nobre at\u00e9 os anos 1990. Quando suas reservas se exauriram, as madeireiras partiram para a segunda esp\u00e9cie de maior valor comercial, o ip\u00ea.<\/p>\n<p>O problema com o ip\u00ea talvez venha a ser ainda mais s\u00e9rio do que com o mogno, \u00e1rvore de crescimento mais r\u00e1pido do que o ip\u00ea. De acordo com Vidal, &#8220;o ip\u00ea cresce muito lentamente. Dados de que dispomos indicam que seriam necess\u00e1rios cem anos de preserva\u00e7\u00e3o intocada para repovoar uma \u00e1rea devastada com apenas 10% dos indiv\u00edduos da popula\u00e7\u00e3o original de ip\u00eas.&#8221;<\/p>\n<ul>\n<li><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-43062025\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como a explora\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rvore nativa pode ajudar a reduzir o desmatamento na Amaz\u00f4nia<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Peter Moon d<\/span><span class=\"byline__title\">e S\u00e3o Paulo para a BBC News Brasil -dispon\u00edvel na internet 16\/08\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A extra\u00e7\u00e3o de ip\u00ea nas reservas do Estado do Par\u00e1 est\u00e1 sendo fraudada para legalizar madeira clandestina. 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