{"id":28737,"date":"2018-09-05T00:14:23","date_gmt":"2018-09-05T03:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=28737"},"modified":"2018-09-04T21:13:08","modified_gmt":"2018-09-05T00:13:08","slug":"museu-nacional-de-dinossauros-nunca-identificados-a-linguas-extintas-o-que-a-ciencia-perde-com-o-incendio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/09\/05\/museu-nacional-de-dinossauros-nunca-identificados-a-linguas-extintas-o-que-a-ciencia-perde-com-o-incendio\/","title":{"rendered":"Museu Nacional: De dinossauros nunca identificados a l\u00ednguas extintas, o que a ci\u00eancia perde com o inc\u00eandio"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;Eu preparei esse f\u00f3ssil durante dois anos. Mas, agora, pode ser que a gente nunca saiba que animal era esse&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil, com voz chorosa, a paleont\u00f3loga Beatriz H\u00f6rmanseder, uma das cientistas cuja pesquisa foi perdida no inc\u00eandio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ela se refere a um f\u00f3ssil de um pequeno crocodilo que viveu no Brasil h\u00e1 70 milh\u00f5es de anos, na regi\u00e3o da Chapada do Araripe, no Cear\u00e1. Ela tentaria determinar, como parte de seu mestrado, a qual esp\u00e9cie pertenciam os ossos.<\/p>\n<p>&#8220;Havia grande possibilidade de ele ser uma esp\u00e9cie nova&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 raro para n\u00f3s encontrarmos o f\u00f3ssil completo de um animal, para compararmos com outros f\u00f3sseis existentes. Esse exemplar tinha coluna vertebral, uma perna, um bra\u00e7o e parte do cr\u00e2nio, dentes pequenos e afiados. Era lindo. Tenho fotos, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.&#8221;<\/p>\n<p>O f\u00f3ssil estudado por Beatriz chegou a ser comercializado por traficantes de f\u00f3sseis da regi\u00e3o, conhecidos como &#8220;peixeiros&#8221;, mas foi apreendido pela Pol\u00edcia Federal e passou a integrar o acervo do Museu.<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>Ele ainda n\u00e3o havia sido nomeado e identificado. Antes disso, precisava passar por uma prepara\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e qu\u00edmica para ser manuseado &#8211; at\u00e9 porque, havia sofrido modifica\u00e7\u00f5es feitas pelos tranficantes, para vend\u00ea-lo mais caro.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda tenho alguma esperan\u00e7a de que ele esteja l\u00e1, j\u00e1 que ficava na Ala Sul, que pegou fogo por \u00faltimo. Mas eu usei uma camada de resina para proteg\u00ea-lo, que n\u00e3o suporta temperaturas muito altas. Os ossos tamb\u00e9m s\u00e3o muito fr\u00e1geis, se dilatam e se estra\u00e7alham no calor.&#8221;<\/p>\n<p>Administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Museu Nacional tinha um dos mais ricos acervos de antropologia e hist\u00f3ria natural da Am\u00e9rica Latina, com mais de 20 milh\u00f5es de itens.<\/p>\n<p>Muitos deles eram exemplares \u00fanicos, como f\u00f3sseis humanos e de dinossauros, m\u00famias e utens\u00edlios de civiliza\u00e7\u00f5es antigas.<\/p>\n<p>Como parte da universidade, a institui\u00e7\u00e3o abrigava a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de dezenas de pesquisadores vindos de todo o pa\u00eds, nas \u00e1reas de bot\u00e2nica, zoologia, lingu\u00edstica, arqueologia, antropologia social e geologia.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\">\n<p><figure style=\"width: 412px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/128AD\/production\/_103294957_559-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/128AD\/production\/_103294957_559-1.jpg?resize=412%2C549&#038;ssl=1\" alt=\"Esqueleto do Maxakalissaurus topai\" width=\"412\" height=\"549\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">F\u00f3sseis e esqueletos no acervo do Museu ainda precisavam ter dados revisados e descritos &#8211; esp\u00e9cies novas provavelmente est\u00e3o entre as perdas.\u00a0Direito de imagemMUSEU NACIONAL | UFRJ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Muitas das pesquisas, no entanto, dependiam da consulta ao acervo do Museu que foi parcialmente destru\u00eddo pelo fogo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de f\u00f3sseis como o do pequeno crocodilo pr\u00e9-hist\u00f3rico, registros de culturas ind\u00edgenas extintas no pa\u00eds e cole\u00e7\u00f5es inteiras de animais brasileiros podem ter se perdido. E, com eles, parte da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pa\u00eds.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Animais perdidos antes de serem identificados<\/h2>\n<p>O bi\u00f3logo Geovane Souza foi de Londrina, no Paran\u00e1, para o Rio de Janeiro, para perseguir o sonho de trabalhar com dinossauros no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Era o que eu queria desde crian\u00e7a, e s\u00f3 poderia fazer isso no Museu Nacional&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Ele gosta, em especial, dos grandes herb\u00edvoros Titanossauros, que chegavam a ter seis metros e altura e 20 de comprimento &#8211; e foram os maiores, j\u00e1 descobertos, a habitar a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>No Brasil, foram descobertas onze esp\u00e9cies da fam\u00edlia de tit\u00e3s, como o Adamantissauro, o Brasilotitan e o Maxakalissauro &#8211; este \u00faltimo, exposto no Museu Nacional.<\/p>\n<p>Em seu primeiro ano de mestrado, Geovane preparava o terreno para estudar a fundo f\u00f3sseis de titanossauros recuperados no Mato Grosso, nas margens do rio Confus\u00e3o, em expedi\u00e7\u00f5es de 2003 e 2006.<\/p>\n<p>&#8220;O s\u00edtio de onde eles vieram era um aglomerado de v\u00e1rios indiv\u00edduos que morreram e cujos ossos ficaram juntos. J\u00e1 sab\u00edamos que entre eles havia pelo menos uma esp\u00e9cie nova de Titanossauro, mas poder\u00edamos ter at\u00e9 tr\u00eas&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Geovane iria analisar as ossadas para conseguir informa\u00e7\u00f5es como a velocidade em que estes animais cresciam, sua dieta e sua idade quando morreram. Durante um ano, ele preparou l\u00e2minas com finas fatias dos ossos, que seriam examinadas no microsc\u00f3pio.<\/p>\n<p>Nesta ter\u00e7a-feira, seguindo seu cronograma de produ\u00e7\u00e3o, ele come\u00e7aria a fotograf\u00e1-las. O inc\u00eandio significa que ele n\u00e3o tem nenhum registro do material.<\/p>\n<p>&#8220;A coordena\u00e7\u00e3o do curso j\u00e1 disse que vai me amparar legalmente, mas n\u00e3o d\u00e1 para continuar minha pesquisa, porque n\u00e3o tenho mais material&#8221;, afirma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6A17\/production\/_103295172_b463cd0e-156d-42c4-98fc-6979ffad61af.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6A17\/production\/_103295172_b463cd0e-156d-42c4-98fc-6979ffad61af.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Titanossauros em ilustra\u00e7\u00e3o\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Titanossauros brasileiros Austroposeidon, Maxakalisaurus e Gondwantitan, cujo &#8216;retrato familiar&#8217; era montado por bi\u00f3loga com o acervo do Museu Nacional.\u00a0Direito de imagem\u00a0MAUR\u00cdLIO OLIVEIRA<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Pelo menos um ter\u00e7o das quase 30 esp\u00e9cies de dinossauros descobertas no Brasil, segundo Geovane, estava no Museu. Ainda n\u00e3o se sabe o que pode ter sobrevivido ao fogo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 fundamental que as pessoas saibam que aquela institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o era s\u00f3 um local para a visita\u00e7\u00e3o. Ela trazia muito para a ci\u00eancia brasileira. E esse erro tamb\u00e9m \u00e9 dos cientistas. N\u00f3s n\u00e3o divulgamos isso o suficiente.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Fam\u00edlia de dinos gigantes que ficar\u00e1 incompleta<\/h2>\n<p>Na noite do inc\u00eandio, a bi\u00f3loga Kamila Bandeira permaneceu do lado de fora do Museu Nacional at\u00e9 1h da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Em 2016, Kamila conclui seu mestrado, que era a identifica\u00e7\u00e3o do maior dinossauro j\u00e1 descrito no Brasil at\u00e9 hoje, o\u00a0<i>Austroposeidon magnificus<\/i>. Hoje com 28 anos, est\u00e1 vinculada ao museu desde os 14, quando come\u00e7ou um est\u00e1gio volunt\u00e1rio de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no setor de paleovertebrados.<\/p>\n<p>Kamila agora est\u00e1 desenvolvendo sua tese de doutorado, que ela descreve como um &#8220;retrato de fam\u00edlia&#8221; dos Titanossauros, grupo ao qual pertencem dois dos dinossauros do Museu Nacional, provavelmente destru\u00eddos: o\u00a0<i>Maxakalisaurus topai<\/i>\u00a0e o\u00a0<i>Gondwanatitan faustoi<\/i>, &#8220;um nanico&#8221;, segundo descreve.<\/p>\n<p>Sua pesquisa pretendia descrever a rela\u00e7\u00e3o evolutiva entre os dinossauros desse grupo, com foco nos da Am\u00e9rica Latina. &#8220;Ser\u00e1 que os brasileiros eram mais aparentados entre si? Estudos pr\u00e9vios j\u00e1 tinham mostrado que o\u00a0<i>Gondwanatitan<\/i>era mais pr\u00f3ximo de esp\u00e9cies da Argentina, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<p>Kamila estava investigando outros titanossauros em outras institui\u00e7\u00f5es. Tinha deixado o\u00a0<i>Maxakalisaurus topai<\/i>\u00a0e o\u00a0<i>Gondwanatitan faustoi<\/i>\u00a0por \u00faltimo porque eles &#8220;eram de casa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei quantas informa\u00e7\u00f5es novas precisariam ser atualizadas dessas esp\u00e9cies, e talvez o mundo nunca saiba. Muita coisa sobre a anatomia desses animais ficou em branco. Faz muito tempo que eles foram descritos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Agora n\u00e3o vou ter um retrato de fam\u00edlia completo. V\u00e3o faltar integrantes.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Insetos \u00fanicos no mundo<\/h2>\n<p>Para pesquisadores de \u00e1reas como a entomologia &#8211; o estudo de insetos -, a perda de esp\u00e9cimes (pe\u00e7as individuais) de borboletas e besouros que estavam no Museu tamb\u00e9m \u00e9 considerada catastr\u00f3fica, mesmo que eles ainda existam na natureza.<\/p>\n<p>&#8220;Alguns dos esp\u00e9cimes que estavam l\u00e1 foram usados para descrever aqueles animais pela primeira vez. Isso quer dizer que qualquer pessoa que est\u00e1 estudando estas esp\u00e9cies tem que revisar aquele exemplar inicial&#8221;, explica o entom\u00f3logo Marcus Guidoti \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 599px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DA8D\/production\/_103294955_184.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DA8D\/production\/_103294955_184.jpg?resize=599%2C492&#038;ssl=1\" alt=\"Insetos do Museu Nacional\" width=\"599\" height=\"492\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Perda de cole\u00e7\u00f5es de insetos abrigadas pelo Museu podem prejudicar pesquisas para al\u00e9m do Brasil.\u00a0Direito de imagem\u00a0MUSEU NACIONAL | UFRJ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Se perdemos esses exemplares, mesmo que tenhamos fotos, a identidade dessas esp\u00e9cies fica inacess\u00edvel na pr\u00e1tica.&#8221;<\/p>\n<p>Marcus \u00e9 especialista em uma fam\u00edlia de insetos chamada<i>\u00a0Tingidae<\/i>, que tem algumas esp\u00e9cies usadas como controle natural de pragas agr\u00edcolas em pa\u00edses como a Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>O Museu Nacional abrigava uma cole\u00e7\u00e3o de insetos que, segundo ele, era uma das melhores do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Vi muitas cole\u00e7\u00f5es em outros pa\u00edses e posso garantir que parte daquele material s\u00f3 era encontrado aqui, na cole\u00e7\u00e3o Oscar Monte. Todo mundo que tinha d\u00favidas precisava ir l\u00e1 ou mandar o material para l\u00e1. N\u00e3o sei o que vamos fazer agora.&#8221;<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 corroborada por outros especialistas como Sime\u00e3o Moraes, entom\u00f3logo e pesquisador da Unicamp, especialista em mariposas e borboletas. &#8220;Ali havia esp\u00e9cies raras, coletadas em ambientes que j\u00e1 n\u00e3o existem mais, provavelmente at\u00e9 extintas, o que torna essa perda irrepar\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com as informa\u00e7\u00f5es que circulam entre os pesquisadores, os arm\u00e1rios onde ficavam as cole\u00e7\u00f5es de insetos se quebraram e foram queimados quando o terceiro andar, onde estavam, desabou.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15477\/production\/_103295178_conchas-corais-borboletas-1.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15477\/production\/_103295178_conchas-corais-borboletas-1.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Sala de insetos do Museu Nacional\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Andar onde ficavam insetos e outros animais invertebrados no Museu desabou; acervo pode ter sido completamente destru\u00eddo.\u00a0Direito de imagem\u00a0MUSEU NACIONAL | UFRJ<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Oscar Monte, o autor da cole\u00e7\u00e3o, faleceu na d\u00e9cada de 1940, e desde ent\u00e3o n\u00e3o havia surgido no Brasil ningu\u00e9m que trabalhasse com essa fam\u00edlia de insetos de forma consistente. Eu sou o primeiro&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, minha pesquisa foi muito afetada. Eu dependo muito de cole\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia como aquela. N\u00e3o sei o que ser\u00e1 da pesquisa em<i>\u00a0Tingidae<\/i>\u00a0n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas na Am\u00e9rica do Sul inteira.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">L\u00ednguas desaparecidas para sempre<\/h2>\n<p>Para a antrop\u00f3loga Adriana Facina, a perda do acervo do Museu Nacional &#8220;\u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 perda de uma pessoa querida&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;No caso da \u00e1rea de Antropologia Social, perdemos cadernos de campo, entrevistas, fotografias, trabalhos desde os anos 1960. S\u00e3o hist\u00f3rias e de narrativas de pesquisadores que estudavam popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, camponeses, principalmente no Nordestes, migrantes&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;O setor de lingu\u00edstica perdeu registros de l\u00ednguas ind\u00edgenas que n\u00e3o t\u00eam mais falantes vivos. Perdemos para sempre.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe a extens\u00e3o dos danos causados pelo inc\u00eandio, mas, no arquivos de Lingu\u00edstica, havia grava\u00e7\u00f5es de cantos ind\u00edgenas feitas no final dos anos 1950, al\u00e9m dos \u00fanicos registros da localiza\u00e7\u00e3o de todas as etnias brasileiras feitos antes desta d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Grande parte deles pertencia ao Arquivo Curt Nimuendaju, cole\u00e7\u00e3o de manuscritos e mapas feitos pelo etn\u00f3logo alem\u00e3o Curt Unckel, que percorreu o Brasil estudando povos ind\u00edgenas por mais de 40 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1BF7\/production\/_103295170_shot.jpg?resize=696%2C592&#038;ssl=1\" alt=\"Post de Carlos Fausto\" width=\"696\" height=\"592\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">REPRODU\u00c7\u00c3O FACEBOOK<\/span><\/span><\/figure>\n<p>Nas redes sociais, pesquisadores como o antrop\u00f3logo Carlos Fausto examinavam as fotografias do inc\u00eandio e as imagens das redes de TV na esperan\u00e7a de encontrar ind\u00edcios de que algo do arquivo foi preservado.<\/p>\n<p>&#8220;Notem que o teto sobre o Larme e, se n\u00e3o me engano, sobre o CELIN onde est\u00e1 a cole\u00e7\u00e3o Nimuendaju n\u00e3o desabou. N\u00e3o quero ser otimista, mas talvez tenha sobrado algo&#8221;, disse Fausto em seu perfil de Facebook.<\/p>\n<p>Parte dos registros, segundo Adriana Facina, foi digitalizada e ainda est\u00e1 acess\u00edvel, mas n\u00e3o o suficiente. &#8220;H\u00e1 muitos anos tentamos verbas para a digitaliza\u00e7\u00e3o desse material, mas nem sempre consegu\u00edamos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ainda n\u00e3o sabemos tudo o que se perdeu, mas o museu continua vivo em n\u00f3s, vamos resistir e continuar nosso trabalho. Se a perda do museu \u00e9 insubstitu\u00edvel, ele sobrevive em cada funcion\u00e1rio e pesquisador que est\u00e1 ali&#8221;, afirma.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Nem todo o conhecimento se perdeu&#8217;<\/h2>\n<p>Em meio \u00e0s lamenta\u00e7\u00f5es da comunidade cient\u00edfica, o egipt\u00f3logo Rennan Lemos, pesquisador do Laborat\u00f3rio de Egiptologia do Museu Nacional, acha que \u00e9 preciso manter algum otimismo.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rias pesquisas em andamento de mestrado e doutorado v\u00e3o ser muito afetadas porque deixamos de ter o acervo. Mas precisamos deixar claro que o conhecimento n\u00e3o necessariamente est\u00e1 perdido, porque existe um trabalho incans\u00e1vel feito por curadores ao longo dos anos&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Temos cat\u00e1logos das cole\u00e7\u00f5es e j\u00e1 dizemos muitos modelos 3D de f\u00f3sseis e artefatos da cole\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/173D\/production\/_103294950_egito_antigo.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Sala eg\u00edpcia do Museu Nacional\" width=\"696\" height=\"392\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">MUSEU NACIONAL | UFRJ<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Boa parte das m\u00famias que estavam no Museu haviam passado por tomografias computadorizadas, diz pesquisador<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O Museu abrigava corpos mumificados de uma tribo ind\u00edgena brasileira desconhecida, de povos nativos da Amaz\u00f4nia Equatoriana e de pa\u00edses andinos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deles, o acervo continha um sarc\u00f3fago de uma sacerdotisa do Egito Antigo, Sha-Amun-en-su, que foi dado de presente ao imperador D. Pedro 2\u00ba e jamais aberto.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o abrimos o sarc\u00f3fago, mas sab\u00edamos tudo sobre essa m\u00famia, porque j\u00e1 hav\u00edamos feito tomografias computadorizadas dela e de outras&#8221;, afirma Rennan.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 todo mundo de luto e sofrendo. A materialidade das coisas se perdeu, mas o conhecimento n\u00e3o vai. Vamos ter que escrever as mem\u00f3rias dos cientistas. Precisaremos renascer das cinzas.&#8221;<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito: Camilla Costa\u00a0 e Luiza Franco d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo &#8211; dispon\u00edvel na internet 05\/09\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu preparei esse f\u00f3ssil durante dois anos. Mas, agora, pode ser que a gente nunca saiba que animal era esse&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil, com voz chorosa, a paleont\u00f3loga Beatriz H\u00f6rmanseder, uma das cientistas cuja pesquisa foi perdida no inc\u00eandio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ela se refere a um f\u00f3ssil de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":28738,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[135],"tags":[],"class_list":{"0":"post-28737","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-clipping"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/migueljc.jpg?fit=430%2C360&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28737","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28737"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28737\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28738"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}