{"id":28545,"date":"2018-08-31T00:10:32","date_gmt":"2018-08-31T03:10:32","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=28545"},"modified":"2018-08-30T21:04:26","modified_gmt":"2018-08-31T00:04:26","slug":"por-que-a-queda-do-desemprego-pode-esconder-uma-ma-noticia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/08\/31\/por-que-a-queda-do-desemprego-pode-esconder-uma-ma-noticia\/","title":{"rendered":"Por que a queda do desemprego pode esconder uma m\u00e1 not\u00edcia."},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body__inner\">\n<p class=\"story-body__introduction\">Em meio a 12,9 milh\u00f5es de pessoas que\u00a0buscam emprego\u00a0no Brasil, Larissa Silva Deloste, de 21 anos, pegou o \u00f4nibus esta semana, em S\u00e3o Paulo, e pensou: &#8220;Dessa vez tem que dar certo&#8221;. Ela estava a caminho da &#8220;20\u00aa ou 30\u00aa entrevista&#8221; em 2018.<\/p>\n<p>Em outro ponto da cidade, Gustavo Dias da Costa, de 19 anos, cadastrou o curr\u00edculo em um site, olhou os classificados do jornal e saiu \u00e0s ruas &#8220;onde tem bastante com\u00e9rcio&#8221;, de novo, \u00e0 procura de placas de &#8220;estamos contratando&#8221; para fun\u00e7\u00f5es como vendedor.<\/p>\n<p>Dados divulgados hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que o batalh\u00e3o de trabalhadores desocupados &#8211; os que est\u00e3o, como eles, nessa peregrina\u00e7\u00e3o &#8211; caiu no pa\u00eds, e o contingente dos que est\u00e3o ocupados aumentou.<\/p>\n<p>O movimento foi registrado entre maio e julho, ap\u00f3s tr\u00eas anos seguidos de alta do desemprego nesse mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Entre fevereiro e abril deste ano &#8211; o intervalo que oferece o panorama mais atual da situa\u00e7\u00e3o esmiu\u00e7ada por estado, faixas de escolaridade e grupos de idade da popula\u00e7\u00e3o &#8211; o recuo no \u00edndice j\u00e1 era percebido. Mas, apesar dos n\u00fameros positivos, outros dados mostram que o cen\u00e1rio est\u00e1 longe de uma melhora.<\/p>\n<p>Nesta reportagem, a BBC News Brasil explica os motivos e por que o momento ainda \u00e9 ruim &#8211; particularmente para os jovens, que representam 40% da popula\u00e7\u00e3o que acabou desistindo de encontrar trabalho.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/51A5\/production\/_103210902_larissa.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/51A5\/production\/_103210902_larissa.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Larissa Silva Deloste, de 21 anos, que est\u00e1 inserida nas estat\u00edsticas do desemprego no Brasil\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Larissa Silva Deloste, de 21 anos, fez dezenas de entrevistas e chegou a desistir da busca, mas acabou repensando &#8216;por necessidade&#8217;.\u00a0Direito de imagem\u00a0ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante cr\u00edtica&#8217;<\/h2>\n<p>Se o momento atual do mercado de trabalho brasileiro fosse resumido em uma palavra, o coordenador de emprego e renda do IBGE, Cimar Azeredo, escolheria &#8220;cr\u00edtico&#8221;. E diria tamb\u00e9m que &#8220;n\u00e3o est\u00e1 bom para ningu\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>Os dados do IBGE divulgados nesta quinta, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio, a Pnad Cont\u00ednua, mostram 12,9 milh\u00f5es de brasileiros como desocupados ou desempregados &#8211; grupo definido como o que segue em busca de emprego.<\/p>\n<p>Essa multid\u00e3o, identificada entre maio e julho, \u00e9 4,1% menor que a existente no per\u00edodo que engloba os tr\u00eas meses anteriores e 3,4% inferior \u00e0 registrada em igual trimestre do ano passado. Mas isso pode n\u00e3o refletir algo t\u00e3o positivo.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma desestrutura muito forte, ou seja, uma entrada de informalidade bastante agressiva&#8221;, disse Azeredo, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil ontem, quando analisou informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 haviam sido publicadas neste m\u00eas pelo \u00f3rg\u00e3o indicando n\u00fameros parecidos.<\/p>\n<p>Na pesquisa mais recente, com dados apenas nacionais, 458 mil pessoas que estavam na fila do desemprego sa\u00edram dessa estat\u00edstica, em compara\u00e7\u00e3o com 2017, mas fizeram isso n\u00e3o porque foram gerados novos empregos na economia, mas principalmente porque, de tanto esperar que isso acontecesse e de procurar vaga sem encontrar, desistiram &#8211; entrando numa outra estat\u00edstica da pesquisa, a do desalento.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Informalidade s\u00f3 cresce<\/h2>\n<p>Outro grupo, por sua vez, acabou se vendo sem alternativas ou quis empreender, mas migrarando sobretudo para atividades informais, como empregadas sem carteira assinada ou com neg\u00f3cios por conta pr\u00f3pria que n\u00e3o oferecem direitos como aposentadoria, aux\u00edlio-doen\u00e7a ou seguro-desemprego.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acho que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante critica em fun\u00e7\u00e3o principalmente da quantidade de postos de trabalho com carteira assinada que o Brasil perdeu. Haja vista a import\u00e2ncia que tem a carteira de trabalho para o o trabalhador brasileiro, principalmente o de baixa renda, essa queda na carteira vem de forma constante, sem nenhuma recupera\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio da crise, em 2014. Isso \u00e9 grave&#8221;, analisa o coordenador.<\/p>\n<p>&#8220;O desemprego em queda \u00e9, na verdade, o aumento do desalento&#8221;, acrescenta. &#8220;O Brasil nunca teve tanto desalento quanto agora.&#8221;<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s carteiras assinadas, foram quase 3,7 milh\u00f5es de perdas, numa compara\u00e7\u00e3o entre o terceiro trimestre e igual per\u00edodo de 2014, ano em que a economia ainda crescia, complementa o professor em\u00e9rito do instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jo\u00e3o Saboia.<\/p>\n<p>&#8220;Com a crise econ\u00f4mica, (o mercado de trabalho) piorou bastante a partir de 2015. Desde ent\u00e3o, tem tido grandes dificuldades para mostrar alguma recupera\u00e7\u00e3o, pois a economia est\u00e1 praticamente estagnada&#8221;, observa Saboia, &#8220;ressaltando que o desemprego permanece elevado e a informalidade tamb\u00e9m nunca esteve t\u00e3o alta&#8221;.<\/p>\n<p>Outros dados que os especialistas apontam como alarmantes s\u00e3o os dos chamados trabalhadores subocupados, ou subutilizados &#8211; aqueles que est\u00e3o trabalhando menos de 40 horas e querem trabalhar mais. &#8220;Essa medida subiu, ou seja, o desemprego caiu, mas a quantidade de pessoas subutilizadas no Brasil tamb\u00e9m aumentou&#8221;, analisou Azeredo em entrevista nesta semana.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1669A\/production\/_103220819_gettyimages-982127736.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1669A\/production\/_103220819_gettyimages-982127736.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem mostra homem segurando carteira de trabalho\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">O n\u00famero de carteiras de trabalho assinadas despencou no Brasil e baque \u00e9 um dos que tornam o momento cr\u00edtico, dizem especialistas.\u00a0Direito de imagem\u00a0GLOBAL_PICS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Entre o desemprego e o desalento<\/h2>\n<p>Ao mesmo tempo em que o desemprego diminuiu no Brasil, os dados do trimestre anterior &#8211; que s\u00e3o mais detalhados e tamb\u00e9m apontam queda &#8211; mostram que ele aumentou para pessoas com ensino superior completo e incompleto. O desalento tamb\u00e9m subiu, e tem a cara principalmente de pessoas jovens.<\/p>\n<p>No ensino superior completo, a alta na quantidade de desempregados foi de 5,05% na compara\u00e7\u00e3o com o segundo trimestre de 2017. Para o incompleto, chegou a 13,35% &#8211; enquanto para as outras faixas de escolaridade, caiu.<\/p>\n<p>J\u00e1 na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo trimestre de 2014, quando o IBGE come\u00e7ou a enxergar piora no mercado de trabalho, a quantidade de desempregados nos dois grupos com maior qualifica\u00e7\u00e3o mais que dobrou, enquanto para outros n\u00edveis de instru\u00e7\u00e3o cresceu menos.<\/p>\n<p>Como, por defini\u00e7\u00e3o, desempregado \u00e9 aquele que busca uma vaga, quem continuou procurando o fez por quest\u00f5es relacionadas, por exemplo, a dificuldades financeiras.<\/p>\n<p>Muitas dessas pessoas com ensino superior completo ou incompleto acabaram arrastadas para a fila do desemprego &#8211; a dos que buscam vaga &#8211; ao terem outras pessoas da fam\u00edlia demitidas e se verem diante da necessidade de ajudar em casa, diz Azeredo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, observa ele, &#8220;procurar trabalho tem um custo. \u00c9 preciso sair de casa, pagar passagem, comprar alimenta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 todo mundo que ainda consegue fazer isso. Procurar emprego n\u00e3o \u00e9 mais para qualquer um. \u00c9 uma busca que est\u00e1 limitada&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Mais desempregados, os jovens s\u00e3o a maior fatia dos que s\u00e3o classificados como desalentados no Brasil.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17D1B\/production\/_103236579_6061d768-795c-4fee-ad90-474223ccff92.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17D1B\/production\/_103236579_6061d768-795c-4fee-ad90-474223ccff92.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Cimar Azeredo, coordenador de emprego e renda do IBGE\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Azeredo, coordenador de emprego e renda do IBGE: &#8216;Voc\u00ea tem 161 mil pessoas no Brasil com superior completo que est\u00e3o desalentadas&#8217;\u00a0Direito de imagem\u00a0AG\u00caNCIA DE NOT\u00cdCIAS DO IBGE<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O n\u00famero de pessoas desalentadas, aquelas que desistiram de procurar trabalho pelas dificuldades que encontraram no caminho, chegou a 4,81 milh\u00f5es no trimestre de maio a julho, uma alta de 17,8% que significa 728 mil pessoas a mais ante igual per\u00edodo do ano passado.<\/p>\n<p>Entre fevereiro e abril deste ano, quando esse grupo era composto por 4,72 milh\u00f5es de pessoas, 40% dos que estavam enquadrados nesse perfil eram mulheres jovens, com idades entre 16 e 29 anos, e ensino fundamental incompleto.<\/p>\n<p>Mas quem tinha ensino superior completo ou incompleto tamb\u00e9m n\u00e3o escapou.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem 161 mil pessoas no Brasil com superior completo que est\u00e3o desalentadas, ou seja, que desistiram de procurar trabalho. No superior incompleto, s\u00e3o 99 mil&#8221;, diz Azeredo.<\/p>\n<p>&#8220;Geralmente, s\u00e3o pessoas que est\u00e3o em uma estrutura que permite que desistam de procurar trabalho, porque t\u00eam outro arrimo de fam\u00edlia (ou seja, algu\u00e9m que sustenta a casa) da qual elas passam a depender, ou ainda aquelas que vivem de resqu\u00edcios de indeniza\u00e7\u00e3o por terem sido demitidas ou t\u00eam algum outro tipo de renda extra&#8221;, observa ele.<\/p>\n<p>&#8220;Porque aquela popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem renda alguma, essa popula\u00e7\u00e3o de certa forma hoje est\u00e1 na informalidade.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A cara dos que procuram<\/h2>\n<p>Desde o final de janeiro, quando foi desligada de seu \u00faltimo emprego com carteira assinada, Larissa busca outra oportunidade em S\u00e3o Paulo &#8211; uma das metr\u00f3poles que viram a quantidade de carteiras de trabalho descer ao n\u00edvel mais baixo desde que a PNAD Cont\u00ednua come\u00e7ou a ser divulgada, em 2012.<\/p>\n<p>O \u00e2nimo de muitos para procurar uma vaga, nesse contexto, despencou. O de Larissa tamb\u00e9m nem sempre foi o mesmo.<\/p>\n<p>Entre os meses de maio e junho, &#8220;de tanto levar &#8216;n\u00e3o&#8217; ou simplesmente ser esquecida&#8221; por quem prometia &#8220;vamos ligar e n\u00e3o ligava&#8221;, ela decidiu sair da fila dos que procuravam.<\/p>\n<p>&#8220;O que me fez voltar agora foi a necessidade&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Moro com a minha m\u00e3e, sou a principal fonte de renda em casa e mesmo que eu fa\u00e7a um &#8216;frila&#8217; aqui e ali, n\u00e3o \u00e9 todo m\u00eas que esses trabalhos aparecem. E as contas, ao contr\u00e1rio, sempre chegam.&#8221;<\/p>\n<p>Outro fator ajudou a devolver a confian\u00e7a que ela precisava para continuar procurando: estar, agora, no grupo dos rec\u00e9m-formados.<\/p>\n<p>A possibilidade mais recente de vaga saltou aos olhos dela sexta-feira passada, em um an\u00fancio online que buscava &#8220;assistente de marketing com ensino superior completo, perfil proativo, boa comunica\u00e7\u00e3o, ingl\u00eas intermedi\u00e1rio e experi\u00eancia pr\u00e9via&#8221;.<\/p>\n<p>Larissa havia recebido o diploma de gradua\u00e7\u00e3o em marketing no dia anterior. E, exatamente uma semana depois, estava sentada em uma cadeira como as da faculdade, com uma caneta na m\u00e3o e uma ficha para preencher antes da entrevista de emprego.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0385\/production\/_103210900_larissa2.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0385\/production\/_103210900_larissa2.jpg?resize=696%2C870&#038;ssl=1\" alt=\"Larissa Silva Deloste, de 21 anos, posa para foto vestindo beca, no dia da cola\u00e7\u00e3o de grau em marketing\" width=\"696\" height=\"870\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Larissa se formou em marketing na semana passada, e, apesar das dificuldades, v\u00ea o diploma como um trunfo para conseguir vaga.\u00a0Direito de imagem\u00a0ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em sala de aula, os professores diziam que &#8220;o mercado n\u00e3o estava muito bom, principalmente para quem est\u00e1 saindo da universidade agora, e que se a gente encontrasse algo deveria agarrar com unhas e dentes&#8221;, lembra ela.<\/p>\n<p>O professor Jo\u00e3o Saboia, da UFRJ, refor\u00e7a parte desse discurso.<\/p>\n<p>&#8220;Em geral, os jovens s\u00e3o os que enfrentam as maiores dificuldades no mercado de trabalho, mesmo quando a economia est\u00e1 crescendo. Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpresa que eles acabem sendo os mais atingidos no momento de crise. Isso ocorre pelo fato de estarem na fase de entrada do mercado, com menos experi\u00eancia que os demais, muitas vezes em busca do primeiro emprego. Da\u00ed o desalento os atingir com maior intensidade&#8221;, diz o professor.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dele, &#8220;a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel, em termos de frustra\u00e7\u00e3o que traz aos jovens, al\u00e9m da perda que representa para o potencial de crescimento do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Mais um entre milh\u00f5es&#8217;<\/h2>\n<p>Gustavo Dias, de 19 anos, sabe bem como \u00e9 essa frustra\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica e manifesta isso se descrevendo, no Instagram, como &#8220;mais um entre milh\u00f5es de desempregados&#8221; ou na legenda de uma foto em que diz &#8220;indo para mais uma entrevista que n\u00e3o deu certo&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de concluir o ensino m\u00e9dio no final de 2016, ele come\u00e7ou uma jornada por emprego, mas poucas vezes chegou at\u00e9 a fase de entrevista.<\/p>\n<p>&#8220;Eu chego nos processos seletivos e tem 30 pessoas para uma vaga. E n\u00e3o s\u00e3o pessoas do mesmo n\u00edvel que eu. Elas t\u00eam diploma de t\u00e9cnico, de administra\u00e7\u00e3o, curso de ingl\u00eas, ou j\u00e1 bastante experi\u00eancia. E \u00e9 a\u00ed que a minha situa\u00e7\u00e3o complica&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Como eu n\u00e3o tenho experi\u00eancia, as pessoas ficam receosas de arriscar e eu acabo sem a vaga. Passam 10 ou 15 na minha frente por causa disso&#8221;.<\/p>\n<p>Gustavo mora na zona norte de S\u00e3o Paulo, com o pai, a m\u00e3e e um irm\u00e3o de 2 anos.<\/p>\n<p>O pai trabalhava como ajudante de pedreiro e de mudan\u00e7a, mas teve problemas de sa\u00fade e, por enquanto, recebe um aux\u00edlio do INSS. A m\u00e3e \u00e9 auxiliar de servi\u00e7os gerais em um edif\u00edcio e ensinou a ele que segunda e ter\u00e7a-feira s\u00e3o os melhores dias para procurar emprego, por serem ainda o in\u00edcio da semana.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 959px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1187A\/production\/_103220817_gustavo.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1187A\/production\/_103220817_gustavo.jpg?resize=696%2C929&#038;ssl=1\" alt=\"Gustavo Dias, de 19 anos, que est\u00e1 inserido nas estat\u00edsticas de desemprego do Brasil\" width=\"696\" height=\"929\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Gustavo Dias, de 19 anos, tem enfrentado dificuldades e analisa que culpa \u00e9 da falta de experi\u00eancia e da enxurrada de candidatos com esse requisito.\u00a0Direito de imagem\u00a0ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>E \u00e9 assim, praticamente todas as semanas, que o rapaz sai de casa em busca de placas ou cartazes que anunciem uma chance, ou arriscando mais ainda: batendo mesmo porta a porta onde acha que algu\u00e9m pode estar precisando.<\/p>\n<p>No fim do ano passado, ele conseguiu uma oportunidade sem carteira assinada substituindo um conhecido da m\u00e3e que, ao sair de f\u00e9rias, o indicou para &#8220;fazer um pouco de tudo&#8221;, como repositor, entregador e balconista, em uma loja que vende desde pacotes de feij\u00e3o e frango assado at\u00e9 quentinhas para moradores das redondezas.<\/p>\n<p>Em meados deste ano, o rapaz voltou ao estabelecimento temporariamente enquanto os donos procuravam outro empregado.<\/p>\n<p>Em cerca de tr\u00eas semanas de trabalho, conseguiu menos da metade de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, considerando R$ 45 que recebia por dia e a soma das notas de R$ 2 que ganhava cada vez que atuava como entregador<i>.<\/i><\/p>\n<p>Ele diz que, apesar de encontrar muitas portas fechadas, n\u00e3o vai desistir de procurar outra oportunidade.<\/p>\n<p>&#8220;Pretendo procurar e achar at\u00e9 o fim do ano. Eu n\u00e3o tenho escolha e n\u00e3o gosto de ficar dependente&#8221;, diz. A inten\u00e7\u00e3o, segundo ele, \u00e9 conseguir um emprego que lhe permita tamb\u00e9m estudar. Ele quer fazer curso de R\u00e1dio e TV na universidade e faz planos de morar sozinho aos 25 anos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes eu penso &#8216;nossa, mas j\u00e1 entreguei mais de 20 curr\u00edculos e n\u00e3o fui chamado&#8217;, a\u00ed fico uns tr\u00eas dias parado para esfriar a cabe\u00e7a e volto a procurar na mesma disposi\u00e7\u00e3o de antes. Porque tem que seguir em frente.&#8221;<\/p>\n<p>Larissa, que fez mais uma entrevista esta semana e espera a resposta, tamb\u00e9m diz que n\u00e3o vai desistir se n\u00e3o der certo.<\/p>\n<p>&#8220;Dizem que o segundo semestre \u00e9 um pouco melhor para procurar e eu vou continuar procurando.&#8221;<\/p>\n<p>Assim como Gustavo, a rec\u00e9m-formada planeja continuar estudando. &#8220;Se conseguir o emprego&#8221;, o plano \u00e9 voltar para o curso de ingl\u00eas que precisou interromper h\u00e1 alguns anos. E, a longo prazo, quer fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia, fora do Brasil.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades que enfrenta para encontrar vaga mesmo com o diploma em m\u00e3os, ela diz que o investimento vai valer a pena. &#8220;Com emprego ou sem emprego, o conhecimento \u00e9 algo que ningu\u00e9m tira da gente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Qual \u00e9 a tend\u00eancia para o mercado de trabalho?<\/h2>\n<p>De forma global, a tend\u00eancia \u00e9 muito desfavor\u00e1vel na quest\u00e3o do emprego no Brasil, diz o professor Jo\u00e3o Saboia, da UFRJ. &#8220;Desde 2017, o crescimento econ\u00f4mico tem sido muito fraco e as perspectivas de curto e m\u00e9dio prazo n\u00e3o ajudam&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>O professor observa que h\u00e1 muita incerteza sobre o resultado das elei\u00e7\u00f5es de outubro, e as propostas que os candidatos puseram na mesa &#8220;s\u00e3o muito vagas&#8221;.<\/p>\n<p>Quem vencer, acrescenta ele, &#8220;ter\u00e1 a dura tarefa de arrumar a economia e ao mesmo tempo aplicar pol\u00edticas que resultem em amplia\u00e7\u00e3o do emprego e renda&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 com muito crescimento econ\u00f4mico pode-se vislumbrar alguma melhora efetiva no mercado de trabalho&#8221;, diz o professor, mas n\u00e3o h\u00e1 sinais animadores em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>&#8220;Tendo em vista a dimens\u00e3o do d\u00e9ficit fiscal (as despesas do governo maiores que as receitas) e os ajustes que ser\u00e3o necess\u00e1rios para um equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas, as perspectivas de crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o s\u00e3o favor\u00e1veis. Com isso, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o mercado de trabalho continue andando de lado nos pr\u00f3ximos anos.&#8221;<\/p>\n<p>Larissa e Gustavo, no entanto, esperam que o contr\u00e1rio aconte\u00e7a. Ela acredita: &#8220;Uma hora a nossa vez chega&#8221;.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Renata Moura d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em Londres &#8211; dispon\u00edvel na internet 31\/08\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio a 12,9 milh\u00f5es de pessoas que\u00a0buscam emprego\u00a0no Brasil, Larissa Silva Deloste, de 21 anos, pegou o \u00f4nibus esta semana, em S\u00e3o Paulo, e pensou: &#8220;Dessa vez tem que dar certo&#8221;. Ela estava a caminho da &#8220;20\u00aa ou 30\u00aa entrevista&#8221; em 2018. 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