{"id":29516,"date":"2018-09-29T00:02:34","date_gmt":"2018-09-29T03:02:34","guid":{"rendered":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/?p=29516"},"modified":"2018-09-28T19:09:17","modified_gmt":"2018-09-28T22:09:17","slug":"ato-de-vandalismo-destroi-gravuras-historicas-sobre-mito-indigena-em-caverna-do-xingu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asmetro.org.br\/portalsn\/2018\/09\/29\/ato-de-vandalismo-destroi-gravuras-historicas-sobre-mito-indigena-em-caverna-do-xingu\/","title":{"rendered":"Ato de vandalismo destr\u00f3i gravuras hist\u00f3ricas sobre mito ind\u00edgena em caverna do Xingu"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;\u00c9 triste. A caverna era como uma escola para nossos filhos, \u00e9 onde ensinamos a hist\u00f3ria [do nosso povo], cantamos m\u00fasicas e fazemos alguns rituais&#8221;, diz o ind\u00edgena Pirath\u00e1 Waur\u00e1 \u00e0 BBC News Brasil sobre a depreda\u00e7\u00e3o sofrida na caverna Kamukuwak\u00e1, em Paranatinga (MT), \u00e0s margens do rio Tamitatoala, no Alto Xingu.<\/p>\n<p>O local, sagrado para 11 etnias do Xingu e tombado pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico desde 2016, teve parte de suas gravuras apagadas no que a Pol\u00edcia Militar do Mato Grosso identificou inicialmente como um ato intencional &#8211; as figuras estavam gravadas nas rochas da gruta.<\/p>\n<p>Segundo a per\u00edcia feita pelo Iphan (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional) em conjunto com policiais, h\u00e1 ind\u00edcios de que tenha sido usado algum tipo de ferramenta para apagar as gravuras que, em sua maioria, representavam animais. Nem as autoridades, nem os \u00edndios waur\u00e1 sabem dizer quando houve a a\u00e7\u00e3o de vandalismo, porque j\u00e1 fazia algum tempo que ningu\u00e9m visitava o local.<\/p>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3914\/production\/_103621641_depois.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3914\/production\/_103621641_depois.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"A expedi\u00e7\u00e3o que visitou a caverna h\u00e1 alguns dias registrou as rochas sem as gravuras\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">A expedi\u00e7\u00e3o que visitou a caverna h\u00e1 alguns dias registrou as rochas sem as gravuras.\u00a0Direito de imagem\u00a0FERDINAND SAUMAREZ SMITH\/DIVULGA\u00c7\u00c3O PEOPLE&#8217;S PALAC<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>O Iphan j\u00e1 encaminhou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e \u00e0 Pol\u00edcia Federal um pedido de investiga\u00e7\u00e3o. Por se tratar de gravura em rocha, n\u00e3o h\u00e1 como precisar a data exata delas, mas pesquisadores, arque\u00f3logos e o Iphan dizem que elas podem ter centenas de anos. Para alguns arque\u00f3logos, os desenhos tinham semelhan\u00e7a com tipos de arte rupestre.<\/p>\n<p>&#8220;A caverna \u00e9 muito importante para o nosso povo. \u00c9 de l\u00e1 que nascem nossas tradi\u00e7\u00f5es, como a m\u00fasica de furar a orelha que usamos quando algu\u00e9m vira l\u00edder, nossas dan\u00e7as, nossas pinturas&#8221;, diz Pirath\u00e1, que \u00e9 professor na escola municipal de sua aldeia. Ele explicou \u00e0 BBC News Brasil o mito do guerreiro Kamukuwak\u00e1, que teria existido antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) tamb\u00e9m encaminhou \u00e0s autoridades pedido de investiga\u00e7\u00e3o. &#8220;O que aconteceu \u00e9 muito grave. \u00c9 um patrim\u00f4nio cultural, uma heran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. \u00c9 uma perda principalmente para os Waur\u00e1&#8221;, diz Kumar\u00e9 Txic\u00e3o, coordenador regional da Funai no Xingu.<\/p>\n<p>O incidente foi revelado h\u00e1 dez dias por membros da comunidade Waur\u00e1 durante uma visita \u00e0 caverna com uma equipe volunt\u00e1ria de assessoria arqueol\u00f3gica e por membros das funda\u00e7\u00f5es inglesas sem fins lucrativos Factum e People&#8217;s Palace Projects. Na sequ\u00eancia, o Iphan visitou o local e tamb\u00e9m constatou os danos.<\/p>\n<p>Alguns dos integrantes dessa expedi\u00e7\u00e3o disseram \u00e0 BBC News Brasil, sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato, que acreditam haver motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no ato de vandalismo, j\u00e1 que a caverna fica numa \u00e1rea de interesses agr\u00edcolas e amea\u00e7a a expans\u00e3o de uma ferrovia e de uma rodovia. Como ela \u00e9 tombada, n\u00e3o se pode mexer no local.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mitologia<\/h2>\n<p>Segundo a mitologia dos Waur\u00e1, a caverna era o lar do guerreiro Kamukuwak\u00e1, por isso ela \u00e9 sagrada.<\/p>\n<p>De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena Waur\u00e1, o guerreiro teria defendido seu povo dos ataques do inimigo Kamo (o Sol), que invejava a beleza de Kamukuwak\u00e1. Com a ajuda de p\u00e1ssaros que abriram um buraco no teto da sua casa transformada em pedra por Kamo, Kamukuwak\u00e1 e sua fam\u00edlia escaparam para o c\u00e9u, segundo a lenda.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 976px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D554\/production\/_103621645_kamukuwakaantes1-creditojeannunes.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D554\/production\/_103621645_kamukuwakaantes1-creditojeannunes.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"Uma das gravuras apagadas; arqueol\u00f3gos dizem n\u00e3o ser poss\u00edvel precisar a data exata delas, por estarem em rocha\" width=\"696\" height=\"392\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Uma das gravuras apagadas; arqueol\u00f3gos dizem n\u00e3o ser poss\u00edvel precisar a data exata delas, por estarem em rocha.\u00a0Direito de imagem\u00a0JEAN NUNES\/DIVULGA\u00c7\u00c3O PEOPLE&#8217;S PALACE PROJECTS<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>&#8220;Na hist\u00f3ria, o Kamakuwak\u00e1 \u00e9 o jovem l\u00edder do seu povo. Para ser um grande l\u00edder, ele tem que furar orelha junto com seus colegas e pode seguir todas todas as etapas de processos de rituais. At\u00e9 hoje esses rituais que o Kamukuwak\u00e1 criou para o povo Waur\u00e1 e de mais outros povos como Kamayur\u00e1, Kuikuro, Mehinako, Aweti, Kalapalo, Yawalapiti, Matipu e Nafukuw\u00e1, s\u00e3o seguidos. Para um jovem ser l\u00edder de algum povo do Alto Xingu, vai seguir as regras de fura\u00e7\u00e3o de orelha que o Kamukuwak\u00e1 criou, as dan\u00e7as, as pinturas, as m\u00fasicas, por isso que esse local \u00e9 t\u00e3o importante para o nosso povo&#8221;, diz Pirath\u00e1 Waur\u00e1.<\/p>\n<p>A antropol\u00f3ga Patricia Rodrigues, que acompanhou durante quatro anos os Waur\u00e1 e atualmente faz doutorado na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, diz que o local tamb\u00e9m era visitado pela tribo para pedir abund\u00e2ncia de peixes no rio, por exemplo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um local de narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias sagradas para eles. Eles fazem uma esp\u00e9cie de reanima\u00e7\u00e3o das entidades sagradas e das gravuras. A visita ao local faz parte de um ciclo cosmog\u00f4nico de renova\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>A pesquisadora tamb\u00e9m diz que a caverna \u00e9 considerada um local sagrado de entidades m\u00edticas tamb\u00e9m para os povos Aweti, Bakairi, Kalapalo, Kamaiur\u00e1, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahuku\u00e1, Naruvotu, Trumai e Yawalapiti.<\/p>\n<p>A caverna fica dentro de uma propriedade privada e est\u00e1 fora da \u00e1rea de demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio ind\u00edgena. Para visitar o local, os Waur\u00e1 precisam fazer viagens de barco que duram de duas a quatro horas, a depender de como est\u00e1 o rio. Por isso, n\u00e3o conseguem ir com muita frequ\u00eancia, diz Pirath\u00e1.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12374\/production\/_103621647_kamukuwakaantes2-creditovilsondejesus.jpg?resize=696%2C392&#038;ssl=1\" alt=\"\u00edndio waur\u00e1 mostra gravura na caverna\" width=\"696\" height=\"392\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">VILSON DE JESUS\/DIVULGA\u00c7\u00c3OPEOPLE&#8217;S PALACE PROJECTS<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Os waur\u00e1 costumam fazer o ritual de furar a orelha para se tornar cacique na caverna Kamukuwak\u00e1<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Perto do local, h\u00e1 cachoeiras que s\u00e3o visitadas frequentemente e \u00e9 comum tamb\u00e9m ver pescadores. &#8220;Existe essa visita\u00e7\u00e3o comum no entorno da caverna, mas at\u00e9 ent\u00e3o nunca havia sido identificado um impacto dessa maneira. Como ainda n\u00e3o fizemos an\u00e1lise t\u00e9cnica espec\u00edfica, n\u00e3o sabemos se foi uma a\u00e7\u00e3o propositada ou decorrente de turismo, de vandalismo.&#8221;, diz Flavio Rizzi Claippo, diretor do Centro Nacional de Arqueologia do Iphan.<\/p>\n<p>Calippo diz que algumas gravuras foram preservadas porque estavam encobertas por areia. Segundo ele, agora \u00e9 preciso esperar um novo relat\u00f3rio t\u00e9cnico para saber quais provid\u00eancias ser\u00e3o tomadas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Caverna ser\u00e1 reproduzida em 3D<\/h2>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o que as entidades brit\u00e2nicas realizaram na caverna Kamukuwak\u00e1 no in\u00edcio de setembro faz parte de um projeto para ajudar na preserva\u00e7\u00e3o do local.<\/p>\n<p>Esse projeto ir\u00e1 reproduzir com imagens em tecnologia 3D a caverna e as gravuras que foram destru\u00eddas. A obra ser\u00e1 instalada na pr\u00f3xima Bienal de artes de Veneza, em 2019.<\/p>\n<p><strong><span class=\"byline__name\">Cr\u00e9dito:L\u00edgia Mesquita d<\/span><span class=\"byline__title\">a BBC News Brasil em Londres &#8211; dispon\u00edvel na internet 29\/09\/2018<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00c9 triste. A caverna era como uma escola para nossos filhos, \u00e9 onde ensinamos a hist\u00f3ria [do nosso povo], cantamos m\u00fasicas e fazemos alguns rituais&#8221;, diz o ind\u00edgena Pirath\u00e1 Waur\u00e1 \u00e0 BBC News Brasil sobre a depreda\u00e7\u00e3o sofrida na caverna Kamukuwak\u00e1, em Paranatinga (MT), \u00e0s margens do rio Tamitatoala, no Alto Xingu. 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